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PostHeaderIcon - A VIDA DIVINA (SRI AUROBINDO) -- Capítulo I a X

 

Capítulo I

A ASPIRAÇÃO HUMANA

 

Ela marcha em direção à meta daqueles que vão mais adiante, é a primeira na eterna sucessão de alvoradas por chegar; Usha se expande manifestando tudo o que vive,  despertando alguém que morreu … Qual é seu alcance, quando harmoniza as alvoradas que já brilharam com as que agora devem refulgir? Deseja as antigas manhãs e as enche de luz; projetando para diante sua iluminação, entra em comunicação com o resto do que está por vir.

Kutsa Angirasa – Rig Veda [1]

São triplos aqueles supremos nascimentos desta força divina que está no mundo; são verdadeiros, são desejáveis; se desloca no Infinito e brilha puro, luminoso e pleno… O que é imortal nos mortais, e dotado da verdade, é um deus, estabelecido interiormente como uma energia, que opera em nossos poderes divinos… Torna-te espiritualmente elevada, oh Força, atravessa todos os véus, manifesta em nós as coisas de deus.

Vamadeva – Rig Veda [2]

A primitiva preocupação do homem em seus pen­samentos despertos, e o que parece sua inevitável e última inquietude - pois ela sobrevive aos mais prolongados períodos de ceticismo e retorna após cada banimento— é também a maior preocupação que seu pensamento pode conceber. Manifesta-se no prenúncio da Divindade, no impulso em direção à perfeição, na busca da pura Verdade e deleite não misto, no sentido de uma secreta imortalidade. As antigas auroras do conhecimento humano nos legaram o testemunho desta constante aspiração; hoje em dia vemos uma humanidade - saciada mas não satisfeita pela análise vitoriosa  das exterioridades da Natureza - preparando-se para retornar a seus primitivos anelos. A fórmula primitiva da Sabedoria promete ser a última: Deus, Luz, Liberdade, Imortalidade.

 

Estes ideais persistentes da espécie são, ao mesmo tempo, a contradição de sua experiência normal e a afirmação de experiências superiores e mais profundas que resultam anormais para a humanidade e só hão de obter-se, em sua inteireza organizada, mediante um esforço revolucionário ou um progresso evolutivo geral. Conhecer, possuir e constituir o divino ser em uma consciência animal e egoística [3], converter nossa sombria ou crepuscular mentalidade física na plena iluminação supramental, construir paz e felicidade auto-existentes ali onde só há tensão por conseguir satisfações transitórias, perante o assédio da dor física e sofrimento emocional, estabelecer uma liberdade infinita em um mundo que se apresenta como um grupo de necessidades mecânicas, descobrir e compreender a vida imortal num corpo sujeito à morte e a constantes mutações; tudo isto se nos oferece como a manifestação de Deus na matéria e meta da Natureza em sua evolução terrestre. Para o intelecto ma­terial comum, que crê que sua presente organização da consciência é o limite de suas possibilidades, a contradição direta dos ideais irrealizados com o fato realizado é um argumento final contra sua validade. Mas se tomamos uma visão mais reflexiva do trabalhar-do-mundo, essa contradição direta parece muito mais uma parte do profundíssimo método da Natureza e o selo de sua mais completa aprovação.

Pois todos os problemas da existência são, em essência, problemas de harmonia. Surgem da percepção de uma discórdia não-resolvida e da intuição de um não-descoberto acordo ou unidade. Repousar contente com uma discórdia não resolvida é possível para a parte prática e mais animal do homem, mas é impossível para sua mente plenamente desperta, e geralmente inclusive suas partes práticas só evitam a necessidade geral de harmonizar contrários evitando o problema ou aceitando um compromisso tosco, utilitário e não-iluminado. Pois essencialmente, toda a Natureza busca uma harmonia, vida e matéria em sua própria esfera, igualmente que a mente na organização de suas percepções. Quanto maior é a desordem aparente dos materiais oferecidos ou a aparente diferença essencial - até uma oposição irreconciliável - dos elementos que serão utilizados, mais forte é o estímulo, e este leva a uma ordem mais sutil e pujante do que aquela que seria o resultado de um esforço menor. O acordo ou combinação da Vida ativa com o material com que se forja a forma - no qual o estado de atividade por si mesma parece ser a inércia - é um problema de opostos que a Natureza resolveu, e procura sempre resolver melhor com maiores complexidades; pois a solução perfeita seria a imortalidade material do corpo animal plenamente orga­nizado que serve de sustento à mente. O acordo ou combinação de uma mente consciente e da vontade consciente como uma forma e uma vida não-abertamente conscientes de si mesmas e capazes, quan­do muito, de uma vontade mecânica ou subconsciente, é outro problema de opostos em que a Natureza produziu resul­tados assombrosos e que aponta sempre para maravilhas superiores; e seu último milagre seria uma consciência animal que já não marche em busca da Verdade e a Luz senão que as possua, com a onipotência que resultará da possessão de um conhecimento direto e aperfeiçoado. Então, não apenas é racional em si mesmo o impulso ascendente do homem direção à conformidade de opostos ainda mais elevados, como é também a única finalização lógica de uma regra e de um esforço que parecem ser o método fundamental da Natureza e o próprio sentido de seus esforços universais.

Falamos da evolução da Vida na Matéria, da evolução da Mente na Matéria; mas evolução é uma palavra que apenas assinala o fenômeno, sem explicá-lo. Pois aparentemente não há razão para a Vida evoluir a partir dos elementos materiais ou a Mente a partir da forma vivente, a menos que aceitemos a solução Vedântica de que a Vida já está envolta pela Matéria e a Mente pela Vida, porque, em essência, a Matéria é uma forma velada na Vida, e a Vida é uma forma velada da Consciência. Parece que, então, há escassa objeção a um passo mais adiante na séria e à aceitação da idéia de que a própria consciência mental é apenas uma forma e um véu de estados superiores de Consciência que estão além da Mente. Nesse caso, o indomável impulso do homem em direção a Deus, a Luz, a Bem-Aventurança,  a Liberdade e a Imortalidade, se apresenta em seu lugar correto na cadeia, do mesmo modo que o impulso imperativo pelo qual a Natureza busca evoluir além da Mente parece tão natural, verdadeiro e justo quanto o impulso em direção a Mente que a Natureza implantou em certas formas de Vida. Tal como lá, aqui o impulso existe - com uma série sempre ascendente no poder de seu querer-ser; tal como lá, aqui ele evolui gradual­mente e obriga à evolução plena dos órgãos e faculdades necessários. Assim como o impulso em direção à Mente parte das mais sensíveis reações da Vida no metal e na planta, subindo até a plena organização no homem, de igual maneira no próprio homem existe a mesma série ascendente, a preparação, se não algo mais, de uma vida superior e divina. O animal é um laboratório vi­vo no qual a Natureza elaborou o homem. O  próprio homem pode ser um laboratório pensante e vivo no qual, com sua cooperação consciente, a Natureza elaborará o super-homem, o deus. Ou melhor diremos que manifestará a Deus? Pois se a evolução é a progressiva manifestação, na Na­tureza, do que dormiu ou trabalhou nela desde dentro, envolto po ela, também é, igualmente, a realização aberta do que ela é secretamente. Então não podemos atribuir lentidão a uma dada etapa de sua evolução nem temos o direito de condenar qualquer intenção que ela ponha em relevo ou qualquer esforço que realiza para ir adiante, como fazem os fanáticos religiosos, qualificando tal intenção ou esforço como perverso e presun­çoso, ou os racionalistas, considerando esta intenção ou esforço como enfermidade ou alucinação. Se é verdade que o Espírito está envolto pela Matéria e que a Natureza aparente é o Deus secreto, então a manifestação do divino em si mesmo e a realização de Deus, dentro e fora, são o objetivo supremo e mais legítimo do homem sobre a terra.

Dessa maneira, o eterno paradoxo e a eterna verdade - de uma vida divina em um corpo animal, de uma aspiração imortal ou realidade que mora numa habitação mortal; de uma única, solitária e universal consciência que se apresenta em limitadas mentes e egos divididos; de um ser transcendente, indefinível, não sujeito ao tempo nem ao espaço, que por si só, faz possível o tempo, o espaço e o cosmos, e em todos estes, a verdade superior que é realizável por meio e desde o termo inferior- se justifica, tanto perante a reflexiva razão quanto perante o persistente instinto ou intuição da humanidade. Com frequência, efetuaram-se intentos - concretados em questões muitas vezes reputadas insolúveis  pelo pensamento lógico - procurando persuadir o homem a limitar suas ativida­des aos problemas práticos e imediatos de sua existência material no universo; mas essas evasões jamais foram permanentes em seu efeito. A humanidade retorna delas com um impulso mais veemente de investigação ou uma fome mais violenta de solução imediata. Através dessa fome medra o misticismo e surgem novas religiões para substituir as antigas, que foram destruídas ou despojadas de significado por um ceticismo que em si mesmo não pode satisfazer, pois, ainda que sua atividade fosse a investigação, deliberadamente não quis investigar o suficiente. A tentativa de negar ou afogar uma verdade porque ainda é obscura em sua estrutura externa - e mui frequentemente se acha representada por uma supers­tição obscurantista ou uma fé inculta - é em si mesma um gênero de obscurantismo.

A vontade de escapar à necessidade cósmica de investigar a Verdade - porque é árdua, difícil de justificar com resultados tangíveis imediatos, lenta em regularizar suas operações - deveria haver desembocado na não-aceitação da verdade da Natureza e em uma rebelião contra a secreta e mais poderosa vontade da grande Mãe. É melhor e mais racional aceitar que ela não nos permitirá, como espécie, rechaçar essa dita Verdade, e a elevará a partir da esfera do cego instinto, da obscura intuição e da esporádica aspiração até colocá-la dentro da luz da razão e de uma vontade instruída e conscientemente-guiando-se-a-si-mesma. E se existe qualquer luz superior de iluminada intuição ou verdade auto-reveladora, que agora está obstruída e inoperante no homem ou trabalha com lampejos intermitentes - como por trás de um véu ou com manifestações ocasionais, como as luzes do norte em nossos claros céus materiais - então também não precisamos ter medo de aspirar. Pois é possível que esse seja o próximo estado superior da consciência, do qual a Mente é apenas forma e véu, através dos esplendores dessa luz pode aparecer o caminho de nosso pro­gressivo auto-engrandecimento em qualquer estado supremo em que se ache o último lugar de descanso da humanidade.

[1] I. 113. 8. 10.

[2] IV. 1. 7; IV. 2; IV. 4. 5.

[3] A palavra inglesa é “egoistic” que poderia ser traduzida por “egoística” se estivesse admitida pela R.A.E., e reservar o termo “egoísta” para sua correspondente inglesa “egoist”, mas os termos aceitados na língua espanhola, como “egocêntrica” ou “egotista”, não são melhores, o termo optado para o espanhol: “egoísta”, e há que se ter em conta esta nota, pois o termo aparece frequentemente.

 

 

 



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Capítulo II



AS DUAS NEGAÇÕES

1

A negação materialista



Ele colocou em ação a força-consciente (na austeridade do pensamento) e chegou ao conhecimento de que a Matéria é o Brahman. Pois da Matéria nascem todas as existências; uma vez nascidas, através da Matéria elas crescem, e por isso entram na Matéria em sua passagem. Então ele foi até Varuna, seu pai, e disse: “Senhor, ensine-me sobre o Brahman.” Mas seu pai lhe respondeu: “Aciona (novamente) a energia-consciente em ti; pois a energia é Brahman”.

Taittiriya Upanishad [1]

 

A afirmação de uma vida divina sobre a Terra e de um sentido imortal na existência mortal pode carecer de fundamento a não ser que reconheçamos não apenas o Espírito eterno como habitante desta mansão corpórea, o usuário desta vestimenta mutável, como também que aceitemos a Matéria de que ela está feita, como material apropriado e nobre com que Ele tece constantemente seus Trajes, e constrói incansavelmente a série interminável de Suas mansões.

Isso tampouco é suficiente para nos precavermos contra um retrair-se da vida no corpo, a não ser que, como os Upanishads, percebendo por trás das aparências a identidade em essência desses dois termos extremos da existência, possamos dizer, na mesma linguagem daqueles antigos escritos: “A Matéria também é o Brahman”, e conceder pleno valor à vigorosa figura com que o universo físico é descrito, como o corpo externo do Ser divino. Tampouco – tão separados, aparentemente, estão estes dois termos extremos – consegue essa identificação convencer o intelecto racional, se recusamo-nos a reconhecer uma série de termos ascendentes (Vida, Mente, Supramente e os graus que vinculam a Mente com a Supramente), que estão entre Espírito e Matéria.  Ao contrário, ambos aparecerão como oponentes inconciliáveis ligados por um infeliz matrimônio, sendo o divórcio a única solução razoável. Identificá-los, representar cada um nos termos do outro, se torna uma criação artificial do Pensamento, oposta à lógica dos fatos e só possível mediante um irracional misticismo.

Se afirmamos que só existe um Espírito puro e uma substância ou energia mecânica carente de inteligência, chamando ao primeiro Deus e à segunda Natureza, o inevitável fim será negarmos Deus ou dar às costas à Natureza. Tanto para o Pensamento como para a Vida, torna-se imperativa uma escolha. O Pensamento vai negar a Deus como ilusão da imaginação ou à Natureza como ilusão dos sentidos; A Vida vai fixar-se no imaterial e fugir de si mesma com desgosto ou cair num êxtase de auto-esquecimento, ou então negar sua própria imortalidade e orientar-se para longe de deus e em direção ao animal. Purusha e Prakriti, a passivamente luminosa Alma dos Sankhyas e sua Energia mecanicamente ativa, nada têm em comum, nem mesmo seus modos opostos de inércia; suas antinomias só podem ser resolvidas mediante a cessação da Atividade inertemente dirigida, dissolvendo-se no imutável Repouso sobre o qual o estéril cortejo de suas imagens foi projetado em vão. O mudo Shankara, o inativo Eu e sua Maya de muitos nomes e formas são igualmente entidades díspares e inconciliáveis; seu rígido antagonismo só pode terminar pela dissolução da múltipla ilusão na Verdade única de um Silêncio eterno.

O materialista tem diante de si uma tarefa mais fácil; é-lhe possível  negar o Espírito, para chegar a uma mais convincente simplicidade de  afirmação, um Monismo real, o Monismo da Matéria ou da Força. Mas é-lhe impossível persistir permanentemente nessa rigidez de critério. Ele também acaba por pressupor o incognoscível inerte, tão distante do universo conhecido como o passivo Purusha ou o silencioso Atman. Isso não tem nenhum propósito salvo o de adiar – por uma vaga concessão – as inexoráveis exigências do Pensamento, ou servir como desculpa para a recusa em estender os limites da investigação.

Por isso, nessas contradições estéreis, a mente humana não pode descansar satisfeita. Ela deve sempre buscar uma afirmação completa, e só pode encontrá-la mediante uma luminosa reconciliação entre Matéria e Espírito. Para alcançar essa reconciliação, deve passar pelos graus que nossa consciência interior nos impõe e, seja pelo método objetivo de análise aplicado à Vida e à Mente, seja pela síntese e a iluminação subjetivas, chegar ao repouso da unidade última sem negar a energia da multiplicidade manifesta.  Somente com essa completa e universal afirmação podem harmonizar-se todos os multiformes e aparentemente contraditórios dados da existência, e as múltiplas forças em conflito que governam nosso pensamento e nossa vida podem descobrir a Verdade central que aqui simbolizam e de várias formas realizam. Só então nosso Pensamento pode, tendo alcançado um verdadeiro centro, cessar de andar em círculos, trabalhar como o Brahman do Upanishad, fixo e estável  mesmo em sua forma lúdica e em sua corrida mundial, e nossa vida, conhecendo  seu objetivo, servi-lo com firme e serena alegria e luz, assim como com uma energia ritmicamente discursiva.

Mas quando esse ritmo for perturbado, será necessário e útil que o homem teste separadamente, em sua afirmação extrema, cada um dos dois grandes opostos. Esse é o meio natural da mente de retornar mais perfeitamente à afirmação que perdeu. No meio do caminho pode tentar descansar nos graus intermediários, reduzindo todas as coisas aos termos de uma Vida-Energia original, de sensação ou de Idéias; porém todas essas soluções excludentes têm sempre um ar de irrealidade.  Podem, por um tempo, satisfazer a razão lógica, que só trabalha com idéias puras, mas não podem satisfazer o sentido de realidade da mente. Pois a mente sabe que existe algo atrás de si que não é a Idéia, sabe, por outro lado, que dentro de si há algo que é mais que a Respiração vital. Tanto o Espírito como a Matéria podem oferecer, transitoriamente, um sentido de realidade última; não pode fazê-lo qualquer dos princípios intermediários. Por  isso, eles devem dirigir-se aos dois extremos antes de regressar frutiferamente ao todo. Pois, por sua própria natureza – servido por um sentido que só pode perceber com clareza as partes da existência e por uma linguagem que, igualmente, só pode obter clareza quando cuidadosamente separa e limita – o intelecto é dirigido, tendo diante de si essa multiplicidade de princípios elementais, a buscar a unidade reduzindo tudo, rudemente, aos termos de um.  Para afirmar esse um,  tenta praticamente desembaraçar-se dos outros. Para perceber a verdadeira fonte de identidade desses princípios sem esse processo excludente, ele deve ou ter  ultrapassado a si mesmo ou ter completado o circuito apenas para descobrir que todos se reduzem igualmente a Aquilo, que escapa a definições ou descrições e que não só é real mas também alcançável. Qualquer que seja o caminho por onde viajemos,  Aquilo é sempre a meta que alcançaremos, e só podemos evitá-la se recusar-mo-nos a completar o trajeto.

Por isso, é de bom augúrio que, após muitos experimentos e soluções verbais,nós nos encontremos  agora em presença em presença dos dois que suportaram sozinhos,durante muito tempo, as mais rigorosas provas de experiência, os dois extremos; e que ao final da experiência ambos tenham chegado a um resultado que o instinto universal da humanidade – esse juiz oculto,sentinela e representante do Espírito da Verdade universal – se recusa a aceitar como correto ou satisfatório. Na Europa e na Índia, respectivamente, a negação do materialista e a recusa do asceta procuraram afirmar-se como verdade única e dominar a concepção de vida. Na Índia, se o resultado se constituiu numa grande acumulação dos tesouros do Espírito – ou de alguns deles – também representou uma grande falência da Vida; na Europa, a abundância de riquezas e o domínio triunfante dos poderes e posses deste mundo progrediu rumo a uma igual bancarrota nas coisas do Espírito. Nem o intelecto, que buscava a solução de todos os problemas no termo único da Matéria, encontrou satisfação na resposta que recebeu.

Por isso, o tempo faz amadurecer e a tendência mundial se move em direção a uma nova e compreensiva afirmação no que concerne ao pensamento e à experiência interna e externa, e ao seu corolário, uma nova e rica auto-realização numa existência humana integral, para o indivíduo e para a espécie.

Da diferença nas relações de Espírito e Matéria com o Incognoscível que ambos representam, surge uma diferença de eficácia nas negações material e espiritual. A negação do materialista, embora mais insistente e de sucesso imediato, mais fácil em seu apelo à generalidade da espécie humana, é no entanto menos durável, menos efetiva, finalmente, que a absorvente e perigosa recusa do asceta. Pois carrega em si mesma a sua própria cura. Seu elemento mais poderoso é o Agnosticismo, que, admitindo o Incognoscível por trás de toda manifestação, estende os limites do incognoscível até a compreensão do que é meramente desconhecido. Sua premissa é  que os sentidos físicos são a nossa única forma de Conhecimento, e que a Razão, por isso, mesmo em seus mais extensos e vigorosos vôos, não pode escapar para além de seu domínio; ela tem que lidar sempre e somente com os fatos que eles fornecem ou sugerem; e mesmo as sugestões devem sempre estar vinculadas às suas origens; não se pode ir além, não podemos usá-las como uma ponte para um domínio em que faculdades mais poderosas e menos limitadas entrem em ação e outro tipo de investigação tenha que ser instituído.

Uma premissa tão arbitrária contém em si mesma sua própria declaração de insuficiência. Só pode ser mantida ignorando-se ou descartando todo o vasto campo de evidência e experiência que a contradiz, negando ou minimizando nobres e úteis faculdades, ativas consciente ou obscuramente ou, no pior dos casos, latentes em todo ser humano, e recusando-se a investigar fenômenos suprafísicos, exceto se manifestados em relação com a matéria e seus movimentos e concebidos como uma atividade subordinada às forças materiais. Assim que começamos a investigar as operações da mente da supramente, nelas mesmas e sem o preconceito, determinado desde o início, de ver nelas apenas um termo subordinado da Matéria, entramos em contato com um conjunto de fenômenos que escapam inteiramente ao controle rígido, ao dogmatismo limitador da fórmula materialista. E no momento em que reconhecemos - pois nossa ampla experiência nos compele a reconhecer – que existem no universo realidades cognoscíveis que estão além do alcance dos sentidos e no homem poderes e faculdades que determinam, em vez de serem determinados pelos órgãos materiais através dos quais eles mantém contato com os com o mundo dos sentidos – essa concha externa de nossa verdadeira e completa existência - a premissa do Agnosticismo materialista desaparece. Estamos prontos para uma afirmação maior e uma investigação sempre em desenvolvimento.

Mas, primeiro, é bom que reconheçamos a enorme, a indispensável utilidade do breve período de Materialismo racionalista pelo qual a humanidade esteve passando. Pois esse  vasto campo de evidência e experiência, que  agora começa a reabrir seus portões para nós, só pode ser adentrado com segurança quando o intelecto foi severamente treinado para uma clara austeridade; se adentrado por mentes imaturas, prestar-se-á  a perigosas distorções e idéias enganosas, e, realmente, no passado, incrustou-se um real núcleo de verdade com tal acréscimo de superstições deturpantes e dogmas irracionalizantes, que tornou-se impossível qualquer avanço em direção ao verdadeiro conhecimento. Tornou-se necessário, por  um certo tempo, fazer uma limpeza completa da verdade e de sua máscara, com a intenção de clarear o caminho para uma nova partida e um avanço mais seguro. A tendência racionalista do Materialismo rendeu à humanidade esse grande serviço.

Pois as faculdades que transcendem os sentidos, pelo próprio fato de estarem imersas na Matéria, destinadas a trabalhar num corpo físico, com os arreios postos para dirigir um carro em que também atuam os desejos emocionais e os impulsos nervosos, estão expostas a um funcionamento misto, em que correm o risco de iluminar a confusão em vez de esclarecer a verdade. Esse funcionamento misto resulta especialmente perigoso quando homens com mentes  indisciplinadas e sensibilidades impuras tentam escalar os domínios mais altos da experiência espiritual. Em que regiões de nuvens insubstanciais e névoa semibrilhante, ou trevas visitadas por clarões que cegam mais do que iluminam, eles não se perderiam nessa aventura prematura e temerária! Uma aventura certamente necessária dado o modo como a Natureza escolheu  efetuar seu avanço – pois ela se diverte enquanto trabalha – porém ainda, para a Razão, prematura e temerária.

É necessário, por isso, que o Conhecimento que avança tenha sua base sobre um intelecto claro, puro e disciplinado. É necessário, também, que ele corrija seus erros mediante um retorno, às vezes, às restrições do fato sensível, as realidades concretas do  mundo físico. O toque terreno é sempre revigorante para o filho da Terra, mesmo quando ele busca um Conhecimento suprafísico. Pode ser dito também que o suprafísico só pode ser dominado completamente – até as alturas que sempre podemos  alcançar – quando mantemos os pés firmemente pregados no físico. “A Terra é  a Sua base” [2], diz o Upanishad sempre que representa o Eu que se manifesta no universo. E      é certo que, quanto mais ampliamos e tornamos seguro nosso conhecimento do mundo físico, mais amplo e seguro será o nosso fundamento para obter o conhecimento superior, mesmo o mais alto, mesmo o Brahmavidya.

