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PostHeaderIcon - A VIDA DIVINA (SRI AUROBINDO) -- Capitulo XI a XX

Capítulo XI

O DELEITE DA EXISTÊNCIA: O PROBLEMA

Pois quem poderia viver ou respirar se não existisse este de­leite da existência, como o éter no qual moramos?

Do Deleite todos estes seres nasceram, pelo Deleite existem e crescem, pelo Deleite retornam.

Taittiriya Upanishad[1][1]

Ainda que aceitemos esta pura Existência, Sat, este Deus ou Brahman, como o princípio, fim e conteúdo absolutos das coisas, e em Brahman uma inerente auto-consciência inseparável de seus seres projetando-se como força do movimento da consciência que é criadora de forças, formas e mundos, todavia não teríamos resposta à questão: Por quê, Brahman, perfeito, absoluto, infi­nito, que nada necessita, que nada deseja, haveria de projetar força de consciência para criar em si mesmo estes mundos das for­mas?” Porque temos deixado de lado a solução de que está obri­gado, por sua própria natureza de Força, a criar, obrigado, por sua própria potencialidade de movimento e formação, a mudar-se nas formas. É certo que tem esta potencialidade, mas não está limitado, restringido nem compelido por ela; é livre. Se então, -sendo livre para expandir-se ou permanecer eternamente quieto, para projetar-se nas formas ou reter a potencialidade das formas em si mesmo-, se concede poder de movimento e formação isso só pode ser por uma razão: por deleite.

Esta Existência primeira, última e eterna, como a vêm os Ve­dantinos, não é uma mera existência desnuda, nem uma existência cons­ciente cuja consciência é bruta força ou poder; é uma existência consciente cujo termo preciso, tanto do ser como da consciência, é a bem-aventurança. Assim como na existência absoluta não pode existir o nada, nem a noite da inconsciência, nem a deficiência, vale dizer, nem o fracasso da Força, -pois se houvesse alguma destas coisas não seria absoluta-, tão pouco pode haver sofrimento ou negação do deleite. O absoluto da existência consciente é bem-aventurança ilimitável da existência consciente; ambas só são frases diferentes para a mesma coisa. Toda ilimitabilidade, todo infinito, todo absoluto é puro deleite. Inclusive nossa humanidade relativa tem esta experiência de que toda insatisfação significa limite, obs­táculo, -a satisfação chega por consecução de algo retido, por transpasso do limite, pela superação do obstáculo-. Isto sucede porque nosso ser original é o absoluto em plena possessão de sua auto-cons­ciência e auto-poder infinitos e ilimitáveis; uma auto-possessão cujo outro nome é auto-deleite. E em proporção, enquanto o relativo acede a essa auto-possessão, se lança para a satisfação, acede ao deleite.

No entanto, o auto-deleite do Brahman não está limitado pela quieta e imóvel possessão de seu auto-ser absoluto. Assim como sua força de consciência é capaz de projetar-se nas formas infinitamente com uma variação sem fim, de igual modo também seu auto-deleite é capaz de movimento, de variação de revelar-se nesse fluxo e mutabilidade infinitos de si mesmo, representados por inumeráveis uni­versos repousantes. Liberar e desfrutar este movimento e variação infinitos de seu auto-deleite é o objetivo de seu extensivo ou criativo despertar de Força.

Em outras palavras, o que projetou de si mesmo, dentro das formas é uma e trina Existência-Consciência-Bem-aventurança, Satchitananda, cuja consciência é em sua natureza uma criativa ou melhor dizendo, auto-expres­siva Força capaz de infinita variação em fenômeno e forma de seu ser auto-consciente e que desfruta interminavelmente do deleite dessa variação. Dele, se segue que todas las cosas que existem são o que são como termos dessa existência, termos dessa força consciente, termos desse deleite de ser. Tal como descobrimos que todas as coisas são formas mutáveis de um ser imutável, resultados finitos de uma força infinita, de igual modo descobriremos que todas as coisas são variável auto-expressão de um invariável e todo-abarcante deleite de auto-existência. Em tudo o que é, mora a força consciente, e existe e é o que é em virtude dessa força consciente; de igual modo também em tudo o que é, está o deleite da exis­tência e existe e é o que é em virtude desse deleite.

Esta antiga teoria Vedântica da origem cósmica enfrenta-se de imediato, na mente humana, com duas poderosas contradições: a consciência emotiva e sensitiva da dor e o problema ético do mal. Pois se o mundo é uma expressão de Satchitananda, não só de existência que é força-consciente, -pois isso pode admitir-se facilmente-, senão também de existência que é também infinito auto-deleite, como temos de explicar a presença universal do pesar, do sofrimento, da dor? Pois este mundo mais nos parece mundo de sofrimento que de deleite da existência. Certamente, essa visão do mundo é um exagero, um erro de perspectiva. Se o olhamos desapaixonadamente e com um só critério em ordem a uma apreciação precisa e não emocional, descobriremos que a soma do prazer da existência excede com acréscimo a soma da dor da existência, - não obstante às aparências e casos individuais que podem argumentar o con­trário -, e que o ativo ou passivo, superficial ou subjacente prazer da existência é o estado normal da natureza, enquanto que a dor é um evento contrário que temporariamente suspende ou altera esse estado normal. Mas por essa precisa razão a menor soma de dor nos afeta mais intensamente e muitas vezes se destaca em maior proporção que uma soma superior de prazer; justamente porque o último é normal, não o valorizamos, dificilmente o observamos a menos que se intensifique em alguma forma mais aguda de gozo, em uma onda de felicidade, em uma crista de alegria ou êxtase. São estas mais altas coisas que buscamos, o que chamamos deleite, e a satisfação normal da existência, -que está sempre ali independentemente do sucesso e da causa ou propósito particulares-, nos afeta como algo neutro que não é nem prazer nem dor. Isto é assim, e se trata de um grande fato prático, porque sem ele não existiria o universal e poderoso instinto de auto-conservação, mas não é o que buscamos e portanto não o fazemos entrar em nosso balanço de perdas e ganhos emocionais e sensitivas. Nesse balanço só estabelecemos pra­zeres positivos por um lado e mal-estar e dor pelo outro; a dor nos afeta com mais intensidade porque é anormal para nosso ser, contrário a nossa tendência natural e é experimentado como um ultraje a nossa existência, uma ofensa e ataque externo contra o que somos e buscamos ser.

Não obstante, a anormalidade da dor e sua soma maior ou menor não afeta à questão filosófica; maior ou menor, sua mera presença constitui o problema total. Sendo tudo Satchitananda, como podem existir a dor e o sofrimento? Este, é o problema real, é muitas vezes confundido por uma questão falsa que parte desde a idéia de um pessoal Deus extra-cósmico e uma questão à parte, a dificuldade ética.

Satchitananda, pode racionalizar-se, é Deus, é um Ser consciente que é autor da existência; como então pode Deus haver criado um mundo nele qual Ele inflinge sofrimento a Suas criaturas, aceita a dor, permite o mal? Sendo Deus Todo-Bem, quem criou a dor e o mal? Se dizemos que a dor é juiz e condena, não resolvemos o problema moral, alcançamos a um Deus moral ou amoral, -um excelente mecânico do mundo talvez, um astuto psicólogo-, mas não um Deus do Bem e do Amor a quem possamos adorar, só um Deus de Poder a cuja lei devemos submeter-nos ou cujos caprichos podemos esperar propiciar. Porque quem inventa a tortura como meio de prova ou reflexão, resulta convicto de crueldade deliberada ou de insensibilidade moral e, em caso de que exista uma moral, esta é inferior ao supremo instinto de suas próprias criaturas. E se para iludir esta dificuldade moral, dizemos que a dor é re­sultado inevitável e castigo natural do mal moral, -explicação que não se ajustará aos fatos da vida a menos que admitamos a teoria do Karma e renascimento pela que a alma sofre agora por pré-natais pecados de outros corpos-, ainda não eludimos a raiz mesma do problema ético, quem criou ou por quê ou de donde foi criado esse mal moral que implica o castigo com dor e sofrimento? E vendo que o mal moral é em realidade uma forma de enfermidade ou ignorância mentais, quem ou que criou esta lei ou inevitável co­nexão que castiga uma enfermidade mental ou um ato de ignorância com um fato tão terrível, com torturas às vezes tão extremas e monstruosas? A lei inexorável do Karma é irreconciliável com uma suprema Deidade moral e pessoal, e portanto a clara lógica de Buda negou a existência de qualquer livre e oni-gover­nante Deus pessoal; Buda afirmou que toda personalidade é uma criação da ignorância e está sujeita ao Karma.

Em verdade, a dificuldade assim bruscamente apresentada só surge se damos por confirmada a existência de um pessoal Deus extra-cós­mico, que em Si mesmo não é o universo, que criou bem e mal, dor e sofrimento para Suas criaturas, mas que O mesmo está acima sem que aqueles lhe afetem, vigiando, regendo, fazendo Sua von­tade com um mundo sofredor e em luta ou, se não faz Sua vontade, se permite que o mundo seja governado por uma lei inexorável, sem Seu auxílio, ou socorrido ineficientemente, então não é Deus, não é onipotente, não é todo-bem e todo-amor. Com nenhuma teoria de um moral Deus extra-cósmico, podem explicar-se o mal e o sofri­mento, -a criação do mal e do sofrimento-, exceto mediante um insatisfatório subterfúgio que ilude a pergunta discutida em vez de respondê-la, ou um claro ou implícito maniqueísmo que praticamente anula a Deus ao procurar justificar seus modos ou recusar suas obras. Mas esse Deus não é o Satchitananda Vedântico. Satchitananda do Vedanta é uma só existência sem uma segunda; tudo o que é, é Ele. En­tão, se o mal e o sofrimento existem, é Ele quem leva o mal e o sofrimento à criatura na que Ele Se há corporizado. O problema muda assim por completo. A pergunta já não é como chegou Deus a criar para suas criaturas sofrimento e mal, dos quais Ele Mesmo estaria isento e portanto imune, senão como a única e infi­nita Existência-Consciência-Bem-aventurança chegou a admitir em si mesma o que não é bem-aventurança, o que parece ser sua positiva negação?

A metade da dificuldade moral desaparece, -essa dificuldade em sua única forma incontestável-. Já não se suscita nem pode apresen­tar-se mais. A crueldade para os outros, ficando Eu imune ou ainda participando de seus sofrimentos mediante subsequente arrepen­timento ou tardia piedade, é uma coisa; auto-infligir-se sofrimento, sendo eu a única existência, é uma coisa muito distinta. A dificuldade ética pode retornar a uma forma modificada; sendo o Todo­ Deleite necessariamente todo-bem e todo-amor, como podem existir em Satchitananda o mal e o sofrimento, dado que ele não é exis­tência mecânica, senão ser livre e consciente, livre para condenar e rejeitar o mal e o sofrimento? Temos de reconhecer que a questão assim formulada é também falsa porque aplica os termos de uma afirmação parcial como se pudessem aplicar-se ao todo. Pois as idéias de bem e de amor que dessa maneira introduzimos no conceito do Todo-Deleite surgem de uma dualista e divisional con­cepção das coisas; estão baseadas inteiramente nas relações entre criatura e criatura e enquanto, persistimos em aplicá-las a um problema que parte, pelo contrário, da suposição do Uno que é tudo. Primeiro temos de ver como se apresenta o problema e como pode resolver-se em sua pureza original, sobre a base da unidade na diferença; só então podemos com segurança tratar com suas partes e seus desenvolvimentos, tal como nas relações entre criatura e criatura o faríamos sobre a base de sua divisão e dualidade.

Temos de reconhecer, -se enfocamos desta maneira o todo, sem limitar-nos pela dificuldade humana e ao ponto de vista humano-, que não vivemos em um mundo ético. A tentativa do pensamento hu­mano de forçar um significado ético dentro da totalidade da Natureza é um desses atos de caprichosa e obstinada auto-confusão, uma dessas patéticas tentativas do ser humano endereçados a ler seu limitado e habitual eu humano em todas as cosas e a julgar-las desde o ponto de vista que ele pessoalmente desenvolveu; isso é o que mais efetivamente lhe impede chegar ao conhecimento real e à visão completa. A Natureza material não é ética; a lei que a governa é uma coordenação de hábitos fixos que não tem conheci­mento do bem nem do mal, senão só da força que cria, a força que dispõe e preserva, a força que perturba e destrói imparcial­mente, não eticamente, senão de acordo à secreta Vontade nela, de acordo à muda satisfação dessa Vontade em suas próprias auto-forma­ções e auto-dissoluções. A Natureza animal ou vital também é não-ética, ainda que a medida que progride põe aliviada o cru material a partir do qual o animal superior desenvolve o impulso ético. O tigre porque mata e devora a sua presa não o culpamos mais que a tormenta porque destrói ou ao fogo porque tortura e mata; tão pouco a força-consciente na tormenta, o fogo ou o tigre se culpa ou se condena a si mesma. Culpa e condenação, ou mais claramente, auto-culpa e auto-condenação são o princípio da verdadeira ética. Quando culpamos aos demais sem aplicar-nos a mesma Lei, não expressamos um verdadeiro juízo ético, senão que só aplicamos a linguagem ético que temos desenvolvido para nós em ordem a um impulso emocional de retirada ou desgosto pelo que nos desagrada ou fere.

Esta retirada ou desgosto é a origem primária da ética, mas em si mesmo não é ético. O medo do cervo até o tigre, o furor da criatura forte contra seu agressor é uma retirada vital do deleite individual da existência em relação com o que a ameaça. Ao progredir, a mentalidade se refina a si mesma em repugnância, des­agrado, desaprovação. A desaprovação do que nos ameaça e nos fere, a aprovação do que nos alaga e satisfaz, se refinam na concepção de bom e mau para si mesmo, para a comunidade, para os demais distantes a nós, para as outras comunidades e finalmente na aprovação geral do bem, a desaprovação geral do mal. Mas, contudo e isso, a natureza fundamental da coisa permanece igual. O homem deseja a auto-expressão, o auto-desenvolvimento, em outras palavras, o progressivo despertar em si mesmo da Força-cons­ciente da existência; esse é seu deleite fundamental. Quando fere essa auto-expressão, esse auto-desenvolvimento, essa satisfação de seu progre­ssivo eu, para ele é mal; quanto ajude, confirme, eleve, alargue, enobreça, para ele é seu bem. Somente, sua concepção do auto­-desenvolvimento[2][2] muda, se torna mais elevado e amplo, impeça a sobrepassar sua limitada personalidade, a abarcar aos demais, a abar­cá-lo todo em sua perspectiva.

Em outras palavras, a ética é uma etapa na evolução. O que é comum a todas as etapas é o impulso de Satchitananda até a auto-expressão. Este impulso ao princípio é não-ético, depois infra-ético no animal, logo, no animal inteligente inclusive anti-ético pois nos permite aprovar o dano feito aos demais que desaprovamos quando fazem-no a nós. A este respeito, o homem é todavia agora só semi-ético. E assim como tudo o que está debaixo de nós é infra-ético, de igual maneira pode ser que o que está por cima de nós ao que eventualmente alcançaremos, que é supra-ético, não tenha necessidade de ética. O impulso e atitude éticos, tão oni-importantes para a humanidade, é um meio pelo que trabalha desde a harmonia e universalidade inferiores baseadas na inconsciência e interrompidas pela Vida em discórdias individuais, até uma harmonia e universalidade supe­riores baseadas na consciente unidade com todas as existências. Ao chegar a esa meta, este meio já não é necessário nem possível, dado que as qualidades e oposições dos que depende se dissolverão e desaparecerão com naturalidade na reconciliação final.

Logo, se o ponto de vista ético só se aplica a um temporário ainda que oni-importante passagem de uma universalidade a outra, não podemos aplicá-lo à total solução do problema do universo, e só podemos admiti-lo como um elemento nessa solução. Obrar de modo distinto é correr o perigo de falsificar todos os fatos do universo, todo o significado da evolução detrás e mais além de nós em ordem a satisfazer uma temporária perspectiva e uma semi-evoluída visão da utilidade das coisas. O mundo tem três estratos: infra-ético, ético e supra-ético. Temos de descobrir o que é comum a todos; pois só assim podemos resolver o problema.

O comum a todos é, como temos visto, a satisfação da força-consciente da existência desenvolvendo-se nas formas e buscando seu deleite nesse desenvolvimento. Evidentemente começou desde essa satisfação ou deleite da auto-existência; pois isso lhe resulta normal, a isso se adere, e o faz sua base; mais busca novas formas de si e, no passo até formas superiores, intervém o fenômeno da dor e o sofrimento que parece contradizer a natureza funda­mental de seu ser. Este, só este, é o problema radical.

Como o resolveremos? Diremos que Satchitananda não é o princípio e fim das coisas, senão que ó princípio e fim é Nihil, um vazio imparcial, um nada que contudo contém todas as potencialidades da existência ou da não-existência, da consciência ou da não-consciência, do deleite ou do não-deleite? Se preferimos, podemos aceitar esta resposta; mas ainda que procuremos assim explicar tudo, em realidade não temos ex­plicado nada, unicamente temos incluído tudo. Um Nada que está cheio de potencialidades é a mais completa oposição de termos e coisas possível e, portanto temos unicamente explicado uma contradição menor por meio de uma maior, levando a auto-con­tradição das coisas a seu máximo. Nihil é o vazio, donde não pode haver potencialidades; una imparcial indeterminação de todas as potencialidades é o Caos, e quanto temos feito é por o Caos no Vazio sem explicar como foi a parar ali. Permita-nos retornar a nossa concepção original de Satchitananda, e ver se sobre esta base não é possível uma completa solução.

Primeiro devemos deixar-nos claro que assim como quando falamos de consciên­cia universal significamos algo diferente de, mais essencial e amplo que a consciência mental em vigília do ser humano; assim também, quando falamos de deleite universal da existência signi­ficamos algo diferente de, mais essencial e amplo que o comum prazer emocional e sensorial da criatura humana individual. O prazer, a alegria e o deleite, tal como o homem usa as palavras, são movimentos ocasionais e limitados que dependem de certas causas habituais, e emergem, como seus opostos pena e pesar, -que são movimentos igualmente limitados e ocasionais-, de um fundo distinto deles mesmos. O deleite do ser é universal, ilimitável e auto-existente, não dependente de causas particulares, o fundo de todos os fundos, do qual emergem o prazer, a dor e outras expe­riências mais neutras. Quando o deleite do ser busca realizar-se como deleite do devir, se expressa no movimento de força e toma diferentes formas de movimento, das quais o prazer e a dor são as correntes positiva e negativa. Subconsciente na Matéria, superconsciente mas além da Mente, este deleite busca na Mente e na Vida realizar-se mediante o emergir no devir, na crescente auto-consciência do movimento. Seus primeiros fenô­menos são duais ou impuros, se manifestam entre os pólos do prazer e a dor, mas apontam a sua auto-revelação na pureza de um supremo deleite do ser que é auto-existente e independente de objetos e de causas. Assim como Satchitananda se expande até a realização da existência universal no indivíduo e até a realização da “cons­ciência superando-a-forma” na forma de corpo e mente, de igual maneira se expande até a realização do universal deleite, auto-existente e sem-propósito no fluxo das experiências e objetos particulares. Esses objetos agora os buscamos como estimulantes causas de um efêmero prazer e satisfação; livres, possuidores de si, não os buscaremos senão que os possuiremos como refletores mais que como causas de um deleite que existe eternamente.

No egoísta ser humano, na pessoa mental que emerge da débil casca da matéria, o deleite da existência é neutro, semi-latente, ainda na sombra do subconsciente, pouco mais que um oculto terreno ao que o desejo cobriu em abundância de um exu­berante cultivo de ervas venenosas e flores não menos vene­nosas, as dores e prazeres de nossa existência egoísta. Quando a divina força-consciente que trabalha secretamente em nós, tenha devorado estes cultivos do desejo, quando segundo a imagem do Rig Veda o fogo de Deus tenha queimado os rebentos da terra, aquilo que está escondido nas raízes destas dores e prazeres, sua causa e secreto ser, a seiva de seu deleite emergirá em novas formas, não de desejo, senão de satisfação auto-existente que substituirá o prazer mortal pelo êxtase Imortal. E esta transformação é possível porque estes cultivos de sensação e emoção são, em seu ser essen­cial, as dores não menos que os prazeres, esse deleite da existência que eles buscam mas fracassam em revelar, -fracassam por causa da divisão, da ignorância do eu e do egoísmo.



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Capitulo XII

O DELEITE DA EXISTÊNCIA: A SOLUÇÃO

O nome Daquilo é o Deleite; como Deleite devemos adorá-lo e ir em posse Disso.

Kena Upanishad[1][3]

Nesta concepção de um inalienável deleite subjacente da existência, da qual todas as sensações externas ou superficiais são um despertar positivo, negativo ou neutro, --ondas e espumas dessa infinita fundura--, alcançamos a verdadeira solução do pro­blema que examinamos. O ser-em-si das coisas é uma indivisível exis­tência infinita; dessa existência, a natureza ou o poder essencial, é uma imperecível força infinita do ser auto-consciente; e dessa auto-consciência, a natureza essencial ou conhecimento de si mesmo é, novamente, um inalienável deleite infinito do ser. Na carência de forma e em todas as formas, no conhecimento eterno do ser infinito e indivisível e nas multiformes aparências da divisão finita, esta auto-existência mantêm perpetuamente seu auto-deleite. Assim como na aparente inconsciência da Matéria, nossa alma, --fugindo de sua escravidão a seu próprio hábito superficial e modo particular de existência auto-consciente--, descobre essa infinita Força-Conscien­te constante, imóvel, concentrada, assim, na aparente não-sensação da Matéria chega a descobrir e relacionar-se com um infinito Deleite consciente, imperturbável, oni-abarcante, extático. Este deleite é seu próprio deleite, este ser-em-si é seu próprio eu em tudo; mas para nosso critério ordinário do eu e as coisas, que desperta e se expande só sobre superfícies, fica oculto, profundo, subconsciente. E tal como é em todas as formas, assim é em todas as experiências, já sejam aprazíveis, dolorosas ou neutras. Ali, demasiado oculto, profundo, subconsciente, está o que capacita e compele às coisas a permanecer na existência. Isto é a razão dessa fixação à existência, esse superdominante querer-ser, traduzido vitalmente como instinto de auto-conservação, fisicamente como o imperecível da matéria, mentalmente como o sentido da imortalidade que acompanha a existência em formas através de todas suas fases de auto-desenvolvimento e do qual, inclusive o ocasional im­pulso de auto-destruição é só uma forma inversa, uma atração até outro estado do ser e um conseguinte retirado do atual estado do ser. O Deleite é a existência; o Deleite é o segredo da criação; o Deleite é a raiz do nascimento; o Deleite é a causa de permanecer na existência; o Deleite é o fim do nascimento e aquilo no qual a criação cessa. “Da Ananda”, diz o Upa­nishad, “nasceram todas as existências; pela Ananda permanecem no ser e crescem, para a Ananda partem”.

Quando vemos os três aspectos do Ser essencial, --um na realidade, trino em nossa visão mental, separável só em apa­rência, nos fenômenos da dividida consciência--, somos capazes de por em seu justo lugar as divergentes fórmulas das antigas filosofias de modo que se unam e sejam uma só, cessando em sua ancestral controvérsia. Pois se consideramos o mundo-existência só em suas aparências e só em sua relação com a Existência pura, infinita, in­divisível e imutável, estamos facultados a considerá-lo, descrevê-lo e compreendê-lo como Maya. Maya, em seu sentido original, significou uma continente e compreensiva consciência capaz de abarcar, medir e limitar, e portanto, formadora; é a que delineia, mede, molda as formas no amorfo, aprofunda na psique e parece tomar cognoscível o Incognoscível, se faz geométrica e parece tornar mensurável o ilimitado. Mais tarde, a palabra passou, de seu original sentido de conhecimento, destreza, inteligência, a adquirir um sentido pejorativo de astúcia, fraude ou ilusão que é o usado pelos sistemas filosóficos.

O mundo é Maya. O mundo não é irreal no sentido de carecer de tipo algum de existência; pois ainda que fosse só um sonho do Ser-em-si ainda existiria Nele como sonho, real para Ele no presente ainda que, em última instância, irreal. Tão pouco devemos dizer que o mundo é irreal no sentido que não têm um gênero de existência eterna; pois ainda que formas particulares e mundos particulares podem dissolver-se ou se dissolvem fisicamente e retornam mentalmente da consciência da manifestação à não-manifestação, contudo, a Forma em si mesma, o Mundo em si mesmo, são eternos. Da não-manifestação voltam inevitavelmente à mani­festação; têm uma recorrência eterna, quando não, uma persistência eterna, uma imutabilidade eterna, em soma e fundamento, junto com uma eterna mutabilidade em aspecto e aparição. Tão pouco temos segurança alguma de que houve ou haverá um período no Tempo no que nenhuma forma do universo, nenhum despertar do ser, se represente no eterno Ser-Consciente, senão tão só uma intuitiva percepção de que o mundo que conhecemos pode aparecer e aparece desde Isso e retorna dentro Disso perpetuamente.

O mundo todavia é Maya porque não é a verdade essencial da existência infinita, senão só uma criação do ser auto-consciente, —não uma criação no vazio, não uma criação no nada nem fora do nada senão na eterna Verdade e fora da eterna Verdade desse Auto-ser--; seu continente, origem e substância são a Existência essencial e real, suas formas são formações mutáveis Disso para Sua própria percepção consciente, determinada por Sua própria força-consciente criadora. São capazes de manifestação, capazes de não-manifestação, capazes de outra-manifestação. Se preferimos, podemos chamá-las, portanto, ilusões da consciência infinita, arrojando dessa maneira, audazmente, uma sombra de nosso sen­tido mental de sujeição ao erro e à incapacidade sobre Isso que, sendo maior que a Mente, está mais além da sujeição à falsidade e à ilusão. Mas vendo que a essência e substância da Existência não é uma mentira e que todos os erros e deformações de nossa dividida consciência representam alguma verdade da indivisível Existência auto-consciente, só podemos dizer que o mundo não é a verdade essencial Disso senão a verdade fenomênica de Sua livre multiplicidade e infinita mutabilidade superficial, e não a verdade de Sua Unidade fundamental e imutável.

Se, por outra parte, olhamos o mundo-existência só em relação à consciência e à força da consciência, podemos considerá-lo, descrevê-lo e compreendê-lo como um movimento de Força que obedece alguma secreta vontade ou alguma necessidade que lhe está imposta pela existência mesma da Consciência que a possui ou contempla. É então o jogo de Prakriti, a força Executiva, satisfazendo a Purusha, o contemplativo e alegre Ser-Consciente ou é o jogo de Purusha refletido nos movimentos da Força e identificando-se com eles. O mundo, então, é a obra da Mãe das coisas impulsionada a repartir-se para sempre, dentro de infinitas formas, e ávida das experiências que fluem eterna­mente.

Se olhamos o Mundo-Existência muito mais em sua relação com o auto-deleite do ser eternamente existente, podemos considerá-lo, descrevê-lo e compreendê-lo como Lila, o jogo, a alegria da criança, a alegria do poeta, a alegria do ator, a alegria do mecânico da Alma das coisas, eternamente jovem, perpetuamente inextinguível, criando-se e recriando-se em Si Mesmo, pela pura bem-aventurança dessa auto-criação, dessa auto-representação, —Ou mesmo o jogo, Ele mesmo o jogador, Ele mesmo o campo de jogo--. Estas três generalizações do jogo da existência em sua relação com o eterno e estável, o imutável Satchitananda, partindo das três concepções de Maya, Prakriti e Lila, e representando-se em nossos sistemas filosóficos como filosofias mutuamente contraditórias, são, em realidade, perfeitamente coerentes cada uma com as outras, complementarias e necessá­rias em sua totalidade para um critério integral da vida e o mundo. O mundo do que somos uma parte é em sua mais óbvia aparência um movimento de Força; mas essa Força, quando transpassamos suas aparências, dá mostras de ser um constante e sempre mutável ritmo de consciência criadora calculando, projetando em si mesma forças fenomênicas de seu próprio ser infinito e eterno; e este ritmo é, em sua essência, causa e propósito, um jogo do deleite infinito do ser, sempre ocupado em suas próprias inumeráveis auto-representações. Esta vista tripla ou tríplice deve ser o ponto de partida de toda nos­sa compreensão do universo.

Então, dado que o eterno e imutável deleite do ser que se expande dentro do infinito e variável deleite do devir é a raiz de todo o assunto, temos de conceber um só indivisível Ser consciente detrás de todas nossas experiências, sustentando-as me­diante seu inalienável deleite e efetuando, mediante seu movimento, as variações de prazer, dor e neutra indiferença em nossa exis­tência sensitiva. Esse é nosso ser-em-si real; o ser mental sujeito à tripla vibração só pode ser uma representação de nosso eu real, posto à frente aos fins dessa experiência sensitiva das coisas que é o primeiro ritmo de nossa dividida consciência em sua resposta e reação aos múltiplos contatos do universo. É uma resposta imperfeita, um ritmo discordante e confuso que prepara e preludia o pleno e unificado jogo do Ser consciente em nós; não é a verdadeira e perfeita sinfonia que pode ser nossa se po­demos entrar uma vez em simpatia com o Um em todas as variações e entrar no mesmo tom com o absoluto e universal diapasão.

