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PostHeaderIcon - A VIDA DIVINA (SRI AUROBINDO) -- Capitulo del XXI al XXVIII

Capítulo XXI


A ASCENSÃO DA VIDA


Que o caminho da Palavra conduza os deuses para as Águas pelo trabalho da Mente…[1] Oh Chama, tu vais ao oceano do Céu, até os deuses; tu fazes que encontrem-se juntos, os deuses dos planos, as águas que estão no reino da luz por cima do sol e as águas que habitam abaixo[2] .


O Senhor do Deleite conquista o terceiro estado; mantêm e governa unidos a Alma da universalidade; como um falcão, como um milano, toma assento sobre a nave e a eleva, descobridor da Luz, manifesta o quarto estado e tende ao oceano pois é o agitador destas águas [3] .


Três vezes Vishnu andou e manteve seu pé levantado do pó primeiro; três passos deu, o Guardião, o In­vencível, e desde o além sustenta suas leis. Investiga as atividades de Vishnu e contempla de onde manifestou suas leis. Esse é seu passo supremo visto sempre pelos videntes como um olho estendido no céu; que o iluminado, o desperto acende em uma chama resplandescente, inclusive o passo supremo de Vishnu.....[4]

Rig Veda.


Temos visto que assim como a dividida Mente mortal, progenitora da limitação, a ignorância e as dualidades, é só uma obscura figura da supramente, da auto-luminosa Consciência divina em seus primeiros tratos com a aparente negação de si, desde a qual começa nosso cosmos, de igual maneira a Vida, --(na medida que emerge em nosso universo material, uma energia da divisora Mente subconsciente, submergida, aprisionada na Matéria, a Vida como progenitora da morte, a fome e a incapacidade)--, é só uma obscura figura da divina Força supraconsciente cujos termos supremos são imortalidade, deleite satisfeito e onipotência. Esta relação fixa a natureza desse grande processo cósmico do que somos parte; determina os primeiros termos, meios e últimos de nossa evolução. Os primeiros termos da Vida são a divisão, uma subconsciente vontade conduzida-pela-força, que se apresenta não como vontade senão como mudo pressão da energia física, e a impotência de uma sujeição inerte à forças mecânicas que governam o intercâmbio entre a forma e seu entorno. Esta inconsciência e esta cega mas potente ação da Energia são o modelo do universo material tal como o cientista o vê e esta sua visão das coisas se estende e muda por completo as bases da existência; é a consciência da Matéria e o tipo realizado de vida material. Mas intervêm um novo equilíbrio, um novo jogo de termos que aumenta em proporção conforme a Vida se libera desta forma e começa a evoluir para a Mente consciente; pois os termos meios da Vida são morte e devorar-se mutuamente, fome e desejo consciente, o sentido de um espaço e capacidade limitados, e a luta por crescer, expandir, conquistar e possuir. Estes três termos são a base desse estado de evolução que a teoria darwiniana primeiro clarificou para o conhecimento humano. Pois o fenómeno da morte implica em si uma luta por sobreviver, dado que a morte é só o termo negativo no que a Vida se esconde de si e tenta a seu próprio ser positivo para que busca a imortalidade. O fenômeno da fome e o desejo implica uma luta em prol de um estado de satisfação e seguridade, dado que o desejo é só o estímulo pelo que a Vida tenta a seu próprio ser positivo a elevar-se da negação de sua insatisfeita fome até a possessão plena do deleite da existência. O fenômeno da capacidade limitada implica luta em prol da expansão, do domínio e a possessão, --a possessão do eu e a conquista do entorno--, dado que limitação e defeito são só a negação pelo que a Vida tenta a sua próprio ser positivo para que vá em posse da perfeição da qual é eternamente capaz. A luta pela vida não só é luta por sobreviver, também é luta pela possessão e a perfeição, dado que agarrando-se ao entorno em maior ou menor grau, mediante auto-adaptação a ele ou adaptando-o a si mesmo mediante sua aceitação e conciliação ou por sua conquista e câmbio, pode assegurar-se a sobrevivência, e igualmente é certo que só uma perfeição cada vez maior pode assegurar uma continua permanência, uma sobrevivência duradoura. Esta é a verdade que o darwinismo procurou expressar com a fórmula da sobrevivência dos mais aptos.

Mas assim como a mente científica procuro estender a Vida o princípio mecânico apropriado à existência e ocultou a consciência mecânica na Matéria, sem ver que havia ingressado um novo princípio cuja razão mesma de ser é submeter a si mesmo o mecânico, de igual maneira a fórmula darwiniana foi usada para estender com demasiada amplitude o princípio agressivo da Vida, o egoísmo vital do indivíduo, o instinto e processo de auto-preservação, auto-afirmação e vida agressiva. Pois estes dois primeiros estados da Vida contêm em si mesmos as sementes de um novo princípio e de outro estado que deve crescer em proporção a como la Mente evoluciona a partir de la matéria através da fórmula vital dentro de sua própria lei. E estas coisas devem mudar mas todavia quando assim como a Vida evolui para cima em posse da Mente, de igual maneira a Mente evolui para cima em posse da Supramente ou Espírito. Precisamente porque a luta pela sobrevivência, o impulso em posse da permanência, está contraposto pela lei da morte, a vida individual está compelida, e usada, para assegurar a permanência muito mais para sua espécie que para si mesma; mas isto não pode fazer-se sem a cooperação dos demais; e o princípio de cooperação e mútua ajuda, o desejo dos demais, o desejo da esposa, do filho, do amigo e auxiliador, do grupo associado, da prática de associação, da união e intercâmbio conscientes são as sementes à partir das quais floresce o princípio do amor. Admitamos que o amor seja a princípio só um estendido egoísmo e que este aspecto de estendido egoísmo persista e domine, como ainda persiste e domina nas etapas superiores da evolução: com tudo, na medida em que a mente evolui e se descobre cada vez mais, chega pela experiência da vida, do amor e da mútua ajuda a perceber que o indivíduo natural é um termo menor do ser e existe pelo universal. Uma vez que se descobre isto —como des­cobre inevitavelmente o homem ao ser mental— seu destino está determinado; pois alcançou o ponto em que a Mente pode começar a abrir-se à verdade de que há algo além dela; desde esse momento sua evolução, ainda que obscura e lenta, em posse desse algo superior, em posse do Espírito, em posse da supramente, em posse do super-homem, está inevitavelmente pré-determinada.

Portanto, a Vida está pré-destinada por sua própria natureza a um terceiro estado, um terceiro jogo de termos de sua auto-expressão. Se examinamos esta ascensão da Vida veremos que os últimos ter mos de sua evolução real, os termos do que temos chamado seu terceiro estado, devem necessariamente ser, em aparência, a precisa contradição e oposto, ainda que de fato sejam a precisa realização e transfiguração de suas primeiras condições. A Vida começa com as extremas divisões e rigorosas formas da Matéria, e desta rigorosa divisão, o átomo, que é a base de toda forma material, é o modelo preciso. O átomo está à parte de todos os demais inclusive em sua união com eles, rejeita a morte e a dissolução sob qualquer força ordinária e é o modelo físico do ego separado que define sua existência contra o princípio da fusão na Natureza. Mas a unidade é tão forte princípio na Natureza como a divisão; é certamente o princípio mestre do que a divisão é só um termo subordinado, e para o princípio da unidade toda forma dividida deve, portanto, subordinar-se, de um modo ou outro, por necessidade mecânica, por compulsão, por assentimento ou por indução. Portanto, se a Natureza para seus próprios fins, a fim de ter principalmente uma base firme para suas combinações e uma fixada semente das formas, permite ao átomo resistir ordinariamente o processo de fusão por dissolução, ela o compele a submeter-se ao processo de fusão por agregação; o átomo, ao ser o agregado primeiro, é também a base primeira das unidades agregadas.

Quando a Vida alcança seu segundo estado, o que reconhecemos como vitalidade, toma a dianteira o fenômeno contrário e a base física do ego vital é obrigada a consentir a dissolução. Seus componentes são desagregados de modo que os elementos de uma vida podem usar-se para entrar na formação elemental de outras vidas. A extensão na qual reina esta lei na Natureza não há sido ainda plenamente reconhecida e certamente não pode sê-lo até que tenhamos uma ciência da vida mental e da existência espiritual tão sólida como nossa atual ciência da vida física e da existência da Matéria. Com tudo podemos ver amplamente que não só os elementos de nosso corpo físico, senão também os de nosso mais sutil ser vital, de nossa energia-vital, de nosso desejo-energia, de nossos poderes, desejos e paixões, entram durante nossa vida e depois de nossa morte na existência-vital dos demais. Um antigo conhecimento oculto nos diz que temos tanto uma estrutura vital como física e esta também é dissolvida após a morte e se presta para a constituição de outros corpos vitais; nossas energias vitais, enquanto vivemos, se misturam continua mente com as energias de outros seres. Uma lei parecida governa as relações mutuas de nossa vida mental com a vida mental de outras criaturas pensantes. Há uma constante dissolução e dispersão, e uma reconstrução efetuada pelo choque de mente sobre mente com um constante intercâmbio e fusão de elementos. Intercâmbio, intercalados e fusão de ser com ser, é o processo mesmo da vida, uma lei de sua existência.

Temos então dos princípios na Vida: a necessidade ou a vontade do ego separado de sobreviver em sua distinção e conservar sua identidade, e a compulsão imposta pela Natureza de fundir-se com os demais. No mundo físico ela faz grande ênfase sobre o primeiro impulso; pois necessita criar estáveis formas separa das, dado que seu primeiro e realmente seu mais difícil problema consiste em criar e manter para ela qualquer coisa dessa índole como separativa sobrevivência de individualidade e uma forma estável para ele no incessante fluxo e movimento da Energia e na unidade do infinito. Portanto, na vida atômica, a forma individual persiste como a base e assegura, mediante sua agregação com outros, a existência mais ou menos prolongada das formas agregadas que serão a base de individualizações vitais e mentais. Mas tão pronto a Natureza assegurou suficiente firmeza a este respeito para o seguro manejo de suas últimas operações, inverte o processo; a forma individual perece e a vida agregada se beneficia com os elementos da forma que se dissolve dessa maneira. No entanto, esta não pode ser a última etapa; essa só pode alcançar-se quando se harmonizem os dois princípios, quando o indivíduo possa persistir na consciência de sua individualidade e com tudo fundir-se com os demais sem alteração do preservador equilíbrio nem interrupção da sobrevivência.

Os termos do problema pressupõe, o pleno emergir da Mente; pois na vitalidade sem mente consciente não pode haver equação, senão só um temporal equilíbrio instável que culmina na morte do corpo, a dissolução do indivíduo e a dispersão de seus elementos na universalidade. A natureza da Vida física proíbe a idéia de uma forma individual que possua o mesmo poder inerente de persistência e, portanto, de continuada existência individual como os átomos de que está composta. Só um ser mental, sustentado pelo nó psíquico dentro do qual se expressa ou começa a expressar a alma secreta, pode esperançosamente persistir mediante seu poder de vincular o passado ao futuro em uma corrente de continuidade que a desagregação da forma pode quebrar na memória física sem necessidade de que se rompa no ser mental e que, inclusive mediante um eventual desenvolvimento, pode estender uma ponte sobre a brecha da memória física, criada pela morte e o nascimento do corpo. Tal como é, no imperfeito desenvolvimento atual da mente corporizada, o ser mental é consciente na massa de um passado e um futuro que se estendem além da vida do corpo; toma consciência de um passado individual, de vidas individuais que criaram a sua e das quais ele é um desenvolvimento e modificada reprodução e de futuras vidas individuais que ele cria à partir de si; é consciente também de uma agregada vida passada e futura através da qual sua própria continuidade corre como uma de suas fibras. Isto que é evidente para a ciência física nos termos da herança, chega a ser de outro modo evidente para a alma em evolução detrás do ser mental nos termos da personalidade persistente. O ser mental que expressa esta alma-consciência é, portanto, o nó do indivíduo persistente e da persistente vida agregada com outros indivíduos; nele sua união e harmonia se tornam possíveis.

