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PostHeaderIcon - ENTREVISTA A SRI AMAL KIRAN

Em fins de Agosto de 1989, o escritor Bel Atreides e Sujata, dois colaboradores do Matrimandir tiveram a sorte de conhecer Sri Amal Kiran, um dos discípulos mais antigos de Sri Aurobindo e um dos intelectuais mais valiosos da Índia. Sri Amal Kiran escreveu sobre as origens do povo ariano, sobre a história de Israel, a filosofia da ciência, a civilização indiana, compôs inteligentes ensaios sobre Shakespeare e Mallarmé. Sobre ele também foi dito “que era o mais brilhante comentarista político da Índia, mas é sem dúvida sua própria obra poética e a profunda compreensão da poesia de Sri Aurobindo, revelada em muitos de seus livros, o que mais estimava este grande autor. Esta entrevista foi publicada entre os meses de Janeiro e Abril de 1990 no Matrimandir, acompanham-na a sugestão diversos textos de Sri Amal Kiran que ilustram e completam alguns dos aspectos sugeridos por ele no curso da conversação.

BEL ATREIDES: Muito obrigado por receber-nos novamente.


AMAL KIRAN: Obrigado a vocês por voltarem.


BEL: Li seu livro “Overhead Poetry” (K.D. Sethna (Amal Kiran), Overhead Poetry, Pondicherry 1972. Trata-se de um livro apaixonante que recorre uma coletânea ou grupo de poemas de K. D.Sethna (nome “oficial” do autor antes de que a Mãe desse-lhe o de “Amal Kiran”, que significa “Raio de Claridade”) com as correções feitas por Sri Aurobindo e a explicação da fonte de inspiração e plano sutil que pertence cada uma das peças. Constitui uma excelente apresentação do caráter e objetivos deste novo modo de fazer poesia cuja característica essencial, tal como dizia o próprio Sethna em uma entrevista um ano mais tarde é a sensação de vastidão)...


AMAL.K: Sim?


BEL: ...e pareceu-me muito, muito interessante. Estou seguro de que quem leia atentamente tua obra encontrará, sem dúvida, respostas à muitas das questões que os críticos possuem a cerca da inspiração e...


AMAL.K: Sim, sim, com certeza! Verás, Sri Aurobindo via a poesia muito relacionada com os diferentes planos de consciência... e, sim podes sentir o ritmo do verso e fazer que seja parte do fluxo de teu sangue, te farás sensível às diferenças entre os planos e entenderás algo do caráter essencial desses planos. É uma boa maneira de entrar na vida espiritual através da consciência estática... e as diferenças sutis entre plano e plano, isto é importante saber senti-lo. Porque se pode escrever poesia desde cada um dos planos e, se és capaz de ativar um plano acima da mente ou detrás da mente, teu poder de expressão se aperfeiçoará. Sri Aurobindo mesmo reescreveu Savitri doze vezes...


BEL: Doze vezes?!

AMAL.K: Sim, cerca de doze vezes. E não porque qualquer dessas versões fosse de inferior qualidade, senão porque alcançava cada vez planos de espiritualidade mais altos e queria criar desde cada um deles. Assim, por exemplo, há um verso que recordo: “Unseen because too brilliant for our sight” (“Não visto por ser brilhante demais para nossa visão”). Brilhante demais e por isto não podes ver através dele... nem sequer suportá-lo. Como verso, é uma boa criação mental... Sri Aurobindo a modificou por:”Veiled by the ray no mortal eye can bear ” (“Velado pelo raio, não podia suportá-lo o olho mortal”, Savitri pg. 57). Como vês, diretamente muda toda a atmosfera, muda o plano, muda a visão e a experiência espiritual que comunica é completamente diferente. O outro verso é de uma fina expressão intelectual... “Unseen because too brilliant for our sight”. Mas agora pense na outra: “Veiled by the ray no mortal I can bear”... Há uma grande diferença... E assim foi elevando o nível da poesia cerca de doze vezes e, se houvesse seguido ascendendo, creio que haveria reescrito “Savitri” ainda outra vez.

BEL: Qual é o plano de consciência que se expressa a si mesmo através da última versão de “Savitri”?


AMAL.K: Verás, no conjunto Sri Aurobindo disse que há um predomínio da atmosfera Sobremental, que se concentra e se torna especialmente intensa em algumas passagens. Não há nada puramente mental. Há sempre uma mistura de algum tipo de mente interior ou ser psíquico ou algo assim. Porque queria expressar os planos de consciência que não haviam sido trabalhados até agora em um amplo grau. Há algumas passagens nas que a Sobremente emerge de uma forma clara; como, por exemplo, toda a descrição de “Savitri”, mais de setenta e cinco versos. Tudo isto parece estar escrito pela pura Sobremente e tem o que poderíamos chamar, um efeito mântrico.


Já lhe falei desta classe de inspiração... não sei se lhe contei da última vez ou não. Verás, eu havia adquirido o hábito de sair de meu corpo, o que era algo realmente maravilhoso. Sair do corpo e te dedicar a explorar diferentes classes de mundos. Já te contei?


BEL: Não.


SUJATA: Não, eu queria que explicasses algo de tuas experiências tanto neste terreno como no de tua relação com a Mãe.