Se esta opinião é correta, então inevitavelmente se impõem certas consequências. Em primeiro lugar, dado que em nossas profundidades nós mesmos somos esse Um, dado que na realidade de nosso ser somos a indivisível Oni-Consciência e portanto a inalienável Todo-Bem-aventurança, a disposição de nossa expe­riência sensitiva nas três vibrações de dor, prazer e indiferen­ça só pode ser um superficial ordenamento criado pela parte limitada de nós mesmos que está no mais elevado de nossa consciência em vigília. Detrás deve haver algo em nós, --muito mais vasto, mais profundo, mais verdadeiro que a consciência super­ficial—, que assume deleite imparcialmente em todas as experiências; é esse deleite que secretamente sustenta o ser mental superficial e o capacita para perseverar através de todas as fadigas, sofrimentos e suplícios no agitado movimento do Devir. Isso que chamamos nós mesmos é só um trêmulo raio na superfície; detrás está todo o vasto subconsciente, o vasto supraconsciente aproveitando-se de todas estas experiências superficiais e impon­do-as em seu ser-em-si externo ao qual põe relevado como uma sorte de sensitiva cobertura dos contatos do mundo; velado, todavia recebe estes contatos e os assimila dentro dos valores de uma experiência mais verdadeira, mais profunda, mais dominante e criadora. De suas profundidades retorna-os à superfície em formas de força, caráter, conhe­cimento e impulso, cujas raízes são misteriosas para nós, pois nossa mente se comove e estremece na superfície e não aprendeu a concentrar-se e viver nas profundidades.

Em nossa vida ordinária esta verdade se nos oculta, ou só a vislum­bramos obscuramente às vezes, ou a sustentamos e concebemos imper­feitamente. Mas se aprendemos a viver no interior, infalivelmente despertamos a esta presença dentro de nós que é nosso eu real, uma presença profunda, calma, jubilosa e pujante, da qual o mundo não é o amo, —uma presença que, se não é o Senhor Mesmo, é a irradiação do Senhor interiormente--. Temos conheci­mento dela internamente apoiando e auxiliando ao aparente e superficial eu, e sorrindo a seus prazeres e dores como ao erro e a paixão de uma criança pequena. E se podemos voltar dentro de nós mesmos e nos identifica­mos, não com nossa experiência superficial, senão com essa radiante penumbra do Divino, podemos viver nessa atitude até os contatos do mundo e, --permanecendo em nossa consciência total detrás dos prazeres e dores do corpo, do ser vital e da mente--, possuí-los como experiências cuja natureza, que é superficial, não toca nem se impõe a nosso principal e real ser. Nos inteiramente expressivos termos sânscritos, há um Anandamaya detrás do Manomaya, um vasto Bem-aventurança-Eu detrás do limitado eu mental, e o último é só uma sombria imagem e perturbado reflexo do primeiro. A verdade de nós mesmos jaz dentro e não na superfície.

No entanto, esta tripla vibração de prazer, dor e indiferença, --sendo superficial, sendo ordenação e resultado de nossa evolução imperfeita--, pode não ter nela nada de regra absoluta, nem ser necessária. Em nós não há obrigação real de devolver a um particular contato uma particular resposta de prazer, dor ou reação neutra; só há una obrigação de hábito. Sentimos prazer ou dor em contato particular porque esse é o hábito que formou nossa natu­reza, porque essa é a constante relação que o receptor estabeleceu com o contato. É de nossa competência devolver a resposta absolutamente oposta; prazer onde acostumamos ter dor; dor onde acostumamos ter prazer. Igualmente está dentro de nossa competência acostumar o ser superficial a devolver, em lugar das mecânicas reações de prazer, dor e indiferença, essa livre réplica de inalienável deleite que é a experiência constante do verdadeiro e vasto Bem-aventurança-Eu que está dentro de nós. E esta é uma conquista maior, uma mais profunda e completa auto-­possessão que uma agradável e desapegada recepção nas funduras das habituais reações de superfície. Pois já não se trata de uma mera aceitação sem sujeição, de uma livre aquiescência em im­perfeitos valores de experiência, senão que nos capacita para con­verter os valores imperfeitos em perfeitos, os falsos em verdadeiros, —o constante e verdadeiro deleite do Espírito em coisas que assumem o lugar das dualidades experimentadas pelo ser mental--.

Nas coisas da mente, esta pura relatividade habitual das reações de prazer e dor não é difícil percebê-la. Certamente, o ser ner­voso em nós está acostumado a certa rigidez, a uma falsa impressão do absoluto nestas coisas. Para ele, vitória, bom êxito, honra e boa fortuna de toda índole, são coisas aprazíveis em si mesmas, absolutamente, e devem produzir regozijo assim como o açúcar há de ter gosto doce; derrota, fracasso, contrariedade, desgraça e má fortuna de toda índole, são coisas desagradáveis em si mesmas, absolutamente, e devem produzir pesar assim como o absinto há de ter gosto amargo. Variar estas respostas é para ele uma fuga dos fatos, anormal e enfermiça; pois o ser nervoso é uma coisa escravizada ao hábito e em si, é o meio idealizado pela natureza para fixar a constância da reação, a igualdade da experiência e o determinado esquema das relações do homem com a vida. Por outra parte, o ser mental é livre, pois é o meio que a Natu­reza idealizou para conseguir flexibilidade e variação, mudança e progresso; está sujeito só na medida que prefere ficar sujeito, morar num hábito mental antes que em outro, e tanto como se permite a si mesmo ser dominado por seu instrumento nervoso. Não está atado a apenar-se pela derrota, a desgraça e a perda; pode encontrar estas coisas e todas as coisas com uma perfeita indiferença, inclusive as pode falar com uma perfeita alegria. Portanto, o homem descobre que quando mais recusa ser dominado por seus nervos e corpo, quanto mais se aparta de sua implicação em suas partes físicas e vitais, maior é sua liberdade. Converte-se em dono de suas próprias respostas aos contatos do mundo, já não é escravo dos contatos externos.

Com respeito ao prazer e dor físicos, é mais difícil aplicar a verdade universal; pois este é o domínio mesmo dos nervos e o corpo, o centro e sede daquilo em nós cuja natureza há de dominar-se mediante o contato externo e a pressão externa. Inclusive aqui, no entanto, temos vislumbres da verdade. A vemos no fato de que de acordo ao hábito, o mesmo contato físico pode ser aprazível ou doloroso, não só para diferentes indivíduos, senão para o mesmo indivíduo sob diferentes condições ou em diferentes etapas de seu desenvolvimento. A vemos no fato de que os homens, em períodos de grande excitação ou alta exaltação, ficam fisicamente indiferentes a dor ou inconscientes diante ele, sob con­tatos que ordinariamente infligiriam severa tortura ou sofrimento. Em muitos casos é só quando os nervos se recuperam e recordam à mentalidade sua habitual obrigação de sofrer, que o sentido do sofrimento retorna. Mas este retorno à obrigação habitual não é inevitável; é só habitual. Vemos que nos fenômenos de hipnose não só pode ao sujeito hipnotizado proibir-lhe sentir a dor de uma ferida ou fincada achando-se no estado anormal, senão que também, com igual bom êxito, pode impedir-lhe voltar a sua habi­tual reação de sofrer quando está desperto. A razão deste fenômeno é perfeitamente simples; se deve a que o hipnotizador sus­pende a habitual consciência em vigília, que é escrava dos hábitos nervosos, e é capaz de apelar ao subliminal ser mental nas profundidades, ao ser mental interior que é dono, se quer, dos nervos e o corpo. Mas esta liberdade do ser mental interior que é efetuada pela hipnose, --anormalmente, rapidamente, sem ver­dadeira possessão, por uma vontade alheia--, pode igualmente recuperar-se normalmente, gradualmente, com verdadeira possessão, por parte da própria vontade, de modo que se conquiste parcial ou completamente uma vitória do ser mental sobre as habi­tuais reações nervosas do corpo.

A dor da mente e o corpo é um recurso da Natureza, vale dizer, da Força em suas obras, endereçado a servir a um definido objetivo de transição em sua evolução ascendente. O mundo é, desde o ponto de vista do indivíduo, um jogo e um choque com­plexo de multiplas forças. Em meio deste complexo jogo está o indivíduo como limitado ser construído com um limitado monte de força exposto a inumeráveis impactos que podem ferir, aleijar, romper ou desintegrar a construção a que chama ele mesmo. A dor está na natureza do retirar nervoso e físico diante um contato perigoso ou daninho; é uma parte do que o Upanishad chama jugupsa, a retração do ser limitado daquilo que não é ele mesmo e que não é simpático nem está em harmonia com ele, seu im­pulso de auto-defesa contra os "outros". Desde este ponto de vista é uma indicação da Natureza do que há de evitar-se ou, se não se evita exitosamente, do que há de remediar-se. A dor não tem existência no mundo puramente físico enquanto a vida não entra em jogo; pois até então os métodos mecânicos são suficientes. Seu ofício começa quando a vida com sua fragilidade e imperfeita possessão da Matéria entra em cena; cresce com o crescimento da Mente na vida. Seu ofício prossegue enquanto que a Mente está atada à vida e ao corpo que usa, dependendo deles para seu conhecimento e meio de ação, sujeito a suas limi­tações e aos impulsos e objetivos egoístas que nascem dessas limitações. Mas entanto e enquanto a Mente do homem se torna capaz de ser livre, não-egoísta, em harmonia com todos os outros seres e com o jogo das forças universais, o uso e ofício do sofrimento diminui, sua razão de ser deve finalmente cessar de ser e só pode continuar como um atavismo da Natureza, um hábito que há sobrevivido a sua utilidade, uma persistência do inferior na ainda imperfeita organização do superior. Sua eventual eli­minação deve ser um ponto essencial na predestinada conquista da alma sobre a sujeição à Matéria e à limitação egoísta da Mente.

Esta eliminação é possível porque a dor e o prazer são correntes, um imperfeito, o outro perverso, mas, contudo, correntes do deleite da existência. A razão desta imperfeição e desta perversão é a auto-divisão do ser em sua consciência mediante a medida e limitação de Maya e, em consequência, uma egoísta e parcelada recepção dos contatos por parte do indivíduo, em lugar de uma recepção universal. Para a alma universal todas as coisas e todos os contatos das coisas levam em si uma essência de deleite melhor descrito pelo estético termo sânscrito rasa, que significa de uma vez seiva ou essência de uma coisa e seu sabor. É porque não bus­camos a essência da coisa em seu contato conosco, senão que só vamos em posse da maneira na que afeta nossos desejos e temores, nossos apetites e medos que o pesar e a dor, o imperfeito e efêmero prazer ou a indiferença, vale dizer, a incapacidade absoluta de captar a essência, são as formas que toma a Rasa. Se pudéssemos desinteressar-nos por inteiro na mente e o co­ração e impor esse desapego ao ser nervoso, a progressiva elimi­nação destas formas imperfeitas e perversas da Rasa seria possível e ficaria a nosso alcance o verdadeiro sabor essencial do inalie­nável deleite da existência em todas suas variações. Alcançamos algo desta capacidade de variável mas universal deleite na recep­ção estética das coisas tal como a representam a Arte e a Poesia, de modo que ali desfrutamos da Rasa saboreamos o angus­tiado, o terrível, inclusive o horrível ou repelente[2][4] ; e a razão obedece a que estamos desapegados, desinteressados, sem pensar em nós mesmos nem na auto-defesa (jugupsa), senão só na coisa e sua essência. Certamente, esta recepção estética dos contatos não é uma precisa imagem ou reflexo do puro deleite que é supramental e supra-estético; pois o último eliminaria o pesar, o terror, o horror e o desgosto com suas causas enquanto que o primeiro os admi­te; pois isto representa parcial e imperfeitamente uma etapa do deleite progressivo da Alma universal das coisas em sua manifestação e nos admite em uma parte de nossa natureza nesse desapego da sensação egoísta e essa universal atitude através da qual a Alma única vê harmonia e beleza onde nós, seres divididos, experimentamos muito mais caos e discórdia. A plena liberação pode chegar a nós só mediante uma similar liberação em todas nossas partes, a universal aesthesis, o universal ponto de vista do conhecimento, o universal desapego de todas as cosas e inclusive a simpatia para tudo em nosso ser nervoso e emocional.

Dado que a natureza do sofrimento é uma falha da força-consciente em nós para fazer frente aos impactos da exis­tência e um conseguinte retirar e contração, e sua raiz é uma desigualdade dessa força receptiva e possessiva, devida a nossa auto­-limitação pelo egoísmo que deriva em ignorância de nosso ver­dadeiro Eu, de Satchitananda, a eliminação do sofrimento pri­meiro deve proceder por substituição do titiksa,--o enfrentamento, a resistência e a conquista de todos os impactos da existência--, em lugar de jugupsa, --a retração e contração--; mediante esta forma de resistir e con­quistar procedemos a uma igualdade que pode ser, bem uma equânime indiferença a todos os contactos ou bem uma equânime alegria em todos os contatos; e esta equanimidade deve achar novamente um firme fundamento na substituição da consciência de Satchitananda que é Oni-Bem-aven­turança em lugar do ego-consciência que desfruta e sofre. A consciência de Satchitananda pode ser transcendente do universo e estar isolada dele, e o caminho a este estado da distante Bem-aventurança é a indiferença equânime; é o caminho do asceta. Ou a consciência de Satchi­tananda pode ser ao mesmo tempo transcendente e universal, e o caminho deste estado de atual e oni-abarcante Bem-aventurança é a submissão e perda do ego no universal e a possessão de um equânime deleite que tudo penetra-o; é o caminho dos antigos sábios Védicos. Mas a neutralidade diante os imperfeitos contatos do prazer e os perversos contatos da dor é ele o primeiro resultado direto e natural da auto-disciplina da alma, e a conversão ao equânime deleite pode, comumente, chegar só depois. A direta trans­formação da triple vibração em Ananda é possível, mas menos fácil para o ser humano.

Tal é então a visão do universo que se desprende da integral afirmação Vedântica. Uma infinita e indivisível existência oni-bem-aventurada em sua pura auto-consciência se expande fora de sua fundamental pureza e entra no variado jogo da Força que é a consciência, dentro do movimento de Prakriti que é o jogo de Maya. O deleite de sua existência está, ao princípio, auto-concentrado, absorto, subconsciente na base do universo físico; logo, emerge em uma grande massa de movimento neutro que ainda não é o que chamamos sensação; mais tarde, emerge mais com o crescimento da mente e o ego na tripla vibração de dor, prazer e indiferença que se originam pela limitação da força da consciência na forma e por sua exposição aos impactos da Força universal, que os encontra alheios e ausentes de harmonia com suas próprias normas e medidas; finalmente, tem lugar o consciente emergir do Satchitananda pleno em suas cria­ções por universalidade, por igualdade, por auto-possessão e conquista da Natureza. Este é o curso do movimento do mundo.

Se então pergunta-se por quê a Existência Única deveria ter deleite nesse movimento, a resposta a achamos no fato de que todas as possibilidades são inerentes a Sua infinitude e que o deleite da existência —em seu mutável devir, não em seu imutável ser—, se encontra precisamente na variável realização de suas possi­bilidades. E a possibilidade que se estruturou aqui no universo de que somos parte, começa desde o ocultamento de Satchitananda no que parece ser seu próprio oposto e seu auto-encontro inclusive em meio dos termos desse oposto. O ser infinito se perde na aparência do não-ser e emerge na aparência de uma Alma finita; a consciência infinita se perde na aparência de uma vasta inconsciência indeterminada e emerge na aparência de uma superficial consciência limitada; a infinita Força auto-sustentadora se perde na aparência de um caos de átomos e emerge na aparência do inseguro equilíbrio de um mundo; o Deleite infinito se perde na aparência de uma insensível Matéria e emerge na aparência de um discordante ritmo de variada dor, prazer e sentimento neutro, amor, ódio e indiferença; a unidade infinita se perde na aparência de um caos de multiplicidade e emerge em uma discordância de forças e seres que buscam recobrar a unidade possuindo-se, dissolvendo-se e devorando-se uns a outros. Nesta criação há de emergir o real Satchitananda. O homem, o indivíduo, há de converter-se em um ser universal e viver como tal; sua limitada consciência mental há de ampliar-se à unidade supraconsciente na que cada um abarca tudo; seu estreito coração há de aprender o infinito abraço e subs­tituir suas luxúrias e discórdias pelo amor universal e seu restrin­gido ser vital há de chegar a ser equânime diante o total impacto do universo sobre ele e capaz de deleite universal; seu mesmo ser físico há de conhecer-se como entidade não separada senão como uma com, --e sustentando em si mesma--, o fluir total da Força indivisível que é todas as coisas; sua natureza toda há de reproduzir no indivíduo a unidade, a harmonia, a unicidade-no-todo da suprema Existência-Consciência-Bem-aventurança.

Através de todo este jogo a secreta realidade é sempre una e o mesmo deleite da existência, o mesmo no deleite do sono subconsciente antes do emergir do indivíduo, no deleite da luta e de todas as variedades, vicissitudes, perversões, conversões e reversões do esforço por encontrar-se a si mesmo em meio dos labirintos do sono semi-consciente do qual o indivíduo é o centro, e no deleite da eterna auto-possessão supraconsciente dentro da que o indivíduo deve despertar e chegar a ser um com o indivisível Satchitananda. Este é o jogo do Uno, do Senhor, do Todo, como se revela a nosso conhecimento liberado e iluminado, desde o conceitual ponto de vista deste universo material.


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Capítulo XIII

A DIVINA MAYA

Pelos Nomes do Senhor e dela, eles formaram e mediram a força da Mãe da Luz; usando poder sobre poder dessa Força como uma vestimenta os senhores de Maya modelaram a Forma neste Ser.

Os amos de Maya formaram tudo mediante Sua Maya; os Pais que têm visão divina puseram-No dentro como uma criança que está por nascer.

Rig Veda[1][1]

A Existência que atua e cria mediante o poder e desde o puro deleite de seu ser consciente, é a realidade que somos, o ser-em-si de todas nossas modalidades e disposições de ânimo, a causa, o objetivo e a meta de todo nosso fazer, devir e criar. Assim como o poeta, o artista ou o músico quando criam realmente não fazem senão desenvolver alguma potencialidade de seu não-manifestado eu verdadeiro em uma forma de ma­nifestação, e assim como o pensador, o estadista, o engenheiro só projetam na forma das coisas o que jaz oculto neles mesmos, era eles mesmos, e é todavia eles mesmos quando é tornado na forma, de igual maneira é com o mundo e o Eterno. Toda criação ou devir não é senão esta auto-manifestação. Da semente evolui aquilo que está já na semente, pré-existente no ser, predestinado em sua vontade de devir, pré-disposto no deleite de devir. O plasma original continha em si, como “força de ser”, o organismo resultante. Pois é sempre essa força secreta, repleta, auto-sabe­dora, a que trabalha sobre seu próprio impulso irresistível para manifestar a forma de si com a qual está carregada. Só o indivíduo que cria ou desenvolve desde si mesmo, efetua uma distinção entre ele mesmo, a força que trabalha nele e o material no que trabalha. Em realidade a força é ele mesmo, a consciência individualizada que instrumentaliza é ele mesmo, o material que usa é ele mesmo, a forma resultante é ele mesmo. Em outras palavras, é uma só existência, uma só força, um só deleite de ser que se concentra em vários pontos, diz de cada um "Isto é Eu” e trabalha nisso segundo um variado jogo de auto-força em ordem a um variado jogo de auto-formação.

O que produz é isso mesmo e não pode ser outra coisa que isso mesmo; estrutura um jogo, um ritmo, um desenvolvimento de sua própria existência, força de consciência e deleite do ser. Portanto, quanto chega ao mundo, não busca senão isto, ser, elevar-se a uma intentada forma, alargar sua auto-existência nessa forma, desenvolver, manifestar, aumentar, realizar infinitamente a consciência e o poder que está nisso, ter o deleite de chegar à manifestação, o deleite da forma do ser, o deleite do ritmo da consciência, o deleite do jogo da força e alargar e aperfeiçoar esse deleite por qualquer meio possível, em qualquer direção, através de qualquer idéia disso que possa ser sugerida pela Existência, a Força-Consciente, o Deleite ativo dentro de seu ser mais profundo.

E se existe alguma meta, alguma plenitude até a qual tendem as coisas, pode ser somente a plenitude, -no indivíduo e em tudo o que os indivíduos constituem-, de sua auto-existência, de seu poder e consciência, e de seu deleite de ser. Mas tal plenitude não é possível na consciência individual concentrada dentro dos limites da formação individual; a plenitude absoluta não é fac­tível no finito pois é alheia à auto-concepção do finito. Portanto, a única meta final possível é o emergir da consciência infinita no indivíduo; é sua recuperação da verdade do mesmo mediante o auto-conhecimento e a auto-realização, a verdade do Infinito no ser, o Infinito na consciência, o Infinito no deleite repossuído como seu próprio Ser-em-si e a Realidade da que o finito é só uma máscara e um instrumento de variada expressão.

Dessa maneira, pela natureza mesma do jogo do mundo, -tal como há sido realizado por Satchitananda na vastidão de Sua existência estendida como Espaço e Tempo-, temos de conceber primeiro uma involução e auto-absorção do ser consciente dentro da densidade e a infinita divisibilidade da substância, pois de outro modo não pode haver variação finita; logo, um emergir da auto-aprisionada força dentro do ser formal, do ser vivente, do ser pensante; e finalmente uma liberação do formado ser pensante na livre realização de si como o Uno e o Infinito ao jogo no mundo e, mediante a liberação, sua recuperação da ilimitada existência-consciência-bem-aventurança que ainda agora é se­cretamente, realmente e eternamente. Este triplo movimento é a chave total do enigma-do-mundo.

É assim como a antiga e eterna verdade do Vedanta recebida em si mesma, ilumina, justifica e nos mostra todo o significado da moderna e feno­mênica verdade da evolução no universo. E é só assim que esta moderna verdade da evolução, --que é a velha verdade do Universal desenvolvendo-se sucessivamente no Tempo, vista opa­camente através do estudo da Força e a Matéria--, pode achar seu sentido e justificação plenos, --iluminando-se com a Luz da verdade antiga e eterna, todavia preservada para nós nas Es­crituras Vedânticas. O pensamento do mundo já está contemplando este mútuo auto-descobrimento e auto-iluminação que representa a fusão do antigo conhecimento oriental e o novo conhecimento ocidental.

Mas ainda que tenhamos descoberto que todas as coisas são Sat­chitananda, não tudo está explicado. Conhecemos a Realidade do Universo, não conhecemos ainda o processo pelo qual essa Realidade há entrado neste fenômeno. Temos a chave do enigma, nos falta todavia a fechadura na que há de girar. Pois esta Existência, Força-Consciente, Deleite, não trabalha diretamente nem com sobe­rana irresponsabilidade como um mago que constrói mundos e universos com o mero mandato de sua palavra. Percebemos um processo, somos conhecedores de uma Lei.

É certo que esta Lei quando a analisamos, parece consistir em um equilíbrio do jogo de forças e uma determinação desse jogo dentro de linhas fixas de trabalho mediante o acidente do desenvolvimento evolutivo e o hábito da energia realizada no passado. Mas esta apa­rente e secundária verdade vem a ser uma verdade última para nós só na medida em que pensamos na Força isoladamente. Quando percebemos que a Força é uma auto-expressão da Existência, estamos obrigados a perceber também que esta linha empreendida pela Força corres­ponde a alguma auto-verdade dessa Existência que governa e deter­mina sua constante curva e destino. E dado que a consciência é a natureza da Existência original e a essência de sua Força, esta verdade deve ser uma auto-percepção no Ser-Consciente e esta determinação da linha empreendida pela Força deve resultar de um poder de conhecimento auto-diretivo inerente à Consciência que a capacita para guiar sua própria Força inevitavelmente junto com a linha lógica da auto-percepção original. É então um poder auto-determinante na consciência universal, uma capacidade em auto-conhecimento da existência infinita de perceber certa Verdade em si e dirigir sua força de criação junto com a linha dessa Verdade, a qual há presidido a manifestação cósmica.

Mas por quê temos de interpor qualquer poder ou faculdade especial entre a Consciência infinita mesma e o resultado de seus trabalhos? Este Auto-conhecimento do Infinito não se estenderá livremente criando formas que depois sigam em jogo enquanto não surja o mandato que as faça cessar, —tal como a antiga Revelação Semita nos conta: “Disse Deus: Faça-se a Luz e a Luz se fez”--? Mas quando dizemos: "Disse Deus: Faça-se a Luz”, damos por acabado o ato de um poder da consciência que determina a luz saindo de tudo o que não é luz; e quando dizemos “e a Luz se fez” presumimos uma faculdade diretora, um ativo poder correspondendo ao original poder perceptivo, que produz o fenômeno, crian­do a Luz de acordo à linha da percepção original e lhe impede ser avassalada por todas as infinitas possibilidades que dife­rem dela. A consciência infinita em sua ação infinita só pode produzir resultados infinitos; estabelecer-se sobre uma Verdade fixa ou sobre uma ordem de verdades, e construir um mundo de conformidade com isso que está fixado, demanda uma faculdade seletiva do conhecimento comissionado para modelar uma aparência finita da Realidade infinita.

Os videntes Védicos conheciam este poder com o nome de Maya. Maya representou para eles o poder da consciência infinita para compreender, conter em si e medir, vale dizer, formar —pois forma é delimitação — o Nome e a Forma partindo da vasta Verdade ilimitável da existência infinita. É mediante Maya que a verdade estática do ser essencial se converte em ordenada verdade do ser ativo, —ou, para por isto em uma linguagem mais metafísica, a partir do ser supremo no que tudo é tudo, sem barreira de consciência separativa, emerge o ser fenomênico no que tudo está em cada um e cada um está em tudo para o jogo de existência com exis­tência, consciência com consciência, força com força, deleite com de­leite. Este jogo do tudo em cada um e de cada um no todo, está oculto de nós, ao princípio, pelo jogo mental ou ilusão de Maya que persuade a cada um de que está em tudo mas não tudo nele, e que está em tudo como um ser separado, não como um ser sempre inseparavelmente um com o resto da existência. Depois temos de emergir deste erro ao jogo supramental ou a verdade de Maya donde a “cada um" e o “todo” coexistem na inseparável unidade da verdade única e do símbolo múltiplo. A inferior, presente e enganosa Maya mental primeiro há de ser abarcada, logo vencida; pois é o jogo de Deus, com divisão, obscuridade e limitação, com desejo, contenda e sofrimento, no que Ele Se submete à Força que saiu Dele Mesmo e pela obscuridade dela, suporta O mesmo ser obscurecido. A outra Maya, ocultada por esta mental, há de ser sobrepassada, logo abarcada; pois é o jogo de Deus das infinitudes da existência, dos esplendores do conhecimento, das glórias da força dominada e dos êxtases de amor ilimitável donde Ele emerge saindo da influência da Força, em vez dele, a sustenta e consegue nela iluminar aquilo para o qual ela saiu Dele ao princípio.

Esta distinção entre Maya inferior e superior é o vínculo entre o pensamento e o Fato cósmico que as filosofias pessimista e ilusionista negam ou descuidam. Para elas a Maya mental, ou talvez uma Sobremente, é a criadora do mundo, e um mundo criado pela Maya mental seria em verdade um inexplicável para­doxo e um fixo ainda que flutuante pesadelo da existência consciente que não poderia classificar-se como ilusão nem como realidade. Temos de ver que a mente é só um termo intermediário entre o gover­nante conhecimento criador e a alma aprisionada em suas obras. Satchitananda, --(envolto por um de Seus movimentos inferiores na auto-esquecida absorção da Força que está perdida sob a forma de suas próprias obras)--, retorna saindo do auto-esquecimento a Ele mesmo; a Mente é só um de Seus instrumentos no descenso e na ascensão. É um instrumento da criação descendente, não a cria­dora secreta, --um estado de transição na ascensão, não nossa ele­vada fonte original nem o consumado termo da existência cósmica--.

A supramental que organiza idéias reais em uma harmonia perfeita antes de plasmar-se no molde mental-vital-material. Mente, Vida e Corpo são uma cons­ciência inferior e uma expressão parcial que luta por elevar, no molde de uma variada evolução, a essa superior “expressão de si”, já existente para o que está Além-da-Mente. O que está no Além­ da-Mente é o Ideal que, em suas próprias condições, se esforça por realizar-se.