Por isso, ao emergir do período materialista do Conhecimento humano, devemos ter o cuidado de não condenar temerariamente o que estamos deixando para trás ou descartando, nem mesmo uma partícula de suas conquistas, antes que possamos dispor de percepções e poderes bem seguros para ocupar o seu lugar. Ao invés disso, deveríamos observar com respeito e admiração o que o trabalho que o Ateísmo fez pelo Divino e admirar o serviço que o Agnosticismo rendeu, preparando o crescimento ilimitável do conhecimento. Em nosso mundo, o erro é continuamente o servidor e o ‘achador do caminho’ da Verdade;  pois o erro é na realidade uma meia-verdade que tropeça por causa de suas limitações; muitas vezes é a Verdade que usa um disfarce para chegar, sem ser percebida, ao seu objetivo. Estaria bem se o erro pudesse ser sempre,  como foi no grande período que estamos deixando para trás, o fiel servidor, severo, consciencioso, honrado, brilhante dentro de seus limites, uma meia-verdade e não uma irrefletida e presunçosa aberração.

Certo gênero de Agnosticismo é a verdade final de todo o conhecimento. Pois quando chegamos ao final de qualquer caminho, o universo aparece como apenas um símbolo ou a aparência de uma realidade incognoscível que se traduz aqui em diferentes sistemas de valores, valores físicos, valores vitais e sensoriais, valores intelectuais, ideais e espirituais. Quanto mais Aquilo se torna real para nós, mais parece estar sempre além do pensamento definidor e além da expressão formuladora. “A Mente não chega até aqui, nem a linguagem” [3].  E no entanto, como é possível exagerar, com os Ilusionistas, a irrealidade da aparência, também é possível exagerar a incognoscibilidade do Incognoscível. Quando falamos dele como Incognoscível, queremos dizer, na realidade, que ele escapa ao alcance de nosso pensamento e de nosso discurso, instrumentos que procedem sempre pela diferenciação e expressam em forma de definição; mas, se não é cognoscível pelo pensamento, Ele é alcançável por um supremo esforço de consciência. Existe, inclusive, um gênero de conhecimento que é uno com a Identidade e através do qual, num certo sentido, Ele pode ser conhecido. Certamente, esse Conhecimento não pode ser reproduzido exitosamente em termos de pensamento e linguagem, mas, quando o alcançamos, o resultado é uma reavaliação d’Aquilo com os símbolos de nossa consciência cósmica, não só com um, mas com todas as cadeias de símbolos, o que culmina numa revolução de nosso ser interno e, através do interno, de nossa vida externa. Além disso, há também um gênero de conhecimento através do qual Aquilo se revela com todos os nomes e formas da existência fenomênica, que, para a inteligência ordinária, apenas O oculta. É esse processo superior mas não supremo do Conhecimento que podemos alcançar passando dos limites da fórmula materialista e escrutando Vida, Mente e Supramente nos fenômenos que são característicos delas, e não meramente naqueles  movimentos subordinados pelos quais eles se ligam à Matéria.

O Desconhecido não é o Incognoscível [4]; ele não necessita permanecer desconhecido para nós, a menos que optemos pela ignorância ou persistamos em nossas limitações primeiras. Pois, a todas as coisas que não são incognoscíveis todas as coisas no universo, correspondem, nesse universo, faculdades pelas quais se pode  tomar conhecimento delas,e no homem, o microcosmo, essas faculdades são sempre existentes e, num certo estágio, capazes de desenvolvimento. Podemos optar por não desenvolvê-las; onde estão parcialmente desenvolvidas, podemos desencorajá-las e impor nelas uma espécie de atrofia. Mas, fundamentalmente, todo conhecimento possível é um conhecimento acessível à humanidade. E como no homem há o impulso inalienável da Natureza em prol da auto-realização, nenhuma luta do intelecto para limitar a ação de nossas capacidades, numa determinada área, pode  prevalecer para sempre.  Quando tivermos experimentado a Matéria e percebido suas secretas possibilidades, o verdadeiro conhecimento – para o qual foi conveniente aquela temporária limitação de faculdades – vai gritar-nos, como os Guardiões Védicos: "Para diante agora,avance também em outros campos [5]."

Se o Materialismo moderno fosse simplesmente uma ignorante aceitação da vida material, o avanço seria infinitamente adiado. Mas como sua verdadeira alma é a busca do Conhecimento, será incapaz de pedir parada; no momento em que alcançar as barreiras entre sensação e conhecimento, e o raciocínio a partir de sensação –conhecimento, seu próprio ímpeto o levará além, e a rapidez e a segurança com que abraçou o universo visível é apenas um avanço de energia e êxito que esperamos que se repita na conquista do que vem adiante, uma vez que foi dado o passo para cruzar a barreira. Já vemos esse avanço em seus obscuros começos.

Não só em sua concepção final, mas na grande linha de seu resultado geral, o Conhecimento, em qualquer caminho que tome, tende a se tornar uno. Nada é mais notável e sugestivo que a extensão até a qual a Ciência moderna confirma, no campo da Matéria, as concepções e até as fórmulas de linguagem a que se chegou por um método muito diferente, no Vedanta – o Vedanta original, não o das escolas de filosofia metafísica, e sim o dos Upanishads. E estes, por outro lado, muitas vezes só revelam seu completo significado, seus conteúdos mais ricos, quando são vistos à nova luz emitida pelas descobertas da moderna Ciência – por exemplo, aquela expressão Vedântica que descreve as coisas no Cosmos como uma semente disposta pela Energia universal em múltiplas formas [6].  Especialmente significativo é o esforço da Ciência em  direção a um Monismo que é compatível com a multiplicidade, em direção à idéia Védica da essência una com suas múltiplas derivações. Mesmo se insistirmos na aparência dualística de Matéria e Força, isso não se coaduna com esse Monismo. Pois se tornará evidente que a Matéria essencial é algo inexistente para os sentidos, e é apenas, como o Pradhana dos Sankhias, uma forma conceitual de substância; e, de fato, é cada vez mais firme a conclusão de que apenas uma distinção arbitrária do pensamento  separa a forma da substância da forma da energia.

A Matéria se expressa a si mesma, por fim, como a formulação de alguma Força desconhecida. A Vida também, aquele  mistério insondado, começa a revelar-se como uma obscura energia de sensibilidade aprisionada em sua formulação material; e quando a ignorância divisória for curada, aquela que nos dá a sensação de um abismo entre Vida  Matéria,será difícil supor que Mente, Vida e Matéria sejam outra coisa senão uma Energia triplamente formulada, o triplo mundo dos profetas védicos.Também não poderá persistir o conceito de uma força bruta material como a mãe da Mente. A Energia que cria o mundo só pode ser nada mais que uma Vontade, e Vontade é apenas consciência aplicada a um trabalho e a um resultado.

Que são esse trabalho e esse resultado, senão uma auto-involução da Consciência na forma e uma auto-evolução fora da forma, como que para realizar alguma poderosa possibilidade no universo que ela criou? E o que é essa Vontade no Homem senão a vontade de ter  Vida infinita, Conhecimento ilimitado, Poder sem amarras? A própria ciência começa a sonhar com a conquista física da morte, expressa uma sede insaciável de conhecimento, está realizando algo como uma onipotência terrestre para a humanidade. O Espaço e o Tempo estão se até o ponto de fuga *, lutando de cem modos distintos para fazer do homem o mestre das circunstâncias e, assim, iluminar os grilhões da causalidade. A idéia do limite, do impossível, começa a surgir meio indistintamente,e o que aparece, em vez dela, é que o que quer que o homem deseje constantemente, ele será ao final capaz de realizar; porque a consciência da espécie finalmente achará os meios.  E ainda quando olhamos mais profundamente, não é qualquer Vontade consciente da coletividade, mas um Poder supraconsciente que usa o indivíduo como centro e meio, e a coletividade como condição e campo. E o que é isso, senão Deus no homem, a Identidade infinita,a Unidade múltipla, o Onisciente, o Onipotente que, tendo feito o homem à Sua própria imagem, com o ego como centro de funcionamento, com a espécie, o coletivo Narayana [7], o vi´svamãnava [8] como molde e circunscrição, procura expressar nestes alguma imagem da unidade, da onisciência, da onipotência que são a auto-concepção do Divino? “O que é imortal nos mortais é um Deus, estabelecido intimamente como uma energia operando em nossos poderes divinos” [9]. É a esse vasto impulso cósmico que o mundo moderno, sem conhecer suficientemente seu próprio objetivo, ainda serve, em todas as suas atividade e labores, subconscientemente, para realizá-lo.

Mas há sempre um limite e um entrave  - o limite do campo material no Conhecimento, o entrave do a maquinário material no Poder. No entanto, aqui também  a última tendência é altamente significativa de um futuro mais livre. Assim como os postos avançados do conhecimento Científico se assentam cada vez mais nas fronteiras que separam o material do imaterial, também as mais altas conquistas Da Ciência prática são as que tendem a simplificar e reduzir ao ponto de fuga* o maquinário pelo qual os maiores efeitos são produzidos. A telegrafia sem fio é um sinal exterior da Natureza e um pretexto para uma nova orientação. O meio físico sensível para a transmissão intermediária da força física é removido; só é preservado nos pontos de impulsão e recepção. Com o tempo, até estes vão desaparecer; pois, quando as leis e as forças do suprafísico forem estudadas do correto ponto de partida, infalivelmente será encontrado pela Mente, diretamente, o meio de aproveitar a energia física e despachá-la velozmente, com exatidão, conforme a sua ordem. Aí – se pudermos reconhecê-los – estão os portões que se abrem em direção às enormes perspectivas do futuro.

Mas, mesmo se tivéssemos o conhecimento completo e o controle dos mundos imediatamente acima da Matéria, ainda haveria uma limitação e ainda um além. O último nó de nossa escravidão está no ponto em que o externo puxa para uma unidade com o interno, o maquinário do próprio ego se sutiliza até o ponto de fuga(*) e a lei de nossa ação é, por fim, unidade abraçando e possuindo a multiplicidade, e não mais, como agora, multiplicidade lutando contra alguma imagem da unidade. Aí está o trono central do Conhecimento cósmico contemplando seu mais vasto domínio; aí o Império de si mesmo com o império do seu mundo [10]; aí a vida no Ser eternamente consumado [11] e a realização de Sua divina natureza [12] em nossa existência humana.

 

Notas:

(*) Vanishing-point significa ponto de fuga, se retiramos o traço fica “vanishing point” – ponto de desaparecimento. Se o autor aplicou-se em colocar o traço, é porque, evidentemente, queria ressaltar a diferença, e não quer dizer, como sucede em alguma tradução, que o Tempo e o Espaço desaparecem (primeiro dos asteriscos).Preferimos deixar a tradução literal, já que essa expressão pode sugerir diversas interpretações. Ponto de fuga, para o desenho técnico, na projeção cônica, é o ponto sobre o horizonte, para o qual se dirigem todas as linhas horizontais, quebrando o seu paralelismo, para dar a sensação de profundidade, e, ao mesmo tempo, é o ponto-de-vista do observador; seria, ao mesmo tempo, o zero e o infinito. A contração do campo espaço-temporal parece indicar uma qualidade do mesmo, como a possibilidade de acelerar a evolução humana, acelerando a chegada do futuro.

O dicionário de termos hindus da Sociedade Teosófica diz sobre o zero:

“Seu símbolo, o círculo, representa ao mesmo tempo nada e tudo; é o símbolo do infinito ilimitado; e um círculo pode ser definido como uma única linha não-dividida e não-terminada, ou como um número infinito de linhas infinitamente curtas. Os finais se encontram, não há nenhuma diferença essencial entre o infinitamente grande e o infinitesimal. O ponto zero é o ponto de fuga, o laya ou   estado neutro. Em matemática, esta é a posição neutra entre a série de números negativos e positivos. É também o estado neutro da matéria entre dois planos; quando a matéria física é reduzida a zero ou ao estado laya, ela está pronta a manifestar-se sobre o plano seguinte, mais alto, ou vice-versa. O mesmo se aplica à consciência e a seus planos.

Damos importância a esta nota porque, nos últimos parágrafos deste capítulo, a expressão “vanishing-point”, que só aparece três vezes em toda “A Vida divina”,precisamente aparece as citadas vezes na página anterior a esta nota, sem voltar a ser citada em toda a obra, havendo sido sublinhada pelo tradutor, não aparecendo esse sublinhado no original.

[1] III.1, 2.

[2] "Padbhyám prthví" - Mundaka Upanishad. II. 1. 4.

“PrithivI pájasyam" - Brihadaranyaka Upanishad. I. 1. 1.

[3] Kena Upanishad. I.3.

[4] Isso difere do conhecido; também está acima do desconhecido - Kena Upanishad. I.3.

[5] Rig Veda. I. 4. 5.

[6] Swetaswatara Upanishad. VI. 12.

[7] Um dos nomes de Vishnu, que, como o Deus no homem, vive constantemente associado em unidade dual com Nara, o ser humano.

[8] O homem universal.

[9] Rig Veda. IV.2.1.

[10] Svárajya y Sámrájya, o duplo objetivo proposto a si mesmo pelo Yoga positivo dos antigos.

[11] Sálokya-mukti, liberação mediante existência consciente em um mun­do do ser com o Divino.

[12] Sádharmya-mukti, liberação assumindo a Natureza Divina.


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Capítulo III


AS DUAS NEGAÇÕES

2

A renúncia do asceta


"Tudo isso é o Brahman; este Eu é o Brahman e o Eu é quádruplo.

Além de toda relação, incolor, impensável, em que tudo está imóvel."

Mandukya Upanishad [1]

 

E AINDA existe um além.

Pois do outro lado da consciência cósmica existe uma consciência ainda mais transcendente, acessível para nós - transcendente não só para o Ego como também para o próprio Cosmos - contra a qual o universo parece sobressair-se como uma pequenina pintura contra um in­comensurável fundo. Ela (essa consciência) suporta a atividade universal - ou talvez apenas a tolera; Isso (ela) abraça a Vida em Sua vastidão - ou então a rejeita, em Sua Infinitude.

Se o materialista se justifica, do seu ponto-de-vista, insistindo na Matéria como realidade, o mundo relativo como a única coisa sobre a qual podemos, de certo forma, estar seguros, e o Além como totalmente incognoscível, senão realmente inexistente, um sonho da mente, uma abstração do Pensamento que se divorcia da realidade, assim também  o Sannyasin (Asceta), enamorado desse Além, justifica-se, do seu ponto-de-vista, insistindo no puro Espírito como realidade, a única coisa livre de mudança, nasci­mento, morte, e o mundo relativo como uma criação da mente e dos sen­tidos, um sonho, uma abstração no sentido contrário ao da Mentalidade retirando-se do puro e eterno Conhecimento.

Que justificação, lógica ou experimental, pode ser dada para apoiar um extremo que não encontra uma lógica convincente e uma experiência igualmente válida no outro extremo? O mundo da Matéria é afirmado pela experiência dos sentidos físicos, que, por serem eles mesmos incapazes de perceber algo imaterial ou não-organizado como a Matéria bruta, iriam  persuadir-nos de que o suprassensível é irreal. Este erro rústico ou vulgar de nossos órgãos corporais não ganha valor por ser promovido ao campo do raciocínio filosófico. Sua pretensão, obviamente, é infundada. Mesmo no mundo da Matéria, há existências das quais os sentidos físicos são incapazes de tomar conhecimento. Mas a negação do suprassensível, considerando-o necessariamente uma ilusão ou uma alucinação, depende da constante associação sensorial do real com o materialmente perceptível, o que  é também uma alucinação. Presumindo todo o tempo o que ele procura estabelecer, cai no vício do argumento em círculos e não tem valor como raciocínio imparcial.

Não só existem realidades físicas que são suprassensíveis, como, se a evidência e a experiência são realmente um teste para a verdade, há também sentidos que são suprafísicos [2] e pertencentes a um outro mundo - incluídos, por assim dizer, numa organização de experiências conscientes que dependem  de outro princípio que não a Matéria bruta da qual nossos sóis e terras parecem feitos.

Constantemente afirmada pela experiência humana e a  hu­mana crença desde as origens do pensamento, essa verdade, agora que a preocupação exclusiva com os segredos do mundo material já não existe, começa a ser justificada por novas formas de raciocínio científico. As crescentes evidências, das quais só as mais óbvias e explícitas se colocam sob a denominação de telepatia e fenômenos derivados, não podem ser negadas a não ser  por mentes enclausuradas na brilhante concha do passado, por intelectos limitados, apesar de sua acuidade, no seu campo de experiência e investigação, ou por aqueles que confundem iluminação e razão com a fiel repetição de fór­mulas legadas por um século passado e pela ciumenta conservação de dogmas intelectuais mortos ou agonizantes.

É certo que o vislumbre de realidades suprafísicas adqui­rido através de pesquisa metódica foi imperfeito e ainda é mal afirmado; pois os métodos usados são ainda defeituosos. Mas estes sentidos sutis redescobertos ao menos revelaram-se verdadeiras testemunhas dos fatos físicos que estão além do alcance dos órgãos corporais. Então não se justifica rejeitá-los como falso testemunho, quando eles confirmaram os fatos suprafísicos que estão além do campo da organização material da consciência. Como toda evidência, como a própria evidência dos sentidos, seu testemunho tem que ser controlado, escrutinado e ordenado pela razão, corretamente traduzido e corretamente relatado, e seu campo, leis e processos, determinados. Mas a verdade das grandes extensões de experiência cujos objetos existem  numa substância mais sutil e são percebidos por instrumentos mais sutis do que aqueles da física Matéria bruta, reclama no final o mesmo valor que a verdade do universo material. Os mundos que estão além existem: eles têm seu ritmo universal, suas grandes linhas e formações, suas leis e energias auto-existentes poderosas, seu justo e luminoso  meio de conhecimento. E aqui em nossa existência física e em nosso corpo físico eles exercem sua influência; é aqui também que eles organizam seu meio de manifestação e comissionam seus mensa­geiros e suas testemunhas.

Mas os mundos não são se não molduras para nossa experiência e sentidos, apenas instrumentos de experiência e conveniências. A Con­sciência é o grande fato subjacente, a testemunha universal para a qual o mundo é um campo de ação, e os sentidos, instrumentos. Para essa testemunha, os mundos e seus objetos apelam por sua realidade, pois tanto o único mundo como os muitos mundos, não temos outra evidência de que existam, tanto o físico como o suprafísico. Argumentou-se que isso não é uma relação peculiar entre a constituição da humanidade e sua pers­pectiva de um mundo objetivo, e sim a verdadeira  natureza da existência; toda  existência fenomênica consiste em uma consciência observadora mais, e a Ação não pode proceder sem a Testemunha, porque o Universo só existe na ou para a consciência que observa, e não tem realidade independente. Foi argumentado, em resposta, que o universo material desfruta de uma auto-existência eterna; ele estava aqui antes que  a vida e a mente fizessem sua aparição: ele irá sobreviver depois que elas tiverem desaparecido e já não estejam perturbando - com suas dispustas efêmeras e pensamentos limitados - o ritmo eterno e inconsciente dos sóis. A diferença, tão metafísica em aparên­cia, é porém de suprema importância prática, pois ela determina a visão que o homem tem da vida, o objetivo ao qual se dirigirão seus esforços e o campo no qual ele circunscreverá suas energias. Pois aí surge a questão da realidade da existência cós­mica e, ainda mais importante, a questão do valor da vida humana.

Se levamos muito longe a conclusão materialista, chegaremos a uma insignificância e uma irrealidade na vida do indivíduo e da espécie que nos deixarão, logicamente, a opção entre um esforço fer­voroso do indivíduo por “agarrar” o que puder de uma existência efêmera, por “viver sua vida”, como se diz, e um serviço desapaixonado e sem ob­jetivo da espécie e do indivíduo, sabendo-se que este último é uma ficção efêmera da mentalidade nervosa, e o anterior, nada mais que uma forma coletiva, um pouco mais duradoura, do mesmo espasmo nervoso regular da Matéria. Nós trabalhamos e desfrutamos sob o impulso de uma energia material que nos decepciona com a breve ilusão da vida ou com a mais nobre ilusão de um objetivo ético e de uma consumação mental. O Materialismo, como o Monismo espiritual, conduz-nos a uma Maya que é e não é – é, porque é presente e compulsiva, e não é, porque é fenomênica e transitória em suas obras. Por outro lado, se acentuamos demasiado a irrealidade do mundo objetivo, chegaremos por um caminho diferente, a conclusões semelhantes porém ainda mais incisivas - o caráter fictício do Ego individual, a irrealidade e a falta de propósito da existência humana, o retorno ao Não-Ser ou Absoluto sem relações como único escape racional da confusão desprovida de sentido da vida fenomênica.

E no entanto, a questão não pode ser resolvida pelo argumento lógico com base nas informações de nossa existência física ordinária; pois nessas informações há um hiato de experiência que torna qualquer argumento inconclusivo. Não temos, normalmente nem a experiência definitiva de uma mente cósmica ou supramente não-ligada à vida do corpo individual, nem, por outro lado, nenhum limite firme de experiência que nos justificaria, supondo que nosso Eu subjetivo realmente depende da moldura física e não pode nem sobreviver a ela nem alargar-se além do corpo individual. Só por uma extensão do campo de nossa consciência ou com um inesperado aumento de nossos instrumentos de conhecimento a antiga querela poderá ser decidida.

A extensão de nossa consciência, para ser satisfatória, tem de ser necessariamente um prolongamento do indivíduo para a consciência cósmica. Para a Testemunha, se ela existe, não é a mente corporificada individual nascida no mundo, mas aquela Consciência Cósmica que abarca o universo e aparece como uma Inteligência imanente em todas suas obras, para qual cada mundo subsiste eternamente e realmente como Sua própria existência ativa, ou então da qual ele nasce e na qual ele des­aparece por um ato de Conhecimento ou por um ato de Poder consciente. Não uma Mente organizada, mas aquela que, calma e eterna, paira igualmente sobre a terra vivente e o corpo humano vivente, e para a qual mente e sentidos são instrumentos dispensáveis, e esse é a Testemunha da existência cósmica e o seu Senhor.

A possibilidade de uma consciência cósmica na humanidade esta sendo pouco a pouco admitida  na moderna Psicologia, como também a possibilidade de instrumentos de conhecimento mais flexíveis de conhecimento, embora ainda não-classificados, mesmo quando seu valor e poder são admitidos, como uma alucinação. Na psicologia oriental, isso sempre foi reconhecido como realidade e como a meta de nosso progresso subjetivo. A essência da superação dessa meta é a ultrapassagem dos limites impostos em nós pelo ego-sentido, e pelo menos um compartilhamento, no máximo uma identificação do autoconhecimento-do-ser que paira secreto sobre toda a vida e sobre tudo o que parece a nós ser inanimado.

Entrando nessa Consciência, podemos continuar a habitar, como Ela, a existência universal. Então tornamo-nos conscientes — pois todos os nossos termos de consciência e mesmo nossas ex­periências sensoriais começam a mudar— da Matéria como uma existência e dos corpos como suas formações, nas quais a existência una separa-se fisicamente, no corpo individual, de si mesma e em todos os demais, e, novamente por meios físicos, estabelece comunicação entre estes múltiplos pontos de seu ser. A Mente, experimentamo-la de forma semelhante, e a Vida também, como a mesma existência una em sua multiplicidade, separando-se e reunindo-se em cada domínio como por meios apropriados a esse movi­mento. E, se desejamos, podemos ir além e, após atravessar muitas etapas conexas, tornar-nos conscientes de uma Supramente cuja operação universal é a chave para todas as atividades menores. Não nos tornamos meramente conscientes dessa existência cósmica, mas igualmente conscientes nela, recebendo-a em sensação, mas também entrando nela em conhecimento. Nela vivemos como vivíamos no Ego-sentido, ativamente, cada vez mais em contato, até mesmo unificados mais e mais com outras mentes, outras vidas, outros corpos distintos do organismo que chamamos de nós, produzindo efeitos não só em nosso ser moral e mental e no ser subjetivo de outros, mas também no mundo físico e seus eventos por meios mais próximos do divino que aqueles possíveis para nossa capa­cidade egoísta.

Real, então, para o homem que teve contato com ela ou vive nela, é essa consciência cósmica, de uma realidade maior que a física; real em si mesma, real em seus efeitos e obras. E como ela é dessa forma real para o mundo, que é a sua própria expressão total, dessa mesma forma o mundo é real para ela; mas não como uma existência inde­pendente. Pois, nessa experiência superior e sem obstáculos, per­cebemos que ser e consciência não são diferentes um do outro, e sim todo ser é uma consciência suprema, toda consciência é autoexistente, eterna em si mesma, real em suas obras e nem um sonho nem uma evolução. O mundo é real precisamente porque ele existe somente em consciência; pois é uma Energia Consciente uma com o Ser que o cria. É a exis­tência da forma material por seu próprio direito, diferente da energia auto-iluminada que assume a forma que seria uma contradição em relação à verdade das coisas, uma fantasmagoria, um pesadelo, uma falsidade impossível.

