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PostHeaderIcon - A FÉ DO GUERREIRO ARIANO

A resposta do Mestre Divino à primeira perturbação do apaixonado exame de consciência de Arjuna, por sua repugnância a participar no massacre, por seu sentimento de pesar e de pecado, por sua aflição diante do que parecia a seus sentidos uma vida vazia e desolada, por sua dúvida e prognóstico enquanto os deploráveis efeitos do que lhe parecia uma má ação; a resposta do Mestre Divino é e foi uma reprovação enérgica. Todas estas reações, disse-lhe, não são mais que uma confusão da mente e uma ilusão, debilidade do coração e covardia, uma degradação da virilidade do guerreiro e do herói. Isto não é próprio do filho de Prithâ; jamais deveria, dessa maneira, o campeão e principal esperança de uma causa justa, abandoná-la no preciso momento de crise e de perigo, nem tolerar que um inesperado estupor, por debilidade de seu coração e de seus sentidos, o ofuscamento de sua razão, e a queda de sua vontade, lhe traíam até o ponto de fazer-lhe depor suas armas divinas e renunciar a obra que Deus lhe confiou. Esta não é a atitude esperada e adotada pelo homem ariano; este sombrio estado de ânimo não lhe caiu do céu, nem pode conduzí-lo ao céu; e sobre a terra se converte em uma degradação da glória que está reservada à coragem, ao heroísmo e às ações nobres.“Que lance longe dele esta piedade enfermiça e auto-indulgente, que reaja e afaste seus inimigos!”

Esta seria, poderia dizer, a resposta de herói a herói, mas não a de um Mestre divino a seu discípulo, de quem esperaríamos talvez que lhe animara à bondade, à santidade, à abnegação e a retirar-se dos objetivos e caminhos mundanos. Mas o Gita diz expressamente que Arjuna acaba de dirigir-se com essa conduta para uma posição de debilidade nada edificante, - “seus olhos, carregados de aflição e rompendo em lágrimas, seu coração, atacado pela tristeza e o desânimo” porque está invadido pela piedade, krpayâvistam. Mas não é a piedade uma debilidade divina? Não é a piedade uma emoção divina que em nenhum caso deveria desalentar-se com reprovações tão duras? Ou estamos diante a um mero evangelho da guerra e das ações heróicas, diante de uma fé em um poder e em uma força arrogantes próprios de Nietzsche, ou diante a uma lição de dureza hebraica ou teutônica, que entende a piedade como uma debilidade, admitida pelo herói norueguês, que agradece a Deus que lhe tenha concedido um coração insensível? Não; o ensinamento do Gita brota de uma fé genuína hindu da compaixão figurou sempre em seu espírito como um dos elementos mais compreensivos da natureza divina. O Mestre Divino mesmo, enumerando em um capítulo posterior as qualidades da natureza divina no homem, cita entre elas a compaixão às criaturas, a bondade, a liberação da ira e do desejo de matar e causar dano, e a considera ao mesmo nível que a intrepidez, o entusiasmo e a energia. A brutalidade, a dureza, a crueldade, a satisfação no extermínio dos inimigos e a destruição inócua da riqueza e as possessões, pelo contrário, são qualidades asúricas; procedem da violenta natureza dos titãs, que negam a Divindade no mundo, e ao Divino no homem, e não rendem tributo mais que ao Desejo como sua única divindade. Assim pois, a debilidade de Arjuna não merece a censura desde tal ponto de vista.