Desde nosso ponto de vista ascendente podemos dizer que o Real está detrás de tudo o que existe; se expressa “intermediado em um Ideal” que é uma harmonizada verdade de si; o Ideal projeta uma realidade fenomênica do variável ser-consciente que, inevitavel­mente atraído até sua própria Realidade essencial, procura por último recobrá-la inteiramente mediante um violento salto ou normalmente através do Ideal que a pôs em marcha. Isto é o que explica a imperfeita realidade da existência humana tal como é vista pela Mente, a ins­tintiva aspiração no ser mental em prol de uma perfetibilidade sempre além dele, em prol da escondida harmonia do Ideal, e o sur­gimento supremo do espírito além do Ideal ao transcen­dental. Os fatos mesmos de nossa consciência, sua constitução e sua necessidade pressupõem essa tripla ordem; negam a dual e irrecon­ciliável antítese de um mero Absoluto e uma mera relatividade.

A Mente não é suficiente para explicar a existência no universo. A Cosnciência infinita primero deve traduzir-se na infi­nita faculdade do Conhecimento, ou como o chamamos desde nosso ponto de vista, onisciência. Mas a Mente não é uma faculdade do conhecimento nem um instrumento da onisciência; é uma faculdade para a busca do conhecimento, para a expressão tanto quanto convenha em certas formas de pensamento relativo e para utilizá-lo em prol de certas capacidades de ação. Ainda quando des­cobre, não possui; só mantêm certo fundo de moeda corrente de Verdade —não a Verdade em si— no banco de Memória para empregá-lo de acordo a suas necessidades. Pois a Mente é a que não conhece, a que procura conhecer e a que nunca conhece a não ser como em um cristal obscurecido. É o poder que interpreta a verdade da existência universal para os usos práticos de certa ordem de coisas; não é o poder que conhece e guia essa existência e, portanto, não pode ser o poder que a criou ou manifestou.

Mas se supomos uma Mente infinita que fosse livre de nossas limitações, ao menos bem poderia ser a criadora do universo? Mas essa Mente seria algo muito diferente da definição da mente tal como a conhecemos: seria algo além da mentalidade; seria a Verdade supramental. Uma Mente infinita constituída dentro dos termos da mentalidade como a conhecemos, só poderia criar um caos infinito, um vasto choque de probabilidade, acidente e vicissitude vagando para um fim indeterminado depois do qual estaria sempre buscando às cegas e aspirando. Uma Mente infinita, onisciente e onipotente, não seria, de nenhum modo, mente na plenitude do conceito, senão conhecimento supramental.

A Mente, como a conhecemos, é um espelho refletor que recebe imagens ou representações de uma Verdade ou Fato pré-existente, externo a ela ou, ao menos, mais vasto que ela. Representa para si, momento após momento, o fenômeno que é ou há sido. Possui tam­bém a faculdade de construir em si imagens possíveis, diferentes das do fato real que se lhe apresenta; vale dizer, representa para si não só o fenômeno que há sido senão também o fenômeno que pode ser: não pode, note-se bem, representar para si o fenômeno que seguramente será, exceto quando é uma segura repetição do que é ou foi. Por último, tem a faculdade de predizir novas modifi­cações que busca construir a partir do encontro do que foi e o que pode ser, a partir da possibilidade cumprida e a incumprida, algo que às vezes acerta em construir mais ou menos exatamente, às vezes fracassa na realização, mas usualmente o encontra vertido em distintas formas que as que vaticinou, e aplicado a outros fins que o desejado ou tentado.

Uma Mente infinita, deste caráter, possivelmente poderia cons­truir um cosmos acidental, de possibilidades em conflito, e o poderia modelar dentro de algo mutável, algo sempre efêmero, algo sempre incerto em seu câmbio, nem real nem irreal, sem estar possuído de algum fim nem objetivo definidos senão só uma interminável sucessão de objetivos mo­mentâneos que —dado que não existe um superior poder diretor do conhecimento-- eventualmente não conduzem a nenhuma parte. O Nihilismo ou o Ilusionismo, ou alguma filosofia afim, é a única conclusão lógica desse puro noumenismo[3][3].

O cosmos assim construído seria uma representação ou reflexo de algo não de si, senão sempre e até o fim uma falsa representação, um distorsido reflexo; toda a existência cósmica seria uma Mente lutando para estruturar plenamente suas imaginações, mas sem ter êxito, pois não têm imperativa base de auto-verdade; subjugadas e levadas adiante pela corrente de suas próprias energias passadas; seria para sempre, in­determinadamente, empurrada para adiante sem resultado algum, ou até que se destrua ou até que caia em eterna quietude. Isso levado a suas raizes é o Nihilismo e o Ilusionismo, e é a única sabedoria se supomos que nossa mentalidade humana, ou algo que se lhe pareça, representa a suprema força cósmica e a concepção original que trabalha no universo.

Prontamente descobrimos, no original poder do conheci­mento, uma força superior à que está representada por nossa humana mentalidade, esta concepção do universo se torna insufi­ciente e, portanto, carente de valor. Tem sua verdade mas não a verdade toda. É a lei da aparência imediata do universo, mas não de sua original verdade e último fato. Pois percebemos detrás da ação de Mente, Vida e Corpo, algo que não está abar­cado pela corrente da Força senão que a abarca e controla; algo que não nasceu em um mundo que busca interpretar, senão que há criado em seu ser um mundo do qual tem a onisciência; algo que não trabalha perpetuamente para formar algo mais de si enquanto que se muda no supradominante surgimento de passadas energias que já não pode controlar, senão que já tem em sua consciência uma Forma perfeita de si e aqui está desenvolvendo-a gradualmente. O mundo expressa uma Verdade prevista, obedece a uma Vontade pré-determi­nante, realiza uma formativa auto-visão original, —é a crescente imagem de uma criação divina--.

Na medida que trabalhamos só através da mentalidade governada pelas aparências, este algo além e detrás, e sempre imanente, pode só ser uma interferência ou uma presença vagamente sentida. Percebemos uma lei de progresso cíclico e inferimos uma sempre crescente perfeição de algo que, em alguma parte, é pré-co­nhecido. Por toda a parte vemos a Lei fundada no auto-ser e, quando penetramos dentro no racional de seu processo, descobrimos que a Lei é a expressão de um conhecimento inato, um conhecimento inerente à existência que está expressando-se, e implicita na força que a expressa; e a Lei desenvolvida pelo Conhecimento, assim como nos permite a progressão, implica uma meta divinamente vista até a que se dirige o movimento. Vemos também que nossa razão busca emergir a partir da impotente deriva de nossa mentalidade e dominá-la, e alcançamos à percepção de que a Razão é só uma mensageira, uma representante ou uma sombra de uma consciência maior, além dela, que não necessita raciocinar porque ela é tudo e conhece tudo o que é. E então podemos passar a inferir que esta “Fonte da Razão” é idêntica com o Conhecimento que atua como Lei no mundo. Este Conhecimento determina sua própria lei, soberanamente, porque conhece o que há sido, é e será, e o conhece porque existe eternamente, e se conhece infinitamente. O Ser que é consciência infinita, a consciência infinita que é força onipotente, quando faz de um mundo —vale dizer, de uma harmonia de si — seu objetivo da consciência, chega a ser captável por nosso pensamento como uma existência cósmica que conhece sua própria verdade e realiza em formas isso que conhece.

Mas é só quando cessamos de raciocinar e aprofundamos em nós mesmos, dentro desse segredo donde a atividade da mente esta aquietada, que essa outra consciência chega realmente a ser-nos manifesta, —ainda que imperfeitamente devido a nosso prolongado hábito de reação mental e limitação mental--. Então podemos conhecer com segurança, em uma crescente iluminação, isso que havíamos concebido incertamente mediante a pálida e trêmula luz da Razão. O Conhecimento aguarda assentado além da mente e do raciocínio intelectual, intronizado na vastidão luminosa da auto-visão ilimitável.


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Capítulo XIV

A SUPERMENTE COMO CRIADORA

Todas as coisas são auto-despertadas do Divino Conhecimento.

Vishnu Purana[1][1]

Um princípio de Vontade e Conhecimento ativos, superior à Mente e criador dos mundos, é então o poder interme­diário e o estado do ser entre essa auto-possessão do Uno e este fluir dos Muitos. Este princípio não é inteiramente estranho a nós; não pertence exclusiva e incomunicavelmente a um Ser que por inteiro difere de nós mesmos ou a um estado da existência desde o que somos misteriosamente projetados no nascimento, mas também rejeitados e incapazes de retomar. Parece-nos que está nas alturas muito por cima de nós contudo suas alturas são as de nosso ser, e acessíveis a nosso passo. Não só podemos inferir e vislumbrar essa Verdade senão que também somos capazes de compreendê-la. Mediante uma progressiva expansão ou uma súbita auto­-transcendência luminosa podemos escalar esses cumes em inesquecíveis momentos, ou morar nelas durante horas, ou dias, de máxima experiência supra-humana. Quando descendemos novamente, há por­tas de comunicação que podem deixar-se sempre abertas ou re­abrir-se inclusive ainda que constantemente se fechem. Mas morar ali permanentemente, neste último e supremo cume do ser criado e criador é, ao final, o supremo ideal de nossa humana consciência em evolução quando busca não a auto-anulação senão a auto-perfeição. Pois, como temos visto, esta é a Idéia original, a harmonia final, e a verdade à que nossa gradual auto-expressão no mundo retorna e que se propôe alcançar.

Enquanto, podemos duvidar se é possível, agora ou sempre, dar alguma conta deste estado ao intelecto humano ou utilizar de algum modo comunicável e organizado suas obras divinas para elevação de nosso conhecimento e ação humanos. A dúvida não se suscita só pelo raro e duvidoso de qualquer fenômeno conhecido que possa delatar a obra humana desta faculdade divina, nem da grande distância que separa esta ação da experiência e do veri­ficável conhecimento da humanidade ordinária; também o sugere vigorosamente a aparente contradição em essência e operação entre a mentalidade humana e a Supramente divina.

E certamente, se esta consciência não tem relação nenhuma com a mente nem identidade com o ser mental, seria por completo impossível dar conta dela a nossas noções humanas. Ou, se fosse em sua natureza só visão no conhecimento e não poder dinâmico do conhecimento, poderíamos esperar alcançar com seu contato um beatífico estado de iluminação mental, mas não uma luz e poder maiores para as obras do mundo. Mas dado que esta consciência é a cria­dora do mundo, deve ser não só estado de conhecimento, senão poder do conhecimento, e não só Vontade para a luz e a visão senão Vontade para o poder e as obras. E dado que a Mente também é criada por ela, a Mente deve ser um desenvolvimento, -não expansivo senão limitativo-, que parte desta primária faculdade e deste ato mediador da suprema Consciência, e deve portanto ser capaz de resolver-se reingressando através de um inverso desenvolvimento por expansão[2][2].

Pois sempre a Mente deve ser idêntica à Supramente em essência, e ocultar em si a potencialidade da Supramente, por mais diferente ou inclusive contrária que poda haver chegado a ser em seus atuais formas e em seus assentados modos de operação. Não pode então ser um irracional ou improdutiva tentativa de trabalhar, --mediante o método de comparação e contraste--, em prol de adquirir alguma idéia da Supramente desde o ponto de vista e segundo os termos de nosso conhecimento intelectual. A idéia, os termos, bem podem ser inadequados mas ainda servem como um dedo apontando à luz que nos assinala um caminho que, até alguma distância ao menos, podemos recorrer. É mais, a Mente lhe é possível elevar-se além de si, acedendo a certas alturas ou planos da consciência que recebem em si mesmos alguma luz ou poder modificados da consciência supra­mental, e conhecer esta por uma iluminação, uma intuição ou um direto contato ou experiência, ainda que viver nela e ver e atuar desde ela é uma vitória que todavia não há sido tornada humanamente possível.

E primeiro devemos detenos um momento e perguntar-nos se não há de encontrar-se alguma luz do passado que nos guie até estes mal explorados domínios. Necessitamos um nome, e necesi­tamos um ponto de partida. Pois temos chamado a este estado de consciência, a Supramente; mas a palavra é ambígua dado que pode tomar-se no sentido da mente mesma eminente e elevada por cima da mentalidade ordinária mas não radicalmente modificada, ou pelo contrário pode levar o sentido de tudo o que está além da mente e, portanto, assumir uma demasiado extensa compreensividade que traria incluído ao Inefável mesmo. É imprescindível uma descrição subsidiária que limite mais mi­nuciosamente seu significado.

Aqui nos servem de ajuda os críticos versos do Veda; pois contêm, ainda que, velado, o evangelho da divina e imortal Supramente e, através do véu, chegam a nós alguns flashes iluminadores. Podemos ver através destas afirmações a con­cepção desta Supramente como uma vastidão além dos firmamentos ordinários de nossa consciência na que a verdade do ser é luminosamente uma com tudo o que a expressa, e assegura inevitavelmente a verdade da visão, formulação, ordenação, expressão, ato e movimento e, portanto, a verdade também do resul­tado do movimento, do resultado da ação e a expressão, infalível ordenança ou lei. Vasta todo-compreensividade; luminosa verdade e harmonia do ser nessa vastidão e no vago caos ou auto-perdida obscu­ridade; verdade da lei e do ato, e conhecimento expressivo dessa harmoniosa verdade do ser; estes parecem ser os termos essenciais da descrição Védica. Os Deuses, que em sua suprema entidade secreta são poderes desta Supramente, nascidos dela, assentados nela como em seu próprio lugar, são, em seu conhecimento, "verdade­-consciente” e, em sua ação, são possuídos da “vidente-vontade”. Sua força-consciente dirigida para as obras e a criação está possuída e guiada por um conhecimento perfeito e direto da coisa por fazer, de sua essência e de sua lei, —Um conhecimento que determina uma absolutamente efetiva vontade-poder que não se desvia nem vacila em seu processo nem em seu resultado senão que se expressa e se realiza espontânea e inevitavelmente no ato que há sido visto pela visão--. Aqui a Luz é uma com a Força, as vibrações do conhecimento com o ritmo da vontade são um só, perfeitamente, sem busca, tentativa nem esforço, com o resultado assegurado. A Natureza divina tem duplo poder, por um lado, uma auto-formulação e uma auto-ordenação espontâneas que brotam naturalmente da essência da coisa manifestada e expressam sua verdade original, e por outro, uma auto-força da luz inerente à coisa mesma e a fonte de sua auto-ordenação espontânea e inevitável.

Há detalhes subordinados, mas importantes. Os videntes Vé­dicos parecem falar de duas faculdades primárias da alma “verdade­-consciente”; são a Vista e o Ouvido, pelos que se pretende dirigir as operações de um Conhecimento inerente descritível como verdade-visão e verdade-audição e refletido a grande distância em nossa mentalidade humana pelas faculdades da revelação e inspiração. Além disso, parece haver uma distinção nas operações da Supramente entre o conhecimento por compreensão e penetrante consciência que está muito próximo do conhecimento subjetivo por iden­tidade, e o conhecimento por projeção, confrontação, apreendente consciência que é o princípio da cognição objetiva. Estas são as pistas Védicas. E podemos aceitar desta antiga experiência o termo subsidiário “verdade-consciência” para delimitar a conotação da frase mais elástica, Supramente.

Vemos de uma só vez que essa consciência, descrita por essas características, deve ser uma formulação intermediária que retrocede a um termo por cima dela e mais adiante a outro debaixo dela; vemos ao mesmo tempo que esta é, evidentemente, o vínculo e o meio através dos quais o inferior se desenvolve a partir do superior e igualmente seria o vínculo e o meio pelos que o inferior pode desenvolver-se de regresso outra vez até sua fonte. O termo de cima é a consciência unitária e indivisível do puro Satchitananda no que não há distinções separativas; o termo debaixo é a consciência analítica ou divisora da Mente que só pode conhecer por separação e distinção e que, no mais, tem uma vaga e secundária apreensão da unidade e infinitude, —pois, ainda que pode sintetizar suas divi­sões, não pode atingir a uma verdadeira totalidade--. Entre eles está essa consciência compreensiva e criadora, que com seu poder de conhe­cimento penetrante e compreensivo é o filho desse auto­-conhecimento por identidade que é o equilíbrio do Brahman; e com seu poder de conhecimento por projeção, confrontação e apre­ensão é o pai desse conhecimento por distinção que é o processo da Mente.

Acima, a fórmula do Um eternamente estável e imutável; abaixo, a fórmula dos Muitos que, eternamente mutável, busca mas dificilmente encontra no fluir das coisas um ponto de apoio firme e imutável; no meio, a sede de todas as trindades, de tudo o que é bi-uno, de tudo o que chega a ser Muitos-em­-Um e contudo segue sendo Um-em-Muitos porque originariamente foi Um que potencialmente é sempre Muitos. Este termo intermediário é, portanto, o princípio e o fim de toda criação e ordenação, o Alfa e o Ômega, o ponto de partida de toda diferencia­ção, o instrumento de toda unificação, origem, executor e consumador de todas as harmonias realizadas a realizáveis. Tem o conhecimento de Um, mas é capaz de extrair do Uno suas escon­didas multiplicidades; manifesta os Muitos, mas não se perde em suas diferenciações. E não diremos que sua existência mesma assinala detrás a Algo que está além de nossa suprema percepção da inefável Unidade, ¾Algo inefável e mentalmente inconcebível não devido a sua unidade e indivisibilidade, senão por causa de sua liberdade de inclusive estas formulações de nossa mente—, algo além da unidade e a multiplicidade? Isso seria o total Absoluto e Real que assim nos justi­fica nosso conhecimento de Deus e nosso conhecimento do mundo.

Mas estes termos são imensos e difíceis de captar; passemos às precisões. Falamos do Uno como Satchitananda; mas na descrição mesma propomos três entidades e as unimos para alcançar a uma trindade. Dizemos "Existência, Consciência, Bem-aventurança”, e logo dizemos “elas são uma só”. É um processo da mente. Mas para a consciência unitária esse processo é inadmissível. A Existência é Consciência e não pode haver distinção entre elas; a Consciência é Bem-aventurança e não pode haver distinção entre elas. E dado que nem sequer existe esta diferenciação não pode haver mundo. Se essa é a única realidade, então o mundo não existe nem existiu jamais, nem nunca pode haver sido concebido; pois a cons­ciência indivisível é consciência indivisível e não pode originar divisão nem diferenciação. Mas isto é um reductio ad absurdum; não podemos admiti-lo a menos que nos contentemos com baseá-lo todo em um impossível paradoxo e uma antítese irreconciliável.

Por outra parte, a Mente pode conceber com precisão divisões como se fossem reais; pode conceber uma totalidade sintética ou o finito estendendo-se indefinidamente; pode captar agregados de coisas divididas e a singularidade subjacente a elas; mas a unidade última e a infinitude absoluta são, para sua consciência das coisas, noções abstratas e quantidades incontáveis, nada que seja real para sua captação e menos todavia, algo que seja o único real. Há aqui, portanto, o termo oposto da consciência unitária; temos, ao con­frontar a unidade essencial e indivisível, uma multiplicidade essencial que não pode alcançar à unidade sem abolir-se a si mesma e no ato mesmo confessar que em realidade jamais poderia haver existido. Contudo, existiu; pois é esta a que há encontrado a unidade e aboliu-se a si mesma. E novamente temos um reductio ad absurdum repetindo o violento paradoxo que busca convencer ao pensamento aturdindo-o e igualmente de novo, a não reconciliada e irreconciliável antítese.

A dificuldade, em seu termo inferior, desaparece se advertimos que a Mente é só uma forma preparatória de nossa consciência. A Mente é um instrumento de análise e síntese, mas não de conheci­mento essencial. Sua função é cortar, separar algo vagamente da Coisa desconhecida em si mesma e chamar a esta medição ou delimitação dela o todo, e novamente analisar o todo em suas partes que considera como separados objetos mentais. São só partes e acidentes o que a Mente pode ver definidamente e, a sua maneira, conhecer. De todo sua única idéia definida é uma montagem de partes ou uma totalidade de propriedades e acidentes. O todo, --não visto como uma parte de algo mais ou em suas próprias partes, propriedades e acidentes--, é para a mente não mais que uma vaga percepção; só quando é analisado e situado por si mesmo como separado objeto constituído, uma totalidade dentro de uma totalidade maior, a Mente pode dizer-se a si mesma, “Agora conheço isto”. E em realidade não o conhece. Só conhece sua própria análise do objeto e da idéia que se há formado dele me­diante uma síntese das separadas partes e propriedades que há visto. Ali seu poder característico, sua segura função cessa, e se tivéramos um conhecimento maior, mais profundo e real, —Um conhecimento e não um intenso mas amorfo sentimento como os que advêm às vezes em certas partes profundas mas inarticuladas de nossa mentalidade—, a Mente haveria de fazer lugar para outra consciência que colmara à Mente fazendo-a transcender, ou ao revés e assim, rectificara suas operações depois de saltar além dela mesma; o cume do conhecimento mental é só um trampolim desde o qual esse salto pode ser realizado. A suprema missão da Mente é treinar nossa obscura consciência emergida da obscura prisão da Matéria, em iluminar seus cegos instintos, fortuitas intuições e vagas percepções, até que chegue a ser capaz dessa luz maior e dessa superior ascensão. A mente é uma passagem, não uma culminação.

Por outra parte, a consciência unitária ou Unidade indivisível não pode ser essa entidade impossível, uma coisa sem conteúdo da que há saído todo o conteúdo e na qual desaparece e chega a ser aniquilado. Deve ser uma original auto-concentração na que tudo esteja contido mas de maneira distinta à manifestação temporal e espacial. Isso que desse modo se concentrou, é a completamente inefável e inconcebível Existência que o Nihilista imagina em sua mente como o negativo Vazio de tudo o que conhecemos e somos, mas o Transcendentalista, com igual razão, pode imaginar sua mente como a positiva mas indistinguível Realidade de tudo o que conhecemos e somos. “No princípio”, diz o Vedanta, “estava a Existência única sem uma segunda”, mas antes e depois do princípio, agora, para sempre e além do Tempo, está o que não podemos descrever nem sequer como o Uno, nem quando dizemos que nada salvo Isso é. Como podemos ser conscientes de que é, primeiro, sua original auto­-concentração pela que nos esforçar-nos em compreendê-lo como o Uno indivisível; em segundo lugar, a difusão e aparente desintegração de tudo o que estava concentrado em sua unidade que é a concepção Mental do universo; e em terceiro lugar, sua firme auto-extensão na Verdade-consciência que contêm e sustenta a difusão, e evita que passe a ser uma real desintegração, mantêm a unidade na máxima diversidade e conserva a estabilidade na máxima mutabilidade, insiste na harmonia na aparência de uma oni-penetrante contenda e colisão, mantêm ao eterno cosmos donde a Mente alcançaria só a um caos eternamente intentando dar-se forma. Esta é a Supramente, a Verdade-consciência, a Real-Idéia que se conhece a si mesma e a tudo o que chega a ser.

A Supramente é a vasta auto-extensão do Brahman que contêm e desenvolve. Mediante a Idéia desenvolve o princípio tríplice da existência, consciência e bem-aventurança, de sua indivisível uni­dade. Há diferenças mas não as divide. Estabelece uma Trindade, não chegando como a Mente das três ao Uno, senão manifestando às três desde o Uno, —pois ela manifesta e desenvolve—, e man­tendo-as na unidade —pois conhece e contêm--. Mediante a diferenciação é capaz de apresentar a uma ou outra delas como a Deidade efetiva que contêm as demais envolvidas ou explicitas em si, e este processo cria o fundamento de todas as outras diferenciações. E mediante a mesma operação atua em todos os princípios e possi­bilidades que faz evoluir a partir desta todo-constituinte trindade. Possui o poder de desenvolvimento, de evolução, de tornar explícito, e esse poder leva consigo o outro poder de involução, de cobrimento, de tornar implícito. Num sentido, pode dizer-se que a criação toda é um movimento entre duas involuções, uma, Espírito no que tudo está envolvido e do que tudo evolui desde baixo, até o outro pólo da Matéria, outra, Matéria na que também tudo está envolvido e da que tudo evolui desde baixo, até o outro pólo do Espírito.

Assim todo o processo de diferenciação mediante a Real-Idéia criadora do universo é uma assentada exposição de princípios, forças e formas que contêm, pela compreensiva consciência, todo o resto da existência dentro deles, e enfrentam a apreensiva consciência com todo o resto da existência implícito detrás deles. Portanto, cada um está em tudo como tudo está em cada um. Por ele cada semente de coisas implica em si mesma toda a infinitude de variadas possibilidades, mais é submetida a uma lei de processo e resultado pela Vontade, vale dizer, pelo Conhecimento-Força do Ser-Consciente, que está manifestando-se a si mesmo e que, seguro da Idéia em si mesmo, pré-determina por ela suas próprias formas e movimentos. A semente é a Verdade de seu próprio ser que esta Auto-Existência vê em si mesma, a resultante dessa semente de auto-visão é a Verdade da auto-ação, a lei natural do desenvolvimento, formação e funcionamento que segue inevitavelmente à auto-visão e mantêm os processos envolvidos na Verdade ori­ginal. Toda a Natureza é, simplesmente, então, a Vontade-Vidente, o Conhecimento-Força do Ser-Consciente, trabalhando para despertar em força e forma toda a inevitável verdade da Idéia à que originariamente se entregou.

Esta concepção da Idéia nos assinala o contraste essencial entre nossa consciência mental e a Verdade-consciência. Consideramos o pensamento como uma coisa separada da existência, abstracto, insubs­tancial, diferente da realidade, algo que aparece não se sabe donde e se separa da realidade objetiva em ordem a observá-la, entendê-la e julgá-la; tal nos parece e assim é, portanto, para nossa mentalidade oni-divisora e todo-analisadora. A primeira tarefa da Mente é ser “separadora”, efetuar fissuras mais que discernir, e é assim como fez esta paralizante fissura entre o pensamento e a realidade. Mas na Supramente todo ser é consciência, toda consciência é de ser, e a idéia, uma repleta vibração da consciência, é igual­mente uma vibração do ser repleto de si mesmo; é uma saída inicial, um auto-conhecimento criador, do que está concentrado no auto­-conhecimento não-criador. Sai como Idéia que é realidade, e essa realidade da Idéia é a que se desenvolve a si mesma, sempre por seu próprio poder e consciência de si, sempre auto-consciente, sempre auto-desenvolven­do-se mediante a vontade inerente à Idéia, sempre auto-reali­zando-se mediante o conhecimento engranado em seu próprio impulso. Esta é a verdade de toda criação, de toda evolução.

Na Supramente, o ser, a consciência do conhecimento e a consciência da vontade não estão divididos como parecem estar em nossas operações mentais; são uma trindade, um movimento com três aspectos efetivos. Cada um tem seu efeito próprio. O ser dá o efeito da substância, a consciência o efeito do conhecimento, da auto-guiante e conformadora idéia, da compreensão e a apre­ensão; a voluntade dá o efeito da força auto-realizadora. Mas a idéia é só a luz da realidade iluminando-se; não é pensamento nem imaginação mentais, senão auto-entendimento efetivo. É Real-Idéia.

Na Supramente o conhecimento na Idéia não está divor­ciado da vontade na Idéia senão que é um com ela, —assim como não é diferente do ser ou substância, senão que é um com o ser, luminoso poder da substância--. Assim como o poder de acender luz não é diferente da substância do fogo, de igual modo o poder da Idéia não é diferente da substância do Ser que se estrutura na Idéia e seu desenvolvimento. Na nossa mentalidade todos são diferen­tes. Temos uma idéia e uma vontade de acordo com a idéia ou bem, um impulso da vontade e uma idéia afastando-se dela; pois diferenciamos efe­tivamente a idéia da vontade e a ambas de nós mesmos. Eu sou; a idéia é uma misteriosa abstração que se me apresenta, a vontade é outro mistério, uma força mais próxima à concretização, ainda que não concreta, senão sempre algo que não é eu mesmo, algo que tenho ou consigo ou captei, mas não sou. Trago um abismo também entre minha vontade, seu meio e o efeito, pois os considero como realidades concretas externas e diferentes de mim mesmo. Portanto nem eu mesmo, nem a idéia nem a vontade em mim são auto-efetivas. A idéia pode cair fora de mim, a vontade pode fracassar, o meio pode faltar, eu mesmo, por todas ou por uma qualquer destas lacunas posso realizar irrealizado.

Mas na Supramente essa divisão paralizante não existe, porque o conhecimento não está auto-dividido, a força não está auto-dividida, o ser não está auto-dividido como na mente; não estão interrompidos em si mesmos, nem divorciados um dos outros. Pois a Supramente ou o Vasto; parte da unidade, não da divisão, é primeiramente compreensiva, a diferenciação é só seu ato secundário. Portanto qualquer que seja a verdade do ser expressada, a idéia que lhe corresponde exatamente, a vontade-força o faz a sua vez a idéia, —sendo a força só o poder da consciência—, e o resultado torna-o, a vontade. A idéia não choca com outras idéias, a vontade ou outra força não choca com outra vontade ou força, como no homem e seu mundo; pois há uma vasta Consciência que contêm e relaciona todas as idéias em si mesma como suas próprias idéias, uma vasta Vontade que contêm e relaciona todas as energias em si mesma como suas próprias energias. Atrasa isto, adianta aquilo, mas de acordo a sua própria pré-concebida Idéia-Vontade.