AMAL.K: Bem, quando se sai do corpo, tu te encontras em uma dimensão completamente diferente. Há coisas aí e gente... toda classe de... quero dizer, todo um mundo. E diferente de nosso mundo. E, há coisas cheias de beleza aí que não podes encontrar aqui e é tão bonito, tão belo em cor, em ritmo e em linhas...Há visto, por exemplo, o mar de Pondicherry? É um mar precioso. Mas se visses a contraparte física sutil deste mar... que coisa tão maravilhosa é essa! Sabes? E os raios sobre a superfície e as ondas e suas cores, e o espaço a seu redor... é algo mágico. O mar mais belo que podem imaginar os poetas é ali uma realidade. Agora bem, quando se sai de tu corpo te encontras em uma região ou mundo que não te resulta familiar e as pessoas ali são estupendas, gente bela, mas nenhum deles têm o que nós chamamos uma alma. São seres viventes, se parecem aos seres humanos mas carecem do que chamamos ser psíquico ou alma, porque a alma é algo que tem que ver com a evolução, não pertence aos mundos deste tipo. Nesses mundos não há evolução, há só organização e combinação dos mesmos valores. Sim, são mundos muito belos, mas não existe neles o toque psíquico, que vem diretamente do Supremo. Seus habitantes vivem para desfrutar do poder e do prazer, e quando alguém se introduz em seu reino, naturalmente, nem sempre eles gostam. Porque, por exemplo, podes entrar em suas casas, sabes? Abres as puertas, passas por dentro e olhas por toda parte... De modo que às vezes se aborrecem. Bem, recordo um dia que estava explorando um desses mundos, tudo corria bem, é claro, e de repente algo me atacou pelas costas. Senti como se me quebrassem e caí de repente em meu corpo, e quando recuperei a consciência tinha uma sensação tão intensa de enfermidade... sentia como se tivesse quebrado a coluna vertebral. Perguntava o que era que devia fazer. Porque se chamasse o doutor para que me examinasse a coluna, diria-me com toda segurança que estava bem, que todas as vértebras estavam em seu lugar. Como ia entender ele o que me havia ocorrido e que havia algo quebrado em alguma parte? Então lembrei-me de uma passagem de “Savitri”, o que “Savitri” é... é puro mantra... Assim, em solidão, comecei a recitá-lo e quando cheguei ao verso “For even her gulfs were secrecies of light” (“Pois ainda seus cumes eram segredos de luz”, Savitri pg. 16) senti-me absolutamente curado, outra vez inteiro. E é porque “Savitri” tem poder, inclusive físico sutil. Se tua mente está deprimida ou teu corpo sente falta de energia ou há algum sentimento em ti que não consegues analizar, algo que está mal... algo está mal... si lês certas passagens de “Savitri”... te curarás. Há um poder na poesia, a poesia tem poder em cada plano. Quando os planos superiores se tornaram ativos, a poesia é uma força verdadeiramente formativa e iluminadora.

BEL: É possível encontrar-se com outros seres humanos nesses planos?


AMAL.K: Não o sei, não me encontrei nunca com nenhum outro ser humano neles. Esses planos estão ocupados por seres não humanos, mas com segurança outros seres humanos vão ali... eu o fazia. Assim que outros também devem fazê-lo.


BEL: Mas...são mundos objetivos?


AMAL.K: É claro, são objetivos. Podes tocar as coisas tal como as tocas aqui. É uma sensação distinta, acordei com a experiência destes mundos. Encontras habitações, encontras móveis, encontras mares, encontras árvores, todas estas coisas. E há coisas aí que todavia não descenderam até nós. Verás, quando a pessoa inventa, retira muitas vezes a inspiração desses planos... habitualmente suas idéias provêm daí, sabes? E é tão fascinante explorar todos estes mundos... mas sua exploração não é indispensável para a vida espiritual. Por exemplo, depois da experiência que te contei, escrevi uma carta à Mãe. Nesse tempo eu vivia em Bombay. Quando estás aqui há uma proteção maior, mas ali a proteção, ainda que, é claro, existe, mas não é tão objetiva. Assim que lhe escrevi perguntando-lhe se este tipo de experiências eram necessárias para a vida espiritual. Respondeu: “...não, se aparecem no curso da vida espiritual, está bem; mas se busca-as porque sente-as divertidas, bem, isso não é sempre aconselhável porque entras em mundos não humanos e não tendes suficiente proteção. Se sois um ser muito poderoso ou se sois um ser de extrema pureza, automaticamente, a tendes; de otro modo, estás exposto a toda classe de perigos. Mas é algo verdadeiramente, fascinante. Encontras seres estranhos, diferentes modos de viver e tantas coisas que não descenderam ainda até nós... eu vi tantas... flores, por exemplo. Havia algumas de uma forma que todavia não vi aqui... uma forma muito peculiar. E relógios também... de um tipo muito diferente... todas as invenções vêm daí. Mesmo em “Savitri”, se lerdes o canto dos Mundos da Matéria Sutil, podes fazer-te uma idéia de tudo isto, de todas as idéas e invenções que vêm dali.

BEL: Existe uma inspiração poética própria destes mundos?


AMAL.K: Oh!, eu vi livros por ali... disso estou seguro. Porque recordo que quando estava investigando sobre alguns sonetos de Shakespeare - escrevi todo um livro sobre esta matéria (K.D.Sethna “Two Loves” and “A Worthier Pen” -The Enigmas of Shakespeare’s Sonnets, New Delhi 1984.) – encontrava-me tão envolvido no tema que quando dormia costumava ir a certas bibliotecas, lia livros e coisas parecidas. Assim, que estou seguro de que há aí todas essas coisas, e poesia também... ainda que não tenha entrado em contato direto com ela.