“De donde te chegou esta debilidade, esta vergonha e esta obscuridade da alma em um momento de dificuldade e de perigo?” indaga Krishna a Arjuna. Esta pergunta faz entrever a verdadeira natureza que induziu Arjuna a desviar-se de suas qualidades heróicas. Há uma compaixão divina que descende a nós das alturas, mas para o homem cuja natureza não a possui, nem foi esvaziada em seu molde, pretender ser superior, dominador ou super-homem, constitui uma loucura e uma insolência, porque só se é super-homem quando alguém manifesta a mais elevada natureza do Divino na humanidade. Estacompaixão observa com amor, sabedoria e uma vigilância serena, a batalha e a luta, a resistência e a debilidade do homem, suas virtudes e vícios, suas alegrias e sofrimentos, sua sabedoria e ignorância, sua prudência e loucura, suas aspirações e fracassos, e participa em todas as situações para aliviar e curar. No santo e no filantropo pode adotar a forma da plenitude do amor ou da caridade; no pensador e no herói assume a amplitude e a potência de uma sabedoria e de uma força compassivas. É esta compaixão, no guerreiro ariano, a alma de sua gentileza, a que rejeita quebrar a força homicida, mas por sua vez assiste e protege o débil e o oprimido, o ferido e o vencido. Mas é também a compaixão divina a que derruba o terrível tirano e o opressor altivo, não com cólera nem com ódio –(porque estas não formam parte das elevadas qualidades divinas; a cólera de Deus contra o pecador, Seu rancor contra o malvado, são fábulas de crenças semi-instruídas; e o mesmo ocorre com a tortura eterna dos infernos que tais crenças inventaram)-, senão, como compreendeu claramente a antiga espiritualidade hindu, com tanto amor e compaixão pelo titã poderoso, induzido ao erro por sua força e ferido por seus pecados, como pelos desgraçados e oprimidos, que têm que ser amparados de sua violência e injustiça.

Mas não é essa a compaixão que manifesta Arjuna ao renunciar sua obra e sua missão. Não é esta a compaixão, senão uma impotência carregada de piedade por si mesmo, um retrocesso diante o sofrimento mental que sua ação deve causar-lhe, -“Eu não vejo o que poderia despojar-me desta dor que resseca meus sentidos.”-(sussurra Arjuna auto-compadecendo-se). Para um ariano a auto-compaixão é o mais baixo e indigno de quanto pode dizer-se dele. Sua piedade pelos demais constitui também uma forma de auto-indulgência; é o horror físico dos nervos inspirado pelo ato de matar, é o encolhimento emocional e egoísta do coração diante à destruição dos Dhritarâshtrians porque é “seu próprio povo”, e porque sem eles a vida se tornaria vazia. Esta piedade é uma debilidade da mente e dos sentimentos –uma debilidade que muito bem pode ser conveniente para homens em um estado inferior de desenvolvimento, quem, se não fossem débeis seriam duros e cruéis, porque lhes faz mudar as expressões mais duras de sua sensibilidade egoísta por outras mais amáveis; é-lhes preciso apelar ao tamas, princípio da debilidade, para ir em auxílio de sattwa, princípio da luz, e sufocar assim a força e os excessos de suas paixões rajásicas. Mas este comportamento não é próprio do homem ariano desenvolvido, que tem que evoluir, não pela debilidade, senão por uma ascensão contínua de força em força. Arjuna é o homem divino, o homem dominador em vias de formação e, como tal, foi escolhido pelos deuses. Foi a ele encomendada uma missão; tem Deus junto a ele em seu carro; empunhando o arco celestial, Gandiva; diante dele, os campeões da iniquidade, que se opõem que o Divino conduza o mundo. Não é a ele a quem corresponde determinar o que se fará ou não ao som de suas emoções e movimentos passionais, nem retroceder diante de uma destruição necessária ao atender o clamor de seu coração ou de sua razão egoísta, nem declinar executar seu trabalho porque lhe cause dor e a sensação de vazio em sua vida, o porquê, pela ausência de milhares de pessoas que devem perecer, seus concebíveis efeitos careçam de valor diante de seus olhos. Tudo isto se supõe, por debilidade, despojar-se de sua natureza superior. Ele não deve fixar-se mais que na obra que há que levar a cabo, kartavyam karma; não tem que escutar mais que a ordem divina infundida através de sua natureza guerreira e não deve interessar-se mais que pelo mundo e pelo destino da humanidade que lhe pede, como homem enviado pelos deuses, que a assista em sua marcha, e deixar livre seu caminho dos sinistros exércitos que a assediam.