Esta é a justificação das corrintes noções religiosas da onipresença, onisciência e onipotência do Ser Divino. Longe de ser uma irracional imaginação são perfeitamente racionais e de nenhum modo contradizem à lógica de uma filosofia compreensiva nem às indicações da observação e experiência. O erro consiste em construir um incomunicável abismo entre Deus e o homem, entre o Brahman e o mundo. Esse erro eleva uma real e prática diferenciação no ser, na consciência e na força dentro de uma divisão essencial. Mas este aspecto da questão o tocaremos depois. Agora temos alcançado uma afirmação e a alguma con­cepção da divina e criadora Supramente na que tudo é uno em ser, consciência, vontade e deleite, ainda que com uma infinita capaci­dade de diferenciação que desperta mas não destrói a unidade, —na que a Verdade é a substância, a Verdade surge na Idéia e a Verdade surge na forma e há uma verdade de conhecimento e vontade, uma verdade de auto-realização e, portanto, de deleite; pois toda auto-realização é satisfação do ser. Portanto, em todas as mutações e combinações, sempre, uma harmonia auto-existente e inalienável.

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Capitulo XV

A SUPREMA VERDADE-CONSCIÊNCIA

Aquele assentado no sonho da Supraconsciência, uma con­centrada Inteligência, bem-aventurado, e gozoso da Bem-aventurança... Este é o onipotente, este é o o­nisciente, este é o controle interior, este é a fonte de tudo.

Mandukya Upanishad[1][3]

Portanto, temos de considerar a esta Supramente oni-con­tinente, oni- originadora, e todo-consumante como a natureza do Ser Divino, não por certo em sua auto-existência absoluta, senão em sua ação como o Senhor e Criador de seus próprios mundos. Isto é a verdade do que chamamos Deus. Obviamente não se trata da demasiado pessoal e limitada Deidade, o magnificente e supranatural Homem da ordinária concepção ocidental; pois essa concepção erige um Ídolo demasiado humano de uma certa relação entre a Su­pramente criadora e o ego. Devemos certamente não excluir o aspecto pessoal da Deidade, pois o impessoal é só uma face da exis­tência; o Divino é Oni-existência, mas é também o único Exis­tente, —é o único Ser-Consciente, mas ainda um Ser--. Não obstante, agora não nos referimos a este aspecto; o que procuramos fazer é sondar a impessoal verdade psicológica da Consciência divina; isto é o que temos de fixar em uma ampla e clarificadora concepção.

A Verdade-Consciência está presente por toda parte no universo como um ordenante auto-conhecimento pelo qual o Uno manifesta as harmonias de sua infinita multiplicidade potencial. Sem este orde­nante auto-conhecimento, a manifestação seria meramente um caos cambiante, precisamente porque a potencialidade é infinita, --(que por si mesma só conduziria a um jogo de incontrolada probabilidade ilimitada)--. Se só houvesse potencialidade infinita, --(sem alguma lei de guiadora verdade e harmoniosa auto-visão, sem alguma Idéia pré-determinadora na semente mesma das coisas, originada para a evolução)--, o mundo não seria senão uma incerteza abundante, amorfa e confusa. Mas o Conhecimento que cria, posto que o que cria ou libera são formas e poderes de si mesmo e não coisas diferentes dele mesmo, possui em seu próprio ser a visão da verdade e a lei que governa cada potencialidade, e junto com ela um intrínseco entendimento de sua relação com outras potencialidades e as harmonias possíveis entre elas; tem tudo isto pré-figurado na general harmonia determinante que a total Idéia rítmica de um universo deve conter em seu nascimento mesmo e em sua auto-concepção e que, portanto, deve inevitavelmente estrutu­rar-se mediante a interrelação de seus componentes. É a fonte e custódia da Lei no mundo; pois essa lei não é nada arbitrário, —(é a expressão de uma auto-natureza que está determinada pela pujante verdade da Idéia real que cada coisa contêm em seu início)--. Portanto, desde o princípio, o desenvolvimento total está pré­determinado em seu auto-conhecimento e em todo instante em sua auto­-elaboração; cada coisa é o que deve ser em cada instante mediante sua própria e original Verdade inerente; e se expande até o que deve ser no instante seguinte, mediante sua própria e original Verdade inerente; e ao fim será o que estava contido e proposto em sua se­mente.

Este desenvolvimento e progresso do mundo de acordo com uma verdade original de seu próprio ser, implica uma sucessão de Tempo, uma relação no Espaço e uma regulada interação de coisas relaciona­das no Espaço, ao qual a sucessão do Tempo lhe brinda o aspecto de Causalidade. O Tempo e o Espaço, conforme com a metafísica, só têm uma existência conceitual e não real; mas dado que todas as coisas não só estas são formas assumidas pelo Ser-Cons­ciente em sua própria consciência, a distinção não é de grande impor­tância. O Tempo e o Espaço são esse único Ser-Consciente vendo-se em extensão, subjetivamente como Tempo, objetivamente como Es­paço. Nosso ponto de vista mental destas duas categorias está determinado pela idéia de medida que é inerente na ação do analítico movi­mento divisório da Mente. O Tempo é para a Mente uma móvel extensão medida pela sucessão de passado, presente e futuro na que a mente se situa em um certo ponto de observação desde o que olha o antes e o depois. O Espaço é uma estável extensão medida pela divi­sibilidade da substância; em certo ponto dessa divisível extensão a Mente se situa e contempla à disposição da substância em seu redor.

De fato, a Mente mede o Tempo por sucesso e o Espaço por Matéria, mas é possível em uma pura mentalidade des­cartar o movimento de sucessos e a disposição da substância e dar-se conta do puro movimento da Força-Consciente que constitui o Espaço e o Tempo; estes dois são, então, simplesmente dois aspectos da força universal da Consciência que em sua entrelaçada inter­ação compreendem a urgência e a trama de sua ação sobre Si. E a uma consciência superior que a Mente, à qual considerara nosso passado, presente e futuro em uma só visão, --(contendo-os e não contida neles)--, não situada em um particular momento do Tempo para seu ponto de prospecção, o Tempo bem poderia oferecer-lhe como um eterno presente. E a mesma consciência não situada em um particular ponto do Espaço, mas contendo todos os pontos e regiões no mesmo, o Espaço também poderia oferecer-se como uma extensão subjetiva e indivisível, —(não menos subjetiva que o Tempo)--. Em certos momentos chegamos a ser conscientes de uma indivisível observação mantendo mediante sua imutável unidade auto-consciente as variações do universo. Mas não devemos agora perguntar como os contidos do Tempo e do Espaço se apresentariam ali em sua verdade transcendente; pois isto nossa mente não pode concebê-lo, —e está sempre ponta para negar a este Indivisível qualquer possibilidade de conhecimento do mundo em algum outro modo que não seja este de nossa mente e sentidos--.

O que temos que compreender, e podemos até certo ponto conceber, é a única visão e todo-compreensiva observação pelas que a Supramente abarca e unifica as sucessões do Tempo e as divisões do Espaço. E primeiramente, se não existisse este fator das sucessões do Tempo, não haveria mudança nem progressão; se manifestaria perpetuamente numa perfeita harmonia, --(coexistente com outras harmonias em uma sorte de eterno momento não sucessivo a elas)--, no movimento desde o passado ao futuro. Em lugar disso temos a constante sucessão de uma harmonia desenvolvendo-se na que uma variedade surge de outra que a precedeu e oculta em si a que há substituído. Ou, se a auto-manifestação fosse existir sem o fator do Espaço divisível, não haveria relação mutável de formas ou entre ­chocar de forças; tudo existiria sem estruturar-se, —(uma auto-cons­ciência inespacial, puramente subjetiva, conteria todas as coisas em uma infinita captação subjetiva como na mente de um poeta ou sonhador cósmico, mas não se distribuiria através de tudo em uma indefinida auto-extensão objetiva)--. Ou de outro modo, se só o Tempo fosse real, suas sucessões seriam um puro desenvolvimento no que uma variedade surgiria de outra em uma livre espontaneidade subjetiva como em uma série de sons musicais ou em uma sucessão de imagens poéticas. Em lugar disso, temos uma harmonia estruturada pelo Tempo em termos de formas e forças que permanecem relacionadas umas com outras em uma oni-continente extensão espacial; uma incessante sucessão de poderes e figuras de coisas e sucessos em nossa visão da existência.

As diferentes potencialidades estão corporizadas, situadas e re­lacionadas neste campo do Tempo e o Espaço, cada uma com seus poderes e possibilidades enfrentando outros poderes e possibilidades, e como resultado, as sucessões do Tempo chegam a ser, em sua apa­rência diante a mente, uma estrutura produtora de coisas mediante impacto e luta, e não por espontânea sucessão. Em realidade, existe uma espontânea produção de coisas desde dentro e o impacto e luta externos são só o aspecto superficial desta elaboração. Pois a interior e inerente lei do uno e o todo, que necessariamente é uma harmonia, governa as outras e causais leis das partes ou formas que parecem estar em colisão; e esta maior e mais profunda verdade da harmonia está sempre presente para a visão supramental. Isto, que é uma aparente discórdia para a mente devido a que considera cada coisa separadamente em si, é um elemento da sempre-presente e sempre-em-desenvolvimento harmonia geral da Supramente, pois esta vê todas as coisas em uma múltipla unidade. Além disso, a mente só vê um tempo e espaço dados, e contempla muitas possibilidades sem ordem nem concerto como mais ou menos realizáveis todas nesse tempo e espaço; a Supramente divina vê toda a extensão do Tempo e o Espaço e pode abarcar todas as possibilidades da mente e muitíssimas mais, não visíveis para a mente, mas sem nenhum erro, vacilação ou confusão; pois percebe cada potencialidade em sua própria força, necessidade essencial e relação correta com as outras e com o tempo, lugar e circunstância de sua gradual realização e de sua última realização. Ver as coisas como permanentes e contemplá-las como um todo não é possível para a mente; no entanto, essa é a natureza mesma da Supramente transcendente.

Esta Supramente, em sua visão consciente, não só contêm todas as formas de si mesma que sua força consciente cria, senão que também as penetra como uma Presença imanente e uma Luz auto-reveladora. Está presente, ainda que oculta, em cada forma e em cada força do universo; é a que determina soberana e espontaneamente a forma, a força, e o funcionamento; põe limites às variações que impõe; e tudo isto se faz de acordo com as leis primeiras[2][4] que seu auto-conhecimento há fixado no nascimento mesmo da forma, no ponto de par­tida mesmo da força. Está assentada dentro de cada coisa como o Senhor no coração de todas as existências, quem os faz girar como um motor mediante o poder de sua Maya[1][5] ; está dentro delas a as abarca como o Divino Vidente que variadamente dispôs e ordenou os objetos, cada um corretamente de acordo com o que é, desde os anos eternos[2][6].



Portanto, cada coisa na Natureza, animada ou inanimada, mentalmente auto-consciente ou não auto-consciente, está governada em seu ser e em suas operações por uma Visão e um Poder imanentes, subconscientes ou inconscientes para nós porque não temos cons­ciência dela, que não é inconsciente de si, senão muito mais pro­funda e universalmente consciente. Portanto, cada coisa parece fazer os trabalhos da inteligência, ainda sem possuir inteligência, porque obedece, subconscientemente como na planta e o animal, ou semi-conscientemente como no homem, a Real-idéia da Supramente divina dentro dela. Mas não é uma Inteligência mental a que informa e governa todas as coisas; é uma auto-sabedora Verdade do ser na que o auto-conhecimento é inseparável da auto-exis­tência; é esta Verdade-consciência que não há de examinar a cosas, senão estruturá-las com o conhecimento, de acordo à impecável auto-­visão e à inevitável força da única e auto-realizante Existên­cia. A inteligência mental examina porque é simplesmente uma força refle­tora da consciência, que não sabe, mas busca conhecer; segue no Tempo passo a passo, o trabalho de um conhecimento superior a ela, um conhecimento que existe sempre, único e total, que sustenta o Tempo desprendido, que vê passado, presente e futuro com um simples olhar.

Este é, então, o primeiro princípio operativo da Supra­mente divina; é uma visão cósmica que é oni-compreensiva, o­ni-penetrante e oni-habitante. Porque compreende todas as cosas no ser e no estático auto-conhecimento, subjetivo, atemporal, in­espacial, portanto compreende todas as coisas no conhecimento dinâmico e governa sua objetiva auto-encarnação no Espaço e Tempo.

Nesta consciência; conhecedor, conhecimento e conhecido não são diferentes entidades, senão fundamentalmente uma só. Nossa mentalidade faz uma distinção entre estes três porque não pode prosseguir sem distinções; ao perder seus meios apropriados e sua fundamental lei de ação, se torna imóvel e inativa. Portanto, ainda quando me contemplo mentalmente, todavia tenho que fazer esta distinção. Eu sou, tanto como conhecedor; aquele que observo em mim mesmo, contemplo-o como objeto de meu conhecimento; eu mesmo como objeto de conhecimento todavia não sou eu mesmo; o conhecimento é uma operação pela qual vinculo o conhecedor com o conhecido. Mas a artificialidade, a puramente prá­tica e utilitária característica desta operação é evidente; é evi­dente que não representa a verdade fundamental das coisas. Em realidade, eu o conhecedor sou a consciência que conhece; o conheci­mento é essa consciência, eu mesmo operando; o conhecido é também eu mesmo, uma forma ou movimento da mesma consciência. Os três são claramente uma só existência, um só movimento, indiviível ainda que pareça dividido, não distribuído entre suas formas ainda que pareça distribuir-se e permanecer separado em cada uma. Mas este é um conhecimento ao que a mente pode alcançar, pode aplicar-lhe a lógica e ao que pode sentir, mas não pode rapidamente fazê-lo a base prática de suas operações inteligentes. E com respeito aos objetos externos à forma da consciência que chamo eu mesmo, a dificuldade chega a ser quase insuperável; inclusive para sentir a unidade se requer um esforço anormal, e para retê-la e atuar sobre ela continua­mente seria necessária uma nova e estranha ação que não pertence propriamente à Mente. A Mente pode no mais sustentá-la como uma verdade entendida assim como para corrigir e modificar mediante ela suas próprias ati­vidades normais que ainda se baseiam na divisão, algo assim como conhecer intelectualmente que a terra gira ao redor do sol e mediante isso ser capaz de corrigir mas não abolir a artificial e fisica­mente prática ordenação segundo a qual os sentidos persistem em considerar o sol como em movimento ao redor da terra.

Mas a Supramente possui e atua sempre, fundamentalmente, sobre esta verdade da unidade que para a mente é só uma possessão secundária ou adquirida e não a base mesma de sua visão. A Supramente vê o universo e seu conteúdo como ela mesma em um simples e indi­visível ato de conhecimento, um ato que é sua vida, que é o momento mesmo de sua auto-existência. Portanto, esta compre­ensiva consciência divina em seu aspecto de Vontade, não tanto guia ou governa o desenvolvimento da vida cósmica como o consuma em si mesma, mediante um ato de poder que é inseparável do ato de conhecimento e do movimento de auto-existência, é, certamente, um e o mesmo ato. Pois temos visto que a força universal e a consciência universal são uma só —a força cósmica é a operação da consciência cósmica--. De igual maneira o divino Conhecimento e a divina Vontade são um só; eles são o mesmo movimento fundamental ou ato da existência.

Esta indivisibilidade da compreensiva Supramente que con­têm toda a multiplicidade sem fazer a um lado sua própria unidade, é uma verdade sobre a que sempre temos de insistir, se temos de entender o cosmos e desembaraçar-nos do erro inicial de nossa mentalidade analítica. Uma árvore evolui a partir da semente na que está já contida, a semente sai da árvore; uma lei fixa, um processo inva­riável reina na permanência da forma da manifestação à que chamamos árvore. A mente considera este fenômeno, este nasci­mento, vida e reprodução de uma árvore, como uma coisa em si mesma e sobre essa base o estuda, classifica e o explica. Explica a árvore pela semente, a semente pela árvore; declara uma lei da Natureza. Mas não explicou nada; só há analisado e anotado o processo de um mistério. Supondo inclusive que chegue a perceber uma secreta força consciente como a alma, o ser real desta forma e o resto como simplesmente uma operação estabelecida e uma manifestação dessa força, ainda tende a considerar a forma como uma existência separada com sua separada lei da natureza e seu processo de desenvolvimento. No animal e no homem com sua mentalidade consciente, esta separativa tendência da Mente o in­duz a considerar-se também como uma existência separada, o sujeito consciente, e às outras formas como objetos separados de sua mentalidade. Esta útil disposição, necessária para a vida e base principal de toda sua prática, é aceitada pela mente como um fato real e daí procede todo o erro do ego.

Mas a Supramente atua de modo distinto. A árvore e seu pro­cesso não seriam o que são, não poderiam certamente existir, se foram uma existência separada; as formas são o que são pela força da existência cósmica, se desenvolvem como o fazem como resultado de sua relação com ela e com todas suas outras manifestações. A lei separada de sua natureza é só uma aplicação da lei e verdade universais de toda a Natureza; seu desenvolvimento particular está deter­minado por seu lugar no desenvolvimento geral. A árvore não explica a semente, nem a semente a árvore; o cosmos explica a ambos e Deus explica o cosmos. A Supramente, penetrando e habitando de uma vez a semente e a árvore e todos os objetos, vive neste conheci­mento maior que é indivisível e uno, ainda que com uma modificada e não uma absoluta indivisibilidade e unidade. Neste conhecimento com­preensivo não há centro independente da existência, não há um separado ego individual tal como o vemos em nóes mesmos; a totalidade da existência es para esse auto-conhecimento uma uniforme extensão, uma na unidade, uma na multiplicidade, uma em todas as condições e por toda parte. Aqui o Todo e o Uno são a mesma existência; o ser individual não perde nem pode perder a consciência de sua identidade com todos os seres e com o Ser Único; pois essa identidade é ine­rente à cognição supramental, uma parte da auto-evidência supramental.

Nessa espaçosa igualdade da unidade, o Ser não está dividido nem distribuído; uniformemente auto-extendido, penetrando sua extensão como Uno, habitando como Uno a multiplicidade das formas, é por toda parte, ao mesmo tempo, o único e mesmo Deus ou Brahman. Pois esta expansão do Ser no Tempo e o Espaço, e esta penetração e habitação estão em Íntima relação com a Unidade absoluta da que procede, que é esse absoluto Indivisível no que não há centro nem circunferência senão só o Uno carente de Espaço e tempo. Essa alta concentração de unidade no não-extendido Brahman deve necessariamente traduzir-se na extensão por esta penetrante concentração igual, por esta indivisível compreensão de todas as coisas, por esta não-distribuída imanência universal, por esta unidade que nenhum despertar de multiplicidade pode abrogar nem diminuir. “Brahman está em todas as coisas, todas as coisas estão em Brahman, todas as coisas são Brahman,” é a tripla fórmula da compreensiva Supramente, uma simples verdade de auto-manifes­tação nos três aspectos que mantêm juntos e inseparáveis em sua auto-visão como o conhecimento universal desde o que procede o jogo do cosmos.

Mas qual é então a origem da mentalidade e a organização desta consciência inferior nos termos triplos de Mente, Vida e Matéria que é nossa visão do universo? Pois dado que todas as coisas que existem devem proceder da ação da oni-eficiente Supramente, de sua operação nos três termos ori­ginais de Existência, Força-Consciente e Bem-aventurança, deve existir alguma faculdade da criadora Verdade-Consciência que opere de tal forma que os projete dentro destes novos termos, dentro deste inferior trio de mentalidade, vitalidade e substância física. Esta faculdade a achamos em um secundário poder do conhecimento cria­dor, seu poder de uma consciência projetante, confrontante e apreendente na que o conhecimento se centraliza, e se mantêm de trás de suas obras, observando-as. E quando falamos de centralização, significamos para distingui-las da uniforme concentração da consciência da que temos falado até agora, uma desigual con­centração na que existe o princípio de auto-divisão, —o de sua aparência fenomênica--.

No primeiro termo, o Conhecedor se mantêm concentrado no conhecimento como sujeito, e contempla sua Força da con­sciência como se continuamente procedesse debaixo da forma dele mesmo, como se continuamente trabalhasse nele, continua­mente retrocedesse dele mesmo, e continuamente se extendesse para diante outra vez. Deste singular ato de auto-modificação procedem todas as distinções prácticas sobre as que se baseia o ponto de vista relativo e a ação relati­va do universo. Se criou uma distinção prática entre Conhecedor, Conhecimento e Conhecido; entre o Senhor, Sua força e os frutos e obras da Força; entre o Desfrutador, o Desfrute e o Desfru­tado; entre o Ser-em-si, Maya e o devir do Ser-em-si.

Em segundo lugar, esta Alma consciente concentrada no co­nhecimento, este Purusha que observa e governa a Força que há ido adiante desde ele, sua Shakti ou Prakriti, se repete em cada forma de si. Acompanha, como se estuvera sua Força da consciência em suas obras e reproduz ali o ato de auto-divisão do que nasce esta consciência apreendente. Em cada forma esta Alma mora com sua Natureza e se observa em outras formas desde esse centro artificial e prático da consciência. Em tudo está a mesma Alma, o mesmo Ser divino; a multiplicação dos centros é só um ato prático da consciência tendente a instituir um jogo de diferença, de mutualidade, de conhe­cimento mútuo, de mútuo choque de força, de mútuo disfrute, uma diferença baseada na unidade essencial, uma unidade realizada sobre uma prática base de diferenciação.

Podemos falar deste novo estado da Supramente oni-penetrante como uma posterior saída da verdade unitária das coisas e da indivisível consciência que constitui inalienavelmente a unidade essencial à existência do cosmos. Podemos ver que perseguida um pouco mais distante pode chegar a ser verdadeiramente Avidya, a grande Ignorância que parte da multiplicidade como a realidade fundamental e, a fim de efetuar seu recorrido inverso até a real unidade, há de começar com a falsa unidade do ego. Podemos tam­bém ver que uma vez que o centro individual é aceitado como ponto de apoio determinante, como conhecedor, sensação mental, inte­ligência mental, ação mental da vontade e todas suas consequên­cias, não pode frustrar-se seu chegar a ser. Mas assim mesmo temos de ver que entanto enquanto a alma atua na Supramente, a Ignorância não há começado todavia; o campo do conhecimento e a ação é todavia a verdade-consciência, a base é todavia a unidade.

Pois o Ser-em-si ainda se contempla como um em tudo e a todas as coisas como devires em si e de si; o Senhor ainda conhece sua Força como o mesmo no ato e todo ser como ele mesmo na alma e ele mesmo na forma; é ainda seu próprio ser que o Desfrutador desfruta, ainda que seja em uma multiplicidade. O único câmbio real há sido uma desigual con­centração da consciência e uma múltipla distribuição da força. Há uma distinção prática na consciência, mas não há diferença essencial da consciência nem divisão verdadeira em sua visão de si. A Verdade-consciência há alcançado uma posição que prepara nossa mentalidade, mas não é ainda a de nossa mentalidade. E é isto o que devemos estudar a fim de captar a Mente em sua origem, no ponto em que efetua seu grande deslizamento desde a elevada e vasta amplitude da Verdade-consciência para dentro da divisão e a ignorância. Afortunadamente, esta Verdad-consciência[5][7]apreendente é muito mais fácil que a captemos por sua proximidade a nós, por sua pré-figuração de nossas operações mentais, que a mais remota realização que até agora temos lutado por expresar em nossa inadequada linguagem do intelecto. A barreira que á de cruzar-se é menos formidável.

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Capítulo XVI

O TRIPLO ESTADO DA SUPRAMENTE

Meu ser é o que sustenta a todos os seres e constitui sua existência..... Sou o eu que habita dentro de todos os seres.

Gita[1][1]

Três poderes da Luz sustentam os três luminosos mundos divinos.

Rig Veda[2][2]

Antes de que passemos a esta mais fácil compreensão do mundo que habitamos, --(desde a posição de uma apreendente Verdade­-consciência que vê as coisas como o faria uma individual alma liberada das limitações da mentalidade e admitida para que participe na ação da Supramente Divina)--, devemos deter-nos e resumir brevemente o que temos compreendido ou podemos ainda compreender da consciência do Senhor, o Ishwara tal como desenvolve o mundo, mediante Sua Maya a partir da concentrada unidade original de Seu ser.

Temos começado afirmando que toda existência é um só Ser cuja natureza essencial é a Consciência, Consciência única cuja natureza ativa é Força ou Vontade; e este Ser é Deleite, esta Consciência é Deleite, esta Força ou Vontade é Deleite. A eterna e inalienável Bem-aventurança da Existência, Bem-aventurança da Consciência, Bem-aventurança da Força ou Vontade bem con­centrada em si e em repouso ou bem, ativa e criadora, isto é Deus e isto é nós mesmos em nosso ser essencial, nosso ser não-fenomênico. Concentrada em si, possui ou melhor é a essencial, eterna, inalienável Bem-aventurança; ativa e criadora, possui ou melhor vem a ser o deleite do jogo da existência, do jogo da consciência, do jogo da força e a vontade. Esse jogo é o universo e esse deleite é a causa, motivo e objetivo únicos da existência cósmica. A Consciência Divina possui esse jogo e deleite eterna e inalienavelmente; nosso ser essencial, nosso eu real que se oculta de nós pelo falso eu ou ego mental, também desfruta esse jogo e deleite eterna e inalienavelmente e não pode, certamente, trabalhar de outro modo, dado que é uno no ser com a Consciência Divina. Portanto, se aspiramos a uma vida divina, não podemos conquistá-la de nenhum outro modo que retirando o véu a este velado eu em nós, remontando desde nosso presente estado no falso eu ou ego mental ao estado superior do verdadeiro eu, o Atman, ingressando nessa unidade com a Consciência Divina que sempre desfruta de algo supraconsciente em nós, —de outra maneira não poderíamos existir—, mas que nossa mentalidade consciente perdeu.

Mas quando deste modo afirmamos esta unidade de Satchita­nanda por um lado e esta mentalidade dividida pelo outro, propomos duas entidades opostas, uma das quais deve ser falsa se a outra há de reputar-se verdadeira, uma das quais há de abolir-se se a outra há de desfrutar-se. Pois é na mente, em sua forma de vida e no corpo com o que existimos na terra e, se devemos abolir a consciência de mente, vida e corpo a fim de alcançar a Existência, Consciência e Bem-aventurança únicas, então é impossível aqui uma vida divina. Devemos aban­donar abertamente a existência cósmica como uma ilusão a fim de desfrutar ou regressar ao Transcendente. Desta solução não há escape a menos que exista uma escada intermediária entre os dois, que possa explicá-los um com respeito ao outro e estabelecer entre eles uma relação tal que nos possibilite realizar a Existência, Consciência e Deleite únicos no molde da mente, da vida e do corpo.

A escada intermediária existe. A chamamos Supramente ou Verdade-Consciência, porque é um princípio superior à mentalidade e existe, atua e procede na verdade e unidade fundamentais das coisas e não como a mente, em suas aparências e divisões fenomê­nicas. A existência da supramente é uma necessidade lógica que surge diretamente desde a posição com a que começamos. Pois em si Satchitananda deve ser um inespacial e atemporal absoluto de existência consciente que é bem-aventurança; pois o mundo é, pelo contrário, uma extensão no Tempo e no Espaço, e um movi­mento, uma estruturação, um desenvolvimento de relações e possibili­dades mediante a causalidade —ou o que desse modo apre­senta-nos— no Tempo e Espaço. O verdadeiro nome desta Causalidade é Lei Divina e a essência dessa Lei é um inevitável auto-desenvolvimento da verdade da coisa que está, como Idéia, na essência mesma do que se desenvolve; é uma determinação de movimentos relativos pre­viamente fixada que parte da substância da possibilidade infinita. Isso que assim desenvolve todas as cosas deve ser um Conhecimento-Vontade ou Força-Consciente; pois toda ma­nifestação do universo é um jogo da Força-Consciente que é a natureza essencial da existência. Mas o desenvolvedor Conheci­mento-Vontade não pode ser mental; pois a mente não conhece, possui nem governa esta Lei, senão que é governada por ela, é um de seus resultados, se expande no fenômeno do auto-desenvolvimento e não em sua raiz, observa como coisas divididas os resultados do desenvolvimento e trabalha em vão por chegar a sua fonte e realidade. É mais, este Conhecimento-Vontade que desenvolve tudo deve estar em possessão da unidade das coisas e deve manifestar desde ela sua mul­tiplicidade; mas a mente não está em possessão dessa unidade, só tem uma imperfeita possessão de uma parte da multiplicidade.