BEL: Toda poesia tem poder mântrico ou só a poesia Sobremental?


AMAL.K: É claro, a poesia Sobremental é a que tem maior poder, mas em toda poesia há algo puramente espiritual... se a poesia é perfeita em expressão e tem uma verdadeira substância intuitiva, nesse caso, tem poder. Seguramente. A boa poesia de qualquer tipo tem poder para mudar todo seu ser. Alguém disse: Qual é o propósito da poesia, qual é seu poder? A poesia não pode salvar a alma, mas pode fazer a alma digna de ser salva. Tem um certo poder sutil para refinar todo o ser. Mas a poesia deve converter-se em algo vivo em ti, só então pode atuar realmente. Tendes que entrar em sua verdadeira atmosfera, tocar o autêntico manancial de que surge. Quando consegues fazer isso, sentes como se foras tu quem acaba de compor o poema.

BEL: Mas...como podes conhecer essa origem?


AMAL.K: Pela resposta de teu ser...Não, a fonte não é tão fácil de conhecer a menos que tenhas uma grande experiência dos diversos níveis e suas diferenças, mas algo dessa origem podes chegar a senti-lo... e como o poema nasceu e como se travaram suas diferentes partes... tudo isso podes senti-lo. Para isto tendes que viver com a poesia, tem que fluir em teu sangue e converter-se em um modo de vida.

O que mais?

BEL: São tantas coisas!

...

SUJATA: Fale de tua colaboração com a Mãe em poesia.

AMAL.K: Bem, a Mãe não trabalhou comigo em poesia... Sri Aurobindo sim.

SUJATA: Fale disto então.

AMAL.K: Quando queria escrever o que Sri Aurobindo chamou a poesia sobremental, mandei-lhe uma nota pedindo-lhe que me enviasse quatro versos de manufatura puramente sobremental. “Dá-me quatro versos”, disse-lhe. Ele respondeu: ‘”Céu Santo! Como posso fazer isto?” Então eu respondi: “Bem, estou seguro de que se há uma pessoa no mundo que possa fazê-lo, esse és tu; assim que por que não o intentas.” Ele disse: “Céus, eu não posso fazer o que me pedes por encomenda, mas te darei alguns versos para ver se és capaz de encontrar neles algo sobremental”. Então é quando começou a passar-me seu “Savitri”. Cada noite ou cada madrugada, costumava copiar uma passagem de sua obra e me enviava-o pela manhã. Nolini (Nolini Kanta Gupta (1889-1984), compaheiro de Sri Aurobindo durante sua luta política na Bengala e seu primeiro discípulo em Pondicherry. Foi seu secretário e, quando Sri Aurobindo deixou seu corpo, serviu à Mãe também nesta tarefa) vinha trazer-me o envelope. Então, eu passava os versos à máquina, fazia minhas anotações, escrevia algumas perguntas e o devolvia. No dia seguinte, outra passagem chegava junto com as respostas às perguntas colocadas por mim. Mas me disse que não devia falar a ninguém sobre isto. Supunha-se que era nosso grande segredo. No entanto, eu estava seguro de que Nolini suspeitava de algo, porque trazia o envelope cada manhã e deve ter visto a Mãe pegando a folha, colocando-a dentro e selando o envelope. Assim, cada manhã, quando trazia o envelope, costumava esperar uns segundos mais do que houvesse tardado em entregar uma carta comum. Entregava a carta, ficava de pé a ver se eu fazia algo com ela... e eu dissimulava como se tratasse da coisa mais banal. E cada dia...cada dia, fazia o mesmo. De modo que ao cabo de um mês escrevi a Sri Aurobindo dizendo-lhe que estava seguro de que Nolini ia perguntar-me algo em um daqueles dias: “O que devia lhe responder eu?” Então, Sri Aurobindo respondeu-me dizendo-me unicamente: “Espero que não pergunte”. Após alguns dias, sua curiosidade voltava a ser tão patente e era tão evidente que me perguntaria nesse mesmo dia ou no seguinte, que voltei a escrever a Sri Aurobindo: “Agora vai perguntar-me, assim que, por favor, diga-me, sim ou não e não me digas que esperas que não pergunte”. Então respondeu: ‘Sim, mas diga-lhe que guarde o segredo’. Assim, no dia seguinte, disse a Nolini: ‘Venha, acompanhe-me, adentre. Isto é “Savitri”. Sri Aurobindo está enviando-me e lhe perguntei se podia ensiná-lo. Disse que sim, de modo que o ensinarei”. E ele ficou muito feliz. E mantivemos o segredo durante dez anos! Só em 1948, quando publicou-se meu livro “A Genialidade Poética de Sri Aurobindo” (K.D. Sethna, The Poetic Genius of Sri Aurobindo, Pondicherry 1947), coloquei algo de “Savitri”. Todo o último capítulo trata sobre a nova inspiração, assim que perguntei a Sri Aurobindo se poderia incluir alguns de seus versos e publicá-los. Disse: “Sim”. De modo que a primera vez que vieram à luz foi em meu livro. Então “Savitri” havia mudado tanto, sabes? Havia se convertido em um poema enorme e Sri Aurobindo escreveu dizendo-me que havia extendido-se tanto que apenas seria eu capaz de reconhecê-lo. Então, enviou-me a nova versão do Primeiro Canto do Livro I. A verdade é que não me encantei muito. Estava tão acostumado ao antigo começo da aurora surgindo já nos primeiros versos... Agora havia uma longa descrição da noite, muito simbolismo. Escrevi-lhe que não sentia uma grande atração por estes versos e respondeu-me que era porque não estava acostumado a eles, que quando me familiarizasse com eles eu gostaria deles. Inclusive agora existe uma grande incompreensão acerca do que Sri Aurobindo descreve neles. Muitas pessoas acreditam que são uma descrição do começo do mundo.