Em sua resposta a Krishna, Arjuna admite a reprovação, ainda quando proteste contra a ordem que recebe, e a rejeita. É consciente de sua debilidade e no entanto se sujeita a ela. Está de acordo em que é sua pobreza de espírito a que lhe despojou de sua natureza verdadeira e heróica; toda sua consciência está aturdida em sua visão do bem e do mal, e neste desordem aceita o Amigo divino como seu mestre; pois os apoios emocionais e intelectuais sobre os que ele baseava seu sentido de retidão, foram inteiramente varridos e não pode aceitar uma ordem que parece atrair só a seu antigo ponto de vista e que não lhe proporciona uma base nova para a ação. Intenta, ademais, justificar sua rejeição a agir, e põe adiante como escusa as queixas de seus nervos e de seu ser sensorial, que retrocedem diante o extermínio e sua sequela de gozos sangrentos; os direitos de seu coração, que lhe fazem retirar-se diante a dor e o vazio da vida, que constituiriam o efeito de sua ação; o direito de seus conceitos morais habituais, que ficam horrorizados pela necessidade de matar a seus gurus, Bhisma e Drona; os direitos de sua razão que não vêem mais que resultados desagradáveis e nenhuma vantagem na obra terrível e violenta que lhe é assinalada. Está decidido, sobre suas antigas bases de pensamento e motivos, a não combater, e espera em silêncio a resposta às objeções que lhe parecem irrefutável. São a estes direitos do ser egoísta de Arjuna aos que Krishna se propõe, em primeiro lugar, reduzir a nada para conceder espaço à lei superior, que transcende todos os motivos de ação egoístas.

A resposta do Mestre procede em duas linhas diferentes; a primeira é breve e está fundamentada nas idéias mais elevadas da cultura geral ariana, na que Arjuna foi educada; a segunda, é outra explicação mas muito mais ampla, baseada em um conhecimento mais íntimo que permite o acesso às verdades mais profundas do ser humano, o qual constitui o verdadeiro ponto de partida do ensinamento do Gita. A primeira se apóia em concepções filosóficas e morais do Vedante, e nas idéias sociais de dever e de honra que estabeleceram os fundamentos éticos da sociedade ariana. Arjuna tentou justificar sua renúncia por razões de ordem ética e racional, mas o que em realidade faz é encobrir com palavras de aparente racionalidade a rebeldia de suas emoções ignorantes e indisciplinadas. Falou da vida física e da morte do corpo como se estas fossem realidades primárias, mas tais realidades não são essenciais para o sábio ou o pensador. A dor pela morte corporal dos amigos e parentes é uma desgraça não ratificada pela sabedoria e o conhecimento verdadeiros. O homem iniciado não se aflige pelos vivos, nem tão poço pelos mortos; sabe que o sofrimento e a morte não são mais que simples incidentes no curso da história da alma. A realidade é a alma, não o corpo. Todos esses reis de homens, por cuja morte próxima chora Arjuna, viveram já anteriormente, e de novo tomarão possessão de um corpo humano; porque do mesmo modo que a alma passa fisicamente pela infância, a juventude e a idade madura, assim também passa de um corpo a outro. A mente calma e sábia, o dhira, o pensador que observa a batalha da vida estavelmente sem deixar-se distrair ou cegar por suas sensações e emoções, não é enganado pelas aparências pessoais ou materiais; não permite que a chamada do sangre, de seus nervos e de seu coração nuble seu juízo, ou contradiga seu conhecimento. Ele vê, mais além dos fatos aparentes da vida do corpo e dos sentidos, o fato real de seu ser, e se eleva, acima dos desejos físicos e emocionais da natureza ignorante, para a única e verdadeira meta da existência humana. 

Qual é este fato real, esta meta mais elevada? O fato de que a vida humana e a morte se repitam através dos eones dos grandes ciclos do mundo, não é mais que um largo processo pelo que o ser humano se prepara e se torna apto para a imortalidade. E como deve preparar-se? Que homem está capacitado para ela?É aquele que deixa de observar-se como uma vida e um corpo, aquele que não aceita as experiências materiais e sensoriais do mundo em seu próprio valor ou no que lhes atribui o homem físico, aquele que se conhece a si mesmo e a todos os demais como almas, aquele que aprende a viver em sua alma e não em seu corpo, e que em suas relações com os demais os trata também como almas e não como simples seres físicos. Porque imortalidade não significa sobreviver à morte -isto pertence já a toda criatura dotada de uma mente-, senão transcender a vida e a morte; significa essa ascensão pela que o homem deixa de viver como corpo animado pela mente, para viver finalmente como espírito e no Espírito. Qualquer que esteja sujeito à tristeza e à aflição, qualquer que seja escravo das sensações e emoções, absorvido pelos contatos com as coisas transitórias, não pode ser apto para a imortalidade. Tudo isto deve ser suportado até sua conquista, até que o homem liberado não experimente dor alguma, até que seja capaz de acolher todos os acontecimentos materiais do mundo, alegres ou tristes, com uma igualdade de alma, sábia e calma, como os acolhe o Espírito eterno, tranqüila, no mais secreto de nós. Ser perturbado pela aflição e o horror, como o foi Arjuna, ser desviado por eles do caminho que há que recorrer, ser vencido pela auto-compaixão, ser intolerante a dor e retroceder diante a uma circunstância tão insignificante como inevitável, como é a morte do corpo, é a prova de uma ignorância . Não é assim como o ariano, com uma solidez tranquila, deve escalar para a vida imortal.