Portanto, deve existir um princípio superior à Mente que satisfaça as condições nas que a Mente falha. Sem dúvida, Sat­chitananda mesmo é este princípio, mas Satchitananda não descansando em sua pura e infinita consciência invariável senão procedendo desde esse primeiro equilíbrio, ou melhor sobre ele como base e nele como continente, dentro de um movimento que é sua forma de Energia e instrumento de criação cósmica. A Consciência e a Força são os essenciais aspectos gêmeos do puro Poder da existência; o Conhecimento e a Vontade, portanto, devem ser a forma que esse Poder toma ao criar um mundo de relações na extensão do Tempo e Espaço. Este Conhecimento e esta Vontade devem ser um só, infinito, todo-abarcante, todo-possuídor, oni-formador, sustentando em si eternamente o que coloca em movimento e forma. A Supramente é então o Ser que se expande desde si para dentro de um determinante auto-conhecimento que percebe certas verdades de si e quer reali­zá-las em uma temporal e espacial extensão de sua própria existência atemporal e inespacial. Quando está em seu próprio ser, toma forma como auto-conhecimento, como Verdade-Consciência, como Real-Idéia, e, ao ser esse auto-conhecimento também auto-força, se concretiza ou realiza inevita­velmente no Tempo e Espaço.

Esta, então, é a natureza da Consciência Divina que cria em si todas as coisas mediante um movimento de sua força-cons­ciente e governa seu desenvolvimento através de uma auto-evolução me­diante o inerente conhecimento-vontade da verdade da existên­cia ou Real-idéia que as há formado. O Ser que é assim consciente é o que chamamos Deus; e Ele deve ser obviamente onipresente, onisciente e onipotente. Onipresente, pois todas as formas são formas de Seu ser consciente criadas por sua força de movimento em sua própria extensão como Espaço e Tempo; onisciente, pois todas as coisas existem em Seu ser-consciente, são formadas por ele e possuídas por ele; onipotente, pois esta oni-possuidora consciência é também oni-possuidora Força e oni-conformadora Vontade. E esta Vontade e este Conhecimento não estão em mútua guerra, como nossa vontade e conhecimento são capazes de estar em guerra uma com o outro, pois não são diferentes movimentos senão um só movimento do mesmo ser. Nem podem ser contraditos por qualquer outra vontade, força ou consciência de fora ou de dentro; pois não há consciência nem força externa ao Uno, e todas as energias e formações internas do conhecimento não são mais que isso, pois são mero jogo da única Vontade oni-determinante e do único Conhecimento oni-harmo­nizante. O que vemos como choque de vontades e forças, --(devido a que moramos no particular e dividido, e não podemos vê-lo todo)--, a Supramente o contempla como os concorrentes elementos de uma pré-determinada harmonia que está sempre presente nela devido a que a totalidade das coisas está eternamente sujeita ao seu olhar.

Qualquer que seja o equilíbrio ou forma que adote sua ação, esta sempre será da natureza da Consciência divina. Mas, ao ser sua existência absoluta em si, seu poder de existência é também abso­luto em sua extensão, e portanto não está limitado a um estado de equilíbrio ou a uma forma de ação. Nós, os seres humanos, somos aparentemente, uma fenomênica forma particular da consciência, sujeita ao Tempo e Espaço, e só podemos ser, em nossa consciência superficial, que é tudo o que conhecemos de nós mesmos, uma coisa de cada vez, uma formação, um equilíbrio do ser, um agregado da experiência; e essa única coisa é para nós a verdade de nós mesmos que reconhecemos; todo o resto não é verdade ou há deixado de sê-lo, devido a que há desaparecido no passado saindo de nossa percepção, ou todavia não é verdadeiro, devido a que está à espera no futuro e ainda não cai dentro de nossa percepção. Mas a Consciência Divina não está tão particularizada, nem tão limitada; pode ser muitas coisas a um tempo e adotar ainda mais de um estado de equilíbrio duradouro inclusive durante todo o tempo. Descobrimos que no princípio da Supramente mesma, ela tem três gerais estados de equilíbrio ou etapas de sua consciência fundando-o-mundo. O primeiro fundamenta a inalienável unidade das coisas, o segundo modifica essa unidade de modo que sustenta a manifestação dos Muitos no Uno e do Uno nos Muitos; o terceiro modifica ulteriormente este de modo que sustenta a evolução de uma individualidade diversificada que, pela ação da Ignorância, vem a ser em nós, a um nível inferior, a ilusão do ego separado.

Temos visto qual é a natureza deste primeiro e principal estado de equilíbrio da Supramente que fundamenta aa inalienável unidade das coisas. Não se trata da pura consciência unitária; pois essa é uma concentração atemporal e inespacial de Satchitananda em si, na que a Força Consciente não se projeta em nenhum gênero de extensão e, se contêm o universo, o contêm na eterna potencia­lidade e não na temporal realidade. Esta, pelo contrário, é uma uniforme auto-extensão de Satchitananda oni-compreendente, oni-possuidora e oni-constituinte. Mas este todo é um só, não muitos; não há individualização. É quando o reflexo desta Supramente cai sobre nosso aquietado e purificado eu que perdemos todo sentido da individualidade; pois ali não há concentração de cons­ciência destinada a sustentar um desenvolvimento individual. Tudo está des­envolvido na unidade e como um; tudo é sustentado por esta Consciência Divina como formas de sua existência, não como existências separadas em algum grau. Algo assim como os pensamentos e imagens que se apresentam em nossa mente não são existências separadas a nós, senão formas tomadas por nossa consciência; assim são todos os nomes e formas para esta Supramente primária. É a pura ideação e formação divina no Infinito, —) só uma idea­ção e formação que está organizada não como um jogo irreal do pensamento mental, senão como um jogo real do ser consciente)--. A alma divina neste equilíbrio não faria diferenças entre Alma-Consciên­cia e Alma-Força, pois toda força seria ação da consciência, nem entre Matéria e Espírito, dado que todo molde seria simplesmente forma do Espírito.

N o segundo estado de equilíbrio da Supramente, a Consciência Di­vina permanece detrás da idéia do movimento que contêm, realizando-o mediante uma sorte de consciência apreendente, seguindo-o, ocupando e habitando suas obras, parecendo distribuir-se em suas formas. Em cada nome e forma se realizaria como o estável Ser-em-si-Cons­ciente, o mesmo em tudo; mas também se realizaria como uma concentração do Ser-em-si-Consciente seguindo e sustentando o jogo indi­vidual do movimento e preservando sua diferenciação de outro jogo individual do movimento, -(o mesmo por toda parte na alma-essência, mas variando na alma-forma)--. Esta concentração que sustenta a alma-forma seria o Divino individual ou Jivatman para distingui-lo do Divino universal ou único Ser-em-si-oni-constituinte. Não haveria diferen­ça essencial, senão só uma diferenciação prática para o jogo, que não anularia a unidade real. O Divino universal entenderia todas as alma-formas como si mesmo e todavia estabeleceria uma relação dife­rente com cada uma separadamente e em cada uma com todas as demais. O Divino individual contemplaria sua existência como uma alma-forma e alma-movimento do Uno e, enquanto que mediante a ação compreendente da cons­ciência desfrutaria de sua unidade com o Uno e com todas as almas-­forma, assim mesmo mediante uma dianteira ou frontal ação apreendente sustentaria e desfrutaria seu movimento individual e suas relações de uma livre diferença em unidade ao mesmo tempo com o Uno e com todas suas formas. Se nossa mente purificada pudesse refletir este equilíbrio secundário da Supramente, nossa alma poderia sustentar e ocupar sua existência indi­vidual e todavia inclusive realizar-se como o Uno que há chegado a ser tudo, que habita tudo, que contêm tudo, desfrutando inclusive em sua particular modificação sua unidade com Deus e seus semelhantes. Em nenhuma outra circunstância da existência supramental haveria modificado característica alguma; a única mudança seria este jogo do Uno que há manifestado sua multi­plicidade e dos Muitos que são todavia um, com todo o necessário para manter e conduzir o jogo.

Um terceiro estado de equilíbrio da Supramente se alcançaria se a con­centração sustentadora não permanecesse por mais tempo detrás, por assim dizê-lo, do movimento, habitando-o com uma certa superioridade e assim seguindo e desfrutando, senão que se projetasse dentro do movimento e, de algum modo, estivesse envolvido nele. Aqui, o caráter do jogo se alte­raria, mas só na medida em que o Divino individual convertesse, --tão predominantemente--, o jogo das relações com o universal e com suas outras formas, no campo prático de sua experiência consciente para que a realização da absoluta unidade com elas fosse só um supremo acompanhamento e constante culminação de toda experiência; mas no equilíbrio superior a unidade seria a experiên­cia dominante e fundamental e a variação tão só seria um jogo da unidade. Este equilíbrio terciário seria portanto o de um tipo de fundamental dualismo bem-aventurado na unidade —já não unidade qualificada por um subordinado dualismo--, entre o Divino individual e sua fonte universal, com todas as consciências que se derivariam para a mantenutenção e operação deste dualismo.

Pode dizer-se que a primeira consequência seria um desliza­mento dentro da ignorância de Avidya que toma os Muitos como o fato real da existência e no Uno só como uma Soma cósmica dos Muitos. Mas esse deslizamento não há de ter lugar necessariamente. Pois o Divino individual ainda seria consciente de si como resultado do Uno e de seu poder de auto-criação consciente, vale dizer, de sua múltipla auto-concentração concebida de modo tal que governe e desfrute multiplemente sua múltipla existência na extensão do Tempo e Espaço; este ver­dadeiro Indivíduo espiritual não se arrogaría uma existência indepen­dente ou separada. Isso só confirmaria a verdade del movimento diferenciador junto com a verdade da unidade estável, considerando-os como os pólos superior e inferior da mesma verdade, o fundamento e culminação do mesmo jogo divino; e isso insistiria sobre a alegria da diferenciação como necessária para a plenitude da alegria da unidade.

Obviamente, estes três estados de equilíbrio só seriam diferentes modos de tratar com a mesma Verdade; a Verdade da existência desfrutada seria a mesma, o modo de disfrutá-la ou melhor o equilíbrio da alma no desfrute seria diferente. O Deleite, a Ananda variaria, mas moraria sempre dentro do estado da Verdade-consciência e não implicaria queda para dentro da Falsidade e a Ignorância. Pois a secundária e a terciária Supramente só desenvolveria e aplicaria nos termos da multiplicidade divina o que a Supramente primária conteve nos termos da unidade divina. Não podemos estampar nenhum destes três equilíbrios com o estigma da falsidade e a ilusão. A linguagem dos Upanishads, a antiga autoridade suprema para estas verdades de uma experiência superior, quando falamos da existência Divina que se está manifestando, implica a validade de todas estas experiências. Só podemos afirmar a prioridade da unidade à multiplicidade, uma prioridade não no tempo senão em relação de consciência, e nenhuma declaração da suprema experiência espiritual, nenhuma filosofia Vedântica nega esta prioridade nem a eterna dependência dos Muitos enquanto ao Uno. É porque no Tempo os Muitos não parecem ser eternos senão manifestar-se procedentes do Uno e retornar a ele como sua essência, que sua realidade é negada; mas igualmente pode calcular-se que a eterna persistência ou, se se quer, a eterna recorrência da manifestação no Tempo é uma prova de que a multiplicidade divina é um fato eterno do Supremo além do Tempo não menos que a unidade divi­na, de outra maneira, não poderia ter esta característica de inevitável recorrência eterna no Tiempo.

É certamente só quando nossa mentalidade humana põe um exclusiva ênfase em um lado da experiência espiritual, e afirma que essa é a única verdade eterna e a declara nos termos de nossa oni-divisora lógica mental, que surge a necessidade de esco­las filosóficas mutuamente destrutivas. Assim, enfatizando a verdade única da consciência unitária, observamos o jogo da unidade divina, erroneamente traduzida por nossa mentalidade nos ter­mos da diferença real, mas, não satisfeitos com corrigir este erro da mente mediante a verdade de um princípio superior, afir­mamos que o jogo mesmo é uma ilusão. Ou, enfatizando o jogo do Uno nos Muitos, declaramos uma qualificada unidade e consideramos a alma individual como uma alma-forma do Supremo, mas afirmaríamos a eternidade desta existência qualificada e negaríamos por completo a experiência de uma consciência pura em uma inqualificável unidade. Ou, também, dando-lhe ênfase ao jogo da diferença, afirmamos que o Supremo e a alma humana são eternamente diferentes e rejeitamos a validade de uma experiência que excede e parece abolir essa diferença. Mas a posição que agora temos adotado com fir­meza nos absolve da necessidade destas negações e exclusões: vemos que há uma verdade detrás de todas estas afirmações, mas ao mesmo tempo um excesso que conduz a uma infundada negação. Afirmando, como temos feito, a absoluta absolutividade Disso, não limitado por nossas idéias de unidade não limitado por nossas idéias de multiplicidade, afirmando a unidade como uma base da manifestação da multiplicidade, e a multiplicidade como a base para o retorno à unidade e o desfrute da unidade na manifestação divina, não necessitamos agobiar nossa atual afirmação com estas discussões nem empreender o vão esforço de escravizar a nossas distinções e definições mentais, a liberdade absoluta do Divino Infinito.

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Capitulo XVII

A ALMA DIVINA

Ele, cujo Ser-em-si chegou-a-ser todas as existências, pois tem o conhecimento, como será enganado, onde terá pesar, ele que vê a unidade por toda parte?

Isha Upanishad[1][3]

Pela concepção que temos formado da Supramente, por sua oposição à mentalidade na que se baseia nossa existência humana, podemos não só formarmos uma idéia precisa e não uma vaga, sobre a divindade e a vida divina, -(expressões que de qualquer modo estamos condenados a utilizar com escassa exatidão e como imprecisa denominação de uma grande mas quase impalpável aspiração)-, senão também dar a estas idéias uma firme base de raciocínio filosófico, para pô-las em clara relação com a humanidade e a vida humana que é tudo quanto atualmente desfrutamos, e para justificar nos­sa esperança e aspiração pela natureza mesma do mundo e de nossos próprios antecedentes cósmicos e o inevitável futuro de nossa evolução. Começamos a captar intelectualmente o que é o Di­vino, a Realidade eterna, e a entender como o mundo derivou dela. Começamos também a perceber como inevitavelmente isso que veio a partir do Divino e deve retornar ao Divino. Podemos agora perguntar com proveito e uma possibilidade de resposta mais clara, como devemos mudar e o que devemos chegar a ser em ordem a alcançar ali em nossa natureza, em nossa vida e em nossas relações com os demais, e não só através de uma realização solitária e estática nas profundidades de nosso ser. Certamente, ainda existe um defeito em nossas premissas; pois até agora temos estado trabalhando por definir para nós mesmos o que é o Divino em seu descenso até a limitada Natureza, quando o que realmente somos é o Divino no indivíduo ascendendo de regresso a partir da limitada Natureza para sua apropriada divindade. Esta diferença de movimento deve implicar uma diferença entre a vida dos deuses que nunca conheceram a queda e a vida do homem redimido, conquistador do deus perdido e levando con­sigo a experiência, e esta pode ser a nova riqueza reunida por ele desde sua aceitação do cabal descenso. Não obstante, não pode haver diferença de características essenciais, senão só de molde e colorido. Já podemos assegurar, sobre a base das conclusões a que temos chegado, a natureza essencial da vida divina à qual aspiramos.

Qual seria então a existência de uma alma divina, não descendida na ignorância pela queda do Espírito dentro da Matéria e o eclipse da alma pela Natureza material? Qual seria sua consciência, viven­do na Verdade original das coisas, na inalienável unidade, no mundo de seu próprio ser infinito, como a Existência Divina mesma, mas além disso, capaz pelo jogo da Divina Maya e pela distinção da compreen­dente e apreendente Verdade-Consciência de desfrutar também ao mesmo tempo da diferença com Deus como da unidade com Ele e abraçar a diferença e também a unidade com outras almas divinas no jogo infinito do Idêntico auto-multiplicado?

Obviamente, a existência dessa alma estaria sempre auto­-contida no jogo consciente de Satchitananda. Seria pura e infinita auto-existência em seu ser; em seu devir seria um livre jogo de vida imortal não invadida por morte, nascimento e mudança de corpo, devido a não estar nublada pela ignorância nem envolvida na obscuridade de nosso ser material. Seria uma pura e ilimitada con­sciência em sua energia, equilibrada em uma eterna e luminosa tranquilidade como seu fundamento, todavia capaz de julgar livremente com as formas do conhecimento e com as formas do poder consciente, tran­quila, não afetada pelos tropeços do erro mental e os erros de nossa lutadora vontade porque nunca se afasta da verdade e unidade, nunca cai da luz inerente e a natural harmonia de sua existência divina. Seria, finalmente, um puro e inalienável deleite em sua eterna auto-experiência e no Tempo uma livre variação de bem-aventurança não afetada por nossas perversões de desgosto, ódio, descontentamento e sofrimento por estar indivisa em seu ser, não desconcertada pela errante auto-vontade, não pervertida pelo ignorante estímulo do desejo.

Sua consciência não ficaria encerrada a parte alguma da verdade infinita, nem limitada por nenhum equilíbrio nem estado que pudesse assumir em suas relações com outros, nem condenada a nenhuma perda do auto-conhecimento por sua aceitação de uma individualidade pura­mente fenomênica e pelo jogo da diferenciação prática. Em sua auto-experiência viveria eternamente em presença do Absoluto. Para nós o Absoluto é só uma concepção intelectual de existência indefinível. O intelecto nos refere simplemente que há um Brahman superior ao supremo[2][4], um Incognoscível que se conhece de modo distinto ao de nosso conhecimento; mas o intelecto não pode trazer-nos sua presença. A alma divina vivendo na Verdade das coisas teria sempre, pelo contrário, o sentido consciente de si como manifestação do Absoluto. Seria consciente de sua imutável existência como a original “auto-forma”[1][5] desse Trans­cendente, —Satchitananda--; seria conhecedor de seu jogo de ser consciente como manifestação Disso nas formas de Satchitananda. Em todo estado o ato do conhecimento seria consciente do Incog­noscível que se conhece mediante uma forma de variável auto-conheci­mento; em todo estado ou ato de poder, vontade ou força seria consciente da Transcendência possuindo-se mediante uma forma de poder consciente do ser e do conhecimento; em todo estado ou ato de deleite, alegria ou amor seria consciente da Transcendência abarcando-se por meio de uma forma de auto-desfrute consciente. Esta presença do Absoluto não seria com isso como uma experiência oca­sionalmente vislumbrada ou finalmente alcançada e sustentada com dificuldade, nem como uma adição, aquisição ou culminação superposta em seu ordinário estado de ser; seria o fundamento mesmo de seu ser tanto na unidade como na diferenciação; estaria presente para ele em todo seu conhecer, querer, fazer, desfrutar; não estaria ausente nem de seu ser atemporal nem de momento algum do Tempo, nem de seu ser inespacial nem de determinação alguma de sua estendida existência, nem de sua incondicionada pureza além de toda causa e circuns­tância, nem de relação alguma de circunstância, condição e causali­dade. Esta constante presença do Absoluto seria a base de sua infinita liberdade e deleite, afirmaria sua segurança no jogo e proporcio­naria a raiz, a seiva e a essência de seu ser divino.



[1][5] Svarúpa.

E mais, essa alma divina viveria simultaneamente nos dois ter­mos da existência eterna de Satchitananda, os dois pólos inse­paráveis do auto-desenvolvimento do Absoluto que chamamos o Um e os Muitos. Todo ser vive realmente assim; mas para nosso dividido auto-entendimento existe uma incompatibilidade, um abismo entre os dois que nos conduz para uma escolha, para morar bem na multiplicidade exilado da direta e inteira consciência do Uno, ou bem na unidade que repele a consciência dos Muitos. Mas a alma divina não estaria escravizada a este divórcio e dualidade. Em si mesma, seria consciente, de uma vez, da infinita auto-concentração e da infinita auto-extensão e difusão. Seria consciente simultaneamente do Uno em sua unitária consciência sustentando a inumerável mul­tiplicidade em si como se fosse potencial, inexpressada, --e portanto, para nossa mental experiência desse estado, não-existente--, e do Uno em sua estendida consciência que sustenta a multiplicidade expe­lida e ativa como o jogo de seu próprio ser consciente, de sua von­tade e deleite. Seria consciente igualmente dos Muitos descen­dendo sempre ao Uno que é a fonte e realidade eternas de sua existência, e dos Muitos sempre remontando-se atraídos até o Uno que é a eterna culminância e bem-aventurada justificação de todo seu jogo de diferença. Esta vasta visão das coisas é o molde da Verdade-Consciência, o fundamento da grande Verdade e do Correto versado pelos videntes Védicos; esta unidade de todos estes termos de oposição é o Adwaita real, a compreendente palavra suprema do conhecimento do Incognoscível.

A alma divina será consciente de toda variação do ser, da consciência, da vontade e do deleite como o afloramento, a exten­são e a difusão dessa auto-concentrada Unidade que se desenvolve, não na diferença nem na divisão, senão em outra forma estendida de infinita unidade. Sempre estará concentrada em unidade na essência de seu ser, sempre manifestada muito variadamente na extensão de seu ser. Tudo quanto toma forma nela serão as manifes­tadas potencialidades do Uno, a Palavra ou o Nome vibrando desde o Silêncio sem-nome, a Forma realizando a essência amorfa, a Vontade ou o Poder ativos partindo da tranquila Força, o raio da auto-cognição resplandescendo desde o sol de auto­-conhecimento atemporal, a onda do devir surgindo em forma de existência auto-consciente desde o Ser eternamente auto-consciente, a alegria e o amor emanando para sempre desde o permanente Deleite eterno. Será o Absoluto duplo em seu auto-desenvolvimento e cada relatividade nele será um absoluto para a alma divina pois será consciente de si mesma como o Absoluto manifestado mas sem essa ignorância que exclui outras relatividades como estranhas a seu ser ou menos completas que ela mesma.

Na extensão, a alma divina será consciente dos três graus da existência supramental, não como mentalmente estamos compelidos a considerá-los, não como graus, senão como um fato tríplice da auto-manifestação de Satchitananda. Será capaz de abarcá-los em uma e a mesma compreensiva auto-realização, —(pois uma vasta compreensividade é o fundamento da supramente verdade-consciente)--. Será capaz de conceber, perceber e sentir divina­mente todas as coisas como o Ser-em-si, seu próprio, único eu, único Auto-ser e Auto-devir, mas não dividido em seus devires, os quais não têm existência aparte de sua própria auto-consciência. Será capaz de conceber, perceber e sentir divinamente todas as existências como almas-forma do Uno, cada uma com seu ser no Uno, seu próprio ponto de apoio no Uno, suas próprias relações com todas as outras existências que povoam a infinita unidade, mas todas dependentes do Uno, forma consciente Dele em Sua própria infinitude. Será capaz de conceber, perceber e sentir divinamente todas estas existências em sua individualidade, em seu ponto de apoio separado, vivendo como o Divino individual, cada um com o Uno e Supremo morando nele e, cada um, portanto, não uma forma ou imagem por completo, nem em realidade uma ilusória parte de um todo real, uma mera onda espumante na superfície de um Oceano imóvel, —pois estas, depois de tudo, não são mais que inadequadas imagens mentais—, senão um todo no todo, uma verdade que repete a Verdade infinita, uma onda que é todo o mar, um relativo que prova ser o Absoluto mesmo quando olhamos detrás da forma e o vemos em sua integridade.

Pois estes três são aspectos da Existência única. O primeiro se baseia nesse auto-conhecimento que, em nossa humana percepção do Divino, o Upanishad descreve como o Ser-em-si em nós, que chega-a-ser todas as existências; o segundo se baseia no que se descreve como ver todas as existências no Ser-em-si; o terceiro se baseia no que se descreve como ver o Ser-em-si em todas as existências. O Ser-em-si que chega-a-ser todas as existências é a base de nossa unidade com tudo; o Ser-em-si que contêm todas as existências é a base de nossa unidade na diferença; o Ser-em-si que habita tudo é a base de nossa individualidade no universal. Se o defeito de nossa mentalidade, se sua necessidade de exclusiva concentração o compele a morar em qualquer destes aspectos de auto-conhecimento com exclusão dos outros, se uma percepção imperfeita igualmente que ex­clusiva nos move sempre a introduzir um humano elemento de erro na Verdade mesma, e de conflito e mútua negação na todo-compreendente unidade, com tudo, para um divino ser supra­mental, pelo caráter essencial da supramente que é uma compreendente unidade e infinita totalidade, devem apresentar-se como uma realização tripla e certamente tríplice.

Se supomos que esta alma toma seu equilíbrio, seu centro na consciência do individual Divino que vive e atua em distinta relação com os "outros", ainda terá no fundamento de sua consciência a unidade íntegra desde a que tudo emerge e terá no fundo dessa consciência a unidade estendida e a modificada, e a qual­quer destas será capaz de retornar e de contemplar, desde elas, sua individualidade. No Veda todos estes equilíbrios se dizem dos deuses. Em essência, os deuses são uma só existência que os sábios chamam com diferentes nomes; mas em sua ação fundada em e procedente da grande Verdade e o Reto Agni ou outro, se diz que estão todos os deuses, ele é o Uno que chega-a-ser tudo; ao mesmo tempo se diz que ele contêm a todos os deuses em si como o centro de uma roda contêm os raios, é o Uno que contêm tudo; e como Agni está descrito como deus separado, aquele que ajuda a todos os demais, os supera em força e conhecimento, mas é inferior a eles em posição cósmica e o empregam como mensageiro, sacerdote e traba­lhador, o criador do mundo e pai, é, contudo, o filho nascido de nossas obras; e, vale dizer, o original e manifestado Eu mo­rador ou Divino, o Uno que habita tudo.

Todas as relações da alma divina com Deus ou seu supremo Ser-em-si e com seus outros seres-em-si (eus) em outras formas, serão determinadas por este auto-conhecimento compreensivo. Estas relações serão relações do ser, da consciência e do conhecimento, de vontade e força, de amor e deleite. Infinitas em sua potencialidade de variação, não necessitam excluir a possível relação de alma com alma que é compatível com a preservação do inalienável sentido de unidade apesar de qualquer fenômeno de diferencia. Así, em suas relaciones de disfrute, a alma divina terá o deleite de toda sua própria experiência em si; terá o deleite de toda sua experiência de relação com outros como uma comunhão com outros seres-em-si em outras formas criadas para um variado jogo no universo; terá também o deleite das experiências de seus outros seres-em-si (eus) como se fossem seus próprios —como em realidade o são--. E terá toda esta capacidade porque será consciente de suas próprias experiências, de suas relações com outros e das experiências de outros e suas relações com ela mesma como a alegria toda ou a Ananda do Uno, o supremo Ser-em-si, seu próprio ser-em-si (eu), diferenciado por que habita separadamente de todas estas formas compreendidas em seu próprio ser mas todavia uma na diferença. Porque esta unidade é a base de toda sua experiência, estará livre das discórdias de nossa consciência dividida, dividida pela ignorância e um egoísmo separatista; todos estes seres-em-si e suas relações julgarão conscientemente cada um em mãos do outro; se partirão e fundirão um com outro como as inumeráveis notas de uma harmonia eterna.

E a mesma regra se aplicará às relações de seu ser, conhecimento, vontade com o ser, conhecimento e vontade de outros. Pois toda sua experiência e deleite será o jogo de uma auto-bem-­aventurada força consciente do ser na que, por obediência a esta verdade de unidade, não poderá manter diferenças com o conhe­cimento e tão pouco o fará, nenhuma delas, com o deleite. Tão pouco o conhecimento, a vontade e o deleite de uma alma estará em desacordo com o conhecimen­to, vontade e deleite de outra, pois por seu conhecimento de sua unidade, o que é enfrentamento e diferença e discórdia em nosso ser dividido, será ali encontro, união e mútuo intercâmbio das diferentes notas de uma harmonia infinita.

Em suas relações com seu supremo Ser-em-si, com Deus, a alma divina terá este sentido da unidade do transcendente e universal Di­vino com seu próprio ser. Desfrutará essa unidade de Deus consigo em sua própria individualidade e com seus outros seres-em-si (eus) na universalidade. Suas relações de conhecimento serão o jogo da divina onis­ciência, pois Deus é Conhecimento, e o que é a ignorância conosco, ali só será contenção do conhecimento no repouso do auto-conhecimento consciente, de modo que certas formas desse auto-­conhecimento possam projetar-se dentro da atividade da Luz. Suas relações da vontade serão ali o jogo da onipotência divina, pois Deus é Força, Vontade e Poder, e o que conosco é debilidade e incapacidade, será contenção da vontade na concen­trada força tranquila de modo que certas formas da divina força­-consciente possam concretizar sua projeção dentro da forma do Poder. Suas relações de amor e deleite serão o jogo do êxtase divino, pois Deus é Amor e Deleite, e o que conosco seria negação do amor e deleite, será a contenção da alegria no sossegado mar da Bem-aventurança, de modo que certas formas da união e desfrute divinos possam projetar-se em uma ativa maré de ondas da Bem-aventurança. De igual modo também em todos seus devires serão formação do ser divino em resposta a estas atividades, e o que em nós é cessar, morte, aniquilação, só será descanso, transição ou contenção da jubilosa Maya criadora no ser eterno de Satchitananda. Ao mesmo tempo esta unidade não excluirá as relações da alma divina com Deus, com seu Ser-em-si su­premo, fundado na alegria da diferença separando-se desde a unidade para desfrutar essa unidade de outro modo; não anulará a possi­bilidade de qualquer dessas formas harmoniosas do desfrute-de­-Deus que são o supremo êxtase do amante-de-Deus em seu abraço do Divino.