BEL: Assim parece.


AMAL.K: Mas não é verdade. O que realmente se descreve neles é a noite antes da aurora do dia em que Satyavan deve morrer. É uma noite física. Mas através dessa noite física vê-se algo que pode remontar-se à origem do universo. A noite física é, assim, como uma janela. E se converte em um símbolo. Tal como há um símbolo Aurora, existe também um símbolo Noite. Ele mesmo utiliza a palavra símbolo, e assim é como deve ser entendido.


BEL: Mas cada aurora é, em realidade, uma nova criação.


AMAL.K: Sim, certo, cada dia é uma nova criação…


BEL: Sim...


AMAL.K: Isso é verdade. Olhe, todos as lembranças do passado são apagadas, e é como se cada dia começasse uma nova aventura. Isso é completamente uma verdade. Porque a noite acaba com muitas coisas. Inclusive experiências... muitas coisas que realizamos pela noite o que nos damos conta delas pela manhã se perderam e despertamo-nos totalmente em branco. Mas se podemos levar nossa aspiração ao sonho, em certo modo, o sonho e a noite se convertem em vínculos na via da sadhana. Mas se não podemos fazê-lo perfeitamente, sempre perde-se algo. No Rig Veda, por exemplo, os habitantes da escuridão se lhes chama de “panis”, são os ladrões, sabes? São os que provocam a inconsciência e devemos guardar-nos deles; Sri Aurobindo, em “Savitri”, escreveu sobre eles. “Ladrões”, aí se usa a palavra ladrões. “Pani”, certamente, quer dizer isto...


...

BEL: Em teu livro, falas dos versos como de algo individualizado.


AMAL.K: ¿Hmm?


BEL: Falas dos versos como de algo com individualidade própria, algo vivo.


AMAL.K: Que versos?


BEL: Não, os versos em geral. Como se cada um deles tivesse personalidade própria.


AMAL.K: Queres dizer que os percebes deste modo? Bem, em certo sentido estão vivos. Trata-se de que sejam portadores de uma certa força espiritual. Uns versos são melhores que outros, com segurança. A poesia costuma a vir de um modo estranho. Nos velhos tempos, vinha como fragmentos, sabes? Às vezes eu recebia o que logo havia de ser o final e tinha que remontá-lo desde ele até o princípio. Isto não ocorreu, no entanto, em meu livro “A Aventura do Apocalipsis” (K.D.Sethna, The Adventure of Apocalypse, Bombay 1949). Começou pelo princípio e se desenvolveu até seu final. Esta foi a maior experiência poética que tive. O livro está agora esgotado. Chama-se “A Aventura do Apocalipsis”. Todo ele constituiu-se uma experiência muito poderosa. Sabes? Eu tinha problemas de coração, e estava afundando-me e afundando-me e afundando-me muito profundamente e pensava que ia morrer. Chamava a Sri Aurobindo e à Mãe pedindo-lhes que me sustentassem, mas ainda assim a coisa ia tomando cada vez um caráter mais grave. De modo que chamei minha mulher e a minha mãe e lhes disse que não havia modo de curar-me, que me ia... algo assim. Um médico foi chamado e recebi uma injeção de morfina e atropina.


Então, algo curioso ocorreu: senti que todo o universo era o Divino, tudo era divino, as cadeiras e as mesas... tudo... eu me levantava e prostrava-me diante de minha cadeira de trabalho e coisas deste tipo.

(Risos)

AMAL.K: Sim, sim, toda a experiência era assim. Tudo isto abriu o acesso a alguma região profunda. E, pela noite, com os olhos fechados podia ver coisas, sabes? E a poesia começou a vir. Tinha alguns fascículos de “Savitri” junto a minha cama, que lia quando ia dormir. Então, de repente, os versos começaram a vir. Nos tempos antigos, as pessoas diziam (dos poetas): “Videntes e ouvintes da Palavra da Verdade”, sabes? O “ver” e não só o “ouvir”... algo assim: os versos estavam aí e eu podia vê-los, eram meus e não eram meus porque estavam aí, frente a mim. Muitos deles se apresentavam diante de mim deste modo. Eu me levantava e, na escuridão, os anotava no reverso em branco das folhas de “Savitri”. Anotava o que podia recordar. E outra vez me submergia (naquele estado de consciência). E outra vez me levantava. E toda a noite transcorria deste modo. Cada dia um tipo novo de inspiração se apresentava. E o doutor me havia dito: “Tendes um problema grave em teu coração. Assim que não te permito nem sequer que levantes a cabeça da almofada”. Em lugar de obedecer-lhe, passava o dia sentado... e logo a intensidade das noites. Era todo o oposto ao que como paciente devia fazer. Passava os dias sentado ou levantado e em um grande estado de excitação. Mas eu sentia que essa excitação tinha um efeito curativo sobre mim... porque vinha do mais profundo de mim e do mais alto. Cada dia era assim. E o doutor vinha cada manhã a examinar-me e me dizia: “Sim, já houve uma melhoria, te portas muito bem, és um moço estupendo”. Enquanto durou minha enfermidade, não observei nem uma só das regras médicas. Quando a poesia vinha, estava em um estado de excitação intensíssimo e me colocava a escrever e a escrever... todo o dia! E tudo me provocava a inspiração. Lia um jornal e qualquer coisa provocava em mim a composição de um poema, meu avô entrava na habitação para ver como estava e dizia algo e isso era o começo de um novo poema. Este estado de excitação durou três meses.