Não existe tal coisa como a morte, já que é o corpo o que morre, e o corpo não é em absoluto o homem. O que verdadeiramente é, não pode sair fora da existência, ainda que mude as formas pelas quais aparece; e igualmente, o que não existe, não pode entrar no ser. A alma é e não pode deixar de ser. Esta oposição entre o que é e o que não é, este equilíbrio entre o ser e o devir, que constituem o ponto de vista mental da existência, se resolvem finalmente na realização pela alma do Eu único e imperecível, por quem foi criado todo este universo. Os corpos finitos têm um fim, mas Isso que possui e utiliza o corpo é infinito, ilimitado, eterno e indestrutível; abandona o corpo anterior desgastado e toma outro novo, da mesma maneira que um homem troca sua vestimenta rasgada por outra nova. E o que há em tudo isto como para ter motivos de lamentar-se, angustiar-se ou horrorizar-se? Isto é não-nascido, não morre, nem é algo que chegue à existência em um momento dado e em continuação desapareça para não retornar jamais. Não tem nascimento, é antigo, sempiterno; não é morto quando se mata o corpo. Como pode ser morto o espírito imortal? As armas não podem lesioná-lo, nem o fogo, queimá-lo, nem a água, empapá-lo, nem o vento, secá-lo. Eternamente estável, imóvel, penetrando-o tudo, é por sempre e para sempre. Não se manifesta como o corpo, já que é superior a toda manifestação; não pode ser analisado pelo pensamento, pois está acima de toda inteligência; não está sujeito a mudança nem à modificação, como o estão a vida, seus órgãos e seus objetos, senão que está mais além dos processos transformadores da mente, da vida e do corpo. E no entanto, é a Realidade que todo o restante se esforça por representar.

Inclusive se a verdade de nosso ser fosse menos sublime, menos vasta, menos intangível na morte e na vida, se o eu estivesse constantemente sujeito ao nascimento e à morte, inclusive então a morte dos seres tão pouco deveria ser uma causa de dor, porque é uma circunstância inevitável para a manifestação própria da alma. Seu nascimento é uma aparição fora de um estado no que a alma não é inexistente senão somente não manifesta a nossos sentidos mortais; e a morte é um retorno a este mundo ou estado não manifesto e de onde reaparecerá de novo no mundo físico. O barulho montado pela mente física e os sentidos físicos sobre a morte e o terror que esta inspira, seja no leito do enfermo ou no campo de batalha, é a mais ignorante das reações nervosas. Chorar aos mortos é afligir-se de uma maneira ignorante por quem não há motivo algum para chorar, já que não saíram da existência, nem sofreram nenhuma mudança de estado doloroso ou terrível, posto que, depois da morte, nem estão menos vivos, nem em circunstâncias mais penosas que as experimentadas durante a vida.

Mas em realidade, a verdade mais alta é a única verdade. Tudo é esse Eu, esse Uno, esse Divino que nós observamos, do que falamos e ouvimos falar como a maravilha que sobre passa nossa compreensão, porque depois de todas nossas buscas e de todas nossas declarações de conhecimento, e apesar do que aprendemos de quem o possui, nenhuma mente humana conheceu jamais este Absoluto. É Isto o que está aqui velado pelo mundo, o senhor do corpo; toda vida não é mais que sua sombra; a chegada da alma à manifestação física e nossa saída dela pela morte, não é mais que um de seus movimentos menores. Uma vez que nos conhecemos como Isso, falar de nós como mortos ou morridos é algo absurdo. Uma só coisa, na qual temos que viver, é a verdadeira: o Eterno, manifestando-se como a alma do homem no grande ciclo de sua peregrinação, como o nascimento e a morte como pedras miliares, com os mundos além como lugares de descanso, com todas as circunstâncias da vida, felizes e infelizes, como meios de nosso progresso, como campo de batalha e de vitória, e finalmente com a imortalidade como a casa que viaja a alma.