Mas quais serão as condições nas que e pelas que esta natureza da vida da alma divina se realizará? Toda expe­riência na relação procede através de certas forças do ser formulando-se por uma instrumentação a que damos o nome de propriedades, qualidades, atividades, faculdades. Assim como, por exemplo, a Mente se projeta dentro de diversas formas de mente-­poder, como juízo, observação, memória, simpatia, próprios de seu ser, de igual maneira a Verdade-consciência ou Supramente efetua as rela­ções de alma com alma mediante forças, faculdades, funções próprias de seu ser supramental; de outra maneira, não haveria jogo de diferenciação. O que estas funções são, o veremos quando cheguemos a considerar as condições psicológicas da Vida divina; por agora só consideramos seus fundamentos metafísicos, sua natureza e princípios essenciais. De momento é suficiente observar que a ausência ou abolição do egoísmo separatista e da efetiva divisão na consciência é a única condição essencial da Vida divina, e portanto sua presença em nós é o que constitui nossa mortalidade e nossa queda desde o Divino. Este é nosso “pecado original”, ou melhor digamos, em uma linguagem mais filosófica, o desvio desde a Verdade e a Retidão do Espírito, desde sua unidade, inte­gridade e harmonia que foi a condição necessária para a grande imersão na Ignorância que é a aventura da alma no mundo e desde que nasceu nossa sofrida e aspirante humanidade.


[4][1] IX, 5; X, 20.

[5][2] V, 29, 1.



[1][3] Versículo 7

[2][4] Parátpara.

[3][5] Svarúpa.

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Capítulo XVIII

MENTE E SUPRAMENTE

Ele descobriu que a Mente era o Brahman.

Taittiriya Upanishad[1]

Indivisível, mas como se estivesse dividido em seres.

Gita[2]

A concepção que até agora temos lutado por estruturar é a da essência única da vida supramental que a alma divina possui com segurança no ser de Satchitananda, mas que a alma humana há de manifestar neste corpo de Satchitananda formado aqui no molde de uma vida mental e física. Mas pelo que até agora temos podido contemplar esta existência supramental, não parece guardar conexão nem correspondência com a vida tal qual a conhecemos, vida ativa entre os dois termos de nossa existência normal, os dois firmamentos da mente e corpo. Parece melhor ser um estado do ser, um estado da consciência, um estado de ati­va relação e mútuo desfrute tal como o que podem possuir e experimentar as almas desencarnadas em um mundo sem formas físicas, um mundo no que a diferenciação das almas se cumpriram mas não a diferenciação dos corpos, um mundo de infinitudes ativas e jubilosas, não de espíritos aprisionados-na-forma. Portanto, racionalmente poderia duvidar-se que fosse possível essa vida divina com esta limitação de forma corporal e esta limitação de mente aprisio­nada-na-forma e força impedida-pela forma que é o que atualmente conhecemos como existência.

De fato, temos lutado por alcançar a mesma concepção desse supremo ser divino, força-consciente e auto-deleite de quem nosso mundo é uma criação e nossa mentalidade uma imagem deformada; temos procurado darmos uma idéia do que esta divina Maya pode ser, esta Verdade-consciência, esta Real-Idéia pela que a força consciente da Existência transcendente e universal con­cebe, forma e governa o universo, a ordem, o cosmos de seu manifestado deleite de ser. Mas não temos estudado as conexões destes quatro grandes e divinos termos com os outros três com os que nossa humana experiência está somente familiarizada, —men­te, vida e corpo--. Não temos examinado esta outra Maya aparente­mente não-divina que é a raiz de toda nossa luta e sofrimento, nem temos visto como precisamente se desenvolve desde a realidade divina ou desde a divina Maya até que tenhamos feito isto, até que tenha­mos tecido os desaparecidos fios conectores, nosso mundo está todavia inexplicado para nós e ainda é uma base a dúvida de uma possível unificação entre essa existência superior e esta vida inferior. Sabemos que nosso mundo saiu desde Satchitananda e subsiste em Seu ser; concebemos que Ele mora nele como Desfrutador e Conhecedor, Deus e Ser-em-si; temos visto que nossos termos duais de sensação, mente, força, ser, podem só constituir representações de Seu deleite, Sua força consciente, Sua divina existência. Mas pareceria que aquelas são realmente em tal grau o oposto ao que Ele é real e celestialmente, que não podemos, enquanto moramos na causa destes opostos, enquanto estamos contidos no triplo termo inferior da existência, alcançar a vida divina. Devemos exaltar este ser inferior até o estado superior ou melhor, modificar o corpo por essa pura existência, a vida por essa pura condição da força-cons­ciente, a sensação e a mentalidade por esse puro deleite e conheci­mento que vivem na verdade da realidade espiritual. E isto não deve significar que abandonamos toda a terrena ou limitada existência mental por algo que é seu oposto, -(ou por algum puro estado do Espírito também por algo que é seu oposto)--, bem por algum estado puro do Espírito ou melhor por algum mundo da Verdade das coisas, se existe, ou outros mundos, se existem, da divina Bem-aventurança, da divina Energia, do Divino ser? Nesse caso, a perfeição da humanidade está em outra parte diferente que na humanidade mesma; o cume de sua evolução terrena só pode ser um fino ápice de mentalidade que se dissolve, de onde dá o grande salto seja até o ser sem-forma ou seja até os mundos além do alcance da Mente corporizada.

Mas em realidade tudo o que chamamos não-divino só pode ser uma ação dos quatro princípios divinos mesmos, pois essa ação conjunta dos quatro foi necessária para criar o universo de las formas. Essas formas fo­rão criadas não fora senão dentro da existência divina, força-cons­ciente e bem-aventurança, não fora senão dentro e como parte do trabalho numa Real-Idéia divina. Portanto não há razão para supor que não pode existir nenhum jogo real da divina consciência superior em um mundo de formas, ou que as formas e seus suportes imediatos, --consciência mental, energia da força vital e substância formal--, devem necessariamente deformar o que representam. É possível, inclusive provável, que a mente, o corpo e a vida tenham de encontrar-se em suas formas puras na divina Verdade mesma, e de fato estejam ali como atividades subordinadas de sua cons­ciência e parte da completa instrumentação pela que a Força suprema sempre trabalha. A mente, a vida e o corpo devem então ser capazes de divinidade; sua forma e atividade nesse breve período de possivelmente um só ciclo da evolução terrestre que a Ciência nos revela, não necessita representar todas as atividades poten­ciais destes três princípios no corpo vivente. Trabalham como o fazem porque de nenhum modo estão separados, na consciência, da Verdade divina da que procedem. Uma vez que esta separação fora eliminada pela energia expansiva do Divino na humanidade, sua atual atividade bem poderia converter-se, em verdade esse converteria naturalmente, mediante uma evolução e progressão supre­mas nessa atividade mais pura que têm na Verdade­-consciência.

Nesse caso não só seria possível manifestar e manter a cons­ciência divina na mente e corpo humanos senão que, inclusive, essa consciência divina poderia finalmente, incrementando suas conquistas, remo­delar a mente, a vida e o corpo mesmos em uma imagem mais perfeita de sua Verdade eterna, e realizar, não só na alma senão também na substância, seu reino dos céus sobre a terra. A primeira destas vitórias, a interna, foi certamente alcançada em maior ou menor grau por alguns, talvez muitos, sobre a terra; a outra, a externa, ainda que nunca realizada em maior nem em menor grau em passados eones como protótipo para futuros ciclos e todavia mantida na memória subconsciente da natureza-terrena, pode todavia tentar-se como vitoriosa conquista vinda de Deus na humanidade. Esta vida terrena não necessita se também tentar-se, e a glória e a alegria de Deus manifestar-se sobre a terra.

O que a Mente, a Vida e o Corpo são em suas fontes su­premas, e o que portanto devem ser na integral plenitude da manifestação divina quando estejam conformados pela Verdade e não segregados dela pela separação e a ignorância na que atualmente vivemos, —(este é então o problema que temos de con­siderar seguidamente)--. Pois ali devem ter já sua perfeição em posse do que aqui estamos cultivando, --(nós que só somos o primeiro movimento travado da Mente que evolui na Matéria, nós que ainda não estamos liberados das condições e efeitos dessa involução do espírito na forma, dessa imersão da Luz dentro de sua própria sombra pela que foi criada a obscurecida consciência material da Natureza física)--. O protótipo de toda a perfeição em posse da qual crescemos, os termos de nos­sa evolução suprema devem já estar contidos na divina Real-Idéia; devem estar aí formados e conscientes para nós, para assim crescer para e dentro deles; pois essa pré-existência no conhecimento divino é o que nossa mentalidade humana nomeia e busca como o Ideal. O Ideal é uma Realidade eterna que ainda não temos realizado nas condições de nosso próprio ser, não uma não-existente que o Eterno e Divino não forjou todavia e só nós seres imperfeitos temos vislumbrado e pretendemos criar.

A Mente, em princípio, a encarcerada e encerrada so­berana de nosso viver humano.

A Mente em sua essência é uma consciência que mede, limita e recorta as formas das coisas desde o todo indivisível e as contêm como se cada uma fosse um todo separado. Inclusive com o que existe somente como partes e frações óbvias, a Mente estabelece esta ficção de seu ordinário comércio no sentido de que são coisas com as que pode tratar por separado e não simplesmente como aspectos de um todo. Pois, ainda quando sabe que em si mesmas não são coisas, está obrigada a tratar com elas como tais; do contrário não poderia submetê-­las a sua própria atividade característica. É esta essencial característica da Mente a que condiciona as atividades de todos seus poderes operativos, seja concepção, percepção, sensação ou as relações de seu pensamento criador. Concebe, percebe, sente as coisas como se fossem recortadas rigidamente a partir de um fundo ou uma massa, e as emprega como unidades fixas do material dado a ela para criação ou posse­ssão. Toda sua ação e desfrute trata assim a todos que formam parte de um todo maior, e estes todos subordinados novamente são fragmentados em partes que também sai tratadas como todos aos fins particulares que servem. A Mente pode dividir, multiplicar, somar, restar, mas não pode transpassar os limites desta matemá­tica. Se vai além, e procura conceber um todo real, se perde em um elemento estranho; cai de seu próprio solo firme no oceano do intangível, no abismo do infinito onde não pode perceber, conceber, sentir nem tratar com o que lhe é próprio para criação ou desfrute. Pois se a Mente parece às vezes conceber, perceber, sentir ou desfrutar com a possessão do infinito, é só em uma semelhança e sempre em uma figuração do infinito. O que assim possui vagamente é simplesmente uma Vastidão amorfa e não o real infinito inespacial. Tão pronto procura tratar com isso, possuí-lo, de imediato ingressa a inalienável tendência à delimitação e a Mente se acha novamente manejando ima­gens, formas e palavras. A Mente não pode possuir o infinito, só pode sofrê-lo ou ser possuída por ele; só pode mentir bem-aventura­damente desamparada sob a luminosa sombra do Real, proje­tada nela desde os planos da existência que estão além de seu alcance. A possessão do Infinito não pode chegar, a não ser por ascensão àqueles planos supramentais, nem o conhecimento destes pode chegar, a não ser por uma inerte submissão da Mente à mensagens descendentes da Verdade-consciente Realidade.

Esta faculdade essencial e a limitação essencial que a acompanha são a verdade da Mente e fixam sua natureza e ação, svabhava e svadharma; aqui está a marca do divino mandato assinando-lhe seu ofício na completa instrumentação da suprema Maya, -(o oficio determinado pelo que está em seu nascimento mesmo desde a eterna auto-concepção do Ser-em-si-existente)--. Esse oficio consiste em traduzir sempre a infinitude dentro dos termos do finito, medir, limi­tar,diminuir. Realmente faz isto em nossa consciência com exclusão de todo o verdadeiro sentido do Infinito; portanto a Mente é o quid da grande Ignorância, pois é ela a que originalmente divide e distribui, e inclusive foi confundida tomando-a por causa do universo e pelo todo da divina Maya. Mas a divina Maya compreende a Vidya igualmente que a Avidya, o Conhecimento igualmente que à Ignorância. Pois é evidente que, dado que o finito é só uma aparência do Infinito, um resultado de sua ação, um jogo de sua concepção, e não pode existir a não ser mediante ele, nele, com ele como fundo, forma mesma dessa matéria e ação dessa força, deve existir uma consciência original que contenha e contemple a ambos ao mesmo tempo e esteja intimamente consciente de todas as relações de um com o outro. Nessa consciência não há igno­rância, porque o infinito é conhecido e o finito não está separado dele como realidade independente; mas ainda há um subordinado processo de delimitação, —de outro modo nenhum mundo poderia exis­tir—, um processo pelo que a sempre divisora e reunidora consciên­cia da Mente, a sempre divergente e convergente ação da Vida e a infinitamente dividida e auto-congregante substância da Matéria entram, --(todas por um único ato principal e original)--, no ser fenomênico. Este processo subordinado do eterno Contemplador e Pen­sador, --(perfeitamente luminoso, perfeitamente consciente de Si Mesmo e de tudo, que conhece bem o que Ele faz, consciente do infinito no finito que Ele está criando)--, pode chamar-se a Mente divina. E é óbvio que deve ser uma atividade subordinada e não realmente uma atividade separada da Real-Idéia, da Supramente, e de operar através do que temos descrito como o movimento apreendente da Verdade-consciência.

Essa consciência apreendente, o Prajnana, afirma, como temos visto, a e do Todo indivisível, ativo e formativo, como um processo e objeto do conhecimento criador ante a consciência do mesmo Todo, originativo e cognoscente como o possuidor e testemunho de sua própria atividade, —(algo assim como vê o poeta as criações de sua própria consciência situadas diante dele como se se tratasse de coisas distintas ao criador e sua força criadora, ainda que em realidade todo esse tempo não sejam mais que o jogo de auto-formação de seu próprio ser em si mesmo, e sejam indivisíveis de seu criador)--. Assim Prajnana efetua a divisão fundamental que leva a todo o resto, a divisão de Purusha, a alma consciente que conhece e vê e por sua visão cria e ordena, e Prakriti, a Força-Alma ou Natureza-Alma que é seu conhecimento e sua visão, sua criação e seu poder todo-ordenante. Ambos são um Ser, uma existência, e as formas vistas e criadas são formas múltiplas desse Ser que estão situadas por Ele como conhecimento diante Ele Mesmo como conhecedor e por Ele Mesmo como Força diante Ele Mesmo como Criador. A última ação desta consciência apreendente tem lugar quando o Purusha, --(que penetra a extensão consciente de seu ser, presente em cada ponto de si igualmente que em sua totalidade, habitando toda forma)--, contempla o todo como separada­mente, desde cada um dos pontos que assumiu; contempla e governa as relações de cada alma-forma de si com outras almas-formas desde o ponto de apoio da vontade e o conhecimento próprios de cada forma em particular.

Assim chegam a ser os elementos da divisão. Primeiro, o infinito do Uno se traduziu em uma extensão em Tempo e Espaço conceituais; segundo, a onipresença do Uno nessa extensão auto-consciente se traduz em uma multiplicidade da alma consciente, nos muitos Purushas do Sankhya; terceiro, a multiplicidade das almas-formas se traduziu em uma dividida habitação da esten­dida unidade. Esta dividida habitação é inevitável desde o momento que estes múltiplos Purushas não habitam cada um um mundo separado do próprio; nenhum deles possui uma separada Prakriti construindo um universo separado, senão que todos desfrutam da mesma Prakriti, -(como devem fazê-lo, ao ser só alma-formas do Uno que preside sobre as múltiplas criações de Seu poder)—, e têm rela­ções uns com outros no único mundo do ser criado pela única Prakriti. O Purusha se identifica ativamente em cada forma com cada um; se delimita nisso e faz ressaltar suas outras formas frente a isso, em sua consciência, como se contivesse seus outros seres-em-si (eus) que são idênticos a ele no ser, mas diferentes na relação, diferentes na variada extensão, no variado alcance de movimento e na variada vista da única substância, força, consciência, deleite que cada qual está realmente abrindo em um momento dado do Tempo ou em um campo dado do Espaço. Admitido que na Existência divina, perfeitamente consciente de si, esta não é uma limitação obrigatória, uma identificação à que a alma chegue a escravizar-se e a qual não pode exceder de como nós estamos escravizados a nossa auto-identificação com o corpo e resulte incapaz de exceder a limitação de nosso ego consciente, incapaz de escapar de um particular movi­mento de nossa consciência no Tempo que determina nosso particular campo no Espaço; aceitado tudo isso, todavia há uma livre identificação, de tempo em tempo, que só o inalienável auto-conhecimento da alma divina impede que se fixe em uma apa­rentemente rigorosa cadeia de separação e sucessão no Tempo tal como aquela na que nossa consciência parece estar fixada e enca­deada.

Assim o desmembramento já está ali; a relação de forma com forma como se fossem seres separados, de vontade-de-ser com vontade-de-ser como se fossem forças separadas, de conhecimento-de­-ser com conhecimento-de-ser como se fossem consciências separadas, já foi estabelecida. Trata-se tão só de um “como se”, pois a alma divina não se engana, é consciente de tudo como fenômeno do ser e mantêm o contido de sua existência na realidade do ser; não perde sua unidade, usa a mente como ação subordinada do conhecimento infinito, uma definição de coisas subordinadas a sua consciência do infinito, uma delimitação dependente de sua consciência da totalidade essencial —(não essa aparente e plural totalidade de soma e agregação coletiva que é só outro fenômeno da Mente)--. Assim não há limitação real; a alma usa seu poder definidor para o jogo das corretamente-distinguidas formas e forças, e não é usada por esse poder.

Portanto, se necessita um novo fator, uma nova ação da força consciente para criar a operação de uma mente desampa­radamente limitada assim como oposta a uma mente livremente limitante, -(vale dizer, de mente sujeita a seu próprio jogo e enganada por ele como oposta à mente mestra de seu próprio jogo e examinando-o em sua verdade, a mente da criatura como oposta à mente divina)--. Esse novo fator é Avidya, a auto-ignorante faculdade que separa a ação mental da ação supramental que a originou e que todavia a go­verna detrás do véu. Assim separada, a Mente só percebe o particu­lar e não o universal, ou concebe só o particular em um não-possuído universal e menos ainda ambos, particular e universal como fenômenos do Infinito. Dessa maneira temos a mente limitada que vê cada fenômeno como uma coisa-em-si-mesma, parte separada de um todo que novamente existe separadamente em um todo maior, e assim sucessi­vamente, aumentando sempre seus agregados sem retroceder ao sentido de uma verdade infinita.

A Mente, ao ser uma ação do Infinito, desmembra igualmente que agrega ad infinitum. Corta em pedaços ao ser em todos, em todos cada vez mais pequenos, em átomos e esses átomos em átomos primários, até dissolver, se é que pode, o átomo primário no nada. Mas não pode, porque detrás da ação divisora está o salvador conhecimento do supramental que conhece cada todo, cada átomo, como só uma concentração da todo-força, da todo-consciência, do oni­-ser nas fenomênicas formas de si mesmo. A dissolução do agre­gado dentro de uma nada infinita à que parece elevar a Mente, é para a Supramente só o retorno do auto-concentrador ser-cons­ciente partindo desde seu fenômeno para dentro de sua existência infinita. Por qualquer caminho que siga sua consciência, pelo da divisão infinita ou pelo do agran­damento infinito, chega tão só a si mesmo, a sua própria unidade infi­nita e ser eterno. E quando a ação da mente está conscientemente subordinada a este conhecimento da supramente, a verdade do processo é também conhecida por ela e de nenhum modo igno­rada; não há divisão real senão só uma infinitamente múltipla concentração nas formas do ser e na disposição da relação daquelas formas do ser uma com outra, nas que a divisão é uma aparência subordinada do processo integral necessário para seu Jogo espacial e temporal. Pois por mais que divida, descenda até o mais infinitesimal átomo ou forme o agregado mais monstruoso possí­vel de mundos e sistemas, por nenhum processo conseguirá uma coisa­-em-si-mesma; tudo são formas de uma Força que só é real em si mesma enquanto o resto só é real como auto-imagens ou auto­-formas manifestantes da eterna Força-consciência.

De onde procede originalmente a limitadora Avidya, a queda da mente desde a Supramente e a conseguinte idéia da divi­são real? Com exatidão, de que deformação da atividade supramental? Procede da alma individualizada que examina tudo desde seu próprio ponto de vista e exclui, todos os demais; procede, vale dizer, mediante uma exclusiva concentração da consciência, uma exclusiva auto-identificação da alma com uma particular ação temporal e espacial que é só parte de seu próprio jogo do ser; parte do ignorar a alma o fato de que todos os outros são também ela mesma, de que toda outra ação é sua própria ação e de que todos os outros estados de ser e a consciência são igualmente seus próprios estados igualmente que a ação de um momento particular no Tempo e um particular ponto de afirmação no Espaço e a única forma particular que ao presente ocupa. Se concentra no momento, o campo, a forma e o movimento de tal forma como para perder o resto; então há de recobrar o resto mediante a vinculação unindo a sucessão de momentos, a sucessão de pontos de Espaço, a sucessão de formas no Tempo e o Espaço e a sucessão de movimento no Tempo e Espaço. Assim perdeu a verdade da indivisibilidade do Tempo, a verdade da indivi­sibilidade da Força e da Substância. Perdeu de vista inclusive o fato evidente de que todas as mentes são uma só Mente que toma muitos pontos de assento; que todas as vidas são uma Vida que desenvolve muitas correntes de atividade; que todo corpo e forma são uma substância da Força e da Consciência que se concentra em múltiplas estabilidades aparentes de força e consciência; mas em verdade todas estas estabilidades são realmente só uma constante espiral de movimento que repete uma forma enquanto se modifica outra; não são nada mais. Pois a Mente procura sujeitar tudo dentro de formas rigidamente fixadas e aparentemente imutáveis ou imóveis fatores externos, pois de outra forma não pode atuar; então pensa que obteve o que queria: em realidade tudo é um fluir de mudança e renovação, e não há forma-em-si fixa, nem imutável fator externo. Só a Real-Idéia eterna é firme e mantêm uma certa cons­tância ordenada de figuras e relações no fluir das coisas, uma constância que a Mente procura de maneira vã imitar atribuindo fixidez ao que sempre é inconstante. Estas são as verdades que há de redescobrir a Mente; as conhece todo o tempo, mas só no obscuro fundo de sua consciência, na secreta luz de seu auto-ser; e essa luz é para ela uma obscuridade devido a que há criado a ignorância, devido a que se há deslizado desde a mentalidade divisora na mentalidade dividida, devido a que há chegado a envolver-se em suas próprias atividades e em suas próprias criações.

Esta ignorância se afunda mais no homem por sua auto-identificação com o corpo. Para nós a mente parece determinada pelo corpo, porque se preocupa por ele e se consagra a suas atividades físicas que usa para sua superficial ação consciente neste denso mundo material. Empregando constantemente essa operação do cére­bro e os nervos que desenvolveu no curso de sua própria evo­lução no corpo, está demasiado absorvida em observar que recebe desta maquinaria física como para ocupar-se em recobrá-lo em benefício de suas próprias atividades puras; para ela estas são em sua maioria subconscientes. Todavia podemos conceber uma mente vital ou ser vital que tenha ido além da necessidade evolutiva desta absorção e seja capaz de ver e inclusive experimentar por si mesma assumindo corpo após corpo e não ser criada separa­damente em cada corpo e terminando com ele; pois é só a im­pressão física da mente na matéria, só a mentalidade corporal que é criada dessa maneira, não o ser mental todo. Esta mentalidade corpórea é meramente nossa superfície da mente, meramente a frente que se apresenta à experiência física. Detrás, inclusive em nosso ser terrestre, há esta outra mente (vital), subconsciente ou subliminal para nós, que se conhece a si mesma tanto mais que ao corpo e é capaz de uma ação menos materializada. A esta lhe devemos imediatamente a maior parte da imensa, profunda e potente ação dinâmica de nossa mente superficial; esta, quando tomamos consciência dela ou de sua impressão em nós, é nossa idéia primeira ou nossa primeira compreensão de uma alma ou ser interior, Purusha[3] .

Mas esta mentalidade vital também, ainda que possa livrar-se do erro do corpo, não nos libera da totalidade do erro da mente; ainda está sujeita ao original ato de ignorância pelo que a alma individualizada considera tudo desde seu ponto de vista e pode apreciar a verdade das coisas só como se lhe apresentam de fora ou como surgem diante sua vista desde sua separada consciência temporal e espacial, formas e resultados da experiência passada e presente. Não é consciente de seus outros seres-em-si (eus) exceto pelas abertas indicações que eles dão a sua existência, indicações de pensamento comunicado, linguagem, ação, resultado das ações, ou mais sutis indicações —no sentidos diretamente pelo ser físico— do impacto e relação vitais. Igualmente é ignorante de si; pois sabe de seu ser-em-si (eu) só através de um movimento no Tempo e de uma sucessão de vidas nas que há usado suas variadamente corporizadas energias. Assim como nossa instrumental mente física tem a ilusão do cor­po, de igual maneira esta dinâmica mente subconsciente (vital) tem a ilusão da vida. Nisso está absorvida e concentrada, por isso está limitada, com isso identifica seu ser. Aqui não retornamos ainda ao lugar de reunião de mente e supramente e ao ponto no que originalmente se separaram.

Pois há todavia uma mais clara mentalidade refletora detrás da dinâmica e vital que é capaz de escapar de sua absorção na vida e se contempla como assumindo vida e corpo a fim de projetar nas ativas relações da energia o que percebe na vontade e o pensamento. É a fonte do puro pensador que está em nós; é a que conhece a mentalidade em sí e vê o mundo não nos termos de vida e corpo senão de mente; é a que[4] , quando regressamos a ela, às vezes confundimos com o espírito puro assim como con­fundimos a mente dinâmica com a alma. Esta mente superior é capaz de perceber e tratar com outras almas como outras formas de seu puro ser-em-si (eu); é capaz de senti-las mediante puro impacto mental e comunicação mental e não agora somente mediante o impacto vital e nervoso e à indicação física; concebe também uma figura mental da uni­dade, e em sua atividade e em sua vontade pode criar e possuir mais diretamente —não só indiretamente como na ordinária vida física— e em outras mentes e vidas igualmente que na própria. Mas ainda assim esta pura mentalidade não escapa do erro original da mente. Pois todavia é seu separado ser-em-si mental ao que converte em juiz, testemunha e centro do universo e através dele luta só por elevar a seu próprio Ser-em-si (eu) e realidade superiores; todos os demais são “outros” agrupados em seu entorno: quando quer estar livre, há de retirar-se da vida e da mente a fim de desaparecer na unidade real. Pois existe ainda o véu criado por Avidya entre a ação mental e a supramental; comunica uma imagem da Verdade, não a Verdade mesma.

É só quando se rasga o véu e a mente dividida se entrega, silenciosa e passivamente, à ação supramental, que a mente mesma retorna à Verdade das coisas. Ali descobrimos uma luminosa mentalidade refletora, obediente e instrumental para com a Real-Idéia divina. Ali percebemos o que o mundo é em realidade; nos conhecemos de todos os modos possíveis a nós mesmos nos outros e como os outros, aos demais como nós e tudo como o Uno-universal e auto-multiplicado. Perde­mos o rigidamente separado ponto de vista individual que a fonte de toda limitação e erro. Além disso, percebemos que tudo quanto a ignorância da Mente tomou por verdade era de fato verdade, mas verdade desviada, equivocada e falsamente concebida. Todavia percebemos a divisão, a individualização, a atômica criação, mas as conhecemos e nos conhecemos pelo que elas e nós realmente somos. E dessa maneira percebemos que a Mente era em realidade uma ação e instrumentação subordinada da Verdade-consciência. Na medida em que não está separada na auto-experiência da envolvente Consciência-Mestra e não procura estabelecer um lugar para si, na medida em que serve passivamente como uma instrumentação e não tenta possuir em seu próprio benefício, a Mente cumpre luminosamente sua função que está na Verdade de manter as formas aparte umas das outras mediante uma fenomênica e puramente formal delimitação de sua atividade detrás da qual a governante universalidade do ser permanece consciente e intacta. Há de receber a verdade das coisas e distribuí-la de acordo à inequívoca percepção de um Olho e Vontade supremos e universais. Há de sustentar uma individualização de ativa consciência; deleite, força e substância que deriva todo seu poder, realidade e alegria desde uma inalienável universalidade que está detrás. Há de modificar a multiplicidade do Uno em uma aparente divisão mediante a qual as relações se definem e mantêm a dis­tância uma frente à outra de modo que possam encontrar-se outra vez e juntar-se. Há de estabelecer o deleite da separação e o contato em meio de uma eterna unidade e interpenetração. Há de capacitar ao Uno a proceder como se Ele fosse um indivíduo que trata com outros indi­víduos mas sempre em Sua própria unidade, e isto é o que o mundo é em realidade. A mente é a operação final da apreendente Verdade-consciência que torna possível tudo isto, e o que chamamos Ignorância não cria uma coisa nova e uma absoluta falsidade senão só que mal interpreta a Verdade. A Ignorância é a Mente que se separa no conhecimento de sua fonte de conhecimento e que brinda uma falsa rigidez e uma equivocada aparência de oposição e conflito a harmonioso jogo da suprema Verdade em sua manifestação uni­versal.