BEL: Três meses!

AMAL.K: Sim, algo assim. Sim, era a estação mais calorosa de Bombay. Eu vivia em Bombay nesse tempo. E toda essa estação, terrivelmente quente, pareceu-me uma benção, sentia uma tal felicidade, uma abertura tão grande... foram os três meses mais apaixonantes de minha vida. Sim. Cada dia enviava minhas composições à Mãe e a Sri Aurobindo, e a Mãe me escreveu e eu lhe respondi dizendo-lhe que não estava seguindo nenhuma regra médica senão todo o contrário, extremamente o oposto, e ainda assim estava me recuperando bem. E ela me escreveu: “Meu querido filho, me alegro de que tenhas fé em um Poder superior ao poder dos médicos e que possa elevar-te através e apesar de todos os sucessos catastróficos. Conserva esta fé e tudo irá perfeitamente”... algo assim.


BEL: Quando escreves sobre a história indiana ou estudos poéticos, escreves com a mesma inspiração ou desde outro nível de consciência?


AMAL.K: Algum tipo de inspiração há, é claro, também há outro nível, o nível analítico está aqui em operação…


BEL: Refere-te a estudos literários?


AMAL.K: Sim, o nível analítico, mas também há inspiração. Tudo o que escrevo ou que escrevi no passado foi interiormente dedicado a Sri Aurobindo... E pode não coincidir de nenhum modo à espiritualidade - eu estou interessado em centenas de coisas, ciência, filosofía, história e tudo isto- mas sempre há essa dedicação interior a Sri Aurobindo. E quando Sri Aurobindo deixou seu corpo, me senti verdadeiramente, verdadeiramente, bloqueado. Dizia-me, “O que farei eu agora? A quem dedicarei o que escreva? Como vou escrever algo sequer? Como conseguirei sua ajuda? De modo que alguém disse à Mãe que eu me sentia desta forma e o primeiro dia que a Mãe se encontrou com todos nós, pegou minha mão e me disse: “Nada mudou. Peça ajuda a Sri Aurobindo e a ajuda chegará como antes. Nada mudou”. Então isso me deu ânimo... estava tão sentido pela partida de Sri Aurobindo! E quando me encontrei com a Mãe – encontrei-me com ela antes de partir para Bombay, onde dirigia a revista “Mother India”- lhe disse: Agora milhares de pessoas irão querer uma explicação minha do que ocorreu. “O que ocorreu?” A Mãe respondeu: “Está perfeitamente claro para mim, mas não vou dízê-lo a ti, deverás encontrá-lo por ti mesmo”. Eu disse então: “De acordo Mãe, mas dá-me o poder para descobrí-lo por mim mesmo.” Ela pôs então a mão sobre minha cabeça. Eu parti para Bombay. E me senti desvalido ao princípio, sem vida, pela partida de Sri Aurobindo. E não deixava de dizer-me: o que devo fazer agora, que devo escrever? E a chamei dizendo-lhe: “Se não posso escrever a verdade do ocorrido, tudo o que escrevi anteriormente é inútil. Se não posso escrever realmente a verdade do que ocorreu, não me importará não voltar a escrever nada em toda minha vida.” Esta foi a questão que lancei a Sri Aurobindo. Então, ao cabo de quinze dias, algo começou a chegar e escrevi o que me ditava minha inspiração e o mandei à Mãe. Recebi, pouco depois, um telegrama de Nolini: “A Mãe encontra teu artigo admirável. Nada que mudar” (Trata-se do artigo intitulado “O Trânsito de Sri Aurobindo”, sua Significação Interior e Consequência”. A Mãe achou este artigo excelente e ordenou 15.000 cópias do mesmo em forma de fascículo). Soube logo que havia dito a um colaborador meu, que meu artigo era excelente, com probabilidade de ser o melhor que nunca havia escrito . Quando me enterei disto, disse: “É verdade, nada mudou”. Sri Aurobindo está aqui e posso chamar-lhe e posso pedir sua ajuda. E essa ajuda me está chegando até o dia de hoje. E quando me encontro frente a um problema, quando chego diante de um obstáculo insolúvel, pela noite, antes de ir dormir, chamo Sri Aurobindo: “Olhe, isto constitui um problema para mim agora, por favor resolva-o para mim.” E sempre, sempre, no dia seguinte ou a cabo de um par de dias, encontro a resposta adequada. Abro um livro e acho uma frase que me coloca na linha de pensamento correta ou algo me vem à mente...sempre assim. E realmente, realmente, ele me seguiu ajudando como no passado. De modo que não pode dizer-se que se tenha ido. Finalmente, nós o víamos três ou quatro vezes ao ano. Não tinhamos com ele o contato que tínhamos com a Mãe. É claro, estavam as cartas, que em ocasiões chegavam até três vezes ao dia. Tudo isso acabou-se, mas o contato interior persiste, e sua presença está aí.