A associação com o amor como seu princípio secreto e seu emergente cume é o modelo, o poder desta nova relação e, portanto, o princípio condutor do desenvolvimento no terceiro estado da vida. A preservação consciente da individualidade junto com a conscientemente aceitada necessidade e desejo de intercâmbio, auto-entrega e fusão com outros indivíduos, é necessária para o funcionamento do princípio do amor; pois se fica abolida, a atividade do amor cessa, qualquer que seja o lugar que tome. A realização do amor por inteira auto-imolação, inclusive com uma ilusão de auto-aniquilação, é, por certo, uma idéia e um impulso no ser mental, mas aponta a um desenvolvimento além deste terceiro estado da Vida. Este terceiro estado é uma condição na que progressivamente nos ele vamos além da luta pela vida consistente em devorar-se mutuamente e na sobrevivência dos mais aptos para essa luta; pois cada vez há mais sobrevivência por mútua ajuda e auto-aperfeiçoamento me diante adaptação mútua, intercâmbio e fusão. A Vida é auto-afirmação de ser, inclusive desenvolvimento e sobrevivência do ego, mais de um ser que necessita de outros seres, um ego que procura encontrar e incluir outros egos e ser incluído na vida destes. Os indivíduos e os agregados (grupos de indivíduos), que desenvolvem primordialmente a lei de associação e a lei de amor, de ajuda comum, bondade, afeto, camaradagem, unidade, que harmonizam mais exitosamente a sobrevivência e mútua auto-entrega, o grupo que aumentam indivíduo e vice-versa, e o indivíduo que aumenta o individuo e o grupo que faz o próprio com outro grupo, mediante intercâmbio mútuo, serão os mais aptos para a sobrevivência neste estado terciário da evolução.

Este desenvolvimento é significativo do muito crescente predomínio da Mente[5] que progressivamente impõe seu própria lei cada vez mais sobre a existência material. Pois a mente por sua maior sutileza não necessita devorar para assimilar, possuir e crescer; quanto mais da, mais recebe e cresce; e quanto mais se funde nos demais, estes mais se fundem nela, incrementando assim o âmbito de sua ser. A vida física se esvazia quando dá demasiado e se arruína quando devora demasiado; mas ainda que a Mente em proporção a como se inclina sobre a lei da Matéria sofre a mesma limitação, com tudo, no outro lado, em proporção a como cresce em sua própria lei, tende a vencer esta limitada, e em proporção a como vence a limitação material, dando e recebendo, chega a ser uma só. Pois em sua ascensão cresce em posse da regra de unidade consciente na diferenciação que é a lei divina do manifesto Satchitananda.

O segundo termo do estado original da vida é a vontade subconsciente que no estado secundário se converte em fome e desejo consciente, —fome e desejo, a primeira semente da mente consciente--. O crescimento dentro do terceiro estado da vida pelo princípio de associação, o crescimento do amor, não deixa sem efeito a lei do desejo, senão que mais a transforma e realiza. O amor é em sua natureza o desejo de dar-se aos demais e receber aos demais em intercâmbio; é comércio entre ser e ser: A vida física não deseja dar-se, só deseja receber. É certo que está compelida a dar-se, pois a vida que só recebe e não dá deve tornar-se estéril, murchar e perecer, —(se é que essa classe de vida é possível aqui ou em qualquer mundo)--; mas está compelida, sem querê-lo, e obedece ao impulso subconsciente da Natureza (Força Consciente criadora dos mundos) sem participar consciente mente nele. Inclusive quando o amor intervêm, ao princípio a auto -entrega todavia conserva em alto grau o caráter mecânico da vontade subconsciente no átomo. O amor mesmo a princípio obedece à lei da fome e desfruta o receber e retirar dos outros, mais que o dar-se e render-se aos demais, que admite principalmente como preço necessário para obter a coisa que deseja. Mas aqui não chegou ainda a sua verdadeira natureza; sua verdadeira lei é estabelecer um comércio igual em que o de dar- se é iguala ao receber e armazenar, ao fim, a converter-se em ainda maior; mas isso ocorre quando se lança além de si mesmo, na pressão da chama física para alcançar a realização da completa unidade e, portanto, devem realizar aqueles que pareciam tão distintos, aquele que lhe pareceu (não-eu) como um ser (eu) maior e querido que sua própria individualidade. Em sua origem-vital, a lei do amor é o impulso de realizar-se e alcançados a si mesmo nos demais e pelos demais, de enriquecer-se enriquecendo, de possuir r ser possuído pois sem ser possuído não se possui a si mesmo por completo.

A incapacidade inerte da existência atômica de possuir-se, a sujeição do indivíduo material ao (não-eu), pertence ao primeiro estado da vida. A consciência da limitação e a luta por possuir, por dominar o ser (eu) e aos demais (não-eu), é o modelo do estado secundário. Aqui também o desenvolvimento até o terceiro estado traz uma transformação dos termos originais dentro de uma realização e uma harmonia que repete os termos enquanto aparentemente os contradiz. Advêm, através da associação e do amor um reconhecimento dos demais (não-eu) como ser (eu) maior e, portanto, uma submissão conscientemente aceitada a sua lei e necessidade que realiza o crescente impulso da vida de grupo a absorver o indivíduo; e há uma possessão novamente, por parte do indivíduo, da vida dos demais como a sua própria e de tudo o que há de dar-se-lhe como seu próprio, que realiza o impulso oposto da possessão individual. Esta relação de mutualidade entre o indivíduo e o mundo em que vive não pode expressar-se, completar-se nem assegurar-se a menos que se estabeleça a mesma relação entre indivíduo e indivíduo e entre grupo e grupo. Tudo o difícil esforço do homem em prol da harmonização da auto- afirmação e da liberdade, pela que se possui a si mesmo, com a associação e amor, fraternidade, camaradagem, nas que se entrega aos demais, --(seus ideais de harmonioso equilíbrio, justiça, mutualidade, igualdade pelo que cria um equilíbrio dos dois opostos)--, são em realidade uma tentativa inevitavelemente Pré-determinado em seus lineamentos para resolver o problema original da Natureza, o problema da Vida mesma, mediante a resolução do conflito entre os dois opostos que se apresentam nos fundamentos mesmos da Vida na Matéria. a resolução é tentada pelo princípio superior da Mente que só pode achar o caminho para a harmonia buscada, ainda que a harmonia mesma só possa achar-se em um Poder todavia além de nós.

Pois, se os dados com que temos partido são corretos, o fim do caminho, a meta mesma só pode ser alcançada pela Mente indo além de Si mesma dentro disso que está além da Mente, dado que de Isso (a Mente) é só um termo inferior e um instrumento primeiramente para o descenso na forma e a individualidade, e secundariamente para o reascensão à realidade que a forma corporizada e a individualidade representam. Portanto, a solução perfeita do problema da Vida não é possível realizá-la por associação, intercâmbio nem conveniências só do amor ou através da lei da mente e do coração . Deve chegar por um quarto estado da vida no que a eterna unidade dos muitos se realiza através do espírito e o fundamento consciente de todas as operações da vida não mente mas na divisão do corpo, nem em as paixões e fomes da vitalidade, nem nas agrupadoras e imperfeitas harmonias da mente, nem em una combinação de todos estes, senão na unidade e liberdade do Espírito.


[1] X, 30, 1.

[2] II, 22, 3.

[3] IX, 96, 18, 19.

[4] I. 22. 17-21.

[5] Do que aqui se fala é da mente tal como atua diretamente na vida, no ser vital, através do coração. O amor -o princípio relativo, no seu absoluto-, é um princípio da vida, não da mente, mas pode possuir-se e deslocar-se até a permanência só quando a mente alcança sua própria. O que se chama amor do corpo e partes vitais é, principal mente, uma forma de fome sem permanência

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Capítulo XXII

O PROBLEMA DA VIDA

Isto é o que é chamado a Vida universal.

Taittiriya Upanishad[1]

O Senhor está assentado no coração de todos os seres girando todos os seres montados sobre uma maquinaria, mediante sua Maya.

Gita[2]

Quem conhece a Verdade, o Conhecimento, a Infinitude que é Brahman, desfrutará com o todo-sábio Brahman todos os objetos do desejo.

Taittiriya Upanishad[3]

Como temos visto, a Vida é a implementação, sob certas circuns­tâncias cósmicas, de uma Força-Consciente que é em sua própria natureza infinita, absoluta, não-travada, inalienavelmente dona de sua própria unidade e bem-aventurança, a Força-Consciente de Satchitanan­da. A circunstância central deste processo cósmico, --(na medida em que difere em suas aparências da pureza da Existência infi­nita e da auto-possessão da Energia indivisível)--, é a divisora faculdade da Mente obscurecida pela ignorância. Assim resulta que desde esta divi­dida ação, de uma Força não dividida, a aparição de dualidades, oposições, e aparentes negações da natureza de Satchitanan­da que existem como uma duradoura realidade para a mente, mas só como um fenômeno que representa mal uma múltipla Realidade para a divina Consciência cósmica oculta detrás do véu da mente. Daqui que o mundo assuma a aparência de um conflito de opostas verdades, cada uma buscando realizar-se, cada uma com direito a realização, e portanto de uma massa de problemas e mistérios que hão de resolver-se porque detrás de toda esta confusão está a oculta Verdade e Unidade que pressiona para a solução e, mediante a solução para sua própria desvelada manifestação no mundo.

Esta solução a mente há de buscá-la, mais não a mente só; há de ser uma solução na Vida, no ato de ser igualmente na consciência de ser. A Consciência como Força criou o movimento-do-mundo e seus problemas; a Consciência como Força há de resolver os problemas que criou e levar o movimento-do-mundo à inevitável realização de seu sentido secreto e de sua Verdade evolutiva. Mas esta Vida tomou sucessivamente três aparências. A primeira é material, —(uma consciência submergida está oculta em sua superficial ação expressiva e formas representativas da força; pois a consciência mesma desaparece da vista no ato e se perde na forma)--. A segunda é vital, —uma emergente consciência que é semi-aparente como poder da vida e processo do cres­cimento, da atividade e da decadência da forma, que está semi-liberada de sua prisão original, que chegou a ser vibrante no poder, como vital desejo e satisfação ou repulsão, mas ao princípio não totalmente e logo só imperfeitamente vibrante na luz como conhe­cimento de sua própria auto-existência e de seu entorno)-. A terceira é mental, —uma consciência emergida reflete o fato da vida como sentido mental e sensível percepção e idéia, enquanto que como uma nova idéia procura chegar a ser um fato da vida, modifica o interno e trata de modificar satisfatoriamente a existência externa do ser). Aqui, na mente, a consciência se libera de sua prisão no ato e na forma de sua própria força; mas todavia não é dona do ato e da forma porquê emergiu como uma consciência individual e, portanto, é consciente só de um movimento fragmentário de suas próprias atividades totais.