“Por isto, disse o Mestre, descarta esta vã preocupação e este horror, e por isto combatas, oh filho de Bharata.” Mas, por que semelhante conclusão? Este elevado e vasto conhecimento, esta vigorosa auto-disciplina da mente e da alma, pela que devemos elevar-nos acima das exigências das emoções e da fraude dos sentidos até o verdadeiro conhecimento de nós mesmos, podem em verdade liberar-nos da tristeza e da ilusão; podem realmente curar-nos do medo da morte e da aflição pelos que morrem; podem mostrar-nos em verdade que aqueles de quem dizemos que estão mortos, não o estão em absoluto, nem temos que estar aflitos por eles, já que não fizeram mais que passar a um mais além; podem efetivamente ensinar-nos a considerar com calma os mais terríveis assaltos da vida, e a ver a morte do corpo como algo apenas significativo; podem elevar-nos para conceber todas as circunstâncias da vida como uma manifestação do Uno e como meios para que nossas almas se elevem por cima das aparências mediante uma evolução ascendente até reconhecer-nos como o Espírito imortal. Mas, como se justificam a ação exigida a Arjuna e o extermínio de Kurukshetra? A resposta é que esta é a ação exigida a Arjuna sobre o caminho que quer e deve recorrer; se apresenta inevitável na realização de sua função, tal como lhe exige seu svadharma, seu dever social, a lei de sua vida e a lei de seu ser. Este mundo, esta manifestação do Eu no universo material não é só um ciclo do desenvolvimento interior, senão também o campo no que as circunstâncias externas da vida devem ser aceitadas como condições e ocasiões para este desenvolvimento. É um mundo de ajuda mútua e de luta; o progresso que nos permite não é um deslizamento pacífico e sereno através de alegrias fáceis, senão que cada passo tem que ser ganho mediante um esforço heróico e mediando um conflito de forças opostas. Quem assumiu a luta interior e exterior, sua ação na vida externa, assumindo seus contínuos, contatos e choques, inclusive o choque físico mais potente de todos, o da guerra, sem evadir-se de sua obrigação de atuar; são os kshatriyas, os homens fortes; a guerra, a energia, a nobreza, a coragem, são sua natureza; a defensa do direito e uma aceitação de atuar sem reservas, aconteça o que aconteça o que se encontre em jogo em qualquer das batalhas de sua vida (interior e exterior) é sua virtude e seu dever. Porque é um fato permanente a luta entre o bem e o mal, entre a justiça e a injustiça, entre as forças que protegem e as que violam e oprimem; e uma vez que o desenlace final tiver que ser o conflito físico, o campeão que desfralda a bandeira do Direito não deve tremer nem vacilar diante a difícil, terrível ou violenta natureza da obra ou ação que a vida lhe apresente e deve levá-la a cabo; não deve vacilar por uma piedade equivocada em favor do violento e do cruel, e pelo horror físico que inspira a imensa destruição decretada, não deve abandonar a seus seguidores ou combatentes que estão ao seu lado, nem trair a causa, nem deixar-se arrastar pelo pó, nem ser pisoteado no lodaçal pelos pés sangrentos do opressor. O estandarte do Direito e da Justiça. Sua virtude e seu dever estão na batalha e não em abster-se da luta; o pecado não seria para ele exterminar, senão negar-se a matar.

Continuando, o Mestre deixa de um lado por um momento este ponto para dar outra resposta à queixa de Arjuna pelo horror à morte de seus parentes, o qual esvaziaria sua vida de toda razão para viver. Qual é o verdadeiro objetivo da vida de todo cavaleiro (guerreiro divino) e sua verdadeira felicidade? Não é seu próprio prazer, a felicidade doméstica e uma vida de conforto e de alegrias passageiras em companhia de amigos e parentes; seu verdadeiro fim na vida é a batalha pela justiça e a verdade, e sua maior felicidade, encontrar uma causa pela que possa oferecer sua vida, ou, se obtém a vitória, ganhar a glória e a coroa do herói. “Não existe bem maior para o kshatriya que uma guerra justa, e quando tal circunstancia lhes chega em si mesma, como se se lhe abrissem as portas do céu, felizes então estão os kshatriyas. E tu, se não liberas esta batalha pela justiça e a verdade, então haverás abandonado teu dever, tua virtude e tua glória, e o pecado será tua porção.” Por semelhante renúncia, exporá a vergonha e a reprovação da covardia, da debilidade e da perda de sua honra de kshatriya. Porque, qual é a pior desgraça para um kshatriya? É a perda de sua honra, de sua reputação, de sua nobre condição entre os homens poderosos, os homens de coragem e de poder; isto é para ele muito pior que a morte. A batalha, a coragem, o poder, a autoridade, a disciplina, o honor dos bravos, o céu daqueles que caem nobremente, tal é o ideal do guerreiro. Rebaixar este ideal, permitir que esta honra seja manchada, oferecer o exemplo de ser um herói glorioso entre os heróis, mas cuja ação fica aberta a reprovação da covardia e da debilidade, rebaixando assim as normas morais da humanidade, é ser falso diante de si mesmo e diante do mundo no que exige de seus líderes e de seus reis. “Morto, conseguirás o céu; vitorioso, desfrutarás a terra; levanta-te pois, oh filho de Kunti, soe o toque da batalha.”