BEL: Qual é essa explicação que encontraste...?


AMAL.K: Para que?


BEL: Para a morte de Sri Aurobindo... o que escreveste em teu artigo?


AMAL.K: Verás, havia um grande obstáculo no caminho e esse obstáculo não podia ser afastado a menos que esse corpo, que ia ser divinizado, o absorvesse. E, absorvendo-o, não podia senão sacrificar-se. Sim, foi um sacrifício. Como se todo um mundo de obscuridade fosse tomado por esse corpo. E um corpo que não estava destinado a morrer, morreria. Vês? Foi um incidente muito importante... parecido a isto. E este sacrifício afastou definitivamente a obstrução. E a Mãe me disse, tempo depois, que no momento em que Sri Aurobindo deixou seu corpo, o que ele chamava a Mente de Luz realizou-se nela. Assim, vês? Houve um resultado inicial concreto, um avanço, um salto, como consequência de deixar seu corpo. A Mente de Luz estava sendo formada de um modo lento e esporádico, algo vinha e algo se ia... uma e outra vez. Mas, ao ir-se ele, a Mente de Luz estabeleceu-se na Mãe. E, o que é a Mente de Luz? A Mãe dizia que é a Mente física recebendo a Luz Supramental. Eu escrevi um poema sobre a Mente de Luz tal como a entendia. E quando lhe mostrei o poema à Mãe, me disse: “Os dois primeiros versos são revelação absoluta. Isto é exatamente o que ocorreu. O resto é uma construção rica e imaginativa, mas os dois primeiros versos são pura revelação e mantra”. Aqueles dois versos eram: “O núcleo de um Sol Imortal é agora o cérebro e cada célula cinza estala em ouro onisciente (Cf. ADDENDUM II)”.


Ela disse que isto era exatamente o que havia ocorrido. Isto é a Mente de Luz. E para fazê-la descender e estabelecê-la na Mãe, em sua consciência, Sri Aurobindo partiu. Este é o segredo de sua partida. Teve que fazê-lo apressadamente, como se o disséramos. Assim é como expliquei-o no artigo daquele tempo, ainda que a Mente de Luz não se mencione nele, porque eu não sabia nada dela então. Mas todo o demais está aqui e o artigo se chama “O Trânsito de Sri Aurobindo, sua Significação Interior e Consequência.”


BEL: Publicaste-o em “Mother India”?

AMAL.K: Sim, apareceu em “Mother India” e posteriormente foi incluído em um livro meu que intitulei “O Espírito Indiano e O Futuro do Mundo”, uma coleção de todos meus editoriais de “Mother India” que não tinham que ver com a política. Pode ser que todavia estejam à venda, não o sei, faz muitos anos que saiu. Os artigos políticos não se publicaram todavia. E estes artigos políticos têm sua importância porque mostram qual era o ponto de vista de Sri Aurobindo com respeito aos problemas nacionais e internacionais durante o período de um ano e meio antes de que marchasse. Antes de que partisse, “Mother India” havia sido publicada durante um ano e meio, era quinzenal nesse tiempo. Os editoriais deviam ser enviados desde Bombay a Pondicherry - eu trabalhava em Bombay por aqueles dias de então - e eram lidos a Sri Aurobindo. Um telegrama chegava:”Aprovado”. Só então o editorial podia aparecer. Se dizia: “Não aprovado”, o editorial não aparecia. Existiam estas duas categorias: “Aprovado” queria dizer que seu próprio ponto de vista havia sido expressado. Assim, todos os editoriais deviam ser aprovados. Eu escrevia o que queria e do modo que quería porque logo os artigos eram enviados a ele. A Mãe sempre via os artigos antes de que aparecessem. Recordo que escrevi um artigo sobre a “China Vermelha” (The Folly of Recognising Red China (A Loucura de Reconhecer a China vermelha), Mother India, Outubro de 1949) . A Mãe o leu e disse que era muito violento, perguntou a Sri Aurobindo se o aprovava. Ele disse que sim.

...

BEL: Qual foi esse elemento obscuro que o corpo morto de Sri Aurobindo devia absorver para vencer o obstáculo de que falas?


AMAL.K: Não é que o corpo morto o absorvesse, seu corpo o absorvia e essa absorção causava sua morte. Em um sentido prático pode dizer-se que sua morte determinou, em princípio, o fim da morte. Algo se realizou no mundo oculto que seria o fim da morte. E indo-se ele, em princípio, a morte foi absorvida e neutralizada e anulada. Assim, o princípio da imortalidade do corpo, a transformação supramental, foi semeada deste modo, um modo muito paradoxal. Sri Aurobindo havia dito: “Marcharei para conquistar ou perecer”. E eu expliquei que isto havia que reformulá-lo do seguinte modo: “conquistar perecendo”... Algo novo realizou-se. E para mim foi uma total surpresa, porque Sri Aurobindo me havia feito entender sempre que ele acabaria o trabalho que havia vindo realizar. Foi completado em certo modo, mas não do modo que todos nós queríamos. Ele sempre me havia feito entender aquilo, e quando seu trânsito teve lugar eu estava simplemente aturdido... aturdido sobre o que havia ocorrido.
...