Mas este Ser Consciente que é a verdade da infinita Supramente, é mais que o Universo e vive independentemente em Sua inexpressiva infinitude, bem como nas harmonias cósmi­cas. O mundo vive através Dele; Ele não vive através do mundo. E, assim como podemos entrar na consciência cósmica e ser uno com a existência cósmica, também podemos entrar na consciência que transcende ao mundo e tornarmo-nos superiores a toda a existência cósmica. Então ressurge a questão que nos ocorreu em princípio, se essa transcendência é também, necessariamente, uma renúncia. Que relação tem este universo com o Além?

Pois, nos portões do transcendente acha-se aquele Espírito simples e perfeito descrito nos Upanishads, luminoso, puro, sustentando o mundo mas inativo nele, sem fibras de energia, sem imperfeição de dualidade, sem marcas de divisão, único, idêntico, livre de toda a aparência de divisão ou de multiplicidade - o puro Eu dos Ad­waitins [3], o inativo Brahman, o transcendente Silêncio. E a Mente, quando passa por estes portões repentinamente, sem transições inter­mediárias, recebe um senso de irrealidade do mundo e da única realidade do Silêncio, que é uma das mais poderosas e convincentes experiências das quais é capaz a mente humana. Aqui, na per­cepção desse puro Eu ou do Não-Ser  por trás dele, temos o ponto de partida para a segunda negação ― paralela, no outro pólo, ao materialista, porém mais completa, mais definitiva, mais perigosa em seus efeitos sobre os indivíduos ou coletividades que ouvem seu poderoso chamado para o deserto — a renúncia do asceta.

É essa a revolta do Espírito contra a Matéria que, por dois mil anos — desde o Budismo perturbou o equilíbrio do velho mundo ariano — dominou crescentemente a mente indiana. Não que o senso da ilusão cósmica seja o total do pensamento indiano; há outras afirmações filosóficas, outras aspirações reli­giosas. Tampouco um ajuste entre os dois termos foi tentado mesmo pelas filosofias mais radicais. Mas todos viveram na sombra da grande Renúncia e do término da vida, pois essa é a atitude do asceta. A concepção da vida foi impregnada com a teoria budista da cadeia do karma e com a conseguinte antinomia da escravidão e liberação, escravidão por nasci­mento, liberação por cessação do nascimento. Por isso, todas as vozes se juntaram num grande consenso: não é neste mundo de dua­lidades que acontecerá o nosso reinado celestial, senão no mais além, nas beatitudes do eterno Vrindavan [4] ou na superior bem-aventurança de Brahmaloka [5], além de todas as manifestações nalgum inefável Nirvana [6], ou onde toda a experiência individual se perde na indis­tinta unidade da Existência indefinível. E por muitos séculos, um grande exército de brilhantes testemunhas, santos e mestres, nom­es sagrados para a memória da Índia e dominantes na imaginação indiana, mantiveram sempre o mesmo testemunho e acrescentaram sempre o mesmo sublime e distante apelo - renúncia como o único caminho para o conhecimento, a aceitação da vida física seria o ato do ignorante, a cessação dos nascimentos como o uso correto do nasci­mento humano, o chamado ao Espírito, o recuo em relação à Matéria.

Para uma era isenta de simpatia para com o espírito ascético — e através de todo o resto do mundo, a hora do Anacoreta (religioso que vive em solidão) parece ter passado ou está passando ―é fácil atribuir esta grande tendência à falta de energia vital numa antiga raça esgotada em razão de seu fardo, sua vasta contribuição ao avanço comum; exausta por sua multifacetada contribuição ao conjunto do esforço humano e ao humano conhecimento. Mas vimos que isto corresponde a uma verdade na existência, um estado de realização consciente que se encontra no verdadeiro ápice de nossas possibilidades. Na prática, também o espírito ascético é um elemento indispensável da perfeição humana, e não se pode evitar até mesmo a sua afirmação isolada até que a espécie tenha, por outro lado, liberado seu intelecto e seus hábitos vitais da sujeição a um sempre insistente animalismo.

Buscamos, na verdade, uma afirmação maior e mais completa. Percebemos, que no ideal ascético indiano, a grande fórmula Vedân­tica, “Um sem um segundo”, não foi suficientemente lida à luz daquela outra fórmula igualmente imperativa: “Tudo isso é o Brahman". A aspiração apaixonada do homem em direção ao Divino não foi suficientemente relacionada com o movimento descendente do Divino, inclinando-se para baixo para abraçar eternamente Sua manifestação. Seu significado na Matéria não foi suficientemente compreendido, como Sua verdade no Espírito. A Realidade que o Sannyasin (Asceta) busca foi captada em sua plena elevação, mas não, como dizem os antigos Vedantas, mas não em sua completa extensão e compreensão. Mas, em nossa afirmação mais completa não devemos minimizar a parte que ocupa o puro impulso espi­ritual. Vimos em que grande proporção o Materia­lismo serviu aos fins do Divino; assim, devemos reconhecer os serviços ainda maiores, rendidos pelo Ascetismo à Vida. Devemos preservar as verdades da Ciência material e suas reais utilidades na harmonia final, mesmo se muitas ou se todas as formas exis­tentes tiverem que ser quebradas ou abandonadas. Um escrúpulo ainda maior de correta conservação deve guiar-nos em nosso trato com o legado - na realidade diminuído ou depreciado - do passado Ariano.

[1] Versos 2, 7.

[2] Súksma indriya, órgãos sutis, existentes no corpo sutil (súksma deha) e o meio da visão e experiência sutis (súksma drsti).

[3 ] Os Monistas Vedânticos.

[4] Goloka, o céu dos Vaishnavas, da Beleza e Bem-aventurança eter­nas.

[5] O supremo estado da existencia, consciência e beatitude puras, al­cançável pela alma sem a completa extinção no Indefinível.

[6] Extinção, não necessariamente de todo o ser, senão do ser tal qual o conhecemos; extinção do ego, do desejo, e da ação e mentalidade egoísta.

 


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Capítulo IV

 

A REALIDADE ONIPRESENTE

“Se O conhecemos como Brahman, o Não-Ser, ele se torna não-existente. Se conhecemos que Brahman É, então Ele é conhecido como o real na existência.”

Taittiriya Upanishad [1]

Então, posto que admitimos tanto o clamor do Espírito puro manifestando em nós sua absoluta liberdade, como o clamor da Matéria universal por ser o molde e a condição de nossa manifestação, devemos encontrar uma verdade que possa reconciliar inteiramente estes antagonistas e proceda a ambos sua porção merecida na Vida e sua merecida justificação no Pensamento, sem privar-lhes de nenhum de seus direitos, sem negar a soberana verdade da qual mesmo seus erros, mesmo a exclusividade de seus exageros extraem uma força tão constante. Pois, onde quer que haja uma afirmação extrema que faça tão poderoso apelo à mente humana, podemos estar certos de que estamos em presença não de um mero erro, superstição ou alucinação, mas de um fato soberano, disfarçado, que exige nossa fidelidade e se vingará se for negado ou excluído. Aqui reside a dificuldade de uma solução satisfatória e a fonte dessa carência de finalidade que persegue todos os compromissos entre Espírito e Matéria. Um compromisso é um negócio, uma transação de interesses entre dois poderes em conflito; não é uma verdadeira reconciliação. A verdadeira reconciliação procede sempre pela compreensão mútua que conduz a uma espécie de íntima unidade. Por isso, é através da máxima unificação possível entre Espírito e Matéria que melhor chegaremos a sua reconciliável verdade, e assim, a uma base mais forte para uma prática reconciliatória entre a vida interior do indivíduo e sua existência externa.

Já descobrimos que, na consciência cósmica, há uma ponte de encontro onde a Matéria se torna real para o Espírito, e o Espírito se torna real para a Matéria. Pois, na consciência cósmica, Vida e Mente são intermediários e não mais, como na egoística mentalidade ordinária, agentes de separação, fomentadores de uma querela artificial entre os princípios positivo e negativo da mesma Realidade incognoscível. Alcançando a Mente da con­sciência cósmica, iluminada por um conhecimento que percebe de imediato a verdade da Unidade e a verdade da Multiplicidade e apreende as fórmulas de sua interação, ela encontra suas próprias discordâncias imediatamente explicadas e reconciliadas pela divina Harmonia; satisfeita, consente em converter-se no agente dessa suprema união entre Deus e a Vida, para a qual tendemos. A Matéria se revela para o pensamento realizador e para os sentidos sutilizados como figura e corpo do Espírito - o Espírito em sua extensão autoformadora. O Espírito se revela através dos mesmos agentes de consentimento que a alma, a verdade, a essência da Matéria. Ambos se admitem e se confessam mutuamente divinos, reais e essencialmente unos. A Mente e a Vida são reveladas nessa iluminação como, imediatamente, figuras e instrumentos do supremo Ser Consciente, através do qual Ele Se estende e Se aloja na forma material, e nessa forma Se revela a para os Seus múltiplos centros de consciência. A Mente atinge sua autorrealização quando se converte em puro espelho da Verdade do Ser, que se expressa a Si mesmo nos símbolos do universo; e a Vida, quando esta conscientemente empresta suas energias à perfeita autofiguração do Divino em formas e atividades sempre novas da existência universal.

Na luz desta concepção, podemos perceber a possibilidade de uma vida divina para o homem no mundo, que irá de imediato justificar a Ciência, revelando um sentido e uma meta inteligível para a evolução cósmica e terrestre, e irá realizar, pela transfiguração da alma humana em divina, o grande sonho ideal de todas as religiões elevadas.

E o que dizer desse silencioso Eu, inativo, puro, autoexistente, autossatisfeito, que se apresente a nós como a permanente justificação do asceta? Aqui também a harmonia, e não a oposição irreconciliável, deve ser a verdade iluminadora. O silencioso e ativo Brahman não são entidades diferentes, opostas e irreconciliáveis, uma negando, a outra afirmando a ilusão cósmica; eles são dois aspectos do mesmo Brahman, o positivo e o negativo, e cada um é necessário ao outro. É fora do Silêncio que a Palavra que cria os mundos sempre atua; pois a Palavra expressa aquilo que está semiescondido no Silêncio. É a eterna passividade que torna possível a perfeita liberdade e a onipotência de uma eterna atividade divina em inúmeros sistemas cósmicos. Pois as derivações dessa atividade obtêm suas energias e seu ilimitável poder de variação e harmonia, do imparcial sustentáculo do Ser imutável, de seu consentimento a esta infinita fecundidade de sua própria dinâmica Natureza.

Também o homem só se torna perfeito quando encontrou dentro de si aquela absoluta calma e passividade do Brahman, e mantém através dela com a mesma divina tolerância e a mesma divina beatitude, uma atividade livre e inextinguível. Assim, aqueles que possuem a Calma dentro de si podem sempre perceber, emanando de seu silêncio o perene suprimento de energias que trabalham no universo. Por isso, não é, por assim dizer, a verdade do Silêncio que é, por natureza, a rejeição da atividade cósmica. A aparente incompatibilidade dos dois estados é um erro da Mente limitada, que, acostumada a vigorosas oposições de afirmação e negação e passando repentinamente de um pólo ao outro, é incapaz de conceber uma consciência compreensiva, vasta e forte o suficiente para incluir ambos num simultâneo abraço. O Silêncio não rejeita o mundo, o Sustenta. Ou melhor, ele suporta com igual imparcialidade à atividade e a retirada da atividade, e aprova também a reconciliação da qual a alma permanece livre e calma, mesmo quando se entrega a toda ação.

Mais há ainda a retirada absoluta, há o Não-Ser. Do Não-Ser, diz a antiga Escritura, surgiu o Ser [2]. Daí este último irá, com certeza mergulhar novamente no Não-Ser. Se a infinita e indiscriminada Existência permite todas as possibilidades de discriminação e de múltipla realização, não é verdade que o Não-Ser, ao menos como estado primário e única realidade constante, nega e rejeita toda possibilidade de um universo real? O Nihil de certas escolas budistas seria, então, a verdadeira solução ascética; o Eu, como o Ego, seria apenas uma formação ideativa concebida por uma ilusória consciência fenomênica.

Mas novamente verificamos que estamos sendo iludidos por palavras, enganados pelas vigorosas oposições de nossa mentalidade limitada, com sua tendência a confiar em distinções verbais, como se elas representassem perfeitamente verdades básicas, e na interpretação de nossas experiências supramentais nos termos dessas intolerantes distinções. Não-Ser é apenas uma palavra. Quando examinamos o fato que ela representa, já não estamos mais seguros de que a não-existência absoluta tenha qualquer chance, assim como o infinito Eu, significar, com esse Nada, algo além do último termo ao qual podemos reduzir nossa mais pura concepção e nossa mais abstrata ou sutil experiência de ser real como o conhecemos enquanto neste universo. Esse Nada, então, é alguma coisa além da concepção positiva. Erigimos uma ficção do nada com o intuito de ultrapassar, pelo método da exclusão total, tudo o que podemos conhecer e que conscientemente somos. Na realidade, quando examinamos de perto ao Nihil de certas filosofias, começamos a perceber que ele é um zero que é Tudo ou um indefinível Infinito que aparece, à mente, como um vazio, pois a mente só capta construções finitas, mas ele, de fato, a única Existência verdadeira [3] .

E quando dizemos que do Não-Ser surgiu o Ser, percebemos que estamos falando em termos de Tempo, sobre algo que está além do Tempo. Pois o que era aquela portentosa data na história do eterno Nada em que o Ser nasceu dele, ou quando virá essa data igualmente formidável em que um irreal tudo irá recair no eterno vazio? Sat e Asat, se ambos têm de ser afirmados, devem conceber-se como obtidos simultaneamente. Eles permitem um ao outro, mesmo se recusam misturar-se. Ambos, já que devemos falar em termos de Tempo, são eternos. E quem irá persuadir o Ser eterno de que ele não existe e que só o eterno Não-Ser eterno?

O puro Ser é a afirmação, pelo Incognoscível, de Si mesmo como base livre de toda existência cósmica. Damos o nome de Não-Ser a uma afirmação contrária de Sua liberdade em relação a toda existência cósmica - liberdade, quer dizer, em relação a todos os termos positivos da existência real nos quais a consciência pode formular-se no universo, inclusive o mais abstrato e o mais transcendente. Não os nega como real expressão de Si mesmo, mas nega Sua limitação mediante todo ou qualquer tipo de expressão. O Não-Ser permite o Ser, bem como o Silêncio permite a Atividade. Através dessa negação e afirmação simultâneas, que não são mutuamente destrutivas, mas sim complementares como todos os contrários, uma à outra como todos os contrários, a simultânea compreensão do auto-Ser como uma realidade e do Incognoscível, que está além, como a mesma Realidade, torna-se possível para alma humana desperta. Assim é que foi possível para Buda atingir o estado do Nirvana e atuar poderosamente no mundo, impessoal em sua consciência interna, em sua ação a mais poderosa personalidade que sabemos ter vivido e produzido resultados sobre a Terra.

Quando ponderamos sobre essas coisas, começamos a perceber quão débeis, em sua violência auto-afirmativa, e quão confusa, em sua enganosa diferenciação, são as palavras que usamos. Começamos também a perceber, que as limitações que impomos ao Brahman surgem de uma estreiteza de experiência da mente individual, que se concentra em um só aspecto do Incognoscível e age diretamente no sentido de negar ou denegrir todo o resto. Também tendemos a traduzir demasiado rigidamente o que concebemos ou sabemos do Absoluto, nos termos de nossa própria e particular relatividade. Afirmamos o Único e Idêntico discriminando apaixonadamente e fazendo valer o egoísmo de nossas próprias opiniões e experiências parciais contra as opiniões e experiências parciais de outros. É mais prudente esperar, aprender, crescer, e, já que somos obrigados, em atenção à nossa auto-perfeição, a falar destas coisas que a fala humana não pode expressar, buscar a mais ampla, a mais universal afirmação possível, e estabelecer com ela a máxima e mais compreensiva harmonia.

Reconhecemos, então, que é possível para a consciência do indivíduo entrar num estado em que a existência relativa parece dissolver-se e mesmo o Eu parece ser uma concepção inadequada. É possível tombar num Silêncio além do Silêncio. Mas isto não é a totalidade de nossa experiência definitiva, nem a simples e totalmente excludente verdade. Pois descobrimos que este Nirvana, essa auto-extinção, ao mesmo tempo que concede paz absoluta e liberdade à alma, no seu interior, consiste, na prática, em uma ação isenta mais efetiva. Essa possibilidade de uma impessoalidade inteiramente imóvel e de uma Calma vazia o interior, realizando exteriormente o trabalho das verdades eternas - Amor, Verdade e Retidão - foi talvez a real essência da doutrina de Buda - essa superioridade com respeito ao ego e à cadeia de trabalhos pessoais e à identificação com a forma mutável e a idéia, e não o insignificante ideal do escape à aflição e ao sofrimento do nascimento físico. Em todo caso, como o homem perfeito combinaria em si o silêncio e a atividade, assim também a alma completamente consciente voltaria a alcançar a absoluta liberdade do Não-Ser sem por isso perder seu poder sobre a Existência e o universo. Assim ela reproduziria em si mesma, perpetuamente, o eterno milagre da divina Existência no universo, porém indo além dele e até mesmo - como se estivesse - além de si mesma. A experiência oposta só poderia ser uma concentração da mentalidade do indivíduo sobre a Não-existência, e o resultado seria um esquecimento a retirada pessoal da atividade cósmica, ainda e sempre agindo na consciência do Ser Eterno.

Assim, após reconciliar Espírito e Matéria na consciência cósmica, percebemos a reconciliação, na consciência transcendental, da afirmação final de tudo e de sua negação. Descobrimos que todas as afirmações são declarações de status ou de atividade no Incognoscível; todas as negações correspondentes são declarações de Sua liberdade, a partir desse ou nesse status ou atividade. O Incognoscível é Algo para nós supremo, maravilhoso e inefável que Se formula continuamente à nossa consciência e continuamente escapa da formulação que fez. Não faz isso como algum espírito malicioso ou um caprichoso mago, conduzindo-nos de uma falsidade a uma falsidade maior, e então, uma negação de todas as cosas, mas sim como o Sábio que está além de nossa sabedoria, guiando-nos da realidade para uma sempre mais profunda e mais vasta realidade, até que encontremos a mais profunda e vasta de que somos capazes. O Brahman é uma realidade onipresente, não a causa onipresente de ilusões per­sistentes.

Se dessa forma aceitamos uma base positiva para nossa harmonia - e em que outra harmonia poderia ser fundada?— As diversas formulações conceituais do Incognoscível, cada uma representando uma verdade além do conceito, devem ser compreendidas, na medida do possível, em sua relação mútua e em seu efeito sobre a vida, não em separado, não exclusivamente, não formuladas para destruir ou minimizar indevidamente todas as outras afirmações. O Monismo real, o verdadeiro Adwaita, é aquele que admite todas as coisas como o uno Brahman e não procura dividir Sua existência em duas entidades incompatíveis, uma eterna Verdade e uma eterna Falsidade, Brahman e Não-Brahman, Eu e Não-Eu, um Eu real e um irreal porém perpétua Maya. Se, é verdade que o Eu isolado existe, também deve ser verdade que tudo é o Eu. E se esse Eu, Deus ou Brahman não é um estado de desamparo, um poder amarrado, uma personalidade limitada, sendo o Todo autoconsciente, deve haver alguma boa e inerente razão para a manifestação, e para descobri-la devemos prosseguir na hipótese de alguma potência, alguma sabedoria, alguma verdade do ser em tudo que se manifesta. A discórdia e o aparente mal do mundo devem ser admitidos em sua esfera, mas não aceitos como nossos conquistadores. O mais profundo instinto da humanidade busca sempre, e sabiamente, a sabedoria como a última palavra da manifestação universal, não uma eterna zombaria e uma ilusão - um secreto e finalmente triunfante bem, não um mal todo-criador e invencível - uma vitória definitiva e a realização, não o recuo desapontado da alma frente a sua grande aventura.

Pois não podemos supor que a Entidade isolada é compelida por algo fora dela ou outro que não Ela, porque tal coisa inexiste. Tampouco podemos supor que Ela se submete contra a vontade a algo parcial, dentro de si, que é hostil a seu Ser inteiro, negado por Ela e demasiado forte para Ela; pois isto só serviria para criar, em outra linguagem, a mesma contradição de um Todo e algo diferente do Todo. Mesmo se afirmamos que o universo só existe porque o Eu em sua absoluta imparcialidade, tolera todas as coisas sem distinção, encarando com indiferença todas as realidades e todas as possibilidades, há, no entanto, alguma coisa que quer a manifestação e a mantém, e por isso só pode ser o Todo. Brahman é indivisível em todas as coisas, e, o que quer que tenha sido desejado no mundo, foi desejado definitivamente por Brahman. É apenas nossa consciência relativa, que, alarmada ou frustrada pelos fenômenos do mal, da ignorância e da dor no cosmos, procura livrar o Brahman da responsabilidade por Si e por suas obras criando algum princípio oposto, Maya ou Mara, o mal consciente ou auto-existente princípio do mal. Só existe um Senhor e Eu; os muitos são apenas Suas representações e derivações.

Se, então, o mundo é um sonho, uma ilusão ou um erro, é um sonho originado e desejado pelo Eu em sua totalidade, e não apenas originado e desejado, mas sustentado e perpetuamente acolhido. Além disso, é um sonho existindo na Realidade, e o material de que é feito é essa Realidade; pois Brahman deve ser o material do mundo bem como sua base continente. Se o ouro de que o vaso é feito é real, como podemos pensar que o vaso é uma miragem? Vemos que essas palavras, vaso, sonho, ilusão, são truques de linguagem, hábitos de nossa consciência relativa; eles representam certa verdade, até mesmo uma grande verdade, mas eles também a deturpam. Exatamente como o Não-Ser se transforma na mera nulidade, assim o Sonho cósmico se transforma em outra coisa que não um mero fantasma ou alucinação da mente. O Fenômeno não é um fantasma; o Fenômeno é a forma substancial de uma Verdade.

Começamos, então, com a concepção de uma Realidade onipresente da qual nem o Não-Ser de um lado, nem o universo do outro, são negações que anulam; eles são ao invés disso, diferentes estados da Realidade, afirmações de verso e reverso. A mais elevada experiência desta Realidade no universo mostra que ela não é apenas uma Existência consciente, mas também uma Inteligência e Forças supremas, e uma Bem-Aventurança auto-existente. Por isso, estamos certos em supor que, mesmo as dualidades do universo, quando interpretadas, não como agora, por nossos conceitos sensórias e parciais, mas por nossa inteligência e experiência liberadas, serão também resolvidas nesses termos elevados. Enquanto ainda trabalharmos sob a tensão da dualidade, essa percepção deverá, sem dúvida, basear-se num ato de fé, mas uma fé que a mais elevada Razão e a mais ampla e mais paciente reflexão não negam, antes afirmam. Na realidade essa crença é dada à humanidade para apoiá-la em sua jornada, até que ela chegue à um estágio de desenvolvimento em que a fé se transformará em conhecimento e a perfeita experiência e a Sabedoria verão suas obras justificadas.

[1] II, 6.

[2] No começo tudo era o Não-Ser. Foi então que o Ser nasceu. Taittiriya Upanishad, II, 7.

[3] Outro Upanishad rejeita o nascimento do Ser a partir do Não-Ser como uma impossibilidade; o Ser, diz ele, só pode nascer do Ser. Mas se tomamos o Não-Ser no sentido, não de um inexistente Nihil mas de um x que supera a nossa idéia de experiência da existência, - sentido este aplicável ao Brahman absoluto do Adwaita bem como ao vazio ou zero dos Budistas—a impossibilidade desaparece, pois Aquilo pode muito bem ser a fonte do ser, seja por uma conceitual ou formativa Maya, seja como uma manifestação ou criação a partir de si mesmo.

 


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Capítulo V

O DESTINO DO INDIVÍDUO


“Pela Ignorância eles passam pela Morte e pelo Conhecimento desfrutam da Imortalidade... Pelo Não-Nascimento eles passam pela Morte e pelo Nascimento eles desfrutam da Imortalidade.”