O erro fundamental da mente é, então, esta queda desde o auto-conhecimento pela que a alma individual concebe sua indi­vidualidade como um fato separado em lugar de como uma forma de Unidade, e se converte em centro de seu próprio universo em lugar de conhecer-se como única concentração do universal. Desse erro original todas suas ignorâncias e limitações particulares são resultados contingentes. Pois, ao considerar o fluir das coisas só como flui sobre e através de si, efectua uma limitação do ser desde a qual procede uma limitação da consciência e, portanto de conhecimento, uma limitação de consciência, força e vontade e portanto, de poder; uma limitação de auto-desfrute e, portanto, de deleite. É consciente das coisas e só as conhece como se apresentam diante sua individualidade e, portanto, cai na ignorância do resto e, portanto, em uma errônea concepção inclusive do que parece conhecer: pois dado que todo ser é interdependente, o conhe­cimento, bem do todo ou bem da essência é necessário para o correto conhecimento da parte. Daí que exista um elemento de erro em todo conhecimento humano. De modo parecido, nossa vontade, ignorante do resto da oni-vontade, deve cair no erro de atividade e em um maior ou menor grau de incapacidade e impotência; o auto-deleite e deleite das coisas pertence à alma, ignorantes da todo-bem-aventurança e por defeito da vontade e do conhecimento incapazes de dominar seu mundo, devem cair na incapacidade do deleite possessivo e, portanto, no sofrimento. A auto-ignorância é, portanto, a raiz de toda a perversidade de nossa existência, e essa perversidade está fortificada na auto-limitação; o egoísmo que é a forma tomada por essa auto-ignorância.

Com tudo, toda a ignorância e a perversidade são só a deformação da verdade e da razão das coisas, e não o jogo de uma falsidade absoluta. É o resultado da Mente que examina as coisas na divisão que efetua, avidyayam antare, em lugar de examinar-se junto com as divisões como instrumentação e fenômeno do jogo da verdade de Satchitananda. Torna-se a verdade da que caiu, retorna novamente à ação final da Verdade-consciência em sua apreensiva operação, e as relações que ajuda a criar nessa luz e poder serão relações da Verdade e não da perversidade. Serão as coisas direitas e não torcidas, para usar a expressiva distin­ção dos Rishis Védicos, —(Verdades, vale dizer, do ser divino com sua consciência, vontade e deleite auto-possessivos movendo-se harmonicamente em si mesmo)--. Agora temos muito mais o movimen­to tortuoso e ziguezagueante da mente e vida, as contorsões criadas pela luta da alma que esqueceu seu verdadeiro ser em prol de encontrá-lo novamente, em prol de resolver todo erro retornando dentro da verdade, os quais ambos, --(nossa verdade e nosso erro)--, são nosso correto e nosso equi­vocado limite ou distorsão; toda a incapacidade dentro da força os quais ambos, --(nosso poder e nossa debilidade)--, são uma luta de força por assim dizer; todo sofrimento dentro do deleite, os quais ambos, --(nossa alegria e nossa pena)-- são um convulsivo esforço de sensação por realizar; toda morte dentro da imortalidade para a qual ambas, --(nossa vida e nossa morte)-- são um constante esforço do ser por retornar.

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Capítulo XIX

VIDA

A energia prânica é a vida das criaturas; por isso se diz que é o princípio universal da vida.

Taittiriya Upanishah[1]

Percebemos, então, o que a Mente é em sua origem divina e como se relaciona com a Verdade-consciência, —(a Mente, o mais elevado dos três princípios inferiores que constituem a existência humana)--. uma ação especial da consciência divina, ou melhor a trança final de sua criadora ação total. Capacita o Purusha para manter separadas as relações das diferentes formas e forças de si mesmo, uma com respeito à outra; cria as diferenças fenomênicas que, para a alma individual caída da Verdade-consciência, tomam a aparência de divisões radicais, e essa perversão original é progenitora de todas as perversões resultantes, que nos impressionam como contrárias dualidades e oposições próprias da vida da Alma na Ignorância. Mas na medida em que não está separada da Supramente, sustenta, não perversões nem falsidades, senão a obra variada da Verdade universal.

A Mente aparece assim como uma criadora agência cósmica. Esta não é a impressão que normalmente temos de nossa mentalidade; muito mais a consideramos em princípio, como um órgão perceptivo, perceptivo das coisas já criadas pela Força que trabalha na Matéria, e o único originar que lhe permitimos é uma criação secundária de novas formas combinadas das já desenvolvidas pela Força na Matéria. Mas o conhecimento que agora recupera­mos, auxiliados pelos últimos descobrimentos da Ciência, começa a demonstrar-nos que, nesta Força e nesta Matéria, há uma Mente subconsciente trabalhando que é certamente responsável de seu próprio emergir, primeiro nas formas da vida e logo nas formas da mente mesma; primeiro na consciência nervosa da vida-da-planta e do animal primitivo, logo na mentalidade sempre-em-desenvolvimento do animal evoluído e do homem. E assim como temos já descoberto que a Matéria é só substância-forma da Força, de igual maneira descobriremos que a Força material é só energia-forma da Mente. A força material é, de fato, uma operação subconsciente da Vontade; a Vontade que tra­balha em nós no que parece ser luz, ainda que em verdade não é mais que meia-luz, e a Força material que trabalha no que a nós nos parece ser uma sombra de não-inteligência, são em realidade e em essên­cia a mesma, tal como o pensamento materialista sempre instintiva­mente há sentido dado o equivocado ou inferior final das coisas nesta concepção, e como o conhecimento espiritual que trabalha desde o cume faz muito tempo descobriu. Portanto, podemos dizer que é uma subconsciente Mente ou Inteligência que, manifestando a Força como seu poder-diretriz, sua Natureza executiva, sua Prakriti, criou este mundo material.

Mas dado que, como agora temos descoberto, a Mente não é uma entidade independente e original senão só uma operação final da Verdade-consciência ou Supramente, portanto, donde queira que esteja a Mente, ali deve estar a Supramente. A Supramente ou a Ver­dade-consciência é a real agência criadora da Existência uni­versal. Inclusive quando a Mente está em sua própria consciência obscu­recida, separada de sua fonte, esse movimento maior está sempre nas atividades da Mente, forçando-as a preservar sua correta relação, evoluindo delas os resultados inevitáveis que portam em si mesmas, produzindo a árvore correta a partir da correta semente, ela compele também as operações de uma coisa tão densa, inerte e obscurecida como a Força material para resultar em um mundo de Lei, ordem e correta relação não de mutável azar e caos. Obviamente, esta ordem e relação correta só pode ser relativo e não a suprema ordem e a suprema exatidão que reinaria se a Mente não estivesse em sua própria Consciência separada da Supramente; é uma disposição, uma ordem dos resultados correto e apropriado à ação da Mente divisora e sua criação de oposições separativas, seus duais lados contrários da Verdade única. A Consciência Divina, havendo concebido e posto em atividade, a Idéia desta dual ou dividida representação de Si, deduz dela na real-idéia e extrai praticamente dela na substância da vida, mediante a governante ação da completa Verdade-consciência que está detrás dela, sua própria verdade inferior ou resultado inevitável da variada relação. Para isto está no mundo a natureza da Lei ou da Verdade que é a precisa atividade ou extração do que está contido no ser, implícito na essência e natureza da coisa mesma, latente em seu auto-ser e auto-lei, svabhava e svad­harma, tal como os vê o Conhecimento Divino. Para usar uma dessas maravilhosas fórmulas do Upanishad[2] que contêm um mundo de conhecimento em poucas reveladoras palavras, é o Auto­-existente quem, --como vidente e pensador presente no devir por toda parte --, há disposto em Si todas as coisas corretamente desde eternos anos de acordo à verdade do que são.

Consequentemente, o triplo mundo em que vivemos, o mundo de Mente-Vida-Corpo é triplo somente em seu presente estado de evolu­ção. A vida envolta na Matéria emergiu na forma de pensar e na mentalidade da vida consciente. Mas com a Mente, envolta nela e portanto na Vida e na Matéria, está a Supramente, que é a origem e a dirigente das outras três, e esta também deve emergir. Buscamos uma inteligência na raiz do mundo, porque a inteligência é o supremo princípio do que temos conhecimento e que nos parece governar e explicar toda nossa própria ação e criação e, portanto, se existe uma Consciência no universo, presumimos que deve ser uma Inteligência, uma Consciência mental. Mas a inteligência só percebe, reflete e usa, dentro da medida de sua capacidade, a obra de uma Verdade do ser superior a ela; o poder que está detrás dessas obras deve, portanto, ser outra forma superior da Consciência apropriada a essa Verdade. De modo semelhante, temos de emendar nosso conceito e afirmar que criou este universo material, não uma Mente ou Inteligência subconsciente, senão uma envolvida Supramente que põe a Mente diante de si como a imediata forma especial de seu conheci­mento-vontade subconsciente na Força, e usa a material Força ou Vo­ntade subconscientes na substância do ser como sua Natu­reza executiva ou Prakriti.

Mas vemos que aqui a Mente está manifestada em uma especialização da Força à que damos o nome de Vida. O que é então a Vida? E que relação tem com a Supramente, com esta suprema trindade de Satchitananda ativo na criação por meio da Real-Idéia ou Verdade-consciência? Desde que princípio na Trindade toma seu nascimento? Ou porque necessidade, divina ou não-divina, da Verdade ou da ilusão, vem a ser? A Vida é um mal, faz ressoar através dos séculos o antigo grito, uma ilusão, um delírio, uma loucura da que temos que fugir para o repouso do ser eterno. É assim? E por que então é assim? Por que o Eterno infligiu caprichosamente este mal, trouxe este delírio ou loucura sobre Si ou sobre as criaturas que alcançaram o ser por Sua terrível Maya todo-enganosa? Ou é muito mais, algum princípio divino que se ex­pressa assim, algum poder do Deleite do ser eterno que há de expressar-se e, dessa maneira, projetou-se dentro do Tempo e Espaço nesta constante erupção de milhões e milhões de formas de vida que povoam os incontáveis mundos do universo?

Quando estudamos esta Vida como se manifesta na Terra com a Matéria como base, observamos que essencialmente é uma forma da cósmica Energia única, um movimento ou corrente dinâmica de energia positiva e negativa, um constante ato ou jogo da Força que contrói formas, as dinamiza mediante uma contínua corrente de estimulação e as mantêm mediante um incessante pro­cesso de desintegração e renovação de sua substância. Isto teria a demonstrar que a distinção natural que fazemos entre a morte e a vida é um erro de nossa mentalidade, uma dessas falsas oposições, --(falsas para a verdade interior ainda que válidas na super­ficial experiência prática)--, que, enganada pelas aparências, cons­tantemente se introduz na unidade universal. A morte carece de realidade exceto como um processo da vida. Desintegração de substância e renovação de substância, manutenção de forma e mudança de forma, são os processos constantes da vida, a morte é simplesmente uma desintegração rápida submetida à necessidade da vida de câmbio e variação da experiência na forma. Inclusive na morte do corpo não há cessação de Vida, só se interrompe o material de uma forma de vida para servir como material a outras formas de vida. De modo parecido, podemos estar seguros, na uniforme lei da Natureza, que se há na forma corporal uma energia mental ou psíquica, essa tão pouco é destruída senão só interrompida em uma forma para assumir outras mediante algum processo de metempsicose ou nova animação em outro corpo. Tudo se renova, nada perece.

Poderia afirmar-se como uma consequência que há uma Vida oni­penetrante ou energia dinâmica, —(o aspecto material é só seu mais externo movimento)--, que cria todas estas formas do universo físico, Vida imperecível e eterna que, inclusive se abolisse-se por completo a figura do universo, seguiria todavia existindo e poderia produzir um novo universo em seu lugar, e que deve em verdade, --(a menos que seja repregada a um estado de repouso por algum Poder superior ou que se retraisse)--, seguir inevitavelmente criando. Nesse caso a Vida não é nada mais que a Força que constrói, mantêm e destrói as formas no mundo; é a Vida que se manifesta na forma da terra assim como na planta que cresce sobre a terra e os animais que sustentam sua existência devorando a força-vital da planta ou de outro animal. Toda a existência é aqui Vida uni­versal que toma a forma de Matéria. Poderia, para essa finalidade, esconder o processo-vital no processo físico antes de emergir como sensibilidade submental e vitalidade mentalizada, mas ainda seria por completo o mesmo criador princípio-de-Vida.

Se dirá, no entanto, que isto não é o que conhecemos como vida; chamamos vida a um particular resultado da força universal com a que estamos familiarizados e que se manifesta só no animal e na planta, mas não no metal, na pedra, no gás; opera na célula animal mas não no puro átomo físico. Devemos, portanto, a fim de estar seguros em nosso terreno, examinar em que consiste precisamente este particular resultado do jogo da Força que chamamos vida e como difere desse outro resultado do jogo da Força nas coisas inanimadas que, segundo dizemos, não é a vida. Ao mesmo tempo vemos que aqui na terra há três reinos do jogo da Força: o reino animal da antiga classificação ao qual pertencemos; o vegetal; e por último o simples material vazio, segundo estimamos, de vida. Como difere a vida em nós da vida da planta, e a vida da planta da não-vida, digamos, do metal, o reino mineral da velha fraseologia, ou desse novo reino químico que a Ciência descobriu?

Ordinariamente, quando falamos de vida, nos referimos à vida animal, a que se move, respira, come, sente, deseja, e, se falamos da vida das plantas, foi quase como uma metáfora mais que como realidade, pois a vida vegetal foi considerada como um processo puramente material muito mais que como fenômeno biológico. Espe­cialmente temos associado a vida com a respiração; a respiração é vida, se diz em todo idioma, e a fórmula é certa se mudamos nosso conceito do que queremos dizer com Alento de Vida. Mas é evidente que a moção ou locomoção espontâneas, respirar, comer, são só processos da vida e não a vida mesma; são meios para a geração ou liberação dessa energia constantemente esti­mulante que é nossa vitalidade, e para esse processo de desintegra­ção e renovação pela que sustenta nossa própria existência substancial; mas estes processos de nossa vitalidade podem manter-se de modos distintos a nossa respiração e nossos meios de sus­tento. É um fato provado que inclusive a vida humana pode manter-se no corpo, com plena consciência, havendo-se suspendido temporalmente a respiração, o batimento do coração e outras condições que antes se consideravam essenciais. E se levantaram novas evidencias de fenômenos estabelecendo que a planta, à que todavia negamos qualquer reação consciente, tem ao menos vida física idêntica à nossa e inclusive essencialmente organizada como a nossa, ainda que diferente em sua aparente organização. Se prova-se que isto é certo, devemos varrer por completo nossos antigos conceitos, fáceis e falsos, indo além de sintomas e exterio­ridades, até chegar à raiz do assunto.

Em alguns descobrimentos[3] recentes que, se são aceitadas suas conclusões, devem arrojar uma intensa luz sobre o problema da Vida na Matéria, um grande físico hindustani chamou a atenção sobre a resposta ao estímulo como um signo infalível da existência de vida. Em especial é o fenômeno da vida-vegetal o que resultou iluminado por seus dados e ilustrado em todas suas sutis funções; mas não devemos esquecer que no ponto essencial afirmou nos metais igualmente que na planta, a mesma prova de vitalidade, a resposta ao estímulo, o es­tado positivo da vida e seu estado negativo que chamamos morte. Não certamente com a mesma abundância, não como para demonstrar uma essencialmente idêntica organização da vida; mas é possível que se descobrissem instrumentos correta e suficientemente ajus­tados e precisos se descobririam mais pontos de semelhança entre a vida do metal e a da planta, e inclusive se provasse não ser assim, isto poderia significar que a mesma ou outra organização vital está ausente, mas os princípios de vitalidade todavia poderiam estar ali. Mas se a vida, ainda que rudimen­tária em suas sintomas, existe no metal, deve admitir-se como pre­sente, velada talvez, ou básica e elemental na terra ou outras existências materiais afins ao metal. Se podemos seguir mais adiante nossas investigações, não obrigados a deter-nos onde fracassem nos­sos meios imediatos de investigação, podemos estar seguros por nossa invariável experiência da Natureza que as investiga­ções assim empreendidas nos provaram, ao fim, que não há interrupção, nem rígida linha demarcatória entre a terra e o metal formado nela, nem entre o metal e a planta e, prosseguindo mais adiante com a síntese, que não há nenhuma diferença tão pouco entre os elementos e átomos que constituem a terra ou o metal nem entre o metal ou a terra que eles constituem. Cada passou desta gradual existência prepara o seguinte, mantêm em si o que aparece no que segue. A Vida está por toda parte, secreta ou manifesta, organizada ou elemental, envolta ou evoluída, mas universal, todo-penetrante, imperecível, diferendo só suas formas e organizações.

Devemos recordar que a resposta física ao estímulo é só um signo externo da vida, assim como o são a respiração e a locomo­ção em nós. O experimentador aplica um estímulo excepcional e obtêm vívidas respostas que de imediato podemos reconhecer como índices de vitalidade no objeto do experimento. Mas durante toda sua existência a planta está respondendo incessantemente a uma constante massa de estimulação de parte de seu entorno; vale dizer, existe nela uma força constantemente mantida que é capaz de responder à aplicação da força que chega desde seu entorno. Se diz que a idéia de uma força vital na planta ou outro organismo vivo foi destruída por estes experimentos. Mas quando dizemos que se aplicou um estímulo à planta, queremos dizer que uma energética força, uma força em movimento dinâmico foi dirigida sobre esse objeto, e quando dizemos que se obtêm uma resposta, queremos dizer que uma energética força capaz de movi­mento dinâmico e de vibração sensitiva responde ao choque. Há uma recepção e réplica vibrantes, igualmente que uma vontade de crescer e ser, indicativa de uma organização submental e vital-física da consciência-força oculta na forma de ser. Então, o fato pareceria ser que assim como há uma constante energia dinâmica em movimento no universo que toma diversas formas materiais mais ou menos sutis ou densas, de igual modo em cada corpo ou objeto físico, planta, animal ou metal, está armazenada e ativa a mesma constante força dinâmica; um certo intercâmbio destas duas nos dá os fenômenos que associamos com a idéia da vida. Esta é a ação que reconhecemos como ação de Energia-Vida e isso que é tão energético para si mesmo é a Força-Vida, a Energia-Mente, a Energia­-Vida, a Energia material, são diferentes dinamismos de uma só Força-Mundo.

Ainda que uma forma nos pareça morta, todavia existe nela esta força em potencialidade por mais que suas familiares operações de vitalidade estejam suspendidas e a ponto de concluir permanentemente. Dentro de certos limites, o que está morto pode reviver-se; as operações habituais, a resposta, a circulação da energia ativa pode restaurar-se; e isto prova que o que chamamos vida está ainda no corpo, latente, significa dizer, não ativa em seus hábitos usuais, suas hábitos de ordinário funcionamento físico, seus hábitos de jogo e resposta nervosos, seus hábitos no animal da consciente res­posta mental. É difícil supor que exista uma entidade distinta chamada vida que tenha saído por completo do corpo e que volte outra vez a este quando sente -como, dado que não há nada que a conecte com o corpo?— que alguém esteja estimulando a forma. Em certos casos, como na catalepsia, vemos que os externos signos e operações físicas da vida estão suspendidos, mas a mentalidade está ali auto-possuída e consciente ainda que incapaz de compelir as usuais respostas físicas. Certamente não se trata do fato de que o homem esteja fisicamente morto mas mental­mente vivo, ou de que a vida haja escapado do corpo enquanto a mente todavia habita-o, senão só de que o ordinário funcionamento físico está suspendido, enquanto o mental está ainda ativo.

Assim mesmo, em certas formas de transe, estão suspendidas as funções físicas e as mentais externas, mas depois retomam sua atividade, em alguns casos mediante estimulação externa, e mais normalmente mediante um retorno espontâneo à atividade desde dentro. O que realmente há sucedido é que a força-mental superficial foi retirada dentro da mente subconsciente e a superficial força­-vital foi retirada também dentro da vida sub-ativa e, ou bem o homem todo deslizou-se dentro da existência subconsciente ou bem, há retirado sua vida externa à existência subconsciente enquanto que seu ser interior há sido elevado para dentro do super-consciente. Mas nosso ponto capital consiste agora em que a Força, qualquer que seja, que mantêm a energia dinâmica ou vida no corpo, suspendeu certamente suas operações externas mas ainda informa a organizada substância. No entanto, chega um ponto no que já não é possível restaurar as atividades suspendidas; e isto ocorre quando, ou melhor infringiu ao corpo uma lesão tal que o inutilize ou incapacite para seu funcionamento habitual ou melhor, se não media tal lesão, quando começou o processo de desintegração, significa dizer, quando a Força que deveria renovar a ação-vital chega a ser por completo inerte diante a pressão das forças do entorno com cuja massa de estímulos acostuma manter um constante intercâmbio. Inclusive então existe Vida no corpo, mas uma Vida que só está ocupada no processo de desintegrar a substância formada de modo que possa escapar em seus elementos e cons­tituir com eles novas formas. A Vontade na força universal que manteve a coesão da forma, agora se retira da constituição, e sustenta, em seu lugar, um processo de dispersão. Até esse momento não tem lugar a morte real do corpo.

Então, a Vida é o jogo dinâmico de uma Força universal, uma Força na que a consciência mental e a vitalidade nervosa são, de alguma forma ou, ao menos em seu princípio, sempre inerentes e portanto se apresentam e organizam em nosso mundo nas formas da Matéria. O jogo-vital desta Força se manifesta como um intercâmbio de estimulação e resposta à estimulação entre as diferentes formas que há construído e nas que mantêm seu cons­tante pulso dinâmico; cada forma absorve constantemente e emite novamente o hálito e a energia da Força comum; cada forma se alimenta com isso e se nutre com isso por variados meios, seja já indiretamente absorvendo de outras formas nas que está armazenada a energia ou melhor diretamente absorvendo as descargas dinâmicas que recebe do exterior. Tudo isto é o jogo da Vida; mas prin­cipalmente o reconhecemos donde a organização dele nos é suficiente para que percebamos seus movimentos mais externos e complexos, e espe­cialmente onde participa do tipo nervoso de energia vital que pertence a nossa própria organização. É por esta razão que esta­mos prestes a admitir a vida na planta porque há evidentes fenômenos de vida, —(e isto chega a ser mais fácil todavia se pode demos­trar-se que manifesta sintomas de nervosidade e tem um sistema vital não muito diferente do nosso)—, mas não queremos reconhecê-la no metal, na terra e no átomo químico donde estes desenvolvimentos fenomênicos podem detectar-se com dificuldade ou aparentemente não existir.

¿Existe alguma justificação para elevar esta distinção a uma diferença essencial? Qual é, por exemplo, a diferença entre a vida em nossos e a vida na planta? Apreciamos que difiram, pri­mero, em nossa possessão do poder de locomoção que nada tem que ver, evidentemente, com a essência da vitalidade, e segundo, em nossa possessão da sensação consciente que, pelo que até agora conhecemos, ainda não está evoluída na planta. Nossas respostas nervosas se acompanham em grande medida, ainda que de nenhum modo sempre nem em sua totalidade, da resposta mental da sen­sação consciente; elas têm um valor para a mente igualmente que para o sistema nervoso e para o corpo agitado pela ação nervosa. Na planta pareceria que há sintomas de sensação nervosa, incluídos os que em nós se traduziriam como prazer e dor, vigília e sonho, exaltação, embotamento e fadiga, e o corpo está agitado interiormente pela ação nervosa, mas não há signo da real presença de sensação mentalmente consciente. Mas a sensação é mentalmente consciente ou vitalmente sensitiva, e é uma forma da consciência. Quando a planta sensitiva se recolhe diante um contato parece que é afetada nervosamente, que algo nela não gosta desse contato e procura afastar-se dele; há, em uma palavra, uma sensação subconsciente na planta, tal como há, já o temos visto, operações subconscientes da mesma classe em nós. No sistema humano é muito possível trazer à superfície estas percepções e sensações subconscientes muito depois de haver sucedido e haver cessado de afetar o sistema nervoso; e uma sempre crescente massa de evidências há estabelecido irrefutavelmente a existência de uma mentalidade subconsciente em nós, muito mais vasta que a cons­ciente. O mero fato de que a planta careça de mente superfi­cialmente vigilante que possa despertar-se para avaliar suas sensações subconscientes, não cria diferença à identidade essencial dos fe­nômenos. Sendo os fenômenos os mesmos, a coisa que manifestam deve ser a mesma, e essa coisa é uma mente subconsciente. E é muito possível que exista uma mais rudimentar operação vital do subconsciente sentido-mente no metal, ainda que no metal não exista agitação corporal correspondente à resposta nervosa; mas a ausência de agitação corporal não cria uma diferença essencial para a presença de vitalidade no metal assim como a ausência de locomoção corporal não cria uma diferença essencial para a presença de vitalidade na planta.

O que acontece quando o consciente se converte em subconsciente no corpo ou o subconsciente se torna consciente? A diferença real deságua na absorção da energia consciente em parte de seu tra­balho, em sua concentração mais ou menos exclusiva. Em certas formas de concentração, o que chamamos a mentalidade, vale dizer, o Praj­nana ou consciência apreensiva cessa, quase ou por completo, de atuar conscientemente; com tudo a atividade do corpo, dos nervos e do sentido-mente continua constante e perfeita, mas sem ser notada; tudo se tornou subconsciente e a mente está luminosamente ativa só em uma atividade ou cadeia de atividades. Quando escrevo, o ato físico de escrever é fato, em sua maior parte e às vezes por com­pleto, pela mente subconsciente; o corpo efetua, inconscientemente, segundo dizemos, certos movimentos nervosos; a mente está desperta só para o pensamento com ele que está ocupada. O homem todo pode certamente fundir-se no subconsciente; contudo, os movimentos habi­tuais que implicam a ação da mente podem continuar, como em muitos fenômenos de sonho; ou tal homem pode elevar-se ao super-consciente e ainda assim, estar ativo com a mente subliminal no corpo, como em certos fenômenos de samadhi ou transe yóguico. É evidente, então, que a diferença entre a sensação da planta e nossa sensação estar simplesmente em que na planta a Força cons­ciente que se manifesta no universo ainda não emergiu do todo desde o sonho da Matéria, desde a absorção que divide por inteiro a Força trabalhadora de sua fonte de trabalho no conhecimento super-consciente, e pelo tanto faz subconscientemente o que fará cons­cientemente quando emerja no homem desde sua absorção e comece a despertar, ainda que indiretamente, a seu conhecimento-eu. Reali­za exatamente as mesmas coisas mas de modo distinto e com um diferente valor em termos de consciência.

Está chegando a ser possível agora conceber que no mesmíssimo átomo há algo que chega a ser em nós uma vontade e um desejo, há uma atração e repul­são que, ainda que fenomenicamente distintas, são em essência a mesma coisa que gosto e desgosto em nós mesmos, mas são, como dizemos, inconscientes ou subconscientes. Esta essência de vo­ntade e desejo é evidente por toda parte na Natureza e, ainda que isto ainda não está suficientemente contemplado, vontade e desejo estão associados certamente com a expressão de um sentido e inteligência subconscientes, ou se prefere, inconscientes ou bastante involuídos que estão, igualmente, estendidos. Pre­sente em cada átomo de Matéria, tudo isto está necessariamente presente em cada coisa formada pela agregação daqueles átomos; e estão presentes no átomo porque estão presentes na Força que constrói e constitui o átomo. Essa Força é fundamentalmente o Chit-Tapas ou Chit-Shakti do Vedanta, consciência-força, ine­rente força consciente do ser-consciente, que se manifesta como energia nervosa plena de sensação submental na planta; como desejo-sentido e desejo-vontade nas formas animais primárias; como sentido auto-consciente e força no animal desenvolvido; como von­tade e conhecimento mentais coroando todo o resto no homem. A Vida é uma escala da Energia universal na que se dirige à transição desde inconsciência à consciencia; é um poder intermediário dela, latente ou submergido na Matéria, liberada por sua própria força no ser submental, liberada finalmente pelo emergir da Mente na plena possibilidade de sua dinâmica.