BEL: Escreveste sempre em inglês?


AMAL.K: Sim, é minha língua, ainda que eu seja parsi, sabes? E se supõe que o gujarati seja nossa língua. Mas minha língua sempre foi o inglês. Nela posso expressar-me muito melhor.


BEL: Quando recebes inspiração, é em uma língua concreta?


AMAL.K: Sempre é em uma língua concreta. É claro. Sua substância pertence a uma língua, pode ser qualquer língua, mas se teu idioma é o inglês, a inspiração chega em inglês.


BEL: E no caso de Nirodbaran (Um médico bengali chegou ao Ashram em 1933. Dedicou-se intensamente à poesia e foi um dos assistentes pessoais de Sri Aurobindo depois de seu acidente em 1938. Publicou diversos livros e apesar de possuir mais de oitenta e cinco anos, todavia deu classes de língua e literatura no Centro Internacional de Educação do Ashram), por exemplo, que quis escrever em uma língua que não era a sua, como atua a inspiração então?


AMAL.K: Oh, Sri Aurobindo teve que esforçar-se muito para isto, e estou seguro de que Nirod também trabalhou duro. Não, a poesia inglesa era parte de minha vida. Quando cheguei aqui, centenas de versos fluíam à minha mente de um modo constante. E uma vez Sri Aurobindo me disse: “Aprendeste muitas coisas, agora deves desaprendê-las”, porque minha mente estava completamente cheia de coisas, sabes? Tantas coisas aí. E se podes tornar tua mente silenciosa, acalmá-la absolutamente, então está bem tudo o que aprendeste; se não, todo ele cria obstáculo no caminho.

BEL: É a substância da língua inglesa diferente desde que Sri Aurobindo escreveu “Savitri”?


AMAL.K: Sim?


BEL: Quero dizer, a composição de “Savitri” há transformado a substância da língua inglesa?


AMAL.K: Sim, o fez. “Savitri” só pode verter-se em inglês. O inglês é a língua mais desenvolvida. A partir de um centro claramente delimitado podes produzir um excelente efeito expansivo das palavras... o inglês é magnífico para isto: conta com todos os matizes e em muito breve espaço podes expressar muitas coisas. Além disto, o vocabulário é enorme porque não é só uma língua romance como o espanhol, o italiano ou o francês, absorveu muito das línguas primitivas germânicas, do grego, do latim... há nele todo tipo de influências. Para cada objeto podes encontrar em inglês até seis palavras sinônimas, coisa que não podes fazer no espanhol, italiano ou francês. Por outro lado, tem um duplo caráter: pode ser monossilábico e polissilábico, o que é algo muito raro em uma língua. O caráter monossilábico o há herdado do antigo anglo-saxão e o polissilábico do latim e o grego. De modo que goza de todas as qualidades e se converte, assim, em um instrumento ideal para a expressão de uma nova aspiração espiritual. Por isso não pode dizer-se que foi por sorte que a língua mãe de Sri Aurobindo fosse o inglês, nem que fosse levado à Inglaterra em sua infância e vivesse ali muitos anos. Há como um destino em tudo isso. Agora bem, a partir da iluminação do inglês todas as línguas podem ser iluminadas. Em cada língua há uma possibilidade de desenvolvimento, ainda que as línguas indianas não estejam tão desenvolvidas como o francês, o italiano ou o espanhol. Refiro-me aos vernáculos. O sânscrito sim o está e provavelmente também o tamil. O tamil é uma língua muito antiga, é a lingua viva mais antiga da Índia. Hindi, gujarati, bengali são línguas modernas. Mas é claro, o tamil é muito difícil de aprender. Inclusive para Sri Aurobindo. Como sabes, Sri Aurobindo tinha grandes faculdades lingüísticas, era um mestre em grego e em latim... e em sânscrito também, mas no tamil encontrava certa dificuldade. ...Eu sei ao redor de uma dúzia de palavras em tamil: ir, vir, comer, beber, esquerda, direita... isto se o sei.

(Risas)

SUJATA: Gostaria que compartilhasse com eles algumas de tuas experiências com a Mãe.