Toda a cruz e dificuldade da vida humana reside ali. O homem é este ser mental, esta consciência mental que atua como força mental, consciente em um sentido da força universal e da vida da qual ele é uma parte mas, devido a que ele não tem conhecimento de sua universalidade nem sequer da totalidade de seu próprio ser, resulta incapaz de encarar seja a vida em geral, seja já sua própria vida em um realmente efetivo e vitorioso movimento de domínio. Busca conhecer a Matéria a fim de ser dono do entorno material, conhecer a Vida a fim de ser dono da existência vital, conhecer a Mente a fim de ser dono do grande movimento obscuro da mentalidade na que ele não é só um jorro de luz da auto-consciência como o animal, senão também cada vez mais uma chama de crescente conhe­cimento. Busca assim conhecer-se para ser dono de si mesmo, conhecer o mundo para ser dono do mundo. Este é o valor da existência nele, a necessidade da Consciência que ele é, o impul­so da Força que é sua vida, a secreta vontade de Satchita­nanda que aparece como o indivíduo em um mundo no que Ele se expressa e contudo parece negar a Si Mesmo. Falar as condições sob as quais se satisfaz este impulso interior é o problema que o homem sempre deve lutar por resolver e ao que está compelido pela natureza mesma de sua própria existência e pela Deidade assentada dentro dele; e até que o problema se resolva e se satisfaça o impulso, a espécie humana não pode des­cansar de seu trabalho. O homem deve realizar-se satisfazendo o Divino dentro dele mesmo ou deve produzir a partir dele mesmo um ser novo e maior que seja mais capaz de satisfazê-lo. Ou melhor, deve chegar a ser uma divina humanidade, ou mais, dar lugar ao Super-homem.

Isto resulta da lógica mesma das coisas porque, --(a não ser a consciência mental do homem a completamente iluminada cons­ciência emergida por inteiro do obscurecimento da Matéria senão só um término progressivo no grande emergir)--, a linha da cria­ção evolutiva na que ele apareceu não pode deter-se donde está agora, senão que deve seguir seja já além de seu próprio estado atual ou seja já além dele como espécie se ele mesmo não tem a força para ir mais adiante. A idéia mental que procura converter-se em fato da vida deve continuar até converter-se na Verdade total da existência, liberando-se de suas sucessivas envolturas, revelada e progressivamente realizada na luz da consciência e gozosamente realizada no poder; pois em e através destes dois termos do poder e da luz, a Existência se manifesta, porque a existência é em sua natureza Cons­ciência e Força; mas o terceiro termo no que estes, seus dois componentes, se encontram, se converte em um só e em última instância se realizam, é o satisfatório Deleite da auto-existência. Para uma vida evolutiva como a nossa, esta inevitável culminação deve necessariamente significar o encontro do ser (Eu) que estava contido na semente de seu próprio nascimento e, com esse auto­-encontro, se completa o labor iniciado à partir das potencialidades depositadas no movimento da Força-Consciente desde que esta vida tomou sua elevação. A potencialidade assim contida em nossa existência humana é Satchitananda realizando-se a Si mesmo em certa harmonia e unifi­cação da vida individual e a universal de modo que a humanidade expressará, em uma consciência comum, em um movimento comum do poder e em um deleite comum, ao Algo transcendente que se plasmou dentro desta forma das coisas.

Toda vida depende para sua natureza do equilíbrio funda­mental de sua própria consciência constituinte; pois assim como é a Con­sciência, assim será a Força. Onde a Consciência é infinita, una, transcendente de seus atos e formas, inclusive quando os abarca e conforma, quando as organiza e executa, como é a consciência de Satchitananda, assim será a Força, infinita em seu alcance, una em suas obras, transcendente em seu poder e auto-conhecimento. Onde a Consciência é como a da Natureza material, --(submergida, auto-esquecida, seguindo o rumo de sua própria Força sem parecer sabê-lo, inclusive ainda que pela natureza mesma da relação eterna entre os dois termos realmente determina o rumo que segue)--, assim será a Força; será um monstruoso movimento do Inerte e Inconscien­te, desconhecedor do que contêm, que parece realizar-se mecanicamente por uma sorte de acidente inexorável, uma inevitavelmente feliz probabilidade, ainda que todo esse tempo em realidade obedeça infalivelmente à lei do Correto e da Verdade fixada a esse efeito mediante a vontade do Celestial Ser-Consciente oculto dentro de seu movimen­to. Onde a Consciência está dividida em si mesma, como na Mente, limitando-se em múltiplos centros, pondo cada um a reali­zar-se sem conhecimento do que sucede nos outros centros e de suas relações com os outros, consciente das coisas e forças em sua aparente divisão e oposição umas com outras mas não em sua real Unidade, tal será a Força: será uma vida como a que somos e vemos a nosso redor; será um choque e entrelaçamento de vidas individuais que buscam cada uma sua própria realização sem conhecer sua relação com os demais, uma conflituosa e difícil adaptação de forças divididas e opos­tas ou diferentes e, na mentalidade, uma mescla, um chocar e lutar, e uma insegura combinação de idéias divididas e opostas ou divergentes que não podem nem chegar ao conhecimento de sua mútua necessidade nem tomar seu lugar como elementos dessa Unidade detrás, a qual está expressando-se através delas e na que devem cessar suas discórdias. Mas donde a Consciência está em possessão da diversidade e da unidade e a última contêm e governa à primeira, donde é consciente simultaneamente da Lei, da Verdade e do Correto do Todo, e da Lei, a Verdade e o Correto do indivíduo e ambos chegam a ser harmonizados conscientemente em uma mútua unidade, donde a na­tureza total da consciência é o Uno que se conhece como os Muitos e os Muitos que se conhecem como o Um, ali a Força também será da mesma natureza: será uma Vida que conscientemente obedece à lei da Unidade e realiza cada coisa na diversidade de acordo a sua regra e função apropriadas; será uma vida na que todos os indivíduos vivam ao mesmo tempo em si mesmos e unido para o outro como um só Ser consciente em muitas almas, um só poder da Consciência em muitas mentes, uma só força atuando em muitas vidas, uma só realidade do Deleite realizando-se em muitos corações e corpos.

A primeira destas quatro posições, a fonte de toda esta progressiva relação entre a Consciência e a Força, é seu equilíbrio no ser de Satchitananda donde são um só; pois ali a Força é consciência do ser estruturando-se sem cessar jamais de ser consciência e a Consciência é analogamente Força luminosa do ser eternamente consciente de si mesma e de seu próprio Deleite, sem cessar jamais de ser este poder de completa luz e auto-possessão. A segunda relação é a da Natureza material; é o equilíbrio do ser no universo material que é a grande negação de Satchi­tananda por parte Dele Mesmo: pois aqui está a aparente sepa­ração completa de Força e Consciência, o enganoso milagre do todo-governante e infalível Inconsciente que é só a máscara, mas que o conhecimento moderno confundiu com o rosto real da Deidade cósmica. A terceira relação é o equilíbrio do ser na Mente e na Vida que vemos emergindo à partir desta ne­gação, perturbada por ela, lutando —(sem possibilidade alguma de cessar por submissão, mas também sem nenhum claro conhecimento nem instinto de uma solução vitoriosa), contra os mil e um problemas que implica esta perplexa aparição do homem, --o semi-potente ser consciente--, à partir da onipotente Inconsciência do universo material. A quarta relação é o equilíbrio do ser na Supramente: é a existência realizada que eventualmente resolverá todo este complexo problema criado pela parcial afirmação que emerge à partir da nega­ção total; e é necessário que se resolva do único modo possível, mediante a completa afirmação que realize tudo o que estava ali secretamente contido na potencialidade e proposto no fato da evolução detrás da máscara da grande negação. Essa é a vida real do Homem real, para a que esta vida parcial e esta parcial humanidade irrealizada tende com O perfeito Conhecimento e guia no denominado Inconsciente dentro de nós, mas em nossas partes conscientes unicamente com uma obscura e pungente previsão, com fragmentos de realização, com vislumbres do ideal, com desejos de revelação e inspiração no poeta e no profeta, no vidente e no que busca transcender, no místico e no pensador, nos grandes intelectos e nas grandes almas da humanidade.

Dos dados que agora temos diante de nós podemos ver que as dificuldades que surgem do imperfeito equilíbrio da Consciência e a Força no homem em seu atual estado da mente e da vida, são principalmente três. Primeira, é consciente só de uma pequena parte de seu ser; sua mentalidade superficial, sua vida superficial, seu físico ser superficial é tudo quanto conhece e disto não conhece tudo; debaixo está a oculta agitação de seu subconsciente e sua subliminal mente, de seus impulsos-vitais sub­conscientes e subliminares, de sua corporeidade subconsciente, toda essa grande parte dele que não conhece nem pode governar, senão que mais conhece-o e governa-o. Pois, ao ser a existência, a consciência e a força são uma só coisa, só podemos ter algum poder real sobre uma parte apreciável de nossa existência se nos identificamos com ela mediante auto-conhecimento; o resto, deve ser governado por sua pró­pria consciência que é subliminal para nossa mente, vida e corpo superficiais. E contudo, ao ser ambos são um só movimento e não dois movimentos separados, a maior e mais potente parte de nós deve governar e determinar na massa a menor menos poderosa; portanto estamos governados pelo subconsciente e o subliminal inclusive em nossa existência consciente, e em nosso auto-domínio e auto-direção só somos instrumentos do que nos parece o Inconsciente dentro de nós.

Isto é o que assinalou a antiga sabedoria quando disse que o homem se imagina como o realizador do trabalho mediante seu livre arbítrio, mas em realidade a Natureza determina todas suas obras e inclusive o sábio está obrigado a seguir sua própria Natureza. Mas dado que a Natureza é a força criadora da consciência do Ser dentro de nós, que está mascarado por Seu próprio movi­mento inverso e aparente negação Dele Mesmo, chamaram, a esse movimento criador inverso de Sua consciência, Maya ou Poder-Ilusão do Senhor e disseram que todas as existências são o girar como sobre uma máquina mediante Sua Maya pelo Senhor que mora no coração de todas as existências. É evidente então que só pelo homem, que de tal modo supera à mente para chegar a ser um no auto-conhecimento com o Senhor, pode chegar a ser dono de seu próprio ser. E dado que isto não é possível na inconsciência nem no subconsciente mesmo, dado que não pode obte­r-se proveito de afundar-nos em nossas profundidades em posse do Inconsciente, é só internando-nos donde o Senhor mora e ascendendo até o que todavia é supra-consciente para nós, até a Supramente, que esta unidade pode estabelecer-se por completo. Pois ali, na Maya superior e divina está o conhecimento consciente em sua lei e verdade, do que trabalha no subconsciente mediante a Maya inferior sob as condições da Negação que busca converter-se em Afirmação. Pois esta Natureza inferior estrutura o que se quer e conhece essa Natureza superior. A Ilusão-Poder do conhecimento divino no mundo, que cria aparências, está governada pela Verdade-Poder do mesmo conhecimento que conhece a verdade detrás das aparências e mantêm finalizada para nós a Afirmação em posse da qual trabalham. O Homem parcial e apa­rente descobrirá aqui o Homem perfeito e real, capaz de um ser inteiramente auto-consciente por sua plena unida com este Auto­-existente que é o senhor onisciente de Sua própria evolução e pro­cissão cósmicas.