Isha Upanishad [1]

Uma Realidade Onipresente é a verdade de toda a vida e existência, absoluta ou relativa, animada ou inanimada, inteligente ou não-inteligente; e em todas as suas infinitamente variadas e constantemente opostas autoexpressões, desde as contradições mais próximas à nossa experiência ordinária até aquelas remotas antinomias que se perdem nas bordas do Inefável, a Realidade é uma, e não uma soma ou concurso. Disso todas as variações partem, nisso todas as variações consistem e, para isso todas elas retornam. Todas as afirmações são negadas apenas para levar a uma afirmação mais ampla da mesma Realidade. Todas as antinomias se confrontam para reconhecer uma Verdade em seus aspectos opostos e abraçar, por meio do conflito, sua mútua Unidade. Brahman é o Alfa e Ômega. Brahman é o Uno além do qual não há mais nada existente.

Mas esta unidade é, por natureza, indefinível. Quando procuramos enxergá-la com a mente, somos compelidos a proceder através de uma infinita série de conceitos e experiências. E, no entanto, no final, vemo-nos obrigados a negar nossos mais amplos conceitos,  nossas experiências mais abrangentes, para afirmar que a Realidade excede todas as definições. Chegamos à fórmula dos Sábios védicos, net  neti: "Ela não é isto, Ela não é aquilo", não há experiência pela qual possamos delimitá-la, não há conceito pelo qual, Ela possa ser definida.

Um Incognoscível que nos aparece em muitos estados e atributos do ser, em muitas formas de consciência, em muitas atividades de energia, isso é o que a Mente pode dizer, definitivamente, sobre a existência que nós mesmos somos e que vemos em tudo o que é apresentado aos nossos pensamentos e sentidos. É neles e através desses estados, essas formas, essas atividades, que temos que abordar e conhecer o Incognoscível. Mas, se em nossa pressa de chegar a uma Unidade que nossa mente possa segurar e possuir, se em nossa insistência em confinar o Infinito ao nosso abraço, identificamos a Realidade com qualquer estado definível do ser embora puro e eterno, com qualquer atributo particular embora geral e abrangente, com qualquer formulação fixa de consciência embora vasta em seu escopo, com qualquer energia ou atividade cuja aplicação seja ilimitada, e excluímos todo o resto, então nossos pensamentos pecarão contra Sua incognoscibilidade e atingirão, não uma verdadeira unidade, mas uma divisão do Indivisível.

Tão fortemente era essa verdade percebida nos antigos tempos, que os Videntes Vedânticos, mesmo após chegar à idéia coroadora, a convincente experiência de Satchitananda que seria a mais elevada experiência positiva da Realidade, para nossa consciência, erigiram em suas especulações, ou atingiram em suas percepções, um Asat, um Não-Ser além, que não é a existência definitiva, a pura consciência, a infinita bem-aventurança da qual todas as nossas experiências são a expressão ou a deformação. Se for uma existência, uma consciência, uma bem-aventurança, então está além da mais alta e mais pura forma positiva dessas coisas que aqui podemos possuir, e é por isso outra coisa, diferente daquilo que aqui conhecemos por esses nomes. O budismo, considerado pelos teólogos, um tanto arbitrariamente, uma doutrina não-Védica porque rejeita a autoridade das Escrituras, retorna, porém, esta concepção essencialmente vedântica. Apenas a doutrina sintética e positiva dos Upanishads contemplava Sat e Asat (Ser e Não-Ser) não como opostos destruidores um do outro, mas como a última antinomia através da qual admiramos o Incognoscível. E nas transações de nossa consciência positiva, até mesmo a Unidade tem de levar em conta com a Multiplicidade, pois os Muitos também são Brahman. É através de Vidiya,  o conhecimento da Unidade, que conhecemos a Deus; sem ele Avidya,  a consciência relativa e múltipla, é uma noite de escuridão e uma desordem de Ignorância. Porém, se excluímos o espaço dessa Ignorância, se nos livramos de Avidya como se ela fosse algo inexistente e irreal, então o próprio Conhecimento se torna uma espécie de obscuridade e uma fonte de imperfeição. Tornamo-nos como homens ofuscados pela luz de tal forma, que não podemos ver o espaço que essa luz ilumina.

Tal é a doutrina, calma, sábia e clara, dos nossos mais antigos mestres. Eles tinham a paciência e a força para encontrar e para saber; tinham também a clareza e humildade para admitir a limitação do nosso conhecimento. Percebiam as fronteiras que ele tem de passar para ir além de si mesmo. Ele era uma impaciência posterior de coração e mente, atração veemente por uma bem-aventurança definitiva ou pelo alto império da pura experiência e uma inteligência aguda, que buscava o Uno para negar os Muitos, e porque tinha recebido o sopro das alturas, desprezado ou renegado pelo segredo das profundezas. Mas o olho firme da sabedoria antiga percebeu que, para conhecer realmente Deus, deve-se conhecê-lo em todo lugar igualmente e sem distinção, considerando e valorizando, porém não dominado pelas oposições através das quais Ele brilha.

Poremos de lado, então, as sutis distinções de uma lógica parcial que afirma que, porque o Uno é a realidade, os Muitos são uma ilusão, e porque o Absoluto é Sat, a existência una, o relativo é Asat e não-existente. Se nos Muitos perseguimos insistentemente o Uno, é para retornar com a benção e a revelação do Uno confirmando-se nos Muitos.

Acautelemo-nos também contra a excessiva importância que a mente atribui a conclusões particulares, as quais ela chega em suas mais poderosas expansões e transições. A percepção, que tem a mente espiritualizada, de que o universo é um sonho irreal não tem valor mais absoluto, para nós, do que a percepção, pela mente materializada, de que Deus e o Além são uma idéia ilusória. Num caso, a mente, habituada apenas à evidência dos sentidos e associando a realidade ao fato corpóreo, está desacostumada a usar outros meios de conhecimento, ou é incapaz de estender a noção de realidade a uma experiência suprafísica. No outro caso, a mesma mente, indo além da esmagadora experiência de uma realidade incorpórea, simplesmente transfere a mesma inabilidade e a mesma conseqüente sensação de sonho ou alucinação para a experiência dos sentidos. Mas nós percebemos também a verdade que essas duas concepções desfiguram. É verdade que, neste mun­do de formas, no qual somos colocados para a nossa autorrealização, nada é inteiramente válido até que tenha tomado posse de nossa consciência física, e se manifestado nos mais baixos níveis em harmonia com a sua manifestação nos mais altos cumes. É também verdade que a forma e a matéria, afirmando-se como uma realidade auto-existente, são uma ilusão da Ignorância. A forma e a matéria são válidas somente como forma e substância da manifestação do incorpóreo e imaterial. São, por natureza própria, um ato da consciência divina, tem como objetivo a representação de um estado do Espírito.

Em outras palavras, se Brahman entrou na forma e representou Seu ser na substância material, só pode ser para usufruir da automanifestação nas formas da consciência relativa e fenomênica. Brahman está neste mundo para representar a Si mesmo nos valores da Vida. A Vida existe em Brahman para descobrir o Brahman em si mesma. Por isso, a importância do homem no mundo é que ele permite a ela esse desenvolvimento de consciência no qual a sua transfiguração através de uma perfeita autodescoberta se torna possível. Realizar Deus na vida é a humanidade do homem. Ele começa pela vitalidade animal e suas atividades, mas seu objetivo é uma existência divina.

Mas no Pensamento como na Vida, a verdadeira regra da autorrealização é uma compreensão progressiva. Brahman Se expressa em muitas sucessivas formas de consciência, sucessivas em sua relação, mesmo se forem coexistentes no ser e coesas  no Tempo, e a Vida, no seu autodesdobrar-se, pode também desenvolver sempre-novos ramos de seu próprio Ser. No entanto, se, passando de um ao outro domínio, renunciamos ao que já nos foi dado pela ânsia de nossa próxima realização; se, alcançando a vida mental, abandonamos ou minimizamos a vida física que é a nossa base, ou se rejeitamos o mental e o físico, em nossa atração pelo espiritual, não realizamos a Deus integralmente, nem satisfazemos as condições de Sua automanifestação. Não nos tornamos perfeitos, mas apenas trocamos o campo de nossa imperfeição, ou ao menos atingimos uma altitude limitada. Mesmo que subamos alto, mesmo até o próprio Não-Ser, subimos mal se esquecermos a nossa base. Não abandoar o ínfimo deixando a si mesmo, mas transfigurá-lo à luz do supremo que já atingimos, é a verdadeira divindade da natureza. Brahman é integral e unifica muitos estados de consciência a um mesmo tempo; nós também, manifestando a natureza de Brahman, devemos tornar-nos integrais e todo-abragentes.

Além da renúncia à vida física, há outro exagero do impulso ascético que esse ideal, de uma manifestação integral, corrige. A complexidade da Vida é a relação entre três formas gerais de consciência: a individual, a universal e a transcendente ou supra-cósmica. Na distribuição ordinária das atividades vitais, o indivíduo se vê como um ser separado incluído no universo, e ambos, como dependentes daquilo que transcende tanto o universo como o indivíduo. É a essa Transcendência que damos usualmente o nome de Deus, que, assim, torna-se, para nossa concepção, não tanto supracósmico como extracósmico. A minimização como a degradação tanto do indivíduo como do Universo são a consequência natural dessa separação: a cessação tanto do cosmos como do indivíduo pela obtenção da Transcendência seria então a suprema conclusão lógica.

A visão natural da unidade do Brahman evita essas consequências. Assim como não precisamos abandonar a vida corporal para alcançar o mental e o espiritual, também podemos chegar a um ponto-de-vista em que a preservação das atividades individuais não é mais incompatível com a nossa compreensão da consciência cósmica ou a obtenção, por nós do transcendental ou supracósmico. Pois o Mundo-Transcendente abarca o Universo, é uno com ele e não o exclui, assim como o Universo abarca o indivíduo, é uno com ele e não o exclui. O indivíduo é o centro de toda a consciência universal; o Universo é uma forma e definição  que é ocupado pela inteira imanência do Informe e Indefinível.

Esta é sempre a verdadeira relação, velada a nós por nossa ignorância ou nossa consciência errada das coisas. Quando alcançamos o conhecimento ou a consciência certa, nada essencial na eterna relação é mudado, mas apenas a visão interna e a visão externa a partir do centro individual são profundamente modificadas, e, consequentemente, também o espírito e o efeito de sua atividade. O indivíduo ainda é necessário para a ação do Transcendente no universo, e essa ação nele não cessa de ser possível por sua iluminação. Ao contrário, como a manifestação consciente do Transcendente no indivíduo é o meio pelo qual o coletivo, o universal também se tornará consciente de si mesmo, a continuação da ação do indivíduo iluminado no mundo é uma necessidade imperativa do jogo-do-mundo. Se a sua inexorável remoção através do próprio ato de iluminação for a lei, então o mundo está condenado a permanecer eternamente o cenário de uma irredimida escuridão, de morte e sofrimento. E tal mundo só poderá ser um implacável ordálio ou uma ilusão mecânica.

É assim que a filosofia ascética tende a concebê-lo. Mas a salvação individual pode não ter real sentido se a existência no cosmos é ela mesma uma ilusão. Na visão Monística, a alma individual é una com o Supremo e a sensação de desligamento é uma ignorância, a fuga da sensação de desligamento e a identidade com o Supremo é a sua salvação. Mas quem, tira proveito dessa fuga? Não o Eu supremo, pois este é considerado sempre e inaliena­velmente livre, calmo, silencioso e puro. Não o mundo, pois esse permanece constantemente na escravidão e não é libertado pela fuga de nenhuma alma individual da Ilusão universal. É a própria alma individual que realiza seu bem supremo escapando à tristeza e à divisão na paz e a bem-aventurança. Parece haver, então, algum tipo de realidade da alma individual, distinta do mundo e do Supremo, até mesmo no caso da liberdade e da iluminação. Mas para o Ilusionista, a alma individual é uma ilusão e é inexistente, exceto no inexplicável mistério de Maya. Então, chegamos à idéia da fuga de uma ilusória, inexistente alma, de uma ilusória, inexistente escravidão, num ilusório, inexistente mundo, como o supremo bem que essa alma inexistente tem de alcançar! Pois essa é a última palavra do Conhecimento. “Não há grilhão, não há ninguém libertado, ninguém tentando ser livre”. Vidya se transforma numa parte do Fenomêno tal qual Avidya; Maya encontra-nos mesmo em nossa fuga e ri da lógica triunfante que parece cortar o nó de seu mistério.

Essas coisas, dizem, não podem ser explicadas; são o milagre primeiro e insolúvel. São, para nós, um fato consumado e têm de ser aceitas. Temos de escapar de uma confusão através de outra confusão. A alma individual só pode cortar o nó egoico por um ato de supremo egoísmo, um apego exclusivo à salvação individual que equivale a uma afirmação absoluta de sua existência separada em Maya. Somos levados a ver as outras almas como se fossem invenções da nossa mente, e como se sua salvação não tivesse importância, e a nossa alma, unicamente, como inteiramente real, e a sua salvação, a única coisa que importa. Eu vejo minha fuga pessoal da escravidão como algo real enquanto as outras almas, que são igualmente eu mesmo, permanecem atrás, na escravidão!

Só quando abandonamos todas as antinomias inconciliáveis entre o Eu e o mundo é que as coisas vão para os seus lugares, por uma lógica menos paradoxal. Devemos aceitar a multiplicidade de lados da manifestação mesmo quando afirmamos a unidade do Manifestado. E não é assim, após toda a verdade que nos persegue, onde quer que lancemos os olhos, a menos que optemos por não ver? Não é assim, após todo, o mistério perfeitamente natural e simples do Ser Consciente, que ele não é preso nem por sua unidade nem por sua multiplicidade? Ele é “absoluto”, no sentido de ser inteiramente livre para incluir e organizar a seu modo todos os possíveis termos de sua autoexpressão. Não há nenhum grilhão, nenhum liberto, ninguém tentando ser livre- para sempre, Aquilo é a perfeita liberdade. É tão livre, que não está preso nem por sua liberdade. Ele pode brincar de ser escravo sem incorrer na real escravidão. Sua corrente é uma convenção autoimposta; sua limitação dentro do ego, um dispositivo de transição que ele usa para repetir sua transcendência e sua universalidade dentro do esquema do Brahman individual.

O Transcendente, o Supracósmico é absoluto e livre em si mesmo, está além do Tempo e do Espaço e além dos opostos conceituais, finito e infinito. Mas no cosmos ele usa sua liberdade de autoformação, o seu Maya, para fazer um esquema de si mesmo nos termos complementares unidade e multiplicidade, e essa múltipla unidade, ele estabelece nestas três condições: subconsciente, consciente e supraconsciente. Pois, na realidade, vemos que os Muitos, objetivados na forma em nosso universo material, começam com uma unidade subconsciente que se expressa abertamente na ação e na substância cósmicas, mas da qual eles não estão superficialmente conscientes. No consciente, o ego se torna o ponto superficial do qual a consciência da unidade pode emergir; mas ele aplica sua percepção da unidade à forma e à ação superficial e, fracassando em perceber tudo o que atua por trás, fracassa também em perceber que não é em si mesmo, mas sim uno com os outros. Essa limitação do “Eu” universal na sensação do ego separado constitui a nossa imperfeita personalidade individualizada. Mas quando o ego transcende a consciência pessoal, começa a incluir e a ser superpotencializado por aquilo que é para nós a supraconsciência; ele se torna consciente da unidade cósmica e entra no Eu Transcendente, que aqui o cosmos expressa como uma múltipla unidade.

A liberação da alma individual é, por isso, a nota-chave da ação divina definida; é a primeira necessidade divina e o pivô em torno do qual tudo gira. É o ponto de Luz no qual a pretensa manifestação completa nos Muitos começa a emergir. Mas a alma liberada estende sua percepção de unidade tanto horizontal quanto verticalmente. Sua unidade com o transcendente Uno é incompleta, sem a sua unidade com o cósmico Muitos. E essa unidade lateral traduz-se por uma multiplicação, uma reprodução de seu próprio estado liberado em outros pontos, na Multiplicidade. A alma divina reproduz-se em almas liberadas semelhantes como o animal se reproduz em corpos semelhantes. Por isso, onde quer que uma única alma seja liberada, há a tendência a uma extensão e até mesmo a uma explosão da mesma divina autoconsciência em outras almas individuais dotadas de nossa humanidade terrestre e ―quem sabe?— talvez estejam além da nossa consciência terrestre. Onde devemos fixar o limite dessa extensão? Será totalmente lendário o fato de que Buda, ao chegar ao limiar do Nirvana, do Não-Ser... sua alma deu meia-volta e fez o juramento de nunca fazer o cruzamento irrevogável enquanto houvesse um único ser sobre a Terra que não tivesse sido liberado do nó do sofrimento, da escravidão do ego?

Porém nós podemos atingir o mais elevado sem sermos eliminados da extensão cósmica. Brahman preserva sempre Seus dois termos, o de liberdade dentro e o de formação fora, o de expressão e o de libertação da expressão. Nós também, sendo Aquilo, podemos atingir a mesma divina autopossessão. A harmonia das duas tendências é a condição de toda a vida que pretende ser realmente divina. A liberdade buscada pela exclusão da coisa excedida leva ao caminho da negação, da recusa daquilo que Deus aceitou. A atividade buscada pela absorção no ato e na energia leva a uma afirmação inferior e à negação do mais Elevado. O que Deus combina e sintetiza, por que o homem insiste em separar-se? Ser perfeito como Ele é perfeito é a condição para a Sua realização integral.

Em Avidya, a Multiplicidade, encontra-se o nosso caminho, livre da autoexpressão egoísta e transitória, em que a morte e o sofrimento predominam; através de Vidya em consenso com Avidya, pelo perfeito senso de unidade, mesmo na Multiplicidade, desfrutamos inteiramente da imortalidade e da beatitude. Alcançando o Não-Nascido além de todos os que estão por vir, somos liberados deste nascimento inferior e da morte; aceitando o Vir-a-ser como Divino, invadimos a mortalidade com a imortal beatitude e tornamo-nos luminosos centros de sua consciente autoexpressão na humanidade.

[1] Versos 11, 14.

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Capitulo VI

O HOMEM NO UNIVERSO

A Alma do homem, viajante, vaga neste ciclo do Brahman, imensa, uma totalidade de vidas, uma totalidade de estados, pensando-se diferente do Impulsionador da viagem. Aceita por Ele, alcança sua meta da Imortalidade.

Swëtaswatara Upanishad[1]

 

A progressiva revelação de uma grande, uma transcendente, uma lumi nosa Realidade, --com as múltiplas relatividades deste mundo que vemos e esses outros mundos que não vemos como meio e ma terial, condição e campo--, pareceria então ser o significado do universo, já que tem significado e objetivo e não se trata de uma ilusão sem finalidade nem de um acidente fortuito. Pois o mesmo ra ciocínio que nos permite concluir que o mundo-(existente não é uma enganosa armadilha da Mente, igualmente justi fica a certeza de que não se trata de uma cega e desvalida massa auto-existente de separadas existências fenomênicas- aderindo-se e lutando entre si, o melhor que podem, em sua órbita através da eternidade-, nem de uma auto-criação e auto-impulsão tremendas de uma ignorante Força sem nenhuma Inteligência secreta em sua interior sabedora de seu ponto de partida e de sua meta, e guiando seu processo e seu movimento. Uma existência, totalmente auto-conhecedora e, portanto, inteiramente dona de si mesma, possui ao ser fenomênico no que está envolta, se realiza na forma, se desenvolve no indivíduo.

Esse Emergir luminoso é o amanhecer que veneraram os ante passados arianos. Sua cumprida perfeição é o mais alto escalão de Vishnu penetrando-o-mundo, ao que aqueles contemplaram como se fosse um olho cuja visão se estendesse nos puríssimos céus da Mente. Pois existe ainda como todo-reveladora e todo-guiadora Verdade das coisas, que vela sobre o mundo e atrai ao homem mortal, -(primeiro sem o conhecimento de sua mente consciente, mediante a marcha geral da Natureza, mas ao final conscientemente através de um despertar e um auto-engrandecimento progressivos)-, para sua ascensão divina. A ascensão à Vida divina é a viagem humana, o Tra­balho dos trabalhos, o Sacrifício aceitável. Só isto é a tarefa real do homem no mundo e a justificação de sua existência, sem a qual seria unicamente um inseto arrastando-se entre outros insetos efêmeros sobre uma superfície insignificante de barro e água que se formou em meio das aterradoras imensidades do universo físico.

Esta Verdade das coisas que há de emergir das fenomênicas contradições do mundo, está chamada a ser uma Bem-Aventurança infinita e Existência auto-consciente, a mesma por toda parte, em todas as coisas, em todos os tempos e mais além do Tempo, sabedora de sua presença detrás de todos estes fenômenos, por cujas mais intensas vibrações de atividade ou por cuja grande totalidade, jamais pode expressar-se por completo, e de nenhum modo resultar limitada pelas mesmas; pois é auto-existente e para o despertar de seu ser não depende de suas manifestações. Estas a representam mas não a esgotam; a assinalam, mas não a revelam. Só é revelada a si mesma dentro de suas formas. A existência consciente involu ída na forma chega, na medida que evolui, a conhecer-se por intuição, por auto-visão, por auto-experiência. Conhecendo-se, chega a ser ela mesma no mundo; se conhece a si mesma através do processo de chegar a ser ela mesma. Dona, dessa maneira, de si mesma interior­mente, concede também a suas formas e modos o consciente deleite de Satchitananda. Este afloramento da infinita Bem-Aventurança- Existência-Consciência na mente, na vida e no corpo, —pois existe independente deles eternamente—, é a transfiguração ansiada e a utilidade da existência individual. Através do indi víduo se manifesta em suas relações assim como por si mesma existe em identidade.

O Incognoscível que se conhece como Satchitananda é a afirmação suprema do Vedanta; contém a todas as demais ou melhor, dependem dele. Esta é a única experiência verdadeira que permanece quando todas as aparências foram consideradas negativa mente mediante a eliminação de suas formas e coberturas, ou positivamente pela redução de seus nomes e formas à verdade permanente que contêm. Para o cumprimento do objetivo da vida ou para a trascendência da vida, -(e resultando ser a pureza, a calma e a liberdade do espírito nosso objetivo ou impulso, alegria e perfeição)-, Satchitananda é o desconhecido, onipresente e in dispensável termo pelo qual a consciência humana, seja com conhecimento e sentimento, seja com sensação e ação, está eternamente buscando.

O Universo e o Indivíduo são as duas aparências essenciais nas que o Incognoscível descende e através das quais há de ser acercado; ainda que outras coletividades intermediárias nascem só de sua interação. Este descenso da Realidade suprema é, em sua natureza, um auto-ocultamento; e no descenso existem sucessivos níveis, no ocultamento, sucessivos véus. Necessaria mente, a revelação toma a forma de uma ascensão; e necessariamente também a ascensão e a revelação são progressivas. Pois cada nível sucessivo no descenso do Divino é para o homem uma etapa em ascensão; cada véu que oculta ao Deus desconhecido se converte para o amante-de-Deus e o buscador-de-Deus em um instrumento de Sua revelação. Fora do ritmico sonho da Natureza material, -(incons­ciente da Alma e da Idéia que mantêm as ordenadas atividades de sua energia inclusive em seu mudo e poderoso transe material-), o mundo luta dentro do mais veloz, variado e desordenado ritmo da Vida, perdendo-se nas bordas da auto-consciência. Fora da Vida, luta para cima dentro da Mente na que a unidade chega a despertar ante si mesma e seu mundo, e nesse despertar o uni verso consegue a fortaleza requerida para sua obra suprema, consegue a individualidade auto-consciente. Mas a Mente assume o trabalho de continuá-la, não de completá-la. É uma trabalhadora de inteligência aguda mas limitada que toma os confusos materiais oferecidos pela Vida e, havendo-os melhorado, adaptado, modificado e classificado de acordo a seu poder, os entrega ao supremo Artista de nossa divina humanidade. Esse Artista mora na supramente; pois a supramente é o super-homem. Pelo tanto, nosso mundo tem todavia que saltar mais além da Mente até um princípio superior, um estado superior, um dinamismo superior no que o universo e o indivíduo tomam conhecimento e possessão disso que ambos são, e em consequência, restam explicados um ao outro, em mútua harmonia, unificados.

As desordens da vida e da mente cessam ao discernir-se o segredo de uma ordem mais perfeita que o físico, a matéria sob a vida, e a mente contêm em si mesma o contrapeso entre um perfeito equilíbrio de tranquilidade e a ação de uma incomen surável energia, mas não possui o que contêm. Sua paz leva a opaca máscara de uma obscura inércia, um sonho de inconsciência ou melhor, de uma consciência drogada e aprisionada. Manejada por uma força que é seu eu real mas cujo sentido não pode captar nem compartilhar, carece do desperto deleite de suas próprias energias harmoniosas.