Esta chamada heróica pode parecer de um nível inferior ao da espiritualidade estóica que lhe precede e ao da espiritualidade mais profunda que lhe segue; porque nos próximos versos, em efeito, o Mestre lhe ordena que considere como iguais diante os olhos da alma a boa sorte e a má, a perda e o ganho, a vitória e o fracasso, e, depois, em tal caso, marchar para a batalha; este é o ensinamento verdadeiro do Gita. Mas a ética hindu reconheceu em todo momento a necessidade pratica de ideais graduados para o desenvolvimento da vida moral e espiritual do homem. Aqui, o ideal do kshatriya, o ideal das quatro castas está apresentado sobre seu aspecto social, e não em seu significado espiritual, como o será depois. Tal é minha resposta a ti, diz Krishna de fato, se insistes em considerar a alegria, o sofrimento e o resultado de tuas ações, como teus motivos de ação. Manifestei-te em que direção te guia o mais alto conhecimento de si mesmo e do mundo; agora acabo de mostrar-te em que caminho te dirige teu dever social e os valores morais de tu casta, svadharmam api châvéskshya. Que consideres a um ou ao outro, o resultado é o mesmo. Mas se tu não estás satisfeito com teu dever social e com a virtude própria de tu casta, se acreditas que te conduzem a dor e ao pecado, então te ordeno que te eleves a um ideal superior e não desças aos inferiores. Descarta todo egoísmo de ti, ignora a alegria e a dor, desdenha a perda e o ganho de todas as consequências mundanas; fixa-te somente na causa a que deves servir e no trabalho que é preciso que leves a cabo por ordem divina, e “então não incorrerás em pecado.” Desta forma, respondeu ele a todos os argumentos de Arjuna, segundo o Conhecimento e o ideal moral mais elevado que haviam alcançado sua raça e seu tempo, seja a fuga de sua dor, ou a de sua retirada diante o massacre, a de seu sentido de pecado, o a dos infelizes efeitos de sua ação. 

Assim é a FÉ do guerreiro ariano. “Conhece a Deus,” diz, “conhece-te a ti mesmo, ajuda os homens; defende o Direito; faz sem medo, sem debilidade nem vacilação teu trabalho de combatente no mundo. ´Tu és o Espírito eterno e imperecível; tua alma está aqui embaixo em seu caminho ascendente até a imortalidade; a vida e a morte não são nada; a dor, as feridas e os sofrimentos não são nada; porque tudo isto deve ser conquistado e superado. Não te detenhas em teu próprio prazer, em teu êxito ou proveito, senão olha mais alto e ao redor de ti; MAIS ALTO, contemplando os cumes esplendorosos ao que escalas; entorno de ti, observando este mundo de batalha e de prova no que o bem e o mal, o progresso e o retrocesso estão ligados por um implacável conflito. Os homens te chamam para que lhes auxilies, tu és seu homem forte, seu herói; ajuda-lhes então, e luta. Destrói quando pela destruição deve avançar o mundo; mas não odeie o que destruas, nem te aflijas por todos aqueles que devem perecer. Conhece em cada um o Eu único; deves saber que todos são almas imortais e que o corpo não é senão pó. Faz teu trabalho com espírito sossegado, com fortaleza e com serenidade. Luta e fracassa nobremente, ou conquista poderosamente. Porque esta é a obra que Deus e tua natureza te assinalaram para seu cumprimento.”

 

SRI AUROBINDO