À parte de todas as outras considerações, esta conclusão se impõe como necessidade lógica se observamos inclusive o processo su­perficial do emergir à luz do tema evolutivo. É evidente em si mesmo que a Vida na planta, ainda que organizada de modo distinto que no animal, é contudo o mesmo poder, assinalado por nascimento, cresci­mento e morte, propagação mediante semente, morte por decadên­cia, enfermidade ou violência, manutenção por absorção de elementos nutrícios del exterior, dependência da luz e o calor, produtividade e esterilidade, inclusive estados de sono e vigília, energia e depressão do dinamismo-vital, passou desde a infância à maduridade e velhice; a planta contêm, além disso, as essências da força da vida e é, portanto, alimento natural das existências animais. Se aceita-se que tenha sistema nervoso e reações ante aos estímulos, é dizer, um princípio ou corrente subjacente de sensações submentais ou puramente vitais, a identidade se torna mais próxima; mas ainda fica evidentemente uma etapa de evolução vital intermediária entre a existência animal e a Matéria "inanimada". Isto é precisamente o que deve esperar-se se a Vida é una força evolucionando a partir da Matéria e culminando na Mente, e, se é isso, então estamos obrigados a supor que já existe na Matéria mesma submergida ou latente na subconsciência ou inconsciência materiais. Porque de onde mais pode emergir? A evolução da Vida na matéria supõe uma prévia involução dela ali, a não ser que suponhamos que seja uma nova criação magicamente e inexplicavelmente introdu­zida na Natureza. Se é isso, deve ser uma criação a partir do nada ou um resultado de operações materiais que não se explica para nada pelas operações mesmas ou por qualquer elemento delas que sejam de natureza afim; ou, concebivelmente, pode ser um descenso desde algum plano supra físico por cima do universo material. As duas primeiras superposições podem descartar-se como concepções arbitrárias; a última explicação é possível e bastante concebível, e conforme à visão oculta das coisas é certo que, uma pressão desde algum plano da Vida por cima do universo material, ajudou o afloramento da vida aqui. Mas isso não exclui o origem da vida desde a Matéria mesma como movimento primário e necessário; pois a existência de um mundo-Vital ou plano-Vital por cima do material não conduz de por si ao emergir da Vida na matéria, a não ser que o plano-Vital exista como etapa formativa em um descenso do Ser através de diversos graus ou poderes de si dentro da Inconsciência com o resultado de uma involução de si com todos estes poderes na Matéria para uma evolução e emergir posteriores. Que os signos desta vida submergida sejam possíveis de descobrir, --(desorganizados ou rudimentares)--, nas coisas materiais, ou tais signos não existam porque esta Vida se acha em pleno sonho, não é questão de capital importância. A Energia material que agrega, forma e desagrega[4] é o mesmo Poder em outro grau de si que essa Energia-Vital que se expressa no nascimento, o crescimento e a morte, assim como mediante sua realização das obras da Inteli­gência em uma subconsciência sonâmbula se delata como o mesmo Poder que em outro grau alcança o estado da Mente; seu caráter mesmo demonstra que contêm em si, --(ainda que não todavia em suas características organização ou processo)--, os ainda não liberados poderes da Mente e Vida.

A Vida então se revela como essencialmente a mesma por toda parte, desde o átomo até o homem; o átomo contendo o material e o movimento subconscientes do ser que se liberam na consciência no animal, com a vida vegetal em uma etapa intermediária da evolução. A Vida é realmente uma operação universal da Força-Consciente que atua subconscientemente sobre e na Matéria; é a operação que cria, mantêm, destrói e recria formas ou corpos, e procura, --(mediante o jogo da força-nervosa, é dizer, mediante correntes de intercâmbio de estimulante energia)--, despertar a sensação consciente nesses corpos. Nessa operação há três etapas; a inferior é aquela na que a vibração está ainda no sonho da Matéria, inteiramente subconsciente de modo que parece totalmente mecânica; a etapa média é aquela na que chega a ser capaz de uma resposta todavia submental mas na borda do que conhecemos como consciência; a superior é aquela na que a vida desenvolve a mentalidade consciente em forma de sensação mentalmente perceptível que nesta transição chega a ser a base do desenvolvimento do sentido-mente e da inteligência. É na etapa média onde captamos a idéia da Vida como distinta da Matéria e a Mente, mas em realidade é a mesma em todas as etapas e sempre um termo médio entre Mente e Matéria, um termo constituinte na última e instintivo na primeira. É uma ope­ração da Força-Consciente que não é a mera formação de substância nem a operação da mente com substância e forma como seu objeto de apreensão; é muito mais um desenvolvimento-energético do ser consciente que é causa e suporte da formação de substância, e fonte intermediária e suporte da apreensão mental consciente. A Vida, com este intermediário desenvolvimento-energético do ser consciente, põe em ação e reação sensitivas uma forma de força criadora da existência que esteve trabalhando subconscientemente ou inconscien­temente, absorta em sua própria substância; sustenta e libera na ação, a apreensiva consciência da existência chamada mente e lhe dá uma dinâmica instrumentação de modo que pode trabalhar no sólo em suas próprias formas senão também nas formas da vida e a ma­téria; conecta também, e sustenta, como termo médio entre elas, o mútuo comércio de ambas, de mente e matéria. Com este meio de comércio a Vida provê nas contínuas correntes de sua pulsante nervo­-energia levando força da forma como uma sensação para modificar a Mente, e trazer de volta força da Mente como vontade de modificar a Matéria. Portanto, esta nervo-energia é o que queremos representar usualmente quando falamos de Vida; é o Prana ou força-Vital do sistema indiano. Mas nervo-energia é só a forma que toma no ser animal; a mesma energia Prânica está presente em todas as formas até chegar ao átomo, dado que por toda parte é a mesma em essência e por toda parte é a mesma operação da Força-Consciente, —(Força que sustenta e modifica a existência substancial de suas próprias formas, Força com sentido e mente secre­tamente ativos mas, em princípio, envolvidos na forma e prepa­rando-se para emergir até finalmente fazê-lo desde seu envolvimento)--. Este é o significado completo da Vida onipresente que há manifestado e habita o universo material.



[1] II, 3

[2] Kavir manísí paribhúh svayambhúr yáthátathyato rthán vyadadhát sásvatíbhyah samábyah. – Isha Upanishad, Versículo 8.

[3] Estas considerações extraídas de recentes investigações científicas, expõem-se aqui a titulo de ilustração e não de prova da natureza e processo da Vida na Matéria tal como se desenvolve-se aqui. A ciência e a metafísica (fundadas na pura especulação intelectual ou, como na Índia, em última instância em uma visão espiritual das coisas e a expe­riência espiritual) tem cada uma sua própria circunscrição e método de in­vestigação. A ciência não pode ditar suas conclusões à metafísica assim como a metafísica não pode impor suas conclusões à ciência. Contudo, se aceitamos a racional crença de que o Ser e a Natureza em todos seus estados têm um sistema de correspondências que expressa uma subja­cente Verdade comum a eles, é permissível supor que as verdades do universo físico podem alojar alguma luz sobre a Natureza, igualmente que o processo da Força que está ativa no Universo, --não uma luz completa, pois a ciência física é neces­sariamente incompleta enquanto ao alcance de sua Investigação e não tem a chave dos ocultos movimentos da Força--.

[4] Nascimento, crescimento e morte da vida são em seu aspecto ex­terno o mesmo processo de agregação, formação e desintegração, ainda que mais que isso em seu processo e significado interiores. Inclusive a animação do corpo pelo ser psíquico segue, se o critério oculto das coisas é co­rreto, um similar processo externo, pois a alma como núcleo dá nascimento e agrega os elementos de suas envolturas mental, vital e física, e seus conteúdos, aumentam estas formações na vida, e ao partir deixa cair e separa outra vez estes agregados, guardando para si seus poderes interiores, até que, no renascimento, repete o processo original.

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Capítulo XX

MORTE, DESEJO E INCAPACIDADE

No princípio, tudo estava coberto pela Fome que é a Morte; a Mente fez isso por ela mesma de modo que pudesse alcançar a possessão do ser-em-si.

Brihadaranyaka Upanishad[1][1]

Este é o Poder descoberto pelo mortal que tem a mul­tidão de seus desejos de modo tal que possa sustentar todas as coisas; prova o sabor de todos os alimentos e constrói uma casa para o ser.

Rig Veda[2][2]

Em nosso último capítulo consideramos a Vida desde o ponto de vista da existência material, e a aparência e atividade do princípio vital na Matéria, e temos raciocinado partindo dos dados que oferece esta evolutiva existência terrestre. Mas é evidente que donde queira e possa aparecer e como queira e possa trabalhar, sob qualquer condição, o princípio geral deve ser o mesmo por toda parte. A Vida é a Força universal que trabalha de tal modo para criar, dinamizar, manter e modificar, inclusive até o ponto de dissolver e reconstruir as formas substanciais com o jogo e intercâmbio mútuos de uma energia aberta ou secretamente consciente como seu caráter fundamental. No mundo material que habitamos a Mente está envolvida e subconsciente na Vida, assim como a Supramente está en­volvida e subconsciente na Mente, e este instinto Vital com uma envolta Mente subconsciente está, a sua vez, envolvido na Matéria. Por lo tanto, a Matéria é aqui a base e o princípio aparente; na linguagem dos Upanishads, Prithivi, o princípio-Terra, é nosso fundamento. O universo material parte do átomo formal sobrecar­regado de energia, imbuído da não formada matéria de um sub­consciente desejo, vontade e inteligência. A partir desta Matéria aparente a Vida se manifesta, e libera a partir de si mesma, por meio do corpo vivente, Mente que contêm aprisionada dentro dela; a Mente, assim mesmo, todavia há de liberar a partir de si, a Supramente oculta em suas atividades. Mas podemos conceber um mundo constituído de outro modo, no que a Mente não esteja envolvida o princípio senão que use conscientemente sua inata energia para criar originais formas de substância e que não seja, como aqui, só subconsciente ao começo. Ainda que a atividade de um mundo assim seria muito diferente do nosso, o veículo intermediário da operação dessa energia seria sempre a Vida. A coisa em si seria a mesma inclusive se o processo fora inteiramente invertido.

Mais então mostra-nos de imediato que assim como a Mente é só uma operação final da Supramente, de igual maneira a Vida é só uma operação final da Consciência-Força da qual a Real-Idéia é a forma determinativa e a agente criadora. A Consciência que é Força, é a natureza do Ser e este Ser consciente, manifestado como um criador Conhecimento-Vontade, é a Real-Idéia ou Supramente. O Conhecimento-Vontade supramental é a Consciência-Força que se faz operativa para a criação de formas do ser unido em uma ordenada harmonia a que damos o nome de mundo ou universo; dessa maneira também a Mente e a Vida são a mesma Consciência-Força, o mesmo Conhecimento-Vontade, mas operando para a manutenção de formas distintamente individuais em uma sorte de demarcação, oposição e intercâmbio nos que a alma, em cada forma de ser, estrutura sua vida e mente próprias como se estivessem separadas dos demais, ainda que de fato nunca estão separadas senão que são o jogo da única Alma, Mente, Vida em diferentes formas de sua singular realidade. Em outras palavras, assim como a Mente é a individualizadora opera­ção final da todo-compreensiva todo-apreendente Supramente, é dizer, o processo pelo que sua consciência atua individualizada em cada forma desde o ponto básico próprio dela e com as relações cósmicas que procedem desde esse ponto básico, de igual maneira a Vida é a opera­ção final pela que a Força do Ser-Consciente, atuando através da onipossessora e oni-criadora Vontade da Supramente universal, mantêm e infunde energia, constitui e reconstitui formas individuais, e atua nelas como a base de todas as atividades da alma assim encarnada. A vida é a energia do Divino gerando-se continuamente nas formas como em um dínamo e não só jogando com a resultante bateria de seus impactos nas circundantes formas de coisas senão também, a sua vez, recebendo ela mesma os impactos procedentes de toda vida ao redor na medida em que se propaguem e penetram a forma desde o exterior, desde o universo circundante.

Nesta visão, a Vida se apresenta como forma de energia da consciência intermedáriária e apropriada à ação da Mente na Matéria; em um sentido, pode dizer-se que é um enérgico aspecto da Mente quando cria e se relaciona não já só a idéias senão a moções de força e a formas de substância. Mas imediatamente deve acrescentar-se que assim como a Mente não é uma entidade separada, senão que tem toda a Supramente detrás e é a Supramente a que cria com a Mente só como sua individualizadora operação final, de igual modo a Vida tão pouco é uma entidade ou movimento separados, pois tem toda a Consciência-Força detrás dela em todas suas atividades e essa é a única Consciência-Força que existe e atua nas coisas criadas. A Vida é só sua final operação intermediária entre a Mente e o Corpo. Tudo o que dizemos da Vida deve, portanto, ajustar-se às qualificações que se suscitam desta dependência. Em realidade não conhecemos a Vida em sua natureza nem em seu processo a menos que e até que sejamos conscientes e cresçamos conscientes dessa Força-Consciente que atua nela, da qual é só o aspecto e instrumentalidade externos. Então só podemos perceber e executar com conhecimento, --(como alma-formas individuais e instrumentos corporais e mentais do Divino)--, a vontade de Deus na Vida; só então a Vida e a Mente podem seguir caminhos e movimentos de uma sempre-em-aumen­to da retidão da verdade em nós e nas coisas, mediante uma constante diminuição das tortuosas perversões da Ignorância. Assim como a Mente há de unir-se conscientemente com a Supramente da que está separada pela ação de Avidya, de igual modo a Vida há de chegar a ser consciente da Força-Consciente que opera nela para seus fins e com um significado do qual a vida em nós, devido a que está absorvida no mero processo de viver como nossa mente está absorvida no mero processo de mentalizar a vida e a matéria, está inconsciente em sua obscurecida ação de modo que as serve cega e ignorantemente e não, como deve ser e será em sua liberação e realização, luminosamente ou com um auto-realizador Conhecimento, poder e bem-aventurança.

De fato, nossa vida, devido a que está submetida à obscu­recida e divisora operação da Mente, ela mesma está obscurecida e dividida, e padece toda essa sujeição a morte, limitação, debi­lidade, sofrimento e funcionamento ignorante, dos quais a limi­tada e restringida Mente-criatura é progenitora e causa. A fonte original da perversão foi, já temos visto, a auto-limitação da alma individual atada à auto-ignorância devido a que se considera, mediante uma exclusiva concentração, como auto-existente indivi­dualidade separada e considera toda a ação cósmica só como se apresenta ante sua própria consciência individual, conhecimento, vontade, força, desfrute e ser limitado em lugar de ver-se como forma consciente do Uno e abarcar toda consciência, todo conhecimento, toda vontade, toda força, todo desfrute e todo ser como um só com o seu próprio. A vida universal em nós, obedecendo esta diretiva da alma cativa na mente, chega a ser aprisionada em uma ação individual. Existe e atua como uma vida separada com uma insuficiente capacidade limitada que sofre e não abraça livremente o impacto e a pressão de toda a vida cósmica que a rodeia. Lançada dentro do constante intercâmbio cósmico de Força no universo como uma exis­tência pobre, limitada e individual, a Vida sofre ao princípio des­amparadamente e obedece ao gigantesco intercâmbio com só uma mecânica reação para todo aquele pelo que é atacada, devorada, desfrutada, usada, conduzida. Mas tão pronto se desenvolve a consciência, tão pronto a luz de seu próprio ser emerge da inerte obscuridade do sono involu­tivo, a existência individual chega a ser debilmente consciente do poder que há nela e busca, primeiro nervosamente e logo men­talmente, dominar, usar e desfrutar o jogo. Este despertar ao Poder nela é o gradual despertar ao ser (eu). Pois a Vida é Força e a Força é Poder e o Poder é Vontade e a Vontade é a atividade da Consciência-Mestra. a Vida no indivíduo chega a ser cada vez mais e mais consciente em suas profundidades de que ela também é a Vontade-Força de Satchitananda que é dono do universo e ela aspira a ser indi­vidualmente da de seu próprio mundo. Realizar seu próprio poder e dominar ao igual que conhecer seu mundo é, portanto, o crescente impulso de toda vida individual; esse impulso é uma característica essencial da crescente auto-manifestação do Divino na exis­tência cósmica.

Mais ainda que a Vida é Poder e o crescimento da vida indivi­dual significa ou crescimento do Poder individual, todavia ou mero fato de seu ser, uma dividida individualizada vida e força, lhe impede chegar a ser realmente dona de seu mundo. Pois isso significaria ser dona da Todo-Força, e é impossível para uma consciência dividida e individualizada com um dividido, individualizado e, por tanto, limi­tado poder e vontade, ser dona da Todo-Força; só a Todo-­Vontade pode ser isso e o indivíduo só pode sê mediante e o a alcance de chegar a ser novamente um com a Todo-Vontade e, por lo tanto, com a Todo-Força. De outro modo, a vida individual na forma individual deve sempre estar sujeita aos três distintivos de sua limitação: Morte, Desejo e Incapacidade.

A morte é imposta à vida individual pelas condições de sua própria existência e por suas relações com a Todo-Força que se manifesta no universo. Pois a vida individual é um jogo particular de energia especializada em constituir, manter, dinamizar e finalmente dissolver, quando termina sua utilidade, uma das miríades de for­mas, às quais todas servem, cada uma em seu próprio lugar, tempo e âmbito, ao jogo total do universo. A energia da vida no corpo há de suportar o ataque das energias externas a ela no universo; há de atraí-las, alimentá-las e a sua vez ser constantemente devorada por elas. Toda a Matéria, segundo o Upanishad, é alimento, e esta é a fórmula do mundo material: "o comedor comendo é por sua vez comido”. A vida organizada no corpo está constante­mente exposta à possibilidade de ser interrompida pelo ataque da vida externa a ela ou, o ser insuficiente sua capacidade de devorar, ou não satisfeita apropriadamente, ou de não mediar o correto equilíbrio entre a capacidade de devorar e a capacidade ou necessidade de prover alimento para a vida exterior, é incapaz de proteger-se, e é devorada ou é incapaz de renovar-se e, por tanto, descartada ou destruída através do processo da morte para uma nova construção ou renovação.

Não só isso senão que, segundo a linguagem do Upanishad, a força­-vital é o alimento do corpo e o corpo o alimento da força-vi­tal; em outras palavras, a energia vital em nós abastece o material pelo que a forma se constrói e constantemente se mantêm e se renova, e ao mesmo tempo usa constantemente a forma substancial de si mesma que dessa forma cria e mantêm na existência. Se o equilí­brio entre estas duas operações é imperfeito ou está perturbado, ou se o ordenado jogo das diferentes correntes de força-vital é arrancado de sua engrenagem, então se apresentam a enfermidade e a decadência, e começa o processo de desintegração. E a luta mesma pelo domínio consciente e inclusive o crescimento da mente torna mais difícil a manutenção da vida. Pois há uma crescente demanda de energia-vital na forma, uma demanda que mente no excesso do sistema original desabastecimento e perturba o equilí­brio original de oferta e demanda, e antes que possa estabelecer-se um novo equilíbrio, se apresentam múltiplas desordens hostis à harmonia e à prolongação da manutenção da vida; além disso, a tentativa de domínio cria sempre uma reação correspondente ao entorno, que está cheio de forças que também desejam realizar-se e, portanto, são intolerantes, se lançam e atacam a existência que procura dominá-las. Ali também se altera um equilíbrio, se gera uma luta mais intensa; ainda que forte a vida dominante, a não ser que seja ilimi­tada ou alcance estabelecer uma nova harmonia com seu entorno, não pode sempre resistir e triunfar, pois deve um dia ser vencida e desintegrada.

Mas, à parte de todas estas necessidades, existe a fundamental necessidade da natureza e objeto da corporizada vida mesma, que consiste em buscar a experiência infinita sobre uma base finita; e dada a forma, --(a base por sua mesma organização limita a possi­bilidade da experiência)--, isto só pode fazer-se dissolvendo-a e bus­cando novas formas. Pois a alma, havendo-se limitado uma vez mediante a concentração sobre o momento e o campo, é levada a buscar novamente sua infinitude mediante o princípio de sucessão, somando momento a momento e, dessa maneira, armazenando uma experiência-Temporal que ela chama seu passado; nesse Tempo se move através de sucessivos campos, sucessivas experiências ou vidas, sucessivas acumulações de conhecimento, capacidade e desfrute, e tudo isto o retém na memória subconsciente ou supraconsciente como seu fundo de passado adquirido no Tempo. Para este pro­cesso a mudança de forma é essencial, e para o alma envolvida no corpo individual, a mudança de forma significa dissolução do corpo pelo cumprimento da lei e pela compulsão da Todo-vida no universo material, a sua lei de abastecimento e demanda do material da forma, a seu princípio de constante confronto e a luta da vida corporizada para existir em um mundo de mútuo devorar-se. E esta é a Lei da Morte.

Esta é então a necessidade e justificação da Morte, não como negação da Vida, senão como processo da Vida; a morte é necessária porque a eterna mudança da forma é a única imor­talidade à que a finita substância vivente pode aspirar e o eterno cambio da experiência a única infinitude que a alma finita, envolvida no corpo vivente, pode alcançar. Esta mutação da forma não pode admitir-se que seja mera renovação constante da mesma forma-típica como a que constitui nossa vida corporal entre o nascimento e a morte; pois a menos que a forma-típica se modifique e a mente experienciadora seja projetada dentro de novas formas em novas circunstâncias de tempo, lugar e entorno, não pode efetuar-se a necessária variação da experiência que exige a natureza mesma da existência no Tempo e Es­paço. E é sol o processo da Morte por dissolução em que a vida é devorada pela Vida, é só a ausência de liberdade, a compulsão, a luta, a dor, a sujeição a algo que parece consistir em Não-Ser, o que faz que esta necessária e saudável mudança pareça terrível e indesejável para nossa mentalidade mortal. É o sentido de ser devorado, destruído, ou forçado o que constitui o grilhão da Morte, e o que nem se quer a crença na pessoal sobrevivência sobre a morte pode eliminar por completo.

Mas este processo é uma necessidade desse devorar-se mutuamente que vemos que é a lei inicial da Vida na Matéria. A Vida, diz o Upanishad, é Fome que é Morte, e mediante esta Fome que é Morte, asanaya mrtyuh, foi criado o mundo material. Pois a Vida assume aqui como molde a substância material, e a substância material é o Ser infinitamente dividido e procurando infinitamente agregar-se; entre estes dois impulsos de infinita divisão e agregação infinita, está constituída a existência material do universo. A tentativa do indivíduo, do átomo vivente, de manter-se e alargar-se é o sentido total do Desejo; um físico, vital, moral e mental aumento mediante uma cada vez maior expe­riência todo-abarcante, uma cada vez maior todo-abarcante possessão, absorção, assimilação e desfrute, é o inevitável, fundamental e indestrutível impulso da Existência, uma vez dividida e individualizada com tudo sempre secretamente consciente de sua todo- abarcante e todo-­possuidora infinitude. O impulso de realizar essa secreta consciência é o esporão do Divino cósmico, o desejo veemente do corporizado Ser-em-si (Eu) dentro de toda criatura individual; e é inevitável, justo e saudável que busque primeiro realizá-lo nos termos da vida mediante um crescente desenvolvimento e expansão. No mundo físico isto só pode fazer-se alimentando o entorno, alargando-se através da absorção de outros ou do que os demais possuem; esta necessidade é a justificação universal da Fome em todas as suas formas. O que devora deve assim mesmo ser devorado; pois a lei de intercâmbio, de ação e reação, de limitada capacidade e, portanto, de extinguir-se e sucumbir finalmente, governa toda a vida do mundo físico.

E na mente consciente o que todavia era só fome vital na vida subconsciente, se transforma em formas superiores; a fome nas partes vitais se converte em anseio de Desejo na vida mentalizada, em tensão da Vontade na vida intelec­tual ou pensante. Este movimento do desejo deve continuar até que o indivíduo tenha crescido o suficiente como para que possa, finalmente, ser dono de si mesmo e, mediante crescente união com o Infinito, possuidor de seu universo. O Desejo é a palanca mediante ao qual o divino princípio-Vital, efectua seu objetivo de auto-afirmação no universo e a tentativa de extingui-lo em prol da inércia é uma negação do divino princípio-Vital, um Querer-não-ser que necessa­riamente é ignorância; pois alguém não pode deixar de ser individualmente exceto para ser infinitamente. O Desejo também só pode cessar corretamente, convertendo-se em desejo do infinito e satisfazendo-se com um alcance celestial e uma satisfação infinita na todo-possuidora bem-aventurança do Infinito. Enquanto tanto há de progredir desde o tipo de uma mutuamente devoradora fome até o tipo de doador mútuo, de crescentemente jubiloso sacrifício de intercâmbio; -(o indivíduo se brinda aos outros indivíduos e os recebe em intercâmbio; o inferior se entrega ao superior e o superior ao inferior de modo que se realizem um no outro; o humano se entrega ao Divino e o Divino ao humano; o Todo no indivíduo se entrega ao todo no universo e recebe sua realizada universalidade como uma recompensa divina)--. Assim a lei da Fome deve dar lugar pro­gressivamente á lei do Amor; a lei da Divisão à lei da Unidade; a lei da Morte à lei da Imortalidade. Essa é a necessidade, essa é la justificação, essa a culminação e auto­-realização do Desejo que está atuando no universo.

E esta máscara da Morte que assume a Vida é produto do movimento da busca finita em prol da afirmação de sua imortalidade, de modo que o Desejo é o impulso da Força do Ser individualizado na Vida para afirmar progressivamente nos termos da sucessão do Tempo e da auto-extensão no Espaço, na estrutura do finito, sua Bem-aventurança infinita, a Ananda de Satchitananda. A máscara do Desejo que esse impulso assume provêm diretamente do terceiro fenômeno da Vida, sua lei de incapacidade. A Vida é uma Força infinita que trabalha nos termos do finito; inevitavelmente, através de sua aberta ação individualizada no finito, sua onipotência deve aparecer e atuar como uma capacidade limitada e uma parcial impotência, ainda que detrás de todo ato do indivíduo, por mais débil que seja, por mais fútil que seja, por mais titubeante que seja, deve estar a total presença supraconsciente e subconsciente da infinita Força onipotente; sem essa presença detrás dela, não pode produzir-se o menor movimento singular no cosmos; em sua soma de ação universal cada singular ato e movimento se desprende do mandato da onis­ciência onipotente que trabalha como a Supramente inerente às coisas. Mas a individualizada força-vital está limitada a sua própria consciência e plena de incapacidade; pois há de trabalhar não só contra a massa de outras circundantes forças-vitais individualizadas, senão também submeter-se ao controle e negação por parte da Vida infinita com cuja vontade e tendência totais sua própria vontade e tendência podem não coincidir de imediato. Portanto, a limitação da força, o fenômeno da incapacidade é a terceira das três características da Vida individualizada e dividida. Por outra parte, o impulso de auto-alagamento e todo-possessão permanece e de nenhum modo significa medir-se nem limitar-se pelo limite de sua atual força ou capacidade. Daí que, do abismo existente entre o impulso de possuir e a força de possessão, surja o desejo; pois de não haver tal discrepância, se a força sempre pudesse tomar possessão de seu objeto, sempre alcança-se seu fim com segurança, o desejo não chegaria a existir senão só uma calma e auto-possuída Vontade sem anseios tal como é a Vontade do Divino.

Se a força individualizada fôra a energia de uma mente livre da ignorância, não teria lugar tal limitação nem tal necessidade de desejo. Pois uma mente não separada da supramente, uma mente de conhecimento divino conheceria a intenção, âmbito e inevitável resultado de todo ato e não desejaria nem lutaria senão que poria em execução uma assegurada força auto-limitada em ordem ao imediato objetivo á vista. Estendendo-se além do presente, inclusive empreendendo movimentos que não tendem a suceder de imediato, contudo não estaria sujeita ao desejo ou limitação. Pois as falhas do Divino são também atos de sua onisciente onipotência que conhece o tempo e a circunstância corretos para o início, as vicissitudes, os resultados imediatos e finais de todas suas empresas cósmicas. A mente de conhecimento, ao estar em sintonia com a Supramente divina, participaria desta ciência e deste poder todo-determinante. Mas como temos visto, a força­-vital individualizada aqui é uma energia da Mente individuali­zadora e ignorante, Mente que caiu do conhecimento de sua própria Supramente. Portanto, a incapacidade é necessária para suas relações na Vida e inevitável na natureza das coisas; pois a onipotência prática de uma força ignorante inclusive em uma limitada esfera é inconcebível, dado que nessa esfera uma força tal se colocaria contra a atividade da divina e onisciente onipotência e desajustaria a fixada finalidade das coisas, —(uma situa­ção cósmica impossível)--. Portanto, a primeira lei da Vida é a luta das forças limitadas que aumentam sua capacidade mediante essa luta sobre o ímpeto condutor do desejo instintivo ou consciente. Assim como com o desejo, sucede igual com esta contenda; deve elevar-se a uma prova de força mutuamente auxiliadora, uma luta consciente de forças irmãs na que vencedor e vencido, ou melhor, o que influencia pela ação desde cima e o que influencia pela réplica da força desde baixo, devem equanimemente ganhar e crescer. E isto novamente há de converter-se a seu devido tempo, no choque feliz do intercâmbio divino, o vigoroso abraço do Amor substituindo o convulsivo abraço da competição. Contudo, a competição é o princípio necessário e saudável. A Morte, o Desejo e a Competição são a trindade da vida dividida, a tríplice máscara do divino principio-Vital em seu primeiro ensaio de auto-afirmação cósmica.



[1][1] I, 2, 1.

[2][2] V, 7, 6.

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