A vida e a mente despertam ao sentido do que anseiam, na forma de uma ignorância que luta e busca e de un desejo perturbado e desconcertado que são os primeiros passos até o auto-conhecimento e a auto-realização. Mas então onde está o reino de sua auto-realização? Chega-lhes pela superação delas mesmas. Mais além da vida e da mente recobramos conscientemente em sua divina verdade o que o equilíbrio da Natureza material representou brutamente, uma tranquilidade –(que não é inércia nem selado transe da cons ciência senão a concentração de uma força absoluta e de um absoluto auto-conhecimento-, e uma ação de incomensurável energia)- que é também e ao mesmo tempo, estremecimento de inefável bem-aventurança por que aqui, todo ato é a expressão, não de um desejo e esforço igno rante, senão de uma paz e auto-domínio absolutos-. Nessa conquista, nos sa ignorância se transforma em luz da qual era um reflexo obscurecido ou parcial; nossos desejos cessam na plenitude e na realização prometidas, as quais, -inclusive em suas formas materiais mais grosseiras-, eram uma obscura e debilitada aspiração.

O universo e o individuo são necessários um ao outro em sua ascensão. Certamente sempre existe o um para o outro e mutuamente se aproveitam. O Universo é uma difusão do divino Todo no Espaço e Tempo infinitos, o indivíduo é sua concentração dentro dos limites de Espaço e Tempo. O Universo busca na extensão infinita a totalidade divina que sente que é sem com preendê-la inteiramente; pois na extensão, a existência conduz a uma soma pluralista de si mesma que não pode ser a primogenia nem a final unidade, senão só um decimal recorrente sem fim nem prin cípio. Portanto, cria em si uma concentração auto-consciente do Todo através da qual pode aspirar. No indivíduo consciente, Prakriti se volta para perceber a Purusha, o Mundo busca ao Ser-em-si; havendo Deus devindo inteiramente Natureza, a Natu reza busca progressivamente chegar a ser Deus.

Por outra parte, é por meio do Universo que o indivíduo está impelido a realizar-se. Aquele é não só seu fundamento, seu meio, seu campo, o material da Obra divina, senão que, -dado que a concentração da Vida universal que o indivíduo é, tem lugar dentro de uns limites e não se parece à intensa unidade do Brahman livre de toda concepção de limite e prazo-, necessariamente deve uni versalizar-se e impersonalizar-se a fim de manifestar o Todo divino que é sua realidade. Inclusive reclama-lhe que preserve, -ainda quando se estenda mais na universalidade da consciência-, um misterioso algo transcendente do qual seu sentido da personalidade lhe dá uma representação obscura e egoísta. Por outra parte, ele há equivocado sua meta, o problema que se apresentou-lhe não foi resolvido, a obra divina para a qual aceitou nascer não há sido feita.

O Universo vem ao indivíduo como Vida, -(um dinamismo cujo segredo total há de dominar e uma massa de resultados em colisão, um torvelinho de energias potenciais das que há de liberar alguma ordem suprema e alguma harmonia ainda não realizada)-. Este é, depois de tudo, o real sentido do progresso do homem. Não é simplesmente, uma repetição, em termos levemente diferentes, do que já cumpriu a Natureza física. Nem o ideal da vida humana pode ser simplesmente o animal repetido em uma escala superior de mentali dade. Do contrário, qualquer sistema ou ordem que assegurasse um tolerável bem-estar e uma moderada satisfação mental houvesse estancado nosso progresso. O animal se satisfaz com pouco forçosamente; os deuses se contentam com seus esplendores. Mas o homem não pode descansar permanentemente até que alcance algum bem supremo. É o maior dos seres viventes porque é o mais descontente, porque é ele que mais sente a pressão das limitações. Só ele; talvez, é capaz de ser tomado pelo divino frenesi de um ideal remoto.

Para o Espírito-Vital, portanto, o indivíduo que centra suas potencialidades é pré-eminentemente o Homem, o Pu rusha. Trata-se do Filho do Homem que é supremamente capaz de ser encarnado por Deus. Este Homem é o Manu, o pensador, o Manomaya Purusha, pessoa mental ou alma na mente dos antigos sábios. Não é um mero mamífero superior, senão uma alma conceptiva tomando base no corpo animal na Matéria. Ele é Numen ou nome consciente que aceita e utiliza a forma como um médium[2] , (meio para uma realização), através do qual a Pessoa pode tratar com a substância. A vida animal que emerge da Matéria é só o termo inferior de sua existência. A vida do pensamento, do sentimento, da vo ntade, do impulso consciente, -(essa que chamamos em sua totalidade Mente, essa que luta por controlar a Matéria e suas energias vitais e submetê-las à lei de sua própria transformação progressiva)-, é o termo médio no que o indivíduo toma seu lugar efetivo. Mas existe, igualmente, um termo supremo do qual a Mente do homem vai em posse, de modo que, depois haver encontrado pode afirmá-lo em sua existência mental e corporal. Esta afirmação prática de algo essencialmente superior a seu presente eu é a base da vida divina no ser humano.

Desperto a um, mais profundo auto-conhecimento que o de sua primeira idéia mental de si mesmo, o Homem começa a conceber alguma fórmula e a perceber alguma aparência da coisa que há de afirmar. Mas se lhe apresenta como se equilibrasse-se entre duas negações de si mesma. Se, mais além de seus atuais dotes, percebe ou é tocado pelo poder, a luz, a bem-aventurança da infinita existência auto-consciente e traduz seu pensamento ou sua experiência em termos convenientes a sua mentalidade, -(Infinito, Onisciência, Onipotência, Imortalidade, Liberdade, Amor, Beatitude, Deus)-, todavia este sol de sua visão parece brilhar entre uma dupla Noite, -(obscuridade abaixo e uma maior obscuridade mais além)-. Pois quando luta por conhecer isso completamente, parece ingressar em algo que nenhum destes termos nem a soma deles pode representá-lo em sua totalidade. Sua mente, finalmente nega a Deus por um Além, ou ao menos parece descobrir a Deus que transcende a Si mesmo, negando-se a sua própria concepção. Aqui também, no mundo, nele mesmo, e a seu redor, é encontrado sempre pelos opostos de sua afirmação. A morte está sempre com ele, a limitação investe seu ser e sua experiência, o erro, a inconsciência, a debilidade, a inércia, a pena, a dor, o mal, são constantes opressores de seu esforço. Aqui também é conduzido a negar a Deus, ou ao menos o Divino parece negar-se ou ocultar-se em alguma aparência ou resultado que difere de sua realidade verdadeira e eterna.

E os termos desta negação não são, como essa outra e mais remota negação, inconcebíveis e, portanto, naturalmente miste riosos, incognoscíveis em sua mente, senão que parecem ser cognoscíveis, conhecidos, definidos, -e ainda misteriosos-. Não sabe que são, por que existem, como chegaram a ser. Vê seus processos tal como o afetam e se lhe apresentam; não pode sondar sua realidade essencial.

Talvez sejam insondáveis, talvez sejam também realmente incog noscíveis em sua essência? Ou, pode ser, que não tenham realidade essencial, -sejam uma ilusão, Asat, Não-Ser-. A Negação superior se apresenta-nos às vezes como Nihil, Não-Existência; esta negação inferior pode ser também, em sua essência, Nihil, não-existência. Mas assim como já temos rechaçado esta evasão da dificuldade com respeito à negação superior, de igual maneira a descartamos para este Asat inferior. Negar por completo sua realidade ou buscar uma fuga dela como mera ilusão desastrosa, é fazer a um lado o problema e esquivar nosso trabalho. Para a Vida, estas coisas que parecem negar a Deus, ser os opostos de Satchitananda, são reais, inclusive se são considerados como temporais. Elas e seus opostos, bem, conhecimento, alegria, prazer, vida, sobre, força, poder, crescimento, são o material mesmo de suas obras.

Em verdade é provável que sejam o resultado ou melhor os companheiros inseparáveis, não de uma ilusão, senão de uma relação equivocada, equivocada porque está fundada em uma falsa visão de para que está o indivíduo no universo e portanto uma falsa atitude tanto para com Deus como para com a Natureza, para com ele mesmo e seu entorno. Devido ao que ele chegou a ser está fora da harmonia tanto com o que o mundo que habita é como com o que ele mesmo devesse ser e o que vai tornar-se, portanto o homem está sujeito a estas contradições da secreta Verdade das coisas. Nesse caso não são o castigo por uma queda, senão as condições de um progresso. São os elementos pri mários do trabalho que há de cumprir, o preço que há de pagar pela coroa que confia ganhar, o estreito caminho pelo que a Natu reza escapa da Matéria dentro da consciência; são ao mesmo tempo seu resgate e seu requisito.

Pois fora destas falsas relações e com sua ajuda há de encontrar-se a verdade. Pela Ignorância temos de cruzar sobre a morte. Assim, também o Veda fala criticamente de energias que são como mulheres más no impulso, errantes no caminho, danando a seu Senhor, que com tudo, ainda que falsas e infelizes, constroem ao fim “esta vasta Verdade”, a Verdade que é a Bem-aventurança. Seria, então, -(não quando ele tenha alojado o mal em sua Natureza fora dele mesmo por um ato de cirurgia moral, ou tenha apartado a vida por um retiro detestável, senão quando ele tenha convertido a Morte em uma vida mais perfeita, tenha elevado as pequenas coisas da limitação humana para dentro das grandes coisas da imensidade divina, tenha transformado o sofrimento em beatitude, convertido o mal em sua própria bondade, traduzido o erro e a falsidade em sua verdade secreta)-, que o sacrifício será cumprido, a viagem feita e o Céu e a Terra igualadas dêem-se a mano na alegria do Supremo.

Mas estes contrários como podem passar um ao outro? Mediante que alquimia este pomo da mortalidade é convertido nesse ouro do Ser divino? É que são contrários em sua essência? É que não são manifestações de uma só Realidade, idêntica em substância? Então certamente uma transmutação divina chega a ser concebível.

Temos visto que o Não-Ser mais além bem pode ser uma exis tência inconcebível e talvez uma inefável Bem-aventurança. Ao menos o Nirvana do Budismo que formulou um mais luminoso esfor ço do homem por alcançar e descansar nesta suprema Não-Existên cia, se representa na psicologia dos liberados todavia sobre a terra como uma impronunciável paz e alegria; seu efeito prático é a extin ção de todo sofrimento através da desaparição de toda idéia ou sensação egoístas e o mais próximo que podemos acercar-nos a uma concep ção positiva disso, existe uma inespressável Beatitude (se pode aplicar-se nome ou denominação alguma a uma paz tão vazia de conteúdo) na que, inclusive a noção de auto-existência, parece ser deglutida e desaparecer. Trata-se de um Satchitananda ao que já não nos atrevemos a aplicar sequer os termos supremos de Sat, de Chit nem de Ananda. Pois todos os termos são anulados e toda experiência cognitiva é superada.

Por outra parte, temos nos aventurado sugerir que, dado que tudo é uma só Realidade, esta negação inferior também, esta outra con tradição ou não-existência de Satchitananda não é outra coisa que Satchitananda mesmo. É capaz de ser concebido pelo intelecto, percebido na visão, inclusive recebido através das sensações tão verazmente como o que precisamente parece negar, e assim ocorreria sempre a nossa experiência consciente se as coisas não fossem falsificadas por algum grande erro fundamental, alguma possessiva e compulsiva Igno rância, Maya ou Avidya. Neste sentido haveria que buscar uma solução, talvez não uma satisfatória solução metafísica para a mente lógica, —pois estamos no campo do incognoscível, do inefável, e esforçando nossa vista mais além—, senão uma suficiente base de experiência para a prática da vida divina.

Para fazer isto devemos animar-nos a ir debaixo das claras superfícies das coisas nas que a mente ama habitar, tentar o vasto o obscuro, penetrar as insondáveis profundidades da consciência e identificar-nos com estados de ser que não são os próprios. A lin guagem humana é uma pobre ajuda nessa busca, mas ao menos podemos encontrar nele alguns símbolos e figuras, retornar com algumas sugestões apenas expressáveis que ajudarão a iluminar a alma e projetar sobre a mente algum reflexo do inefável desígnio.


[1] [1] I, 6.

[2] [2] “Médium”, pode traduzir-se por “meio”, mas o autor utiliza “means” para referir-se a algo que é utilizado como meio para outra coisa. E “middle” para algo que está em meio.

--------------------------------------------------------------------O---------------------------------------------------------------Capitulo VII

O EGO E AS DUALIDADES

A alma, assentada na mesmo árvore da Natureza, está absorta e desenganada porque não é o Senhor, mas quando vê e está em união com esse outro eu e grandiosidade suas que é o Senhor, seu pesar desaparece dela.

Swetaswatara Upanishad[1]

Se tudo é em verdade Satchitananda, (Existência-Consciência-Bem-aventurança ), a morte, o sofrimento, o mal, a limitação só podem ser as criações, positivas no efeito prático, negativas em essência, de uma deformante consciência, caída, do total e unificador conhecimento de si, em um erro de divisão e experiência parcial. Esta é a queda do homem tipificada na poética parábola do Gênese hebreu. Essa queda é seu desvio da plena e pura aceitação de Deus e de si mesmo, ou melhor, de Deus em si mesmo, para uma divisora consciência separativa que traz consigo todo o séquito de dualidades, vida e morte, bem e mal, alegria e dor, integridade e carência, o fruto de um ser humano dividido e enganado por sua natureza. Este é o fruto da árvore da consciência separativa do bem e do mal que comeram Adão e Eva, Purusha e Prakriti, a alma tentada pela Natureza. A rendição chega mediante a recuperação da Unidade universal no individual, e do elemento espiritual na consciência humana. Só então a alma pode permitir-se na Natureza que participe do fruto da árvore da vida, da árvore do conhecimento e que seja como o Divino e viva para sempre em sua imortalidade restituída. Pois só então pode cumprir-se a finalidade de seu descenso na consciência material, quando o conhecimento do bem e mal, alegria e sofrimento, vida e morte se tenham cumprido através da recuperação, pela alma humana, de um conhecimento superior que reconcilie e identifique estes opostos no universal e transforme suas divisões na imagem da Unidade divina.

Para Satchitananda, -que se estende em todas as coisas em sua mais vasta generalidade e imparcial universalidade-, a morte, o sofrimento e a limitação só podem ser, como muito, termos inversos, sombrias-formas de seus luminosos opostos. Tal como sentimos estas coisas, são signos de uma discórdia. Formulam separação onde deveria haver unidade, incompreensão donde deveria haver compreensão, uma tentativa de chegar a independentes harmonias onde deveria haver uma auto-adaptação do todo orquestal. A totalidade absoluta, -inclusive se só estivesse em um esquema das vibrações universais, inclusive se só fosse uma totalidade da consciência física sem possuir tudo o que está em movimento mais além e detrás-, deve ser até esse ponto uma reversão em prol da harmonia e uma reconciliação de chocantes opostos. Por outra parte, o Satchitananda transcendente das formas do universo já não podem aplicar-se justamente os termos duais mesmos, inclusive assim entendidos. A transcendência transfigura; não reconcilia, senão que melhor transmuta os opostos em algo que os sobrepassa eliminando suas oposições.

Ao princípio, no entanto, devemos trabalhar para relacionar o indivíduo outra vez com a harmonia da totalidade. É necessário para nós, -do contrário o problema não tem solução-, compreender que os termos com que nossa atual consciência interpreta os valores do universo, -ainda que praticamente justificados aos fins da experência e o progresso humanos-, não são os únicos termos pelos que é possível interpretá-los e não podem ser as fórmulas completas, corretas e últimas. Precisamente assim como pode haver órgãos sensoriais ou formas de capacidade sensorial que vejam o mundo físico de modo distinto e ainda melhor, pois o fariam mais integralmente, que nossos órgãos sensoriais e nossas capacidades sensitivas, de igual maneira pode haver outras perspectivas mentais e supramentais do universo que sobrepassem a nossa. Existem estados da cons ciência nos que a Morte é só uma mudança em Vida imortal, a dor um violento refluxo das águas do deleite universal, a limitação um vazio do Infinito sobre si mesmo, o mal um rodeio do bem entorno de sua própria perfeição; e isto não só em uma abstrata concepção, senão também na visão real e na expe riência constante e substancial. Atingir a estes estados da consciência pode ser, para o indivíduo, um dos mais importantes e indispensáveis passos de seu progresso até a auto-perfeição.

Certamente, os valores práticos que nos brindam nossos sentidos e nosso dualístico sentido-mente podem manter-se em seu campo e aceitar-se como modelo da vida-experiência ordinária até que esteja pronta uma harmonia maior na que possam ingressar e transfor mar-se sem perder el domínio das realidades que representam. Aumentar as faculdades-sensórias sem ter em conta o conhecimento que brindariam os antigos valores sensoriais a sua correta interpretação desde o novo ponto de vista, poderia conduzir à sérias desordens e incapacidades e não adequar-se à vida prática nem ao uso ordenado e disciplinado da razão. Igualmente, um alargamento de nossa consciência mental, fora da experiência das dualidades próprias do ego, dentro de uma não-regulada unidade com alguma forma de consciência total, poderia facilmente produzir confusão e incapacidade para a vida ativa da humanidade na ordem estabelecida das relatividades do mundo. Esta, sem dúvida, é a raiz do mandato imposto no Gita ao homem que tem o conhecimento, não para perturbar a vida-base nem o pensamento-base dos ignorantes; pois, impulsionados por seu exemplo, mas incapazes de compreender o princípio de sua ação, perderiam seu próprio sistema de valores sem chegar a um fundamento superior.

Tal desordem e incapacidade pode aceitar-se pessoalmente, e assim o fazem muitas grandes almas, como uma passagem temporal ou como o preço que se há de pagar para o ingresso em uma existência mais ampla. Mas a correta meta do progresso humano deve ser sempre uma reinterpretação efetiva e sintética, pela que a lei dessa mais ampla existência, possa representar-se em uma nova ordem de verdades e em uma mais justa e pujante obra das faculdades sobre a vida-material do universo. Para os sentidos o sol marcha em torno à terra; isso foi para eles o centro da existência e as propostas da vida estão dispostas sobre a base desta concepção errônea. A verdade é o oposto mesmo dessa concepção, mas seu descobrimento houvesse sido de escassa utilidade se não existisse uma ciência que converte a nova concepção no centro de um conhecimento racional e ordenado preferindo seus corretos valores às percepções dos sentidos. De igual maneira, para a consciência mental, Deus se espalha em torno ao ego pessoal e todas Suas obras e caminhos são traídos ante o juízo de nossas egoístas sensações, emoções e concepções, e ali lhes dão valores e interpretações que, ainda que constituem uma perversão e inversão da verdade das coisas, com tudo são úteis e praticamente suficientes em um certo desenvolvimento da vida e progresso humanos. São uma tosca sistematização prática de nossa experiência das coisas, válida na medida que moramos em uma certa ordem de idéias e atividades. Mas não representam o último e supremo estado da vida e conhecimento humanos. "O caminho é a Verdade e não a falsidade.” A verdade não é que Deus se espalha em torno ao ego como centro da existência e possa ser julgado pelo ego e seu critério das dualidades, senão que o Divino é em si mesmo o centro e que a experiência do indivíduo só encontra sua própria verdade quando esta é conhecida nos termos do universal e o transcendente. Não obstante, substituir esta concepção pela egoísta sem uma adequada base de conhecimento pode conduzir à substitução de novas mas todavia falsas e arbitrárias idéias em lu gar das velhas, e produzir um violento desconcerto em vez da estabelecida desordem de valores corretos. Essa desordem marca sobretudo o início de novas filosofias e religiões, e dá começo a revoluções úteis. Mas a verdadeira meta só se alcança quando podemos agrupar em torno à correta concepção central um conhecimento racional e efetivo no que a vida egoísta redescobrirá todos seus valores transformados e corregidos. Então possuiremos essa nova ordem de verdades que nos possibilitará substituir uma mais divina vida pela existência que agora levamos e efetivizar um mais divino e pujante uso de nossas faculdades na vida-material do universo.

Essa vida e poder novos do humano integral, devem necessariamente repousar sobre uma realização das grandes verdades que traduza dentro de nosso modo de conceber as coisas a natureza da existência divina. Isto deve suceder através de uma renúncia do ego a seu falso ponto de permanência e a suas falsas certezas, através de seu ingresso em uma relação e harmonia corretas com as totalidades das que forma parte e com as transcendências das que é um descenso, e através de sua perfeita auto-abertura a uma verdade e a uma lei que excedem suas próprias convenções, uma verdade que será sua realização e uma lei que será sua liberação. Sua meta deve ser a abolição daqueles valores que são criações da visão egoísta das coisas; seu cume deve ser a transcendência da limitação, da ignorância, da morte, do sofrimento e do mal.

A transcendência, a abolição não são possíveis aqui na terra e em nossa vida humana se os termos dessa vida estão necessariamente ligados a nossa atual valorização egoísta. Se a vida é em sua natureza, um fenômeno individual e não a representação de uma existência universal e o hálito de uma poderosa Vida-Espírito; se as dualidades que são a resposta do indivíduo a seus contatos não são meramente uma resposta senão a essência e condição de todo o vivente; se a limitação é a inalienável natureza da substância com a que estão formados nossa mente e corpo; se a desintegração na morte é a primeira e última condição de toda vida, seu fim e seu princípio; se o prazer e a dor são a inseparável matéria dual de toda sensação; se a alegria e o pesar são a luz e sombra necessárias de toda emoção; se a verdade e o erro são os dois pólos entre os quais todo conhecimiento deve espargir eternamente, então a transcendência é só acessível mediante o abandono da vida humana em um Nirvana além de toda existência ou mediante a conquista de outro mundo, um céu constituído de modo muito diferente ao deste universo material.

Não é muito fácil para a cotidiana mente do homem, sempre apegada a suas associações passadas e presentes, conceber uma existência todavia humana, mas que radicalmente tenha modificado aquelas circunstâncias que previamente considerávamos imóveis. Com respeito a nossa possível evolução superior estamos em grande medida na posição do Macaco original da teoria darwiniana. Haveria sido impossível a esse Macaco, -que levava sua arbórea vida instintiva nos bosques pri mitivos-, conceber que um dia haveria sobre a terra um animal que utilizaria uma nova faculdade chamada Razão sobre os materiais de sua existência interna e externa, que dominaria mediante esse poder seus instintos e hábitos, transformaria as circunstâncias de sua vida física, construiria casas de pedra, manipularia as forças da Natureza, navegaria os mares, voaria pelos ares, desenvolveria códigos de conduta, evoluiria métodos conscientes para seu desenvolvimento mental e espiritual. E se essa concepção houvesse sido possível para a mente simiesca, todavia houvesse-lhe sido difícil imaginar que por qualquer progresso da Natureza ou prolongado esforço da Vontade e a tendência, ele mesmo poderia evoluir até esse animal. O homem, devido a que adquiriu razão e mais ainda porque satisfez seu poder imaginativo e intuitivo, é capaz de conceber uma existência superior à sua própria e inclusive ver sua elevação pessoal mais além de seu estado atual dentro dessa existência. Sua idéia do estado supremo é um absoluto de tudo quanto é positivo, para seus próprios conceitos e desejável, para sua própria aspiração instintiva, o Conhecimento sem sua negativa sombra de erro; a Bem-aventurança sem sua negação de experimentar sofrimento; o Poder sem sua constante negação pela incapacidade; a pureza e a plenitude do ser sem o sentido oposto do defeito e a limitação. É assim como concebe seus deuses; assim é como construiu seus céus. Mas não é assim como sua razão concebe uma terra possível e uma humanidade possível. Seu sonho de Deus e Céu é em realidade um sonho de sua própria perfeição; mas descobre igual dificuldade em aceitar sua realização prática aqui em ordem a seu fim último, tal como o Macaco ancestral se lhe demandasse que acreditasse em si mesmo como o Homem futuro. Sua imaginação, suas aspirações religiosas podem sustentar esse fim diante ele; mas quando sua razão se faz valer, rejeitando a imaginação e a intuição transcendente, qualifica isso como uma brilhante superstição contraria aos fatos sólidos do universo material. Isso se converte então unicamente em sua inspirada visão do impossível. Tudo quanto é possível é um condicionado, limitado e precário conhecimento, felicidade, poder e bondade.