A segunda dificuldade é que o homem está separado em sua mente, sua vida, seu corpo, do universal e, portanto, inclusive como não se conhece a si mesmo, é igualmente e ainda mais incapaz de conhecer às criaturas-semelhantes. Mediante inferências, teorias, observações e certa capacidade imperfeita de simpatia, forma uma tosca construção mental a cerca de seus semelhantes; mas isto não é conhecimento. O conheci­miento pode só chegar por meio da identidade consciente, pois isso é o único conhecimento verdadeiro, -a existência cons­ciente de si mesma--. Sabemos o que somos na medida em que temos plena consciência de nós, o resto está oculto; de igual maneira podemos em realidade chegar a conhecer aquilo com o que nós chegamos a ser um em nossa consciência, mas só na medida em que possamos chegar a ser um com ele. Se os me­ios do conhecimento são indiretos e imperfeitos, o conhecimento obtido será também indireto e imperfeito. Capacitar-nos-á para elaborar com uma certa precária torpeza mas todavia bastante perfeitamente desde nosso ponto de vista mental, certos limitados objetivos práticos, necessidades, conveniências, uma certa imperfeita e insegura harmonia de nossas relações com o que conhecemos; mas só mediante uma unidade consciente com ele podemos chegar a uma rela­ção perfeita. Portanto devemos chegar a uma consciente unidade com nossos seres-semelhantes e não meramente à simpatia criada pelo amor ou a compreensão criada pelo conhecimento mental que sempre serão o conhecimento de sua existência superficial e portanto imperfeita em si e sujeita à negação e à frustração pela erupção do desconhecido e não-dominado desde o subconsciente ou o subliminal neles e em nós. Mas esta unidade consciente só pode estabelecer-se ingressando naquilo no que somos um só com eles, o universal; e a plenitude do universal existe conscientemente só no que é supra-consciente para nós, na Supramente: pois aqui em nosso ser normal a maior parte do mesmo é subconsciente e, portanto, não pode possuir-se neste normal equilíbrio de mente, vida e cOrpo. A natureza consciente inferior está escravizada ao ego em todas suas atividades, encadeada triplamente ao poste da individualidade diferenciada. A Supramente só rege a uni­dade na diversidade.

A terceira dificuldade é a divisão entre a força e a cons­ciência na existência evolutiva. Primeiro existe a divisão que foi criada pela evolução mesma em suas três sucessivas formações de Matéria, Vida e Mente, cada uma com sua própria lei de atividade. A Vida está em guerra com o corpo; trata de for­çá-lo a satisfazer os desejos, impulsos, satisfações e demandas vitais desde sua limitada capacidade, que só poderíam ser possíveis para um corpo imortal e divino; e o corpo, escravizado e tiranizado, sofre e está em constante muda revolta contra as demandas que lhe apresenta a Vida. A Mente está em guerra com ambos: às vezes ajuda a Vida contra o Corpo, outras restringe a urgência vital e procura proteger a estrutura corporal dos desejos, paixões e envoltas energias vitais; também busca possuir a Vida e despejar sua energia para os fins da mente, até os máximos deleites da própria atividade mental, para a satisfação de objetivos mentais, estéticos e emocionais, e para sua realização na existência hu­mana; e a Vida também se acha escravizada, equivocadamente empregada e em frequente insurreição contra o ignorante tirano semi-sábio assentado sobre ela. Esta é a guerra de nossos mem­bros que a mente não pode resolver satisfatoriamente pois há de tratar um problema insolúvel para ela, a aspiração de um ser imortal em uma vida e corpo mortais. Pode só chegar a uma larga sucessão de compromissos e concluir em um abandono do pro­blema, seja já como materialista, mediante submissão à mortalidade de nosso ser aparente, ou como o asceta e o fundamentalista religioso, mediante a renúncia e condenação da vida terrena e pelo retiro em posse de mais felizes e cômodos campos da existência. Mas a verda­deira solução reside em encontrar o princípio além da Mente, do qual a Imortalidade é a lei, e em conquistar mediante ela a mortalidade de nossa existência.

Mas existe também esta fundamental divisão interior entre a força da Natureza e o ser consciente que é a causa original desta incapacidade. Ali não só há uma divisão entre ser mental, vital e físico, senão que, a sua vez, cada um deles, está dividido contra si. A capacidade do corpo é menor que a capacidade da alma instintiva ou ser consciente, o Purusha físico dentro dela; a capacitada da força vital é menor que a capacidade da alma impulsiva, o consciente ser vital, Purusha dentro dela; a capacidade da energia mental é menor que a capacidade da alma intelectual e emocional, o Purusha mental dentro dela. Pois a alma é a consciência interior que aspira a sua completa auto-reali­zação e, portanto, sempre excede a formação individual do momento, e a Força que tornou seu equilíbrio na formação é sempre empurrada por sua alma para o que é anormal para o equilíbrio, transcendente dele; empurrada dessa maneira, constante­mente, tem demasiados transtornos para responder, ainda mais para evolu­ir da atual a uma capacidade maior. Ao tratar de satisfazer as demandas desta alma tríplece, se distrai e se deixa levar até colocar instinto contra instinto, impulso contra impulso, emoção contra emoção, idéia contra idéia, satisfazendo isto, negando aquilo, logo arrependendo-se e retornando ao fato, ajustando, compensando, reajustando ad infinitum mas sem chegar a princípio algum de unidade. E na mente novamente o poder-consciente, que há de harmonizar e unir, está não só limitado em seu conheci­mento e em sua vontade, senão que também o conhecimento e a vontade estão separados e muitas vezes em discórdia. O princípio da unidade está acima na supramente; pois só ali a unidade é consciente de todas as diversidades; pois só ali o conhecimento e a vontade são iguais e em perfeita harmonia; só ali a Consciência e a Força alcançam a sua divina equação.

O homem, em proporção a como se desenvolve dentro de um ser auto-consciente e verdadeiramente pensante, chega a ser agudamente consciente de toda esta discórdia e separação em suas partes e busca chegar a uma harmonia de sua mente, vida e corpo; uma harmonia de seu conhecimento, vontade e emoção; uma harmonia de todos seus membros. Às vezes este desejo se detém na conquista de um traba­lhoso compromisso que trará consigo relativa paz; mas o compromi­sso só pode ser um alto no caminho, dado que a Deidade interior não se satisfará eventualmente com menos que uma perfeita harmonia que combine em si mesma o desenvolvimento integral de nossas multi­laterais potencialidades. Menos que isto seria uma evasão do problema, não sua solução, ou só uma temporária solução prevista como lugar de descanso para a alma e seu auto-alargamento e ascenção contínuos. Tal perfeita harmonia demandaria como tERMs essenciais uma mentalidade perfeita, um jogo perfeito da força vital, uma existência física perfeita. Mas onde, no radicalmente im­perfeito, encontraremos o princípio e poder da perfeição? A mente enraizada na divisão e na limitação não pode proporcionar-nos-o e tão pouco o podem a vida nem o corpo que são a energia e a estrutura da mente divisora e limitadora. O princípio e poder da perfeição estão ali no subconsciente mas envolvidos no tegumento ou véu da Maya inferior, uma muda premunição que emer­ge como um irrealizado ideal; no supra-consciente eles –o princípio e o poder da perfeição--, esperam, abertos, eternamente realizados, mas, ainda separados de nós pelo véu de nossa auto-ignorância. É acima, então, e não no nosso atual equilíbrio nem debaixo dele mesmo, que devemos buscar o poder e conheci­mento reconciliadores.

De igual modo, o homem, na medida que evolui, torna-se agudamente consciente da discórdia e ignorância que go­vernam suas relações com o mundo, agudamente intolerante a esse respeito, cada vez mais enquistado em posse de um princípio de harmo­nia, paz, alegria e unidade. Isto também só pode chegar-lhe desde cima. Pois só desenvolvendo uma mente que tenha o conhecimento da mente dos demais como de si mesma, livre de nossa mútua ig­norância e má interpretação, uma vontade que sinta e se uni­fique com a vontade dos demais, um coração emocional que con­tenha as emoções dos demais como próprias, uma força-vital que sinta as energias dos demais e as aceite para si e busque satisfazê-las como próprias, e um corpo que não seja muro de prisão nem defesa contra o mundo, --(senão tudo isto sobre a lei de uma Luz e uma Verdade que transcendam as aberrações e erros, o muito peca­do e falsidade de nossas mentes, vontades, emoções e ener­gias-vitais e também dos demais)--, só assim a vida do homem pode espiritual e praticamente chegar a ser uma só com a de seus seres-semelhantes e recobrar o indivíduo seu próprio ser (eu) universal. O subconsciente tem esta vida do Todo e o supra-consciente a tem, mas sob condições que necessitam nosso movimento ascenden­te. Mas não para o Deus oculto no “inconsciente oceano onde a obscuridade está envolvida dentro da obscuridade”,[4] senão para o Deus que mora no mar da eterna luz[5]; no éter supremo de nosso ser, está o ímpeto original que levou para cima a evolutiva alma ao modelo de nossa humanidade.

Portanto, a menos que a espécie caia a um lado do cami­nho e deixe a vitória a outras e novas criações da inquieta e produtiva Mãe, deve aspirar a esta ascensão, conduzida certamente através do amor, da iluminação mental e do impulso vital de possessão de si e auto-entrega, mas conduzindo mais além à unidade supra­mental que as transcende e realiza; no fundamento da vida humana sobre a realização supramental da unidade consciente com o Uno e com todos em nosso ser e em todos seus membros, a humanidade deve buscar seu bem e salvação finais. E isto é o que temos descrito como o quarto estado da Vida em sua ascensão para a Deidade.


[1] II, 3.

[2] XVIII, 61.

[3] II, 1.

[4] Rig Veda, X, 129, 3.

[5] As Águas que estão no reino da luz por cima do Sol e aquelas que moram debaixo. Rig Veda, III, 22, 3.

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Capítulo XXIII

A DUPLA ALMA NO HOMEM

Purusha, eu interior, não maior que o tamanho do polegar de uma mão.

Katha Upanishad[1][1]

Swetaswatara Upanishad[2][2]

Aquele que conhece este Eu que é o que come o mel da existência e o senhor dela que é e será, desde então não se oprime.

Katha Upanishad[3][3]

De que terá pesar, como será enganado quem vê a Unidade por toda a parte?

Isha Upanisha[4][4]

Quem encontrou a bem-aventurança do Eterno, nada teme.

Taittiriya Upanishad[5][5]

Descobrimos que o primeiro estado da Vida se caracteriza por um mudo e inconsciente impulso ou estímulo, uma força de al­guma vontade envolvida na existência material ou atômica, não livre nem dona de si ou de suas obras ou resultados, senão possuída por inteiro pelo movimento universal em que surge como a escura e não formada semente da individualidade. A raiz do segundo estado é o desejo, a ânsia de possuir ainda que limitada na capacidade; ou ímpeto, o surto do terceiro é o Amor que busca possuir e ser possuído, receber e dar-se; a fina flor do quarto, seu signo de perfeição, o concebe­mos como o puro e pleno emergir da vontade original, a iluminada realização do desejo intermediário, a elevada e profunda satisfação do consciente intercâmbio de Amor mediante a unificação do estado do possuidor e o possuído na divina unidade das almas que é oels almas que eseedo lor untERM fundamento da existência supramental. Se examinamos com cuidado estes termos veremos que são formas e etapas da busca da alma em posse do deleite individual e universal das coisas; a ascensão da Vida é em sua natureza a ascensão do divino deleite nas coisas desde sua muda concepção na Matéria, através das vicissitudes e oposições, até sua luminosa consumação no Espírito.

Ao ser o mundo o que é, e não pode ser de outro modo. Pois o mundo é uma mascarada forma de Satchitananda, e a natureza da consciência de Satchitananda e, portanto, a coisa na que Sua força deve sempre achar-se e alcançar-se é a divina Bem-aven­turança, um onipresente auto-deleite. Dado que a Vida é uma energia de Sua força-consciente, o segredo de todos seus movimentos deve ser um oculto deleite inerente a todas as cosas que é de uma vez causa, motivo e objeto de suas atividades; e se por razão da egoísta divisão se perde esse deleite, se o tem detrás de um véu, se o representa como seu próprio oposto, inclusive se o ser está ­mascarado na morte, a consciência figure como o inconsciente e a força se simule sob o disfarce da incapacidade, então, o que vive não pode ser satisfeito, não pode nem descansar do movimento nem cum­prir o movimento a não ser que se afirme neste deleite universal que é, de uma vez, o secreto deleite total de seu próprio ser, e o original todo-abarcante, todo-informante, todo-ascendente deleite do tras­cendente e imanente Satchitananda. Ir na procura do deleite é, portanto, o fundamental impulso e o sentido da Vida, encontrá-lo, possuí-lo e realizá-lo é seu motivo total.

Mas onde está em nós este princípio de Deleite? Através de que termo de nosso ser se manifesta e realiza na ação do cosmos como o princípio da Força-Consciente mani­festa e usa a Vida para seu termo cósmico e o princípio da Supramente manifesta e usa a Mente? Temos distinguido um quádruplo princípio do divino Ser criador do universo, —Existência, Força-Consciente, Bem-aventurança e Supramente--. A Supermente, o temos visto, é onipresente no cosmos material, mas velada; está detrás do fenômeno real das coisas, e ocultamente se expressa ali. Mas usa em sua atuação a seu próprio termo subordinado, a Mente. A divina Consciência-Força é onipresente no cosmos material, mas velada, opera secretamente detrás dos fenômenos reais das coisas, e se expresa ali característicamente através de seu próprio termo subordinado, a Vida. E, ain­da que não temos examinado ainda separadamente o princípio da Matéria, contudo, podemos ver que a divina Todo--existência também está onipresente no cosmos material, mas velada, oculta detrás do fenômeno real das coisas, e se manifesta ali inicialmente através de seu próprio termo subordinado, Substância, Forma de ser, ou Matéria. Logo, de modo igual, o princípio da divina Bem-aventurança deve ser onipresente no cosmos, por certo velado e possuindo-se detrás do fenômeno real das coisas, mas ainda manifestado em nós através de algum princípio subordi­nado seu próprio no que se oculta e mediante o qual deve ser encontrado e concretizado na ação do universo.

Esse termo é algo em nós que às vezes denominados, em um sentido especial, a alma, —(vale dizer, o princípio psíquico que não é a vida nem a mente, muito menos o corpo, mas que tem em si mesmo a abertura e florescimento da essência de todos estes até seu próprio deleite peculiar do ser (eu), para a luz, para o amor, para a alegria e a beleza, e até uma refinada pureza do ser)--. No entanto, de fato há uma dupla alma ou termo psíquico em nós, assim como todo outro princípio cósmico em nós é também duplo. Poius temos duas mentes: a mente superficial de nosso expressado ego evolutivo, a mentalidade superficial criada por nós em nosso emergir a partir da Matéria, e uma mente subliminal não impedida por nossa real vida mental e suas estritas limitações, algo grande, potente e luminoso, o verdadeiro ser mental que está detrás da forma superficial da personalidade mental e que confundimos com nós mesmos. De modo que também temos duas vidas: uma externa, envolvida no corpo físico, ligada por sua passada evolução na Matéria, que vive, nasceu e morrerá; a outra, uma força subliminal de vida que não está encerrada entre os estreitos limites de nosso nascimento e morte físicos, senão que é nosso verdadeiro ser vital detrás de la forma de vida que igno­rantemente tomamos por nossa existência real. Inclusive no que diga respeito a nosso ser existe esta dualidade; pois detrás de nosso corpo temos uma mais sutil existência material que provê a substância não só de nossa envoltura física senão também da vital e mental e portanto nossa substância real está sustentando esta forma física a que erroneamente imaginamos como corpo íntegro de nosso espírito. Assim mesmo temos em nós uma dupla entidade psíquica, a alma-de-desejo superficial que trabalha em nossos desejos vitais, nossas emoções, faculdade estética e busca mental de poder, conhecimento e felicidade, e uma subliminal entidade psíquica, um puro poder de luz, amor, alegria e refinada essência do ser que é nossa verdadeira alma detrás da forma externa de existência psíquica, que tão muitas vezes dignificamos com o nome. Quando chega à superfície algum reflexo desta maior e mais pura entidade psíquica dizemos de um homem: tem alma, e quando está ausente em sua vida psíquica externa dizemos dele: não tem alma.

As formas externas de nosso ser são as de nossa pequena existência egoísta; as subliminais são as formações de nossa ma­ior individualidade verdadeira. Portanto estas são essa parte oculta de nosso ser na que nossa individualidade está próxima a nossa universalidade, a toca, está em constante relação e comércio com ela. A mente subliminal em nós está aberta ao conheci­mento universal da Mente cósmica, a vida subliminal em nós está aberta à força universal da Vida cósmica, o físico subliminal em nós está aberto à força-formação uni­versal da Matéria cósmica; os grossos muros que dividem destas coisas nossa superficial mente, vida e corpo, e que a Natu­reza há de atravessar com demasiada dificuldade, tão imperfeitamente e com tão múltiplos artifícios psíquicos desajeitados, são ali, no subliminal, só um rarificado meio de separação e comunicação simultâneas. Assim mesmo, a alma subliminal em nós está aberta ao deleite universal como a alma cósmica leva em sua própria existência, na existência das miríades de almas que a repre­sentam e nas operações da mente, a vida e a matéria pelas que a Natureza se presta a seu jogo e desenvolvimento; mas deste deleite cósmico a alma superficial é separada por muros egoístas de grande espessura que por certo contam com portas de ingresso, mas ao transpô-las os contatos do divino Deleite cósmico se empe­quenecem, deformam e chega a mascarar-se como seus próprios opostos.

Desprende-se que nesta superfície ou alma-de-desejo não há verdadeira vida-de-alma, senão uma deformação psíquica e equivo­cada recepção do contato das coisas. A enfermidade do mundo consiste em que o indivíduo não pode achar sua alma real, e a causa-raiz desta enfermidade é novamente que não pode en­contrar em seu externo abarcar das coisas a alma real do mundo no que vive. Busca encontrar ali a essência do ser, a essência do poder, a essência da existência-consciente, a essência do deleite, mas em seu lugar recebe uma multidão de contatos e impressões contraditórios. Se pudesse encontrar essa essência, se pudesse encontrar também o único universal ser, poder, existência consciente e deleite inclusive neste enredo de contatos e impressões, as contradições do que parecem –esses contatos e impressões contraditórias-- se reconciliariam na unidade e harmonia da Verdade que nos alcança nestes contatos. Ao mesmo tempo ele encontraria sua própria alma verdadeira e através dela seu verdadeiro ser (eu), porque a alma verdadeira é a delegada de seu ser (eu) e seu ser (eu) e o ser (eu) do mundo são um só. Mas isto ele não o pode fazer devido à egoísta ignorância do pensamento na mente, do coração da emoção, do sentido que responde ao contato das coisas, não com um valente e afetuoso abraço do mundo, senão com um fluxo de avanços e retrocessos, de cautas aproximações ou impacientes escapes e carrancudos ou descontentes, ou assustados ou dobras irritadas conforme a como o contacto lhe agrade ou desagrade, lhe conforte ou alarme, lhe satisfaça ou lhe descontente. É a alma-de-desejo que por sua equivocada recepção da vida se converte na causa de uma tripla má interpretação da rasa, o deleite nas coisas, de modo que, em lugar de figurar-se a pura alegria essencial do ser, chega a traduzir-se desigualmente nos três termos de prazer, dor e indiferença.

Temos visto, quando consideramos o Deleite da Existência em suas relações com o mundo, que não há absoluta nem essencial validade em nossos padrões de prazer, dor e indiferença, que estão determinados por enteiro pela subjetividade da consciência receptiva e que o grau de prazer e dor pode elevar-se a um má­ximo ou comprimir-se a um mínimo, a inclusive apagar-se por completo em sua aparente natureza. O pracer pode converter-se em dor ou a dor em prazer porque em sua realidade secreta são a mesma coisa reproduzida de um modo distinto nas sensações e emoções. A indiferença é, ou melhor. a inatenção da alma-de-desejo superficial em sua mente, sensações, emoções e desejos enquanto a rasa das coisas, ou melhor, sua incapacidade para receber e responder a este, ou melhor, sua rejeição de dar qualquer resposta superficial, ou, também, sua repressão e subjugação do prazer e a dor mediante a vontade dentro de um neutro matiz de inaceitação. Em todos estes casos o que sucede é que existe uma positiva rejeição ou negativa improvidência ou incapacidade de interpretar ou de qualquer modo representar positivamente na superfície algo que é ainda subliminal­mente activo.

Pois, assim como agora sabemos por observação e experimenta­ção psicológicas que a mente subliminal recebe e recorda todos aqueles contatos das coisas que a mente superficial ignora, de igual maneira descobriremos também que a alma subliminal responde à rasa, ou essência na experiência, destas coisas, que a alma-de-desejo superficial rejeita por desgosto ou negativa, ou ignora por neutra inaceitação. O auto-conhecimento é impossível a não ser que vamos atrás de nossa existência superficial, --(que é mero resultado de seletivas experiências externas, uma ressonância imperfeita ou uma apressada, incompetente e fragmentária tradução de um pouco do muito que somos)--, a menos que vamos atrás desta existência superficial e lancemos nosso prumo no subconsciente e nos abramos ao supraconsciente para assim conhecer sua relação com nosso ser super­ficial. Pois entre estas três coisas nossa existência se move e encontra nelas sua totalidade. O supraconsciente em nós é um só com o ser (eu) e a alma do mundo, e não está governado por diversidade fenomênica alguma; portanto, possui a verdade das coisas e o deleite das coisas em sua plenitude. O subconsciente, assim chamado,[6][6] nessa luminosa cabeça de si mesmo que chamamos o subliminal, é, pelo contrário, não um verdadeiro possuidor senão um instrumento da experiência; não é na prática, um com a alma e ser (eu) do mundo, mas está aberto a ele através de sua experiência-do­-mundo. A alma subliminal é consciente interiormente da rasa das coisas e tem um igual deleite em todos os contatos; é também consciente dos valores e modelos da alma-de-desejo superficial e recebe em sua própria superfície os correspondentes contatos de prazer, dor e indiferença, mas recebe um igual deleite em tudo. Em outras palavras nossa alma real interior recebe gozo de todas suas experiências, delas extrai fortaleza, prazer e conhecimento, mediante elas cresce em seu provisionamento e em sua plenitude. Esta alma real em nós é a que compele a retirada da mente-de-desejo enquanto a levar e in­clusive buscar e achar prazer no que é dolorosa para ela, a rejeitar o que lhe resulta prazeroso, a modificar ou inclusive inverter seus valores, a igualar as coisas em indiferença ou a igualá-las em alegria, a alegria da variedade da existência. E isto o faz porque está impelida pelo universal a desenvolver-se por todo gênero de ex­periência de modo de assim crescer na Natureza. Do contrário, se só vivêssemos pela alma-de-desejo superficial, não mudaríamos nem avançaríamos mais que a planta ou a pedra em sua imobilidade ou em sua rotina de existência, porque a vida não é superficialmente consciente, a alma secreta das coisas não tem todavia instru­mento pelo qual possa resgatar a vida à partir da fixa e restringida gama dentro da que nasceu. A alma-de-desejo, abandonada a si mesma, se­guiria circulando nas mesmos pistas para sempre.

Segundo a opinião das antigas filosofias, o prazer e a dor são inseparáveis como a verdade intelectual e a falsidade, o poder e a incapacidade, e o nascimento e a morte; portanto o único modo de escapar deles seria uma total indiferença, uma branca resposta às excitações do eu-do-mundo. Mas um conhecimento psicológico mais sutil nos demonstra que este enfoque baseado tão só nos fatos superficiais da existência, em realidade não esgota as soluções do problema. É possível, trazendo a alma real à superficie, substituir os padrões egoístas do prazer e a dor por um igual e todo-abarcante deleite pessoal-impessoal. O amante da Natureza faz isto quando goza com todas as coisas da Natureza universalmente, sem admitir repulsão ou me­do, ou mero gosto ou desgosto, percebendo a beleza no que para outros parece baixo e insignificante, vazio e salvarem, terrível e repe­lente. O artista e o poeta fazem isto quando buscam a rasa do universal desde a emoção estética ou desde a linha física ou desde a forma mental da belleza ou desde o sentido e poder interiores desfrutando igualmente daquilo do que o homem comum foge e daquilo ao que está apegado por um sentido de prazer. O buscador de conhecimento, o amante-de-Deus que acha o objeto de seu amor por toda parte, o homem espiritual, o intelectual, o sensual, o esteta, todos fazem isto a seu modo e devem fazê-lo se acharão abraçadas ao Conhecimento, à Beleza, à Alegria ou à Divinidade que buscam. É só nas partes donde o pequeno ego é usualmente demasiado forte para nós, é só em nossa alegria e sofrimento emocio­nais ou físicos, em nosso prazer e dor da vida, ante os quais a alma-de-desejo em nós é débil e covarde por completo, que a aplicação do princípio divino chega a ser supremamente difícil e parece para muitos impossível ou inclusive monstruosa e repelente, Aqui a ignorância do ego retrocede desde o principio de im­pessoalidae que ainda se aplica sem demasiada dificuldade na Ciên­cia, a Arte e inclusive em certo gênero de imperfeita vida espiritual porque ali a regra da impessoalidade não ataca aqueles desejos abrigados pela alma superficial nem aqueles valores do desejo fixados pela mente superficial na que nossa vida externa está mais vitalmente interessada. No mais livre e superior movimento exige-nos só uma limitada e especializada equanimidade e impersonalidade apropiada a um campo particular da consciência e da atividade enquanto a base egoísta de nossa vida prática permanece em nós; nos movimentos inferiores, o fundamento total de nossa vida há de transformar-se a fim de dar lugar à impessoalidade, e isto a alma-de-desejo o acha impossível.

A alma verdadeira secreta em nós -(subliminal, dizemos, mas a palavra é inapropriada, pois esta presença não está situada debaixo do umbral da mente desperta, senão que muito mais arde no templo do mais recôndito coração detrás da espessa tela de uma mente, vida e corpo ignorantes, não subliminal, senão atrás do véu)--, esta velada entidade psíquica é a chama de Deus sempre acesa dentro de nós, inestinguível inclusive por essa densa inconsciência que obscu­rece nossa natureza externa ignorante de algum espiritual ser interior. É uma chama nascida do Divino e, luminosa habitante da Ignorância, cresce nesta para que possa volta-la para o Conhecimento. É o oculto Testemunho e Controle, o Guia escondido, é o Daemon de Sócrates, a luz interior ou voz interior do místico. É o durável e imperecível em nós de um nasci­mento a otro, intocável pela morte, a decadência ou a corrupção, uma indestrutível chispa do Divino. Não sendo não-nascido Ser-em-si ou Atman, --(pois o Ser-em-si, inclusive presidindo sobre a existência do indivíduo está consciente sempre de sua universalidade e transcendência)--, no entanto, é seu delegado nas formas da Natureza, a alma individual, caitya purusa, sustentando mente, vida e corpo, permanecendo atrás do ser mental, do vital e do sutil-físico em nós e contemplando e aproveitando seu desenvolvimento e experiência. Estes outros poderes-pessoais no homem, estes seres de seu ser, estão também velados em sua verdadeira entidade, mas exercem personalidades temporárias que compõem nossa individualidade externa e cuja combinada ação e aparência superficiais formam o estado que chamamos nós mesmos: esta mais recôndita entidade também, tomando forma em nós como a Pessoa psíquica, apresenta uma personalidade psíquica que muda, cresce e se desenvolve de vida em vida; pois esta é a viajante entre nascimento e morte, e entre morte e nascimento, nossas partes naturais só são sua múltipla e mutável vestimenta. O ser psíquico pode ao princípio exercer somente uma oculta, parcial e indireta ação através da mente, da vida e do corpo, dado que estas são as partes da Natureza que hão de desenvolver-se como seus instrumentos de auto-expressão, que está largamente confinada por sua evolução. Com a missão de conduzir o homem que está na Igno­rância para a luz da Consciência Divina, toma a essência de toda experiência na Ignorância para formar um núcleo de alma-crescendo na natureza; o resto destila-o como material para o futuro crescimento dos instrumentos que há de usar até que estejam prontos para ser luminosa instrumentação do Divino. Esta secreta entidade psíquica é a verdadeira Consciência original em nós, mais profunda que a elaborada e convencional consciência do moralista, pois é a que sempre aponta para a Verdade, o Correto e a Beleza, para o Amor e a Harmonia e tudo o que é possibilidade divina em nós, e persiste até que estas coisas chegamm a ser a maior necessidade de nossa natureza. É a personalidade psíquica em nós que floresce como o santo, o sábio, o vidente; quando alcança sua força plena, despeja o ser até o Conhecimento do Ser-em-si e do Divino, para a verdade suprema, o Bem Supremo, a Beleza, Amor e Bem-aventurança supremos, as alturas e grandezas divinas, e nos abre o contato da espiritual simpatia, universalidade, unidade. Pelo contrário, onde a personalidade psíquica é débil, bruta ou mal desenvolvida, as partes ye movimentos mais finos em nós carecem ou são pobres de caráter e poder, ainda que a mente seja forte e brilhante, o coração das emoções vitais duro, forte e dominante, a força-vital, dominadora e exitosa, a existência corporal, rica e afortunada, e um aparente senhor e vencedor. É então a alma-de-desejo exterior, a entidade pseudo­-psíquica, a que reina e confundimos suas más interpretações da sugestão e aspiração psíquicas, suas idéias e ideais, seus desejos e anseios com a verdadeira alma-substancial e a riqueza da expe­riência espiritual.[7][7] Se a secreta Pessoa psíquica pode seguir avançando e, substituindo a alma-de-desejo, governar aberta e inteiramente e não só parcialmente e atrás do véu esta externa natureza de mente, vida e corpo, então estes podem moldar-se em imagens da alma do que é verdadeiro, correto e belo e, finalmente, a natureza toda possa voltar-se para o real objeti­vo da vida, a suprema vitória, a ascensão à existência espiritual.

Mas poderia parecer que, ao colocar à frente a esta entidade psíquica, a esta verdadeira alma em nós, e dar-lhe ali o mando e governo, obtemos a realização total de nosso ser natural de modo que possamos buscar e também abrir as portas do reino do Espírito. E melhor poderia raciocinar-se que não há necessidade de inter­venção alguma de superior Verdade-Consciência ou princípio da Supramente para ajudar-nos a alcançar o estado divino ou a perfeição divina. Contudo, ainda que a transformação psíquica é uma condição necessária da transformação total de nossa existência, não é tudo quanto é necessário para a maior mudança espiritual. Em primeiro lugar, dado que esta é a alma individual na Natureza, pode abrir-se aos mais divinos âmbitos ocultos de nosso ser, e receber e refletir sua luz, poder e experiência, mas também temos necessidade de outra transformação que derive do alto para possuir nosso ser (eu) em sua universalidade e transcendência. o ser psíquico em certa etapa poderia contentar-se com criar uma formação de verdade, bem e beleza e estacionar-se ali; em uma etapa anterior poderia submeter-se passivamente ao ser-do-mundo, um espelho da existência uni­versal, da consciência, do poder, do deleite, mas sem ser seu participante ou possuidor pleno. Ainda que mais próxima e estremecidamente unida à consciência cósmica no conhecimento, a emoção e inclusive na apreciação através dos sentidos, poderia converter-se em puramente receptora e passiva, afastada do domínio e a ação no mundo; ou, uma com o Ser-em-si estático atrás do cosmos, mas separada interiormente do movimento-do-mundo, perdendo sua individualidade em sua Fonte, po­deria retornar a essa Fonte e não ter nem a vontade nem o poder para o que foi sua missão última aqui, conduzir a natureza também para sua divina realização. Pois o ser psíquico chegou à Natu­reza procedente do Ser-em-si, do Divino, e pode retornar da Natu­raleza ao Divino silencioso através do silêncio do Ser-em-si e de uma suprema imobilidade espiritual. Outra vez, uma porção eterna do Divino,[8][8] --(esta parte é pela lei do Infinito inseparável de seu Todo Divino, esta parte é certamente ela mesma esse Todo, excepto em sua aparência frontal, sua separativa auto-experiência frontal)--, pode despertar a essa realidade e fundir-se nela até a extinção aparente ou ao menos até a união da existência individual. Aqui, um pequeno núcleo, na massa de nossa Natureza ignorante, descrito no Upanishad como não maior que um polegar humano, pode, por influxo espiritual, alargar-se e abarcar o mundo inteiro com o coração e a mente em íntima comunhão ou unidade. Ou pode chegar a ser consciente de seu eterno Companheiro e escolher viver para sempre em Sua presença, em imperecível união de unidade como o amante eterno com o eterno Amado, que de todas as experiências espirituais é a mais intensa em beleza e êxtase. Todos estes são grandes e esplêndidas conquistas de nosso espiritual auto-descobrimento, mas não são necessariamente o fim último e inteira consumação; é possível mais.