AMAL.K: Em 1938, quando parti para Bombay para uma breve visita, a Mãe me disse: “Este ano estamos esperando que ocorra algo importante”. Era 1938. Eu lhe disse: Se algo ocorre, por favor informa-me e eu deixarei o que esteja fazendo, seja o que seja, e voltarei. Ela respondeu: “Sim, te prometo, não te preocupes, se algo ocorre te informarei imediatamente”. Ali em Bombay houve um estranho acidente: tomei uma tremenda dose - quarenta vezes a dose normal- de uma medicação. E havia morrido se não houvesse sido pela ajuda de Sri Aurobindo e da Mãe. Quando estava me recuperando, escrevi a Sri Aurobindo - era a princípios de Agosto daquele ano e eu havia chegado a Bombay em Fevereiro - dizendo-lhe que não havia recebido nenhuma chamada da Mãe e que queria saber se o acontecimento de importância que estavam esperando havia tido lugar ou não. Escreveu-me respondendo que não, e que não devia apressar-me a voltar devido ao estado de meu coração. Dizia-me na carta que permaneceria em Bombay e que, se ocorresse algo, quando voltasse poderia verificá-lo - se estava o suficientemente aberto para ele. Mas o que tinha que ocorrer não havia ocorrido todavia, aquele Descenso universal que esperavam não havia produzido-se. Muitos anos depois, no mês de Fevereiro de 1956, me encontrava novamente de viagem a Bombay. Antes de partir, a Mãe me havia dito que queria que estivesse de volta antes de 29 de Março porque pensava que algo fundamental estava a ponto de ocorrer. Fui a Bombay. Estava só no compartimento do trem de Madras a Bombay. E tive um sonho. No sonho, via um amplo espaço aberto e no centro daquele espaço estava sentada a Mãe. E muitas pessoaas queriam acercar-se a ela, se apressavam até onde ela estava para fazer-lhe pranam e receber suas bençãos. Eu estava em meio da multidão e também queria correr até ela. Tentava retirar as sandálias, mas uma delas não queria sair. Tentava e tentava mas não havia maneira. Finalmente me despertei. Então, ao abrir os olhos, encontrei a Mãe diante de mim, no lado oposto do compartimento: um ser transparente e radiante. Perguntei como era possível que ela estivesse ali e eu a visse com os olhos abertos. Fechei os olhos e voltei a abri-los e ali seguia ela. Disse-me, isto é fantástico, provarei outra vez! E, quando os voltei a abrir, a Mãe já havia se ido. Quando cheguei a Bombay, escrevi à Mãe contando-lhe o que havia visto no trem às oito e meia da tarde daquele 29 de Fevereiro. Ela não me respondeu. Então recebi notícias de que algo havia passado, realmente algo estupendo, mas que ninguém sabia explicar-me. Voltei, em efeito, antes de 29 de Março e o primeiro que fiz foi perguntar à Mãe o que era que havia ocorrido, que tipo de acontecimento havia se produzido finalmente. Eu acreditava que se tratava de uma aparição da Supramente, mas ela me disse que não, que aquilo era o que eu pensava mas que não era assim. A consciência, a força e a luz supramentais haviam entrado no Universo. Disse-me que havia só quatro pessoas que tiveram certa idéia do que havia ocorrido - não exatamente o conhecimento da manifestação supramental mas sim que algo fundamental havia tido lugar - e que entre as quatro pessoas estava eu. Eu?! Inquiri, como é isso? Não te recordas do que me escreveste o que te havia ocorrido na tarde de 29 de Fevereiro?” Sim, respondi, te vi no trem em que viajava, o que fazias ali?” Não recordas que há dezoito anos te prometi que, se o que esperávamos acontecesse, te avisaria? Pois bem, fui a informar-te”. Eu me senti tão surpreso... a Mãe havia lembrado daquela promessa e havia vindo informar-me... pobre de mim! Disse-lhe: “Mãe, estou tão agradecido que não tenho palavras para expressá-lo.” Ela respondeu: “Bem, esse é o significado da experiência que tiveste”. Ela podia fazer todo tipo de coisas, sabes?

BEL: O que era exatamente o que havia ocorrido?


AMAL.K: A Manifestação Supramental. A luz, a força e a consciência supramentais haviam irrompido no Universo... não no Universo físico, senão no físico sutil, o que a Mãe chamava “a atmosfera da Terra”. Todavia não há chegado ao físico material. Se houvesse sido assim, muitas coisas haveriam mudado já. Mas quando tudo aquilo chegou, foi tragado pela obscuridade das idades e coberto por ela. É como um recém- nascido completamente coberto pelas sombras... mas um recém-nascido onipotente. De modo que vencerá apesar de todas as trevas, mas isso levará um tempo. No entanto, alguns de seus efeitos já estão presentes, efeitos muito sutis.


BEL: Esta manifestação de que falas, teve algo a ver com a Segunda Guerra Mundial? Porque disse que foi em 1938 quando devia haver-se produzido...


AMAL.K: Em efeito, a Segunda Guerra Mundial foi a ação das forças hostis para impedir a criação do Novo Mundo de Sri Aurobindo... alguém poderia dizê-lo assim. E isso foi em parte responsável pelo atraso da manifestação: o que se supunha que devia ocorrer em 1938, tardou dezesseis anos em produzir-se. A guerra acabou com muitas coisas e houve tal explosão de maldade e crueldade... sim, pode dizer-se que foi um grande obstáculo para a Nova Criação.


BEL: O que significou a manifestação de 1956?


AMAL.K: Havia duas coisas que a Mãe e Sri Aurobindo queriam que se produzissem: um estabelecimento geral do princípio supramental em nosso ser e, em segundo lugar, uma transformação direta, individual do corpo. Este último não teve lugar... completamente, quero dizer: foi realizado em nível físico sutil, mas não em nível físico material. En 1959, escrevi que em Sri Aurobindo a Supramente ia e vinha sem estar totalmente estabelecida, mas a Mãe me disse que não, que isso não era verdade, que a Supramente estava já em Sri Aurobindo mas não havia se manifestado através do físico material. Disse-me também: “A mim me ocorre o mesmo”. Eu lhe disse: “Mãe, espero viver o suficiente para ver tua transformação supramental.” Ela respondeu: “Tenha fé e o que tenha que ocorrer, ocorrerá”.