Ainda no princípio da razão mesma existe a afirmação de uma Transcendência; pois o total objetivo e essência da razão é a busca do Conhecimento, a busca, vale dizer, da Verdade mediante a eliminação do erro. Seu critério, seu objetivo, não é o de passar de um erro maior a um menor, sino que consiste em uma positiva, pré-existente Verdade à qual, através das dualidades do correto conhecimento e do equivocado conhecimento, podemos mover-nos progressivamente. Se nossa razão não tem a mesma certeza instintiva com respeito às outras aspirações da humanidade, é porque falta-lhe a mesma essencial iluminação inerente a sua própria atividade positiva. Podemos precisa mente conceber uma realização positiva ou absoluta da felicidade porque o coração igualmente pertence esse instinto para a felicidade, tem sua própria forma de certeza, é capaz de fé, e porque nossas mentes podem prever a eliminação do insatisfeito desejo que é a causa aparente do sofrimento. Mas como con ceberemos a eliminação da dor desde nossa sensação nervosa ou da morte desde a vida do corpo? Inclusive a rejeição da dor é um instinto soberano das sensações, a rejeição da morte é um dominante reclame inerente à essência de nossa vitalidade. Mas estas coisas apresentam-se diante nossa razão como aspirações instintivas, não como potencialidades realizáveis.

E a mesma lei há de se manter em tudo. O erro da razão prática é uma excessiva sujeição ao fato aparente ao que pode sen tir imediatamente como real e uma insuficiente coragem para desenvolver fatos mais profundos, desde sua potencialidade até sua lógica conclusão. O que hoje é, constitui a realização de uma potencialidade anterior; a potencialidade atual é um vislumbre e promessa da realização futura. E aqui a potencialidade existe; pois o domínio dos fenômenos de pende de um conhecimento de suas causas e processos e se conhecemos as causas do error, do pesar, da dor, da morte, podemos esforçar-nos com alguma esperança até sua eliminação. Pois o conhecimento é poder e domínio.

De fato, perseguimos como ideal, tão longe como podemos, a eliminação de todos estes fenômenos negativos ou adversos. Buscamos constantemente minimizar a causa do erro, da dor e do sofrimento. A ciência, a medida que aumenta seu conhecimento, sonha com regular o nascimiento e com prolongar indefinidamente a vida, ou mais ainda, com alcançar a inteira conquista da muerte. Mas devido a que visamos só as causas externas e secundárias, só podemos pensar em suprimi-las até uma distância e não em eliminar as raízes reais disso contra o que lutamos. E dessa maneira estamos limitados porque trabalhamos até percepções secun dárias e não até o conhecimento-raiz, porque conhecemos os processos das coisas mas não sua essência. Assim chegamos a uma mais poderosa manipu lação das circunstâncias, e não ao controle essencial. Pois se pudéramos apreender a natureza essencial e a causa essencial do erro, do sofrimento e da morte, poderíamos esperar chegar a um domínio sobre eles que não seria relativo senão completo. Poderíamos esperar inclusive, eliminá-los por completo e justificar o instinto dominante de nossa natureza mediante a conquista desse bem, bem-aventurança, conhecimento e imortalidade absolutos que nossas intuições percebem como o último e verdadeiro estado do ser humano.

O antigo Vedanta apresenta-nos essa solução na concepção e experiência do Deus Brahman como o único fato universal e essencial, e na natureza de Brahman como Satchitananda.

Nesta visão, a essência de toda vida é o movimento de uma existência universal e imortal; a essência de toda sensação e emoção é o desfrute de um deleite universal e auto-existente no ser; a essência de todo pensamento e percepção é a radiação de uma verdade universal e oni-penetrante; la essência de toda atividade é a progressão de um bem universal e auto-atuante.

Mas o desfrute e o movimento se corporizam em uma multiplicidade de formas, uma variação de tendências, um intercâmbio de energias. A multiplicidade permite a interferência de um fator determinativo e temporariamente deformativo, o ego individual; e a natureza do ego é uma auto-limitação da consciência me diante uma voluntária ignorância do resto de seu desfrute e sua exclusiva absorção em uma só forma, uma só combinação de tendências, um só campo do movimento de energias. O ego é o fator que determina as reações do erro, do pesar, da dor, do mal, da morte; pois dá valor a estes movimentos que, de outro modo, seriam representados em sua correta relação com uma só Existência, Bem-aventurança, Verdade e Bem. Ao recuperar a relação correta podemos eliminar as reações Ego-determinadas, reduzindo-as eventualmente a seus verdadeiros valores; e esta recuperação pode efetuar-se mediante a correta participação do indivíduo na consciência da totalidade e na consciência do transcendente que a totalidade representa.

No último Vedanta se deslineou e chegou a fijar-se a idéia de que o ego limitado é, não só a causa das dualidades, senão a condição essencial para a existência do universo. Ao desembarazar-nos da ignorância do ego e suas limitações resultantes, eliminamos certamente as dualidades, mas junto com elas eliminamos nossa existência no movimento cósmico. Dessa maneira retornaríamos à essencialmente má e ilusória natureza da existência humana e à incapacidade de todo esforço em posse da perfeição da vida do mundo. Quanto podemos buscar aqui é um bem relativo ligado sempre a seu oposto. Mas se nos aderimos à maior e profunda idéia de que o Ego é só uma representação intermediária de algo além de Si mesmo, escapamos desta consequência e somos capazes de aplicar o Vedanta à realização da vida e não só a escapar desta. A causa e condição essenciais da existência universal é o Senhor, Ishwara ou Purusha, manifestando e habitando formas individuais e universais. O Ego limitado é só um fenômeno intermediário de consciência necessário para uma certa linha de desenvolvimento. Seguindo esta linha, o indivíduo pode chegar ao que está mais além dele mesmo, àquele que ele representa, e pode ainda continuar representando, não já como um escuro e limitado Ego, senão como um centro do Divino e da consciência universal abarcando, utilizando e transformando em harmonia com a Divindade todas as determinações individuais.

Então temos a manifestação do divino Ser Consciente na totalidade da Natureza física como fundamento da existência humana no universo material. Temos o emergir desse Ser Consciente em uma involutiva e inevitavelmente evolutiva Vida, Mente e Supramente como a condição de nossas atividades; pois é esta evolução a que capacitou ao homem aparecer na Matéria e é esta evolução a que o capacitará progressivamente para manifestar a Deus no corpo, - a Encarnação Universal -. Temos em uma formação egoísta o fator intermediário e decisivo que permite ao Uno emergir como o consciente da Unidade nos Muitos (Múltiplo), fora dessa indeterminada totalidade geral, obscura e sem forma, que chamamos o subconsciente, —hrdya samudra, o oceânico coração das coisas do Rig Veda. Temos as dualidades de vida e morte, alegria e pesar, prazer e dor, verdade e erro, bem e mal como as primeiras formações da consciência egoísta, o resultado natural e inevitável de sua tentativa de realizar a unidade em uma construção artificial de si mesma, excludente da verdade, bem, vida e deleite totais do ser no universo. Temos a dissolução desta construção egoísta mediante a auto-abertura do indivíduo até o universo e Deus como meio dessa suprema realização na que a vida egoísta é só um prelúdio, assim como a vida animal foi só um prelúdio da humana. Temos a realização do Todo no indivíduo mediante a transformação do ego limitado em um centro consciente da unidade e liberdade divinas, como o termo ou conquista, ao que chega a quem o realiza. E temos o fluir da Existência, Verdade, Bem e Deleite infinitos e absolutos do ser sobre os Muitos, no mundo, como o resultado divino até o qual se espalham os ciclos de nossa evolução. Esse é o supremo nascimento que a maternal Natureza guarda em seu seio; daquele, luta por ser liberada.


[1] IV, 7 --------------------------------------------------------------------O---------------------------------------------------------------

 

Capítulo VIII

OS MÉTODOS DO CONHECIMENTO VEDÂNTICO

Este Eu secreto de todos os seres não é aparente, senão que é visto por meio da razão suprema, a sutil, por aqueles que têm a visão sutil.

Katha Upanishad[1]

Mas qual é, então, o trabalho deste Satchitananda no mundo e mediante que processo das coisas são as relações entre aquele e o ego que o figura, primeiro formadas, e depois levadas a sua consumação? Pois dessas relações e do processo que sigam depende a filosofia e prática totais de uma vida divina para o homem.

Chegamos à concepção e ao conhecimento de uma existência divina por superação da evidência dos sentidos e penetrando além das paredes da mente física. Na medida em que nos confinamos no sentido-evidência e na consciência física, nada podemos conceber e nada podemos conhecer salvo o mundo material e seus fenômenos. Mas certas faculdades em nós capacitam a nossa mentalidade para chegar a concepções que podemos certamente deduzir, -por racionalização ou por variação imaginativa-, dos fatos do mundo físico tal como os vemos, mas que não se acham creditadas por nenhum dado puramente físico nem experiência física alguma. O primeiro destes instrumentos é a razão pura.

A razão humana tem uma dupla ação, mista ou dependente e pura ou soberana. A razão aceita uma ação mista quando se limita ao círculo de nossa experiência sensível, admite sua lei como verdade final e se preocupa somente do estudo do fenômeno, vale dizer, das aparências das coisas em suas relações, processos e utilidades. Esta ação racional é incapaz de conhecer o que é, só conhece o que aparenta ser, carece de medida com a que poder sondar as profundidades do ser, só pode explorar o campo do acontecer. A razão por outra parte, afirma sua ação pura, quando aceita nossas experiências sensíveis como ponto de partida mas recusa estar limi tada por elas; olha detrás das mesmas, julga, trabalha com sua própria lei e luta por alcançar conceitos gerais e inalteráveis que se aderem, não às aparências das coisas, senão ao que está detrás de suas aparências. Pode alcançar seu resultado mediante apreciação direta passando de imediato da aparência ao que está detrás dela e nesse caso, o conceito ao que se elevou pode parecer resultado da experiência sensória e dependente dela ainda que em realidade se trate de uma percepção da razão atuando com sua própria lei. Mas as percepções da razão pura podem também —e esta é sua mais característica ação— usar a experiência da que partem como mera recusa e deixá-la muito atrás antes de chegar a seu resultado, tão distante que o resultado pode parecer o contrário direto do que nossa experiência sensória deseja ditar-nos. Este movimento é legítimo e indispensável, devido, não só a que nossa experiência normal unicamente cobre uma pequena parte do fato universal, senão a que também, dentro dos limites de seu próprio campo, usa instrumentos que são defeituosos e nos dão falsos pesos e medidas. Nossa experiência normal deve ser superada, mantida a distância, e sua insistência negada a menos se temos de alcançar mais adequadas concepções da verdade das coisas. Corrigir os erros do Sentido-mente mediante o uso da razão é um dos mais valiosos poderes desenvolvidos pelo homem e a causa principal de sua superioridade entre os seres terrestres.

O completo uso da razão pura nos leva finalmente do conhecimento físico ao metafísico. Mas os conceitos do conhecimento metafísico não satisfazem em si mesmos plenamente a demanda de nosso ser integral. Em verdade, são inteiramente satisfatórios para a razão pura, porque são a substância mesma de nossa existência. Mas nossa natureza vê as coisas sempre através de dois olhos, pois os vê duplamente, como idéia e como acontecido, e portanto, todo conceito é incompleto para nós, e para uma parte de nossa natureza, quase irreal até que sucede uma experiência. Mas as verdades que estão agora em questão, são de uma ordem não sujeita a nossa experiência normal. Estão, em sua natureza, "muito além da percepção dos sentidos mais apreensíveis pela percepção da razão”. Portanto, é necessária alguma outra faculdade da experiência pela que possa ser conquistada a demanda de nossa natureza e isto só pode chegar, dado que estamos tratando com o suprafísico, mediante uma extensão da experiência psicológica.

Em certo sentido, toda nossa experiência é psicológica, dado que inclusive o que recebemos mediante os sentidos carece de significado e valor para nós até que é traduzido nos termos do sentido-mente, o Manas da terminologia filosófica hindu. Manas, dizem nossos filósofos, é o sexto sentido. Mas nós inclusive podemos dizer que é o único sentido e que os outros, vista, ouvido, tato, olfato, gosto são meramente especializações do sentido-mente, o qual, ainda que normalmente usa os órgãos-sensórios como base de sua experiência, ainda os supera e é capaz de uma experiência direta ajustada a sua própria ação inerente. O sentido-mente, como resultado da experiência psicológica, - igualmente que as cognições da razão-, é capaz no homem de uma dupla ação, mista ou dependente e pura ou soberana. Sua ação mista tem lugar comumente quando a mente busca chegar a ser consciente do mundo externo, do objeto; a ação pura, quando busca chegar ao conhecimento de si mesmo, do sujeito. Na primeira atividade, é dependente dos sentidos, e forma suas percepções de acordo com suas evidências; na última, atua em si mesma e é consciente das coisas diretamente por uma sorte de identidade com elas. Dessa maneira somos conscientes de nossas emoções; somos conscientes da ira, -como agudamente se disse-, porque chegamos a ser a ira. Assim somos conscientes de nossa própria existência, e aqui, a natureza da experiência como conhecimento por identidade, se torna aparente. Em realidade, toda experiência é, em sua natureza secreta, conhecimento por identidade; mas seu verdadeiro caráter nos é ocultado pois temos nos separado do resto do mundo por exclusão, por distinção de nós mesmos como sujeito e todo o demais como objeto, e nos vemos compelidos a desenvolver processos e órgãos pelos que novamente possamos entrar em comunicação com tudo quanto temos excluído. Temos de substituir o conhecimento direto através da identidade consciente por um conhecimento indireto que parece ser causado por contato físico e simpatia mental. Esta limitação é uma criação fundamental do ego e uma mostra da maneira em que há procedido em tudo, partindo de uma falsidade original e cobrindo a correta verdade das coisas com falsidades contingentes que para nós chegam a ser as verdades práticas da relação com o mundo exterior.

Desta natureza do conhecimento mental e sensório, -tal como atualmente está organizado em nós-, se segue que não há necessidade inevitável em nossas limitações existentes. São o resultado de uma evolução na que a mente se acostumou a depender de cer tos funcionamentos fisiológicos e de suas reações como seus meios normais para entrar em relação com o universo material. Portanto, ainda que a regra é que quando buscamos chegar a ser conscientes do mundo externo, temos de obrar assim, indiretamente através dos órgãos-sensórios, e podemos experimentar só, tanto parte da verdade acerca das coisas e dos homens como os sentidos nos transmitam, com tudo esta regra é meramente a regularidade de um hábito dominante. É possível para a mente, -e seria natural para ela, se pudera ser persuadida a liberar-se de seu consentimento ao domínio da matéria-, tomar conhecimento direto dos objetos de sensação sem o auxílio dos órgãos-sensórios. Isto é o que sucede em experimentos hipnóticos e fenômenos psicológicos afins. Por que nossa consciência em vigília está determinada e limitada pelo equilíbrio entre a mente e a matéria elaborada pela vida em sua evolução, este conhecimento direto é comumente impossível em nosso ordinário estado de vigília e portanto há de causar-se lançando a mente em vigília dentro de um estado de sono que libere a mente verdadeira ou subliminal. A mente é então capaz de afirmar seu verdadeiro carácter como o todo-suficiente e único sentido, e livre para aplicar aos objetos da sensação, sua ação pura e soberana em lugar da mista e dependente. Não é esta extensão da faculdade realmente impossível, senão só mais difícil em nosso estado de vigília, —tal e como é sabido por todo aquele que há sido capaz de ir o bastante longe em certos caminhos de experimentação psicológica.

A ação soberana do Sentido-mente pode empregar-se para desenvolver outros sentidos além dos cinco que ordinariamente usamos. Por exemplo, é possível desenvolver o poder de apreciar com exatidão, sem meios físicos, o peso de um objeto que suste ntamos em nossas mão. Aqui a sensação de contato e pressão se utiliza meramente como ponto de partida, assim como os dados do sentido-experiência são usados pela pura razão, mas não é em realidade o sentido do tato o que dá a medida do peso à mente; descobre o valor correto através de sua própria percepção independente e usa o tato só em ordem a entrar em relação com o objeto. E assim como com a pura razão, e de igual maneira com o sentido-mente, o sentido-experiência pode usar-se como mero primeiro ponto desde o que se acede a um conhecimento que nada tem que ver com os órgãos-sensórios e contudo contradiz suas evidências; tão pouco está a extensão da faculdade limitada só a exterioridades e superfícies. É possível, uma vez que tenhamos entrado por qualquer dos sentidos em relação com um objeto externo, aplicar de igual modo o Manas para chegar a ser consciente dos conteúdos do objeto, por exemplo, receber ou perceber os pensamentos ou sentimentos de outros sem ajuda de suas manifestações orais, gestos, ações ou expressões faciais, e inclusive em contradição com estes dados sempre parciais e contudo enganosos. Finalmente, mediante a utilização dos sentidos interiores, —vale dizer, dos sentido-poderes, em si mesmos, em sua atividade puramente mental ou sutil como diferenciada da física que é só uma eleição, aos fins da vida externa, de sua ação total e geral—, podemos ser capazes de tomar conhecimento de sentido-experiências, de aparências e imagens de coisas distintas das que pertencem à organização de nosso entorno material. Todas estas extensões da faculdade, -ainda que recebidas com vacilação e incredulidade pela mente física, porque são anormais para o esquema habitual de nossa vida e experiência ordinárias, difíceis de colocar em ação, ainda mais difíceis de sistematizar, assim como de ser capaz de fazer delas um conjunto ordenado e útil de instrumentos-, devem contudo admitir-se dado que são o invariável resultado de qualquer intento de ampliar o campo de nossa consciência superficialmente ativa, seja já mediante algum tipo de não-ensinado esforço e casual efeito desordenado ou seja mediante uma prática científica e bem regulada.

Nenhuma, dessas extensões, no entanto, conduz ao objetivo que temos em mente, a experiência psicológica dessas verdades que estão “além da percepção pelo sentido mas apreensíveis me diante às percepções da razão”, buddhigrá-hyam atíndriyam[2]. Elas nos dão só um mais vasto campo de fenômenos, e meios mais efetivos para a observação dos fenômenos. A verdade das coisas sempre escapa além do sensório. No entanto existe uma saudável regra inerente à constituição mesma da existência universal no sentido de que donde existam verdades acessíveis me diante a razão, deve existir, em algum lugar do organismo possuidor dessa razão, um meio de alcançá-las ou de verificá-las mediante a experiência. O único meio que temos deixado em nossa men talidade é uma extensão dessa forma de conhecimento por identidade que nos dá o conhecimiento de nossa própria existência. Em realidade, o conhecimento do conteúdo de nosso eu está baseado sobre um auto-conhecimento mais ou menos consciente, mais ou menos presente em nossa concepção. Ou para colocar isto dentro de uma fórmula mais genérica, o conhecimento do conteúdo está contido no conhecimento do continente. Se então podemos estender nossa faculdade do auto-conhecimento mental ao conheci mento do Ser-em-si que está além e fora de nós, o Atmam ou Brahman dos Upanishads, podemos chegar a ser possuidores, na experiência, das verdades que formam o conteúdo do Atman ou Brahman no universo. É sobre esta possibilidade que baseou-se o Vedanta hindu. Buscou, através do conhecimento do Ser-em-sí, o conhecimento do universo.

Mas sempre a experiência mental e os conceitos da razão foi sustentado por esta, para ser, inclusive no mais alto, um reflexo das identificações mentais e não a suprema identidade auto-exis tente. Temos de ir mais além da mente e a razão. A razão ativa de nossa consciência em vigília é só uma mediadora entre o Todo subconsciente do que provimos em nossa evolução ascendente e o Todo supraconsciente até o que estamos impulsionados por essa evolução. O subconsciente e o supraconsciente são dois diferentes formulações do mesmo Todo. A palavra mestra do subconsciente é Vida, a palavra mestra do supraconsciente é Luz. O subconsciente, o conhecimento ou consciência está envolvido na ação, pois a ação é a essência da Vida. No supraconsciente a ação reingressa na Luz e envolvido no conhecimento pois este está contido em uma consciência suprema. O conhecimento intuitivo é aquele que é comum a ambos, e a base do conhecimento intuitivo é a identidade consciente ou efetiva entre aquilo que conhece e aquilo que é conhecido; é aquele estado da auto-existência comum no que conhecedor e conhecido são um através do conhecimento. Mas no subconsciente a intuição se manifesta na ação, na efetividade, e o conhecimento ou identidade consciente está inteiramente ou mais ou menos oculto na ação. No supraconsciente, pelo contrário, -sendo a Luz a lei e o princípio-, a intuição se manifesta em sua verdadeira natureza como conhecimento emergindo da identidade consciente, e a efetividade da ação é, melhor dizendo, o acompanhamento ou necessária consequência e já não uma máscara como o fato primário. Entre estes dois estados a razão e a mente atuam como intermediárias que capacitam o ser para liberar o conhecimento fora de seu aprisionamento dentro do ato e prepará-lo para reassumir sua essencial primazia. Quando o auto-conhecimento da mente se aplica, tanto ao continente como ao contido, ao próprio-eu e ao outro-eu, exalta-se na luminosa identidade auto-manifesta, a razão também se converte na forma do intuitivo[3] conhecimento auto-luminoso. Este é o supremo estado possível de nosso conhecimento quando a mente se realiza no supramental.

Tal é o esquema do conhecimento humano sobre o qual as conclusões do Vedanta mais antigo foram construídas. Desenvolver os resultados a que chegaram sobre esta base os sábios antigos não é meu objetivo, mas é necessário passar brevemente em revisão por algumas de suas conclusões principais, tão longe como elas afetem ao problema da Vida divina com o que só nós, estamos no presente concentrados. Pois é naquelas idéias que encontraremos a melhor base prévia disso que buscamos agora reconstruir e ainda que, como passa com todo conhecimento, a velha expressão seja substituída até certo ponto pela nova expressão para satisfazer a uma mentalidade posterior e a velha luz tenha que emergir na nova luz como a aurora sucede à aurora, ainda é com o velho tesouro como nosso capital inicial ou contanto do mesmo como podemos recuperar, que mais vantajosamente continuaremos acumulando os benefícios maiores em nosso novo comércio com o sempre-imutável e sempre-mutável Infinito.

Sat Brahman, Existência pura, indefinível, infinita, absoluta, é o último conceito ao que eleva-se a análise Vedântica em seu critério do universo, a fundamental Realidade que a experiência Vedântica descobre detrás de todo o movimento e formação que constituem a realidade aparente. É óbvio que quando propomos esta concepção, vamos por inteiro além do que nossa consciência ordinária, nossa experiência normal contêm ou representa. Os sentidos e o sentido-mente nada sabem acerca de alguma existência pura ou absoluta. Tudo o que nos refere dela nosso sentido-experiência é forma e movimento. As formas existem, mas com uma existência que não é pura, senão sempre mista, combinada, agregada, relativa. Quando nos internamos em nós mesmos, podemos desfazer-nos da forma precisa mas não do movimento, da mudança. A idéia da Matéria no Espaço, a idéia da mudança no Tempo parecem ser a condição da existência. Certamente podemos dizer, se nos agrada, que isto é existência e que a idéia de existência em si mesma corresponde a uma realidade não descobrível. Ao mais, no fenômeno do auto-conhecimento ou detrás dele, às vezes captamos um vislumbre de algo imóvel e imutável, algo que percebemos vagamente ou imaginamos que somos, além de toda vida e morte, além de toda mudança, formação e ação. Aqui está a única porta em nós que às vezes se abre o esplendor de uma verdade além e, antes que se feche outra vez, deixa que um raio nos toque, uma luminosa intimação que, se temos força e firmeza, podemos manter em nossa fé e convertê-la em um ponto de partida para outro despertar da consciência, diferente do sentido-mente, para o despertar da Intuição.