Pois estas são conquistas da mente espiritual do homem; são movimentos dessa mente que vai além de si, mas em seu próprio plano, nos esplendores do Espírito. A mente, inclusive em seus estados supremos, muito além de nossa mentalidade atual, atua todavia em sua natureza por divisão; toma os aspectos do Eterno e trata cada aspecto como se fosse a verdade total do Ser Eterno e pode encontrar em cada um sua própria perfeita realização. Inclusive os erige em opostos e cria uma escala total destes opostos, o Silêncio do Divino e a Dinâmica divina, o imóvel Brahman afastado da existência, sem qualidades, e o ativo Brahman com qualidades, Senhor da existência, Ser e Devir, a Pessoa Divina e uma pura Existência impessoal; pode então separar-se de um e submergir-se no outro como única Verdade perdurável da exis­tência. Pode considerar a Pessoa como a única Realidade ou o Impessoal como o único certo; pode considerar ao Amante como o único meio de expressão do Amor; ou ao amor como a única possível auto-expressão do Amante; pode ver os seres como os únicos poderes pessoais de uma Existência impessoal ou à existência impessoal como o único estado do Ser único, a Pessoa Infinita. Sua conquista espiritual, sua rota de passo para o objetivo supremo se­guirá estas linhas divisórias. Mas além deste movimento da Mente espiritual, está a superior experiência da Supramente Verdade-Consciência; ali estes opostos desaparecem e estas parcia­lidades se abandonam na rica totalidade de uma suprema e integral realização do Ser eterno. Este é o objetivo que temos concebido, a consumação de nossa existência aqui pela ascensão a Verdade-Consciência supramental e seu descenso em nossa natureza. A transformação psíquica após surgir na mudança espiri­tual há de completar-se, integrar-se, superar-se e elevar-se mediante uma transformação supramental que a ascenda para o cume do esforço ascendente.

Tal como entre os outros termos divididos e opostos do Ser manifestado, de igual maneira só uma consciência-energia supramental poderia estabelecer uma perfeita harmonia entre estas dois ter­mos -aparentemente opostos devido à Ignorância— do esta­do do espírito e do dinamismo do mundo, em nossa existência corporizada. Na Ignorância, a Natureza centra a ordem de seus movimentos psicológicos, no entorno do secreto ser (eu) espiritual, senão de seu substituto, o ego-princípio: certo egocentrismo é a base sobre a que ligamos juntas nossas experiências e relações em meio de complexos contatos, contradições, dualidades e in­coerências do mundo em que vivemos; este egocentrismo é nossa rocha de segurança frente ao cósmico e o infinito, nossa defesa. Mas em nossa mudança espiritual temos de abster-nos desta defesa; o ego há de desvanecer-se, a pessoa se encontra dissolvida em uma vasta impessoalidade, e nesta impessoalidade a princípio não está a chave de um ordenado dinamismo da ação. Um resultado muito comum consiste em que um está dividido em duas partes do ser, a espiritual por dentro, a natural por fora; em una está a divina realização assentada em uma perfeita liberdade interior, mas a parte natural segue com a velha ação da Natureza, continua me­diante um movimento mecânico de energias passadas, seu já transmitido impulso. Inclusive, se há uma total dissolução da pessoa limitada e da velha ordem egocêntrico, a natureza externa pode converter-se no campo de uma aparente incoerência, ainda que todo o interior seja luminoso com o Ser (Eu). Dessa maneira devemos abertamente inertes e inativos, movidos por circunstâncias ou forças mas não móveis-por-si-mesmos,[1][9]



[1][9] jadavat.

inclusive ainda que a consciência esteja iluminada interiormente, ou como uma criança ainda que por dentro tenha pleno auto­-conhecimento,[1][10] ou como alguém inconsequente enquanto a pensa­mento e impulso ainda que internamente tenha completa calma e sere­nidade,[1][11] ou como a alma selvagem e desordenada ainda que interiormente exista a pureza e equilíbrio do Espírito. [2][12]

Ou se há um ordenado dina­mismo na natureza externa, pode ser uma continuação da ego-ação superficial presenciada mas não aceitada pelo ser interior, ou um dinamismo mental que não expresse perfeitamente a realização espiritual interior; pois não há equivalência entre a ação da mente e o estado do espírito. Inclusive no melhor caso, donde há um intuitivo guia da Luz desde dentro, a natureza de sua expressão no dinamismo da ação deve estar marcada com as imperfeições da mente, da vida e do corpo, um Rei com ministros incapazes, um Conhecimento expressado nos valores da Ignorância. Só o descenso da Supramente com sua perfeita unidade de Verdade-Conhecimento e Verdade-Vontade pode estabelecer, tanto na existência exterior como na interior, a harmonia do Espírito; pois só ela pode por inteiro mudar os valores da Ignorância pelos valores do Conhecimento.



[1][11] unmattavat.

[2][12] pisacávat.



[1][10] bálavat.

[2][11] unmattavat.

[3][12] pisacávat.



[1][10] bálavat.

[2][11] unmattavat.

[3][12] pisacávat.

Na realização de nosso ser psíquico, igualmente que na consumação de nossas partes de mente e vida, está a rela­ção disso com sua fonte divina, sua correspondente verdade na Realidade Suprema, que é o movimento indispensável; e, tanto aqui como ali, é mediante o poder da Supramente que pode ser feita com uma integridade absoluta, uma intimidade que chega a ser uma autêntica identidade; pois é a Supramente a que vincula os hemisférios superior e inferior da Existência Única. Na Supramente está a Luz integradora, a Força consumadora, a ampla entrada dentro do supremo Ananda; o ser psíquico elevado por essa Luz e Força pode unir-se com o Deleite original da existência desde o que veio: vencer as dualidades de dor e prazer, liberar a mente, a vida e o corpo de todo medo e sobrecolhimento, pode reestabelecer os contatos da existência no mundo dentro dos termos da Divina Ananda.



[1][1] IV, 12.

[2][2] VI, 17.

[3][3] IV, 5.

[4][4] Vers. 7.

[5][5] II, 9.

[6][6] O subconsciente real é uma inferior consciência diminuída próxima ao Inconsciente; o subliminal é uma consciência maior que nossa existência superficial. Mas ambos pertencem ao reino interior de nosso ser do qual nada conhece nossa superfície, de modo que ambos estão entremeados em nossa concepção comum e modo de expressar-nos.

[7][7] A palavra “psíquico” em nosso ordinário modo de expressão se usa muitas vezes com relação a esta alma-de-desejo que a verdadeira alma psíquica. Também se usa inadequadamente com respeito a fenômenos psicológicos e outros, de carácter anormal ou supranormal, que em realidade estão conectados com a mente interior, o ser vital interior, o ser sutil físico subli­minal em nós e de nenhum modo são operações diretas da psiquê. Fenômenos tais como materialização e desmaterialização também se in­cluem, ainda que se estabelece, evidentemente não são ação-de-alma e não deizam luz alguma sobre a natureza ou existência da entidade psíquica, senão que muito mais são uma ação anormal de uma sutil energia física oculta que intervêm no ordinário estado do denso corpo das coisas, reduzindo-a a sua própria condição sutil e reconstituindo-a novamente nos termos da densa matéria.

[8][8] Gita, XV, 7.

[9][9] jadavat.

[10][10] bálavat.

[11][11] unmattavat.

[12][12] pisacávat.

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Capítulo XXIV

MATÉRIA


Atingiu o conhecimento de que a Matéria é o Brahman.

Taittiriya Upanishad[1]


Temos agora a segurança racional de que a Vida não é um sonho inexplicável nem um mal impossível que contudo chegou a ser um fato doloroso, senão uma poderosa pulsação da divina Todo-Exis­tência. Vemos algo de seu fundamento e seu princípio, contemplamos sua elevada potencialidade e divino afloramento último. Mas há um princípio debaixo de todos os demais que não temos ainda considerado suficientemente: o princípio da Matéria sobre o qual a Vida se acha como sobre um pedestal ou desde o que evolui como a forma de uma árvore de múltiplos ramos ou faz à partir da encapsulada semente. A mente, a vida e o corpo do homem dependem deste princípio físico, e se o afloramento da Vida é resultado da Consciência emergindo na Mente, expandindo-se, elevando-se em busca de sua própria verdade na grandeza da existência supramental, contudo parece também estar condicionada por esta caixa do corpo e por este fundamento da Matéria. A importância do corpo é óbvia; é porque desenvolveu ou recebeu um corpo e um cérebro capazes de receber e brindar uma progressiva iluminação mental que o homem vem se elevando acima do animal. Igualmente, só po­de ser, mediante o desenvolvimento de um corpo ou, ao menos, o funcionamento do instrumento físico capaz de receber e brindar uma iluminação ainda maior, que se eleve acima de si mesmo e realize, não meramente no pensamento e em seu ser interno senão na vida, uma humanidade perfeitamente divina. Do contrário se elimina a promessa da Vida, anula-se seu significado e o ser terreno só pode realizar o Satchitananda abolindo-se, livrando de si a mente, a vida e o corpo, e retornando ao puro Infinito, ou também, pode ser que o homem não seja o instrumento divino, existe um preciso limite para o poder conscientemente progressivo que lhe distingue de todas as outras existências terrestres e, assim como ele as substituiu à frente das coisas, de igual modo outro deve eventualmente substitui-lo e assumir sua herança.

Parece certamente que o corpo é, desde o princípio, a grande dificuldade da alma, seu contínuo tropeço e obstáculo. Portanto o ansioso buscador da realização espiritual lança seu proclame contra o corpo e seu desgosto-mundano escolhe este princípio­ do mundo por sobre todas as outras coisas como especial objeto de abominação. O corpo é o obscuro peso que não pode levar; seu obstinado material tosco é a obsessão que lhe conduz a entregar-se á vida ascética. Para desembaraçar-se daquele foi tão longe que até negou sua existência e a realidade do universo material. A maioria das religiões maldisseram a Matéria e converteram-na à rejeição ou a um resignado sofrimento temporal da vida física em prova da verdade religiosa e da espiritualidade. Os credos mais antigos, mais pacientes, mais meditativamente profundos, livres do contato da tortura e febril impaciência da alma sob o peso da Idade de Ferro, não efetuaram esta formidável divisão; reconheceram a Terra como Mãe e ao Céu como Pai, acordan­do-lhes igual amor e reverência; mas seus antigos mistérios são obscuros e insondáveis para nossa visão das coisas, materialista ou espiritual, contentando-se com cortar o nó gordiano do proble­ma da existência com um golpe decisivo, aceitando escapar até uma bem-aven­turança eterna ou um fim de aniquilação eterna ou de eterna quietude.