Pois se examinamos com cuidado, descobriremos que a Intuição é nossa primeira mestra. A Intuição sempre está velada detrás de nossas operações mentais. A Intuição traz ao homem aquelas brilhantes mensagens do Desconhecido que são o princípio de seu conhecimento superior. A razão só ingressa depois para ver que proveito pode sacar da brilhante colheita. A Intuição nos dá a idéia de algo detrás e mais além de tudo o que conhecemos e que parece ser o que o homem sempre persegue em contradição com sua razão inferior e toda sua experiência normal, e o impulsiona a formular essa percepção sem forma nas mais positivas idéias das eras, Imortalidade, Céu e o resto de idéias pelas que trabalhamos para expressá-las na mente. Pois a Intuição é tão forte como a Natureza mesma, de cuja alma surgiu, e não se preocupa pelas contradições da razão ou as negações da experiência. Sabe que é porque é, porque ela mesma é disso e há vindo disso, e não o submeterá ao juízo do que meramente chega a acontecer e parecer (o meramente transitório e aparente). O que a Intuição nos diz não é tanto Existência senão o Existente, pois opera desde esse único ponto de luz em nós que lhe dá sua vantagem, que às vezes abriu a porta de nosso próprio auto-conhecimento. O antigo Veda captou esta mensagem da Intuição e o formulou nas três grandes declarações dos Upanishads: “Eu sou Ele”, “Tu és Isso, ¡oh Swetaketu”, “Tudo isto é o Brahman; este Ser é o Brahman”.

Pois a Intuição, pela natureza mesma de sua ação no homem, trabalhando como o faz desde detrás do véu, ativa principalmente em suas partes menos iluminadas, menos articuladas, e servida diante do véu, na exígua luz que é nossa consciência em vigília, só por instrumentos que são incapazes de assimilar plenamente suas mensagens, é incapaz de brindar-nos a verdade naquela forma ordenada e articulada que nos sa natureza exige. Antes que possa efetuar algum tipo de integração do conhecimento direto em nós, teria que organizar-se em nosso ser superficial e tomar possessão ali da parte diretiva. Mas em nosso ser superficial não está a Intuição, está a Razão, a qual está organizada e nos ajuda a ordenar nossas percepções, pensamentos e ações. Portanto a idade do conhecimento intuitivo representado pelo mais jovem pensamento Vedântico dos Upanishads, teve de ceder seu lugar à idade do conhecimento racional; a Escritura inspirada cedeu lugar à filosofia metafísica, tal como depois a filosofia metafísica cedeu seu lugar à Ciência experimental. O pensamento intuitivo, que é um mensageiro do supraconsciente e pelo tanto nossa suprema faculdade, foi suplantado pela pura razão que é uma forma de suplente e pertence às alturas médias de nosso ser; a pura razão, por sua vez, foi suplantada, durante um tempo, pela ação mista da razão que vive em nossas dobras e suaves elevações e não pode em sua visão exceder o horizonte da experiência que a mente física e os sentidos, -ou aqueles auxílios que possamos inventar para eles-, possam aportar-nos. E este processo que parece ser um descenso, é em realidade um círculo de progresso. Pois em cada caso a faculdade inferior é compelida a absorver tanto como possa assimilar do que a superior já havia dado, e tentar reestabelecê-lo mediante seus próprios métodos. Mediante dito intento alarga-se em sua perspectiva e eventualmente chega a uma mais flexível e ampla auto-acomodação às faculdades superiores. Sem esta sucessão e intento de assimilação separada, nos veríamos obrigados a permanecer sob o domínio exclusivo de uma parte de nossa natureza, enquanto o resto ficaria deprimido ou indevidamente submetido, ou separado em seu campo e, portanto, pobre enquanto a seu desenvolvimento. Com esta sucessão e separada tentativa o equilíbrio é ajustado; uma mais completa harmonia de nossas partes de conhecimento se prepara.

Vemos esta sucessão nos Upanishads e nas filosofias hindustânicas subsequentes. Os sábios do Veda e do Vedanta confiaram por inteiro na intuição e na experiência espiritual. É por erro que às vezes os eruditos falam de grandes debates ou discussões no Upanishad. Donde exista a aparência de uma controvérsia, não é por discussão, por dialética nem pelo uso do raciocínio lógico do que procede, senão por comparação de intuições e experiências nas que a menos luminosa cede seu lugar à mais luminosa, a mais estreita, mais defeituosa ou menos essencial à mais compreensiva, mais perfeita, mais essencial. A pergunta formulada por um sábio a outro é: "Que sabes tu?" não: "Que pensas tu?" nem "A que conclusão chegou teu raciocínio?". Em nenhum lugar dos Upanishads descobrimos coluna alguma de raciocínio lógico chamado em apoio das verdades do Vedanta. A intuição, parece haver sustentado os sábios, só deve ser corrigida por uma mais perfeita intuição; o raciocínio lógico não pode ser seu juiz.

E contudo, a razão humana exige seu próprio método de satisfação. Portanto, quando começou a idade da especulação racionalista, os filósofos da Índia, respeitosos da herança do passado, adotaram uma dupla atitude até a Verdade que buscavam. Reconheceram no Sruti, os primevos resultados da Intuição, ou como preferiram chamá-lo, da inspirada Revelação, uma autoridade superior à Razão. Mas ao mesmo tempo partiram desde a Razão e comprovaram os resultados que esta lhes deu, sustentando como válidas só aquelas conclusões que eram apoiadas pela suprema autoridade. Desse modo evitaram, até certo ponto, o acossador pecado da metafísica, a tendência a batalhar entre nuvens devido a que se trata com palavras como se fossem fatos imperativos em lugar de símbolos que sempre serão cuidadosamente examinados e devolvidos constantemente ao sentido do que representam. Suas especulações tenderam ao princípio a acercar ao centro à mais elevada e profunda experiência, e procederam com o consentimento unido das duas grandes autoridades, Razão e Intuição. Não obstante, a tendência natural da Razão de fazer valer sua própria supremacia triunfou, em efeito, sobre a teoria de sua subordinação. Daí o surgimento de conflitantes escolas, cada qual fundada na teoria do Veda, utilizando seus textos como arma contra as demais. Pois o supremo Conhecimento intuitivo vê as coisas em sua totalidade, em sua grandeza e detalhes só lados da totalidade indivisível; sua tendência se orienta até a imediata síntese e a unidade do conhecimento. A Razão, pelo contrário, procede mediante análise e divisão, e acumula seus feitos para formar um todo; mas nesse conteúdo assim formado existem opostos, anomalias, lógicas incompatíveis, e a tendência natural da Razão consiste em afirmar alguns e negar outros que estejam em conflito com suas escolhidas conclusões de modo que possa formar um sistema impecavelmente lógico. A unidade do primeiro conhecimento intuitivo se quebrou dessa maneira e o engenho dos lógicos sempre foi capaz de descobrir artifícios, métodos de interpretação, modelos de valor variável, pelos que os textos inconvenientes da Escritura puderam ser anulados na prática, adquirindo uma inteira liberdade para sua especulação metafísica.

Não obstante, as principais concepções do mais remanescente Vedanta permaneceram em parte nos diversos sistemas filosóficos e, de tanto em tanto, fizeram-se esforços por recombiná-las dentro de alguma imagem da antiga universalidade e unidade do pensamento intuitivo. E detrás do pensamento de tudo, diversamente apresentado, sobreviveu como a concepção fundamental, Purusha, Atman o Sat Brahman, o puro Existente dos Upanishads, muitas vezes racionalizado dentro de uma idéia ou estado psicológico, mas todavía por tando algo de seu antigo carregamento de inexpressável realidade. Qual seja a relação do movimento do devir -que é o que chamamos o mundo-, com esta Unidade absoluta, e como o ego – seja já causa ou consequência do movimento-, pode retornar a esse verdadeiro Ser-em-si, Divinidade ou Realidade declarada pelo Vedanta, estas foram as questões especulativas e práticas que sempre ocuparam o pensamento da Índia.

[1] III; 12.

[2] Gita, VI, 21.

[3] Uso a palavra "intuitivo" na falta de uma melhor. Em verdade, é um substituto inadequado para o que se expressa. O mesmo há de dizir-se da palavra “consciência” e muitas outras que, por nossa pobreza verbal, nos vemos obrigados a estender ilegitimamente em seu significado. A palavra inglesa é “intuitional”. (Não se pode usar “intuicional”).

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Capítulo IX

O PURO EXISTENTE

Um indivisível que é existência pura.

Chhandogya Upanishad[1]

Quando retiramos nosso olhar fixo de suas preocupações egoístas com limitados e breves interesses, e contemplamos o mundo com desapaixonados e curiosos olhos que só buscam a Verdade, nosso primeiro resultado é a percepção de uma ilimitada energia de existência infinita, de infinito movimento[2] , de infinita atividade difundindo-se no Espaço sem limites, no Tempo eterno; uma existência que supera infinitamente nosso ego ou qualquer ego de qualquer colectividade de egos, em cujo equilíbrio os grandiosos produtos de eones não são senão o pó de um momento e em cuja incalculável soma as inumeráveis miríades só contam como um insignificante enxame. Instintivamente atuamos, sentimos e tecemos nossos pensamentos vitais como se este estupendo movimento do mundo trabalhasse à nossa volta, como se fossemos o centro, e para nosso beneficio, para nossa ajuda ou para nosso dano, ou como se a justificação de nossos laços egoístas, emoções, idéias, modelos, foram seu próprio negócio quando em realidade, são nossa própria preocupação principal. Quando começamos a ver, percebemos que existe para si mesma, não para nós, que tem seus próprios objetivos gigantescos, sua própria idéia complexa e ilimitada, seu próprio vasto desejo ou deleite, que busca realizar, suas próprias normas imensas e formi­dáveis, e olha nossa insignificância com uma sorte de indulgente e irônico sorriso. Com tudo não passemos ao outro extremo e formemos uma idéia demasiado positiva de nossa insignificância. Isso também seria um ato de ignorância e fechar nossos olhos aos grandes feitos do universo.

Pois este ilimitado Movimento não nos considera sem importância para ele. A Ciência nos revela quão minucioso é o cuidado, quão sagaz é o mecanismo, quão intensa é a absorção com que se entrega tanto à mais ínfima de suas obras como à máxima. Esta poderosa energia é uma mãe igual e imparcial, saman Brahma, no grande termo do Gita, e sua intensidade e força de movimento é a mesma na formação e elevação de um sistema de sóis que na organização da vida de um formigueiro. É a ilusão do tamanho, da quantidade, a que induz-nos a considerar a um como grande, ao outro como pequeno. Se pelo contrário tomamos em consideração não a massa da quantidade senão a força da qualidade, diremos que a formiga é maior que o sistema solar que habita e que o homem é maior que toda a Natureza inanimada reunida. Mas isto outra vez é a ilusão da qualidade. Quando olhamos detrás e examinamos só a intensidade do movimento, do qual a qualidade e a quantidade são aspectos, compreendemos que este Brahman mora igualmente em todas as existências. Igualmente participando de tudo em seu ser, e nos sentimos tentados a dizer, por igual distribuído a todos em sua energia. Mas isto também é uma ilusão de quantidade. O Brahman mora em todos, indivisível, mas como se estivesse dividido e distribuído. Se olhamos outra vez com uma observadora percepção não dominada por conceitos intelectuais, senão informada pela intuição e que culmine no conhecimento por identidade, veremos que nossa consciência mental é diferente da consciência desta Energia infinita, a qual é indivisível e dá, não uma parte igual de si mesma, senão seu ser íntegro em um só e mesmo tempo ao sistema solar e ao formigueiro. Para o Brahman não há todo e partes, senão que cada coisa é tudo em si e se beneficia pelo todo do Brahman. A qualidade e a quantidade diferem, o ser é igual. A forma, maneira e resultado da força da ação variam infinitamente, mas a energia eterna, primária e infinita, é a mesma em tudo. A potência da fortaleza que faz o homem forte não é nem um piscar maior que a potência da debilidade que faz o débil. A energia gasta é tão grande na repressão como na expressão, na negação como na afirmação, no silêncio como no som.

Portanto, o primeiro cálculo que temos de agregar é esse, entre este Movimento infinito, esta energia da existência que é o mundo e nós mesmos. Atualmente levamos uma conta falsa. Somos infinitamente importantes para o Todo, mas para nós o Todo é insignificante; só nós somos importantes para nós mesmos. Este é o signo da ignorância original que é a raiz do ego, que só pode pensar em si mesmo como centro, como se ele fosse o Todo, e do que não é ele mesmo só aceita aquilo que mentalmente está disposto a admitir, aquilo ao que se vê forçado a reconhecer pelas mudanças extremas do entorno. Inclusive quando começa a filosofar, não afirma que o mundo só existe em e por sua consciência? Seu próprio estado de consciência ou seus modelos mentais são para ele a prova da realidade; tudo o que esteja fora de sua órbita ou ponto de vista se torna falso ou inexistente. Esta auto-suficiência mental do homem cria um sistema de falso cômputo que nos impede extrair o valor correto e pleno da vida. Existe um sentido no que estas pretensões da mente e o ego humanos repousam sobre uma verdade mas esta verdade só emerge quando a mente aprendeu sua ignorância e o ego se submeteu ao Todo e perdido nele sua separada auto-afirmação. Reconhecer que nós, -ou melhor, os resultados e aparências que chamamos nós mesmos-, somos só um movimento parcial deste Movimento infinito e que é esse infinito o que temos de conhecer, ser conscientemente e realizar fielmente, é o começo da vida verdadeira. Reconhecer que em nossos verdadeiros seres somos um com o movimento total e não menores nem subordinados é o outro lado da conta, e sua expressão na maneira de nosso ser, pensamento, emoção e ação é necessária para a culminação de um verdadeiro ou divino viver.

Para retirar da conta temos de conhecer o que é este Todo, esta energia infinita e onipotente. E aqui chegamos a uma nova complicação. Pois nos afirma-o a pura razão e parece também que o Vedanta, que, assim como somos subordinados e um aspecto deste Movimento, de igual maneira o movimento é subordinado e um aspecto de algo distinto a si mesmo, de uma grande atemporalidade, de Estabilidade inespacial, sthanu, que é imutável, inestinguível e inesgotável, que não atua ainda que contenha toda esta ação, não energia, senão pura existência. Aqueles que só vêem este mundo-energia podem certamente declarar que tal coisa não existe; nossa idéia de uma eterna estabilidade, uma pura existência imutável é uma ficcão de nossas concepções intelectuales que partem desde uma falsa idéia do estável, pois não há que seja estável; tudo é movimento e nossa concepção do estável é só um artifício de nossa consciência mental pela que asseguremos um ponto de apoio para tratar praticamente com o movimento. É fácil demonstrar que isto é certo no movimento mesmo. Nada há ali que seja estável. Tudo o que parece ser estacionário é só um bloco de movimento, uma formulação de energia que trabalha, afetando de tal modo nossa consciência que parece estar quieta, do mesmo modo como o planeta parece-nos estar quieto; algo assim como um trem no qual viajamos que parece estar parado em meio de uma paisagem fugaz. Mas é igualmente verdade que subjacente a este movimento, sustentando-o, não há nada que seja imóvel e imutável? É verdade que a existência só consiste na ação da energia? Ou melhor, que a energia é um resultado da Existência?

Vemos ao mesmo tempo que se essa Existência é como a Energia, deve ser infinita. Nem a razão, nem a experiência, nem a intuição, nem a imaginação, nos atestam a possibilidade de um termo final. Todo fim e princípio pressupõe algo além do fim ou do princípio. Um fim absoluto, um princípio absoluto, é não só uma contradição de termos, senão uma contradição da essência das coisas, uma violência, uma ficção. O infinito se impõe sobre as aparências do finito por sua inestinguível auto-existência.

Mas isto é infinito com respeito a Tempo e Espaço, uma duração eterna, uma extensão interminável. A Razão pura vai mais além e, olhando o Tempo e o Espaço sob sua incólume e austera Luz própria, assinala que estas duas são categorias de nossa consciência, condições sob as quais organizamos nossa percepção do fenômeno. Quando olhamos a existência em si mesma, o Tempo e o Espaço desaparecem. Se existe alguma extensão, não é espacial senão psicológica; e então é fácil ver que esta extensão e esta duração só são símbolos que representam à mente algo não traduzível em termos intelectuais, uma eternidade que parece-nos o mesmo sempre-novo momento todo-reunidor, um infinito que parece-nos o todo-penetrante ponto todo-reunidor sem magnitude. E este conflito de termos tão violento, ainda que minuciosamente expressivo de algo que percebemos, demonstra que a mente e a linguagem transpassaram além, seus naturais limites e lutam por expressar uma Realidade na que suas próprias convenções e necessárias oposições desaparecem em uma identidade inefável.

Mas esta é uma observação certa? Não pode ser que o Tempo e o Espaço desse modo desapareçam meramente porque a existência que estamos contemplando é uma ficção do intelecto, um fantástico Nihil criado pela linguagem, que nós trabalhamos por erigir em realidade conceitual? Contemplamos outra vez essa Existência-em-si-mesma e dizemos: Não. Há algo detrás do fenômeno não só infinito senão indefinível. Podemos dizer que no Absoluto não há nenhum fenômeno, nenhum da totalidade dos fenômenos. Inclusive se reduzimos todos os fenômenos a um só fenômeno fundamental, universal e irreduzível do movimento ou da energia, obtemos unicamente um fenômeno indefinível, não o Absoluto. A concepção mesma de movimento leva consigo a potencialidade de repouso e se dilata como atividade de alguma existência; a idéia mesma da energia em ação leva consigo a idéia da energia abastecendo-se da ação; e uma absoluta energia que não está em ação é existência simples e puramente Absoluta. Temos só estas duas alternativas: uma pura existência indefinível ou uma indefinível energia em ação e, se só a última é verdade, sem nenhuma causa ou base estável, então a energia é um resultado e um fenômeno gerados pela ação, o movimento que só é. Então não temos Existência, ou temos o Nihil dos budistas com a existência como só um atributo de um fenômeno eterno, da Ação, do Karma, do Movimento. Isto, -(afirma a pura razão: deixa insatisfeitas minhas percepções, contradiz minha visão fundamental, e portanto não pode ser). Pois nos leva a um último escalão pondo um abrupto final de uma ascensão que deixa toda a escada sem apoio, suspendida no Vazio.

Se esta Existência indefinível, infinita, atemporal, inespacial É, necessariamente um absoluto puro. Não pode ser resumida em nenhuma quantidade nem quantidades, não pode estar composta de nenhuma qualidade ou combinação de qualidades. Não é um agregado de formas nem um substratum formal de formas. Se todas as formas, quantidades, qualidades fossem desaparecer, Esta permaneceria. A Existência sem quantidade, sem qualidade, sem forma é não só concebível, senão também a única coisa que podemos conceber detrás destes fenômenos. Necessariamente, quando dizemos que É sem elas, significamos que as excede, que É algo no que passam de uma maneira que é como se cessasse de ser o que chamamos forma, qualidade, quantidade, e a partir da Qual, elas emergem como forma, qualidade, quantidade no movimento. Elas não terminam dentro de uma forma, uma quantidade, uma qualidade que seria a base de tudo mais, —pois não há tal coisa—, senão dentro de algo que não pode definir-se com nenhum destes termos. Desse modo todas as coisas que observamos, são condições e aparências do movimento, e ocorrem dentro Disso, desde o que chegaram e ali, Nisso, seguem existindo, chegando a ser “algo” que já não poderia descrever-se com os termos que são apropriados para elas no movimento. Portanto, dizemos que a pura existência é um Absoluto e em si mesmo incognocível por parte de nosso pensamento ainda que possamos regressar ao mesmo em uma suprema identidade que transcenda os termos do conhecimento. O movimento, a manifestação, pelo contrário, é o campo do relativo e ainda mediante a definição mesma do relativo todas as coisas no movimento contêm o Absoluto, são contidas no Absoluto e são o Absoluto. A relação dos fenômenos da Natureza com o éter fundamental -que está contido neles, os constitui, os contêm e, contudo, é tão diferente deles que, entrando nele, eles cessam de ser o que agora são-, é a ilustração dada pelo Vedanta como o que mais aproximadamente representa esta identidade na diferença entre o Absoluto e o relativo.

Necessariamente, quando falamos de coisas que passam dentro do que provieram, estamos usando a linguagem de nossa consciência temporal e devemos precaver-nos contra suas ilusões. O emergir do movimento desde o Imutável é um fenômeno eterno e só se deve a que não podemos concebê-lo nesse sem-início, sem-fim, sempre-novo momento que é a eternidade do Sem-Tempo, que nossas noções e percepções são obrigadas a situá-lo em uma eternidade temporal, de duração sucessiva, à que se fixam as idéias de um sempre recorrente princípio, meio e fim.

Mas tudo isto, pode dizer-se, é só válido na medida que aceitemos os conceitos da razão pura e permaneçamos sujeitos a ela. Mas os conceitos da razão não têm força obrigatória. Devemos julgar a existência não pelo que mentalmente concebemos, senão pelo que vemos que existe. E a forma mais pura e livre de intuição da existência tal como é, não nos mostra nada, salvo movimento. Duas coisas somente existem: movimento no Espaço, movimento no Tempo; o primeiro objetivo, o último subjetivo. A extensão é real; a duração é real; Espaço e Tempo são reais. Ainda que possamos olhar detrás da extensão no Espaço, -(e percebê-lo como um fenômeno psicológico, como uma tentativa da mente para tornar manipulável a existência, distribuindo o indivisível todo em um Espaço conceitual)-, ainda não podemos ir detrás do movimento da sucessão e mudança do Tempo. Pois essa é a matéria mesma de nossa consciência. Nós somos e o mundo é um movimento que continuamente progride e aumenta pela inclusão de todas as sucessões do passado em um presente que se representa diante de nós como o princípio de todas as sucessões do futuro, -um princípio, um presente que sempre nos ilude por que não é, pois pereceu antes de nascer-. O que é, é a eterna, indivisível sucessão do Tempo, levando em sua corrente um progressivo movimento da consciência também indivisível[3] . A duração, pois -o movimento eternamente sucessivo e o câmbio no Tempo-, é o único absoluto. O devir é o único ser.

Em realidade, esta oposição da introspecção intuitiva real do ser com as ficções conceituais da pura Razão é uma falácia. Se em verdade a intuição nesta matéria se opusesse realmente à inteligência, não poderíamos com confiança sustentar um raciocínio meramente conceitual contra a fundamental introspecção intuitiva. Mas esta apelação à experiência intuitiva é incompleta. É só válida na medida em que prossegue e erra ao deter-se de repente cortando a experiência integral. Na medida em que a intuição estabelece-se só sobre o que nos acontece, nos vemos como uma progressão contínua de movimento e câmbio da consciência a eterna sucessão do Tempo. Somos o rio, a chama da ilustração budista. Mas existe uma experiência suprema e uma intuição suprema pela que olhamos por detrás de nosso eu superficial e descobrimos que este devir, mutação, sucessão, são só um modo de nosso ser e que em nós existe aquilo que não está de nenhum modo envolvido no devir. Não só podemos ter a intuição disto que é estável e eterno em nós; não só podemos vislumbrá-lo na experiência detrás do véu dos continuamente fugazes acontecimentos, senão que também podemos voltar a Isso e voltar Nisso inteiramente efetuando desse modo um câmbio íntegro em nossa vida externa, e em nossa atitude, e em nossa ação sobre o movimento do mundo. E esta estabilidade, na que podemos viver dessa maneira, é precisamente a que já nos deu a Razão pura, ainda que pode chegar-se a ela sem raciocinar para nada, sem saber previamente que é, -é pura existência, eterna, infinita, indefinível, não afetada pela sucessão do Tempo, não envolta na extensão do Espaço, mais além da forma, da quantidade, da qualidade-, Ser-em-si único e absoluto.

Então o puro existente é um fato e não um mero con ceito; é a realidade fundamental. Mas, apressemo-nos a acrescentar, o movimento, a energia, o devir, são também m fato, também uma realidade. A intuição suprema e sua correspondente experiência podem corrigir esta outra realidade, podem ir mais além, podem suspendê-la mas não aboli-la. Portanto, temos dois fatos fundamentais da existência pura e do mundo-existência, um fato do Ser, um fato do Devir. É fácil negar um ou outro; reconhecer os fatos da consciência e averiguar sua relação é a sabedoria verdadeira e proveitosa.

A estabilidade e o movimento, devemos recordá-lo, são nossas representações psicológicas do Absoluto, tal como são unidade e multiplicidade. O Absoluto está além da estabilidade e do movimento pois está além da unidade e a multiplicidade. Mas funda seu eterno equilíbrio no uno e no estável, e gira entorno de si mesmo, infinitamente, inconcebivelmente, pleno de segurança no móvel e múltiplo. O mundo-existência é a dança estática de Shiva que multiplica o corpo do Deus inumeravelmente diante a visão: deixa essa branca existência precisamente onde estava e como era, sempre é e sempre será; seu único objeto absoluto é a alegria de bailar.