A disputa não começa realmente com nosso despertar diante de nossas possibilidades espirituais; começa com a aparição da vida mesma e sua luta por estabelecer suas atividades e suas permanen­tes agregações da forma vivente contra a força da inércia, contra a força da inconsciência, contra a força da desagrega­ção atômica que são, no princípio material, o nó da grande Negação. A Vida está em guerra constante com a Matéria e a batalha parece sempre culminar com a aparente derrota da Vida e nesse colapso que se soma no princípio material que chamamos morte. A discórdia se aprofunda com a aparição da Mente; pois a Mente tem sua própria disputa com ambos, com a Vida e com a Matéria; está em constante guerra com suas limitações, em constante submissão e re­volta contra a tosquedade e inércia de uma e as paixões e sofrimentos da outra; e a batalha parece eventualmente voltar-se, ainda que não com muita segurança, para uma vitória parcial e custosa para a Mente na que conquista, reprime ou inclusive mata os desejos vitais, desequilibra a força física e deforma o equilíbrio do corpo em benefício de uma atitude mental maior e um ser moral superior. É nesta luta que surge a impaciência da Vida, o desgosto do corpo e a dobra de ambos para uma pura existência mental e moral. Quando o homem desperta a uma existência além da Mente, leva consigo este princípio de discórdia. A Mente, o Corpo e a Vida são condenados como a trindade do mundo, a carne e o demônio. A Mente é também proclamada como fonte de todo nosso mal; se declara a guerra entre o espírito e seus instrumentos, e se busca a vitória do Habi­tante espiritual como evasão de sua estreita residência, uma rejeição da mente, da vida e do corpo, e um retiro dentro de suas próprias infinitudes. O mundo é uma discórdia e resolveremos melhor suas perplexidades levando o princípio da discórdia mesma para sua possibilidade ex­trema, para uma erradicação e segregação final.

Mas estas derrotas e vitórias são só aparentes, esta solução não é solução senão escapar ao problema. A Vida não é realmente derrotada pela Matéria; efetua um compromisso usando a morte para a continuação da vida. A Mente não é realmente vitorio­sa sobre a Vida e a Matéria, senão que só alcançou um desenvolvimento imperfeito de algumas de suas potencialidades a custa de outras que estão ligadas às irrealizadas ou rejeitadas possibilidades de seu melhor emprego da vida e do corpo. A alma individual não conquistou a triplicidade inferior, senão só renunciou seu reclame a respeito, escapando desde a obra empreendida pelo espírito quando pela primeira vez se lançou dentro da forma do universo. O pro­blema continua porque o labor do Divino no universo pro­ssegue, mas sem nenhuma solução satisfatória do problema nem conquista vitoriosa do labor. Portanto, dado que nosso ponto de apoio é que Satchitananda é o princípio, o meio e o fim, e que essa luta e discórdia não podem ser princípios eternos e fundamentais em Seu ser senão que, por sua existência mesma implicam o labor em prol de uma solução perfeita e uma completa vitória, deve­mos buscar essa solução em uma real vitória da Vida sobre a Matéria através do livre e perfeito uso do corpo pela Vida, em uma real vitória da Mente sobre a Vida e a Matéria através de um livre e perfeito uso da força-vital e a forma pela Mente, e em uma real vitória do Espírito sobre a triplicidade através de uma livre e perfeita ocupação da mente, da vida e do corpo pelo espírito consciente; segundo tenhamos estruturado esta última conquista, se tornam possíveis as outras. Finalmente, então podemos ver como estas conquistas podem ser possíveis por completo ou integralmente, devemos descobrir a realidade da Matéria, assim como, buscando o conhecimento fundamental, temos descoberto a realidade da Mente, da Alma e da Vida.

Em certo sentido a Matéria é irreal e não-existente; vale dizer, nosso atual conhecimento, idéia e experiência da Matéria não é verdade, senão simplesmente um fenômeno de relação particular entre nossos sentidos e a todo-existência na que nos movemos. Quan­do a Ciência descobre que a Matéria se resolve dentro das formas da Energia, sustenta uma verdade universal e fundamental; e quando a filosofia descobre que a Matéria só existe como aparência substancial diante a consciência e que a realidade única é o Espírito ou o puro Ser consciente, sustenta uma verdade maior, mais completa e inclusive mais fundamental. Mais ainda subsiste a questão de por que a Energia há de tomar a forma da Matéria e não de meras correntes-força ou por quê isso que é realmente Espírito há de admitir o fenômeno da Matéria e não descansar nos estados, veleidades e alegrias do espírito. Isto, se diz, é obra da Mente ou melhor, --dado que o Pensamento evidentemente não cria diretamente ou nem sequer percebe a forma material das coisas--, é obra do Sentido; a mente-sentido cria as formas que parece per­ceber e a mente-pensamento trabalha sobre as formas que a mente-sentido lhe apresenta. Mas, evidentemente, a corporizada men­te individual não é a criadora do fenômeno da Matéria; a existência-terrena não pode ser resultado da mente humana que, a sua vez, é resultado da existência-terrena. Se dissemos que o mundo só existe em nossas mentes, expressamos um não-fato e uma confusão; pois o mundo material existiu antes que o homem estivesse sobre a terra e seguirá existindo se o homem desaparecesse da terra ou inclusive ainda que nossa mente individual se extinguisse no Infinito. Devemos concluir então que existe uma Mente universal,[2] subconsciente para nós na forma do universo ou supraconsciente em seu espírito, que criou essa forma para morar nela. E dado que o criador deve haver precedido e deve superar sua criação, isto realmente implica uma Mente supra­consciente que, mediante a instrumentação de um sentido universal cria em si a relação de forma com forma e constitui o ritmo do universo material. Mas isto tão pouco é a solução completa; nos diz que a Matéria é uma criação da Consciência mas não explica como a Consciência chegou a criar a Matéria como base de suas atividades cósmicas.

Entenderemos melhor se nos remontamos, de uma vez, ao princípio original das coisas. A existência é, em sua atividade, uma Força­-Consciente que apresenta as obras de sua força a sua consciência como formas de seu próprio ser. Dado que a Força é só a ação do único só-existente Ser-Consciente, resulta que não pode ser senão forma desse Ser-Consciente. A Substância ou Matéria, então, é somente uma forma do Espírito. A aparência que esta forma do Espírito assume para nossos sentidos se deve a essa ação divisora da Mente desde a que temos podido deduzir consistentemente o fenômeno total do universo. Sabemos agora que a Vida é uma ação da Força-Consciente da qual as formas materiais são o re­sultado; a Vida envolvida nessas formas, aparecendo nelas pri­meiro como força inconsciente, evolui e trás de regresso dentro da manifestação como Mente à consciência que é o ser (eu) real da força e que nunca deixou de existir nela, inclusive quando não se manifesta. Sabemos também que a Mente é um poder inferior do original Conhecimento consciente ou Supramente, um poder para o qual a Vida atua como energia instrumental; pois, descendendo através da Supramente, a Consciência ou Chit se representa como a Mente, e a Força da consciência ou Tapas se representa como a Vida. A Mente, por sua separação de sua própria realidade superior na Supramente, dá à Vida a apa­rência de divisão e, por sua anterior involução em sua própria Força-­Vital, vem a ser subconsciente na Vida e assim dá aparência externa de uma força inconsciente a suas atividades materiais. Portanto, a inconsciência, a inércia e a desagregação atômica da Matéria deve ter sua origem nesta todo-divisora e auto-involutiva ação da Mente pela qual nosso universo veio a ser. Assim como a Mente é só uma ação final da Supramente no descenso até a criação, e a Vida uma ação da Força-Consciente que trabalha nas condições da Ignorância criada por este descenso da Mente, de igual maneira a Matéria, como a conhecemos, é só a forma final assumida pelo ser consciente como o resultado desse trabalho. A Matéria é substãncia do único ser-consciente fenomenicamente dividido dentro de si pela ação de uma Mente universal,[3] --divisão que a mente individual repete e alberga mas que não anula nem diminui a unidade do Espírito nem a unidade da Energia nem a real unidade da Matéria.

Mas qual é a razão desta divisão fenomênica e pragmá­tica de uma Existência indivisível? E porque a Mente há de levar o princípio da multiplicidade até seu potencial extremo, o qual só pode cumprir-se mediante separação e divisão. Para fazer isso deve, precipitando-se na Vida a criar formas para o Múltiplo, dar o principio universal do Ser a aparência de uma substância densa e material em lugar de uma substância pura ou sutil. Deve, vale dizer, dar-lhe a aparência da substância que se oferece ao contato da Mente como coisa ou objeto estáveis em uma duradoura multiplicidade de objetos e não de substância que se oferece ao contato da cons­ciência pura como algo de sua própria eterna e pura existência e realidade ou ao sentido sutil como um princípio de forma plástica que expressa livremente o ser consciente. O contato da mente com seu objeto cria o que chamamos sentido, mas aqui há de ser um obscuro senti­do exteriorizado que há de assegurar-se da realidade do que contata. O descenso da substância pura á susbtancia material segue então, inevitavelmente, no descenso de Satchitananda através da supramente à mente e a vida. É um resultado necessário da vontade que o primeiro método desta experiência inferior da existência seja a multiplicidade do ser e uma consciência das coisas desde separados centros da consciência,. Se voltamos à base espiritual das coisas, a substância em sua completa pureza se resolve dentro do puro ser consciente, auto-existente, inerentemente auto-conhecedor por identidade, mas que ainda não volte sobre si sua consciência como objeto. A Supermente preserva este auto-conhecer por identidade como sua susbtância do auto-conhecimento e sua luz de auto­-criação, mas para essa criação se apresenta o Ser diante si como o sujeito­-objeto único e múltiplo de sua própria consciência ativa. O Ser como objeto é mantido ali em um supremo conhecimento que pode, por compreensão, ver ambos como um objeto de cognição dentro de si e subjetivamente como o mesmo, mas pode também e simultâ­neamente, por apreensão, projetá-lo como objeto (ou objetos) de cognição dentro da circunferência de sua consciência, não diferente de si, parte de seu ser, mas uma parte (ou partes) separadas de si, -vale dizer, do centro de visão no que o Ser se concentra como o Conhecedor, Testemunho ou Purusha--. Temos visto que desde esta apreensora consciência surge o movimento da Mente, o movimento pelo qual o indivíduo conhecedor considera uma forma de seu próprio ser universal como distinta a ele; mas na Mente divina existe, imediata ou mais simultaneamente, outro movimento ou lado inverso do mesmo movimento, um ato de união no ser que remedia esta divisão fenomênica impedindo-lhe que se converta, inclusive por um momento tão só em real para o conhecedor. Este ato de união consciente é o que está repre­sentado de outro modo na Mente divisora obtusa, ignorantemente, muito externamente como contato na consciência entre os seres divididos e os objetos separados, e conosco este contacto na consciência dividida está representado primordialmente pelo prin­cípio do sentido. Sobre esta base do sentido, sobre este contato da união sujeita à divisão, a ação do pensamento-mente se descobre e prepara para retornar a um princípio superior de união no que a divisão se torna sujeita à unidade e subordinada. A substância, então, tal como a conhecemos, substância material, é a forma na que a Mente, atuando através do sentido, contata o Ser consciente do qual ela mesma é movimento do conhecimento.

Mas a Mente por sua natureza mesma tende a conhecer e sentir a substância do ser-consciente, não em sua unidade ou totalidade senão pelo princípio da divisão. Vê-o, por assim dizê-lo, em pontos infinitesimais que associa juntos a fim de alcançar a uma totalidade, e dentro destes pontos-de-visão e associações a Mente cósmica se lança e mora neles. Morando dessa maneira, criadora por sua força inerente como agente da Real-Idéia, obrigada por sua própria natureza á conversão de todas suas percepções em ener­gia vital, como o Todo-Existente converte todos Seus auto-aspectos em variada energia de Sua criadora Força da consciência, a Mente cósmica torna estes seus múltiplos pontos-de