Mas como não podemos descrever nem pensar no Absoluto em si mesmo, além da estabilidade e do movimento, além da unidade e da multiplicidade, não é assunto nosso— devemos aceitar o fato duplo, admitir a ambos, a Shiva e a Kali[4] , e procurar saber o que é este imedível Movimento no Tempo e o Espaço, com respeito a essa pura Existência, atemporal e inespacial, única e estável, à que são inaplicáveis a medida e a ausência-de-medida. Temos visto o que a Razão pura, a intuição e a experiência têm que dizer acerca da Existência pura, acerca de Sat; o que têm a dizer acerca da Força, acerca do Movimento, acerca de Shakti?

E o primeiro que temos que perguntar-nos é se essa Força é simplesmente força, simplesmente una ininteligente energia do movimento ou se a consciência que parece emergir fora, neste mundo material no que vivemos, não é meramente um de seus resultados fenomênicos senão sua própria natureza verdadeira e secreta. Em termos Vedânticos, a Força é simplesmente Prakriti, somente um movimento de ação e processo, ou Prakriti é realmente o poder de Chit, em sua força natural de auto-consciência criativa? Tudo o demais gira em torno a este problema essencial.


[1] VI, 2, 1.

[2] Este movimento, esta energia desenvolvendo-se continuamente, é o trabalho incansável de Shakti, da Mãe, o Poder atuante, a Força criadora, a energia ativa que se baseia em um imutável Sat-Brahman.

[3] Indivisível na totalidade do movimento. Cada momento do Tem po ou da Consciência pode considerar-se como separado de seu predecessor e sucessor; cada ação sucessiva da Energia como um novo quantum ou no­va criação; mas isto não anula a continuidade sem a qual não haveria duração do Tempo nem coerência da consciência. Os passos do homem, quando caminha ou corre ou salta, são separados, mas há algo que agrupa os passos e faz contínuo o movimento.

[4] Shiva e Kali na tradição hindu são esposos, o autor considera aqui sua relação, similar à de Purusha e Prakriti, Shiva seria o passivo absoluto um e estável e Kali sua ativa e móvel energia operante; o autor dá um passo mais e cita seguidamente o termo superior Sat-Shakti.

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Capitulo X

A FORÇA CONSCIENTE

Contemplaram a auto-força do Ser Divino escondido no fundo por seu próprio modo consciente de trabalhar.

Swetaswatara Upanishad[1]

Este é quem está desperto nos que dormem.

Katha Upanishad[2]

Toda a existência fenomênica se resolve em Força, em movimento de energia que assume formas mais ou menos materiais, mais ou menos densas ou sutis de auto-apresentação a sua própria experiência. Nas antigas imagens, -quando o pensamento humano tentou fazer inteligível e real, esta origem e lei do ser-, esta infinita existência de Força foi representada como um mar, inicialmente sossegado e, portanto, livre de formas; mas a primeira perturbação, a primeira iniciação de movimento fez necessária a criação de formas e é a semente do universo.

Matéria é a apresentação de força que é mais facilmente inteligível para nossa inteligência, -moldada esta como o está por contatos com a Matéria-, recebendo a informação de uma mente envolta em um cérebro material. O estado elemental da Força material é, segundo a visão dos antigos físicos indianos, um estado de pura extensão material no Espaço cuja peculiar propriedade é vibração que tipifica-nos pelo fenômeno do som. Mas a vibração neste estado do éter não é suficiente para criar formas. Deve primeiro existir alguma obstrução no fluir do oceano da Força, alguma contração e expansão, alguma interação de vibrações, algum afetar de força sobre força como para criar um princípio de relações fixas e efeitos mútuos. A Força material modificando seu primeiro estado etéreo assume um segundo, chamado na antiga linguagem, aéreo, cuja propriedade especial é o contato entre força e força, contato que é a base de todas as relações manterias. Todavia não temos formas reais senão tão só forças variáveis. Necessita-se um princípio sustentador. Este proporciona-o uma terceira auto-modificação da Força primitiva cujo princípio de luz, eletricidade, fogo e calor é para nós a manifestação característica. Ainda então, po demos ter formas de força que preservam seu caráter próprio e ação peculiar, mas não formas estáveis da Matéria. Um quarto estado caracterizado pela difusão e por um primeiro entorno de atrações e repulsões permanentes, denominado pintorescamente água ou estado líquido, e um quinto estado de coesão, chamado terra ou estado sólido, completam os elementos necessários.

Todas as formas da Matéria que conhecemos, todas as coisas físicas até as mais sutis, estão conformadas mediante a combinação destes cinco elementos. Deles também depende toda nossa experiência sensível; pois por recepção da vibração vem o sentido do olfato; por contato com coisas num mundo de vibrações da Força, o sentido do tato; pela ação da luz nas formas idealizadas, delineadas, sustentadas pela força da luz e o fogo e o calor, o sentido da vista; pelo quarto elemento, o sentido do gosto; pelo quinto, o sentido do olfato. Tudo é essen­cialmente resposta aos contatos vibratórios entre força e força. Deste modo os antigos pensadores construíram uma ponte sobre o abismo entre a Força pura e suas modificações finais, e satisfizeram a dificuldade que impede à ordinária mente humana compreender como todas estas formas que são, para seus sentidos tão reais, sólidas e duráveis, podem ser em verdade somente fenômenos temporários, e uma coisa como a energia pura, -inexistente, intangível e quase incrível para os sentidos-, pode ser a única realidade cósmica permanente.

O problema da consciência não está resolvido com esta teoria, pois não explica como o contato de vibrações da Força há de fazer surgir as sensações conscientes. Os Sankhyas ou pensadores analíticos colocaram, portanto, detrás destes cinco elementos, dois princípios que chamaram Mahat e Ahankara, princípios que são realmente imateriales; pois o primeiro não é senão o vasto princípio cósmico da Força e el outro o princípio divisional do Ego-formação. Não obstante, estes dois princípios igualmente que o princípio da inteligência, se tornam ativos na consciência não em virtude da Força mesma, senão em virtude de uma inativa Consciente-Alma ou almas, nas que suas atividades se refletem e, mediante o reflexo, assumem a matiz da consciência.

Tal é a explicação das coisas oferecida pela escola de filosofia da Índia que mais se aproxima às modernas idéias materialistas e que levou a idéia de uma mecânica ou inconsciente Força na Natureza tão longe como foi possível para a seriamente reflexiva mente indiana. Quaisquer que sejam seus defeitos, sua principal idéia foi tão indiscutível que veio a ser geralmente aceitada. No entanto, o fenômeno da consciência pode explicar-se, - seja já a Natureza um impulso inerte ou um princípio consciente-, certamente como Força; o princípio das coisas é um formativo movimento de energias, todas as formas nascem do encontro e mútua adaptação entre forças sem forma, toda sensação e ação é uma resposta de algo em forma de Força aos contatos de outras formas de Força. Este é o mundo tal como o experimentamos e desde esta experiência devemos sempre partir.

A análise física da Matéria por parte da Ciência moderna chegou à mesma conclusão geral, ainda que perdurem umas poucas dúvidas últimas. A intuição e a experiência confirmam esta concordância de Ciência e Filosofia. A razão pura acha nela a satisfação de suas próprias concepções essenciais. Pois inclusive na visão do mundo como essencialmente um ato da consciência, um ato está implícito, e no ato o movimento de Força, o desdobramento de Energia. Isto também, -quando examinamos desde dentro nossa própria experiência-, prova ser a naturaleza funda mental do mundo. Todas nossas atividades são o jogo da tripla força das antigas filosofias, conhecimento-fuerza, desejo -força, ação-força, e todas elas provam ser realmente três co rrentes de um só Poder original e idêntico, Adya Shakti. Inclusive nossos estados de repouso são somente um estado de igualdade ou de equilíbrio do despertar de seu movimento.

Ao admitir-se o Movimento de Força como a natureza total do Cosmos, surgem duas questões. Em primeiro lugar, como chegou este movimento a ter lugar no seio da existência? Se supomos que não só é eterno senão também a essência mesma de toda a existência, não surge a questão. Mas nos temos negado a aceitar esta teoria. Somos conscientes de uma existência que não está compelida pelo movimento. Então, como este movimento, alheio a seu repouso eterno, chega a tomar lugar nela? Por qual causa? Por qual possibilidade? Por qual misterioso impulso?

A resposta mais aceita pela antiga mente da Índia foi a de que a Força é inerente à Existência. Shiva e Kali, Brahman e Shakti são um e não dois separáveis. A Força inerente à existência pode estar em repouso ou em movimento, mas quando está em repouso, existe no entanto e não é suprimida, diminuída nem de nenhum modo essencialmente alterada. Esta resposta é tão inteiramente racional e de acordo com a natureza das coisas que não necessitamos titubear para aceitá-la. Pois é impossível, devido ao contraditório da razão, supor que a Força é uma coisa alheia à única e infinita existência, e entrou nela desde fora ou era não-existente e surgiu nela em algum ponto do Tempo. Inclusive a teoria ilusionista deve admitir que Maya, o poder de auto- ilusão de Brahman, é potencialmente eterna no Ser eterno e então a única questão é sua manifestação ou não-manifes tação. O Sankhya também afirma a eterna coexistência de Prakriti e Purusha, Natureza e Alma-Consciente, e os alternativos estados de repouso ou equilíbrio de Prakriti e de movimento ou perturbação do equilíbrio.

Mas dado que dessa maneira a Força é inerente à existência e que constitui a natureza da Força ter esta dupla ou alternativa potencialidade de repouso e movimento, vale dizer, de auto-concentração em Força e de auto-difusão em Força, não surge a questão a respeito de como do movimento, sua possibilidade, impulso iniciador ou causa impulsora. Pois então podemos conceber facilmente que esta potencialidade deve traduzir-se como um ritmo alternativo de repouso e movimento sucedendo-se um ao outro no Tempo ou como uma eterna auto-concentração da Força na existência imutável com um superficial despertar de movimento, cambio e formação como a ascensão e queda das ondas na su­perfície do oceano. E este despertar superficial pode ser coexistente com a auto-concentração e em si mesmo também eterno, -falamos necessariamente com imagens inadequadas-, ou pode começar e terminar no Tempo e resumir-se por uma sorte de ritmo constante; então não é eterno na continuidade senão eterno na recorrência.

Eliminado dessa maneira o problema do como, se apresenta a questão do porquê. Por que deveria esta possibilidade de um despertar de movimento da Força transladar-se a tudo? Por que a Força da existência não deveria permanecer eternamente concentrada em si mesma, infinita, livre de toda variação e formação? Esta questão tão pouco se suscita se damos por encerrado que a Existência é não-consciente e que a consciência é só um desenvolvimento da energia material que equivocadamente supomos que é imaterial. Pois então podemos dizer simplesmente que este ritmo é a natureza da Força na existência e absolutamente não há razão de buscar um porquê, uma causa, um motivo inicial ou um propósito final para o que, em sua natureza, é eternamente auto-existente. Não podemos apresentar essa questão à auto-existência eterna e perguntar-lhe por que existe ou como veio à existência; nem se o podemos suscitar auto-força da existência com sua natureza inerente de impulso do movimento. Então, tudo quanto podemos perguntar se refere a sua maneira de auto-manifestação, seus princípios de movimento e formação, seu processo de evolução. Ambas, Existência e Força são inertes, -inerte estado e inerte impulso-, inconscientes e ininteligentes ambas, ali não pode haver propósito algum nem meta final em evolução, nem causa original ou intenção alguma.

Mas o problema se suscita se supomos ou descobrirmos que a Existência é o Ser consciente. Podemos certamente supor um Ser consciente que está sujeito a sua natureza de Força, compelido por ela e sem opção com respeito a se manifestar-se-a no universo ou ficará sem manifestar. Tal é o Deus cósmico dos Tântricos e dos Mayavadins que está sujeito à Shakti ou Maya, Purusha envolvido em Maya ou controlado por Shakti. Mas é óbvio que tal Deus não é a suprema Existência infinita com a que temos partido. É somente uma formulação do Brahman no cosmos realizada pelo Brahman mesmo, que é logicamente anterior à Shakti ou Maya, e a leva de regresso a seu ser transcendental quando cessa em suas obras. Em uma existência conscientes que é absoluta, independente de suas formações, não determinada por suas obras, devemos supor uma liberdade inerente a manifestar ou não manifestar a potencialidade do movimento. Um Brahman compelido por Prakriti não é Brahman, senão um Infinito inerte com um conteúdo ativo nele mais poderoso que o continente, um consciente reunidor da Força, de quem sua Força é dona. Se dizemos que está compelido por si como Força, por sua própria natureza, não nos livramos da contradição, não evadimos nosso primeiro postulado. Temos que regressar a uma Existência que é em realidade nada mais que Força, Força em repouso ou em movimento, Força absoluta talvez, mas não Ser absoluto.

É preciso então examinar interiormente a relação entre Força e Consciência. Mas que queremos dizer com o último termo? Comumente significamos com ele nossa óbvia idéia primária de uma consciência mental em vigília tal como se a possuísse o ser humano durante a maior parte de sua existência corporal, quando não está dormido, aturdido ou de algum outro modo privado de seus físicos e superficiais métodos de sensação. Neste sentido está suficientemente claro que a consciência é a exceção e não a regra na ordem do universo material. Nós mesmos não sempre a possuímos. Mas esta vulgar e superficial idéia da natureza da consciência, ainda que todavia impregna nossos pensamentos e associações ordiná rios, deve agora desaparecer definitivamente do pensar filosófico. Pois sabemos que em nós há algo que é consciente quando dormimos, quando estamos aturdidos ou drogados ou desvanecidos, em todos os estados aparentemente inconscientes de nosso ser físico. Não só isso, senão que agora podemos estar seguros que os antigos pensadores estavam certos quando declaravam que, inclusive em nosso estado de vigília, o que chamamos então nossa consciência é só uma reduzida seleção de nosso inteiro ser consciente. É uma superfície, mas não a totalidade de nossa mentalidade. Detrás dela, mais vasta que ela, há uma mente subliminal ou subconsciente que é a maior parte de nós mesmos, e contêm cumes e profundidades que nenhum, homem há medido nem sondado todavia. Este conhecimento nos brinda um ponto de partida para a verdadeira ciência da Força e suas obras; nos livra definidamente de estar circunscritos pelo material e da ilusão do óbvio.

O Materialismo insiste certamente em que, qualquer que seja a extensão da consciência, é um fenômeno material inseparável de nossos órgãos físicos, e não sua usuária senão seu resultado. Este apresentar ortodoxo, no entanto, já não pode sustentar-se contra a maré do conhecimento em expansão. Suas explicações se tornam cada vez mais e mais inadequadas e forçadas. Cada vez se faz mais claro que não só a capacidade de nossa consciência total supera de longe à de nossos órgãos, os sentidos, os nervos, o cérebro, senão que inclusive para nosso pensamento e consciência ordinários estes órgãos são unicamente seus instrumentos habituais e não seus geradores. A consciência usa o cérebro ao qual seus esforços ascendentes produziram, o cérebro não produziu nem usa a consciência. Além disto, há casos anormais que vêm a provar que nossos órgãos não são instrumentos inteiramente indispensáveis, -que os batimentos cardíacos não são absolutamente necessários para a vida, igualmente que a respiração, como tão pouco ou são as organizadas células cerebrais, para o pensamento-. Nosso organismo físico é tão nulo para causar ou explicar o pensamento e a consciência como a construção de uma máquina para causar a explicar o poder motor do vapor ou a eletricidade. A força é anterior, não o instrumento físico.

Disto se seguem consequências lógicas importantes. Em primeiro lugar, po­demos perguntar-nos se, -dado que inclusive a consciência mental existe donde vemos inanimação e inércia-, não é possível que também nos objetos materiais esteja presente uma subconscientemente universal, ainda que incapaz de atuar ou comunicar-se a suas superfícies por falta de órgãos. É o estado material um vazio de consciência, ou não é, melhor dizendo, só um sonho da consciência, -ainda que, desde o ponto de vista da evolução, um sonho original e não intermediário? E mediante o sonho, o exemplo humano nos ensina que significamos não uma suspensão da consciência, senão sua concentração interior, afastada da consciente resposta física aos impactos das coisas externas. E não corresponde isto a toda existência que ainda não há desenvolvido meios de comunicação externa com o externo mundo físico? Não há uma Alma-Consciente, um Purusha que está desperto para sempre, inclusive em tudo o que dorme?

Vamos mais adiante. Quando falamos de mente subconsciente, expressamos com a frase uma coisa que não difere da outra mentalidade externa, mas que só atua sob a superfície, desconhecida para o homem em vigília, no mesmo sentido que se estivesse submergida à maior profundidade e com maior alcance. Mas os fenômenos do eu subliminal excedem com folga os limites de qualquer definição. Inclui uma ação não só imensamente superior em capacidade, senão também de uma classe bastante diferente do que conhecemos como mentalidade de nosso eu em vigília. Temos, portanto, dereito a supor que em nós há um supraconsciente igualmente que um subconsciente, um rincão de faculdades conscientes e, por conseguinte, uma organização da consciência que se eleva sobre esse extrato psicológico ao que damos o nome de mentalidade. E dado que o eu subliminal em nós se eleva na supraconsciência por cima da mentalidade, É possível que também possa não submergir-se na subconciência debaixo da mentalidade? Não há em nós e no mundo formas de consciência que sejam submentais, às que podemos dar o nome de consciência vital e física? Em caso afirmativo, devemos também supor na planta e no metal uma força à que podemos dar o nome de consciência ainda que não seja a mentalidade humana ou animal para a qual temos preservado até agora o monopólio dessa descrição.

Isto não só é provável senão que, se consideramos as coisas des­apaixonadamente, é certo. Em nós mesmos existe essa consciência vital que atua nas células do corpo e nas funções vitais automáticas de modo que vivemos através de movimentos plenos de propósito e obedecemos atrações e repulsões às que nossa mente é estranha. Nos animais, esta consciência vital é inclusive um fator mais importante. Nas plantas é intuitivamente evidente. As buscas e contrações da planta, seu prazer e dor, seu sono e vigília, e toda essa estranha vida cuja verdade trouxe à luz um científico da India, com métodos rigorosamente científicos, são todos mo vimentos da consciência mas, pelo que até agora conhecemos, não da mentalidade. Existe então uma submental, uma vital consciência, que tem precisamente as mesmas reações iniciais que a mental, mas é diferente na constituição de sua auto-experiência, assim como o que é supraconsciente é, na constituição de sua auto-experiência, diferente do ser mental.

O alcance do que podemos chamar consciência cessa na planta, nisso no que reconhecemos a existência de uma vida subanimal? Em caso afirmativo, devemos então supor que existe uma força de vida e consciência originalmente alheia à Matéria que, contudo, entrou dentro dela, e ocupado a Matéria —talvez proveniente de outro mundo [3] . De que outra parte pôde provir? Os antigos pensadores acreditavam na existência destes outros mundos, que talvez sustentem a vida e a consciência no nosso ou inclusive a provocam por sua pressão, mas não a criam mediante sua entrada nele mesmo. Nada pode evoluir da Matéria que já não esteja contido ali.

Mas não há razão para supor que a gama da vida e a consciência fala e se detém no que nos parece puramente mate rial. O desenvolvimento da investigação e do pensamento recente parece apontar a uma sorte de obscuro princípio de vida e talvez uma sorte de consciência inerte ou suspendida no metal e na terra e em outras formas “ina nimadas”, ou ao menos a matéria prima do que em nós chega a ser consciência pode estar ali. Ainda quando só na planta podemos obscuramente reconhecer e conceber a coisa que chamei consciência vital, a consciência da Matéria, da forma inerte, resulta certamente difícil para nós entendê-lo ou imaginá-lo, e o que achamos difícil de entender ou imaginar consideramo-nos com dereito a negá-lo. Não obstante, quando um há seguido a tanta profundidade à consciência, resulta inacreditável que possa existir este súbito abismo na Natureza. O pensamento tem dereito a supor uma unidade onde essa unidade está confessada por todas as outras classes de fenômenos e em uma só classe unicamente, não negada, senão meramente mais oculta que as demais. E se supomos que a unidade se acha interrompida, então alcançamos à existência da consciência em todas as formas da Força que trabalha no mundo. Ainda que não houvesse consciente ou supraconsciente Purusha morando em todas as formas, contudo existe naquelas formas uma força consciente do ser da qual inclusive suas outras partes aberta ou inertemente participam.

Necessariamente, com esse critério, a palavra consciência muda de significado. Já não é sinônimo de mentalidade senão que indica uma auto-consciente força da existência da que a mentalidade é termo médio; debaixo da mentalidade se funde nos movimientos vitais e materiais que para nós são subconscientes; acima, se eleva no supramental que para nós é o supraconsciente. Mas em tudo está a única e mesma coisa organizando-se diferente mente. Esta é, uma vez mais, a concepção indiana de Chit que, como energia, cria os mundos. Essencialmente, chegamos a essa unidade que a ciência materialista percebe desde o outro extremo quando assevera que a Mente não pode ser outra força que a Matéria, mas deve ser meramente desenvolvimento e resultado da energia material. O pensamento indiano, em sua máxima profundidade, afirma, por outra parte, que Mente e Matéria são, melhor dizendo, diferentes graus da mesma energia, diferentes organizações de uma Força cons­ciente da Existência.

Mas que dereito temos a dar, é claro, que a consciência seja a descrição justa para esta Força? Pois a consciência implica algum tipo de inteligência, intencionalidade, auto-conhecimento, inclusive ainda que não tomem as formas habituais para nossa mentalidade. Inclusive desde este ponto de vista tudo apoia muito mais que contradiz a idéia de uma universal Força consciente. Vemos, por exemplo, no animal, operações de uma intencionalidade per feita e de um conhecimento exato, cientificamente minu cioso, que estão muito além das capacidades da mentalidade animal e que o homem mesmo só pode adquirir mediante uma prolongada educação e ainda então as usa com muito menor rapidez e segurança. Estamos facultados a ver neste fato geral a prova de uma Força consciente que trabalha no animal e no inseto que é mais inteligente, mais intencionada, mais conhecedora de seu propósito, suas finalidades, seus meios e suas condições, que a suprema mentalidade manifestada em qualquer forma individual sobre a terra. E nas operações da Natureza inanimada achamos a mesma característica plena de uma suprema inteligência oculta, “oculta nas modalidades de suas próprias obras”.

O único argumento contra uma fonte consciente e inteligente para esta intencionada obra, este trabalho da inteligência, da seleção, da adaptação e a busca, é esse grande elemento das operações da Natureza ao que damos o nome de desperdício. Mas obviamente esta é uma objeção baseada nas limitações de nosso humano intelecto que busca impor sua particular racio nalidade, bastante boa para os limitados fins humanos, nas operações gerais do Mundo-Força. Vemos só parte do propósito da Natureza e tudo o que não serve a essa parte o chamamos desperdício. Inclusive nossa própria ação humana está cheia de um aparente desperdício, tão evidente desde o ponto de vista individual que contudo, podemos estar seguros, serve bastante bem para o grande e final propósito das coisas. Essa parte de sua intenção que podemos detectar, a Natureza consegue fazê-la seguramente bastante apesar de seu aparente desperdício, talvez realmente em virtude desse aparente desperdício. Bem podemos confiar nela no resto que ainda não detectamos.

Para o resto é impossível ignorar o caminho do propósito do jogo, a direção da aparente tendência cega, a segura chegada eventual ou imediata ao objetivo buscado, que caracterizam as operações do Mundo-Força no animal, na planta, nas coisas inanimadas. Na medida em que a Matéria foi o Alfa e o Ômega para a mente científica, a repugnância a admitir à inteligência como a mãe da inteligência foi un honesto escrúpulo. Mas agora isto não é mais que um gasto paradoxo para afirmar o emergir da consciência humana, a inteligência e o domínio de uma ininteli gente e cegamente condutora inconsciência na que não existiram previamente nem forma nem substância delas. A consciência do homem não pode ser nada mais que uma forma da consciência da Natureza. Está ali em outras envoltas formas debaixo da Mente, emerge na Mente, ascenderá ainda a formas superiores além da Mente. Pois a Força que constrói os mundos é uma Força consciente, a Existência que se manifesta neles é o Ser consciente e um emergir perfeito de suas potencialidades na forma é o único objeto que racionalmente podemos conceber para sua manifestação deste mundo das formas.


[1] I, 3.

[2] V, 8.

[3] É agora corrente a curiosa especulação de que a Vida ingressou na terra não proveniente de outro mundo, senão de outro planeta. Para o pensa dor isso nada explicaria. A questão essencial é como a Vida entra na Matéria e não como entra na matéria desde um particular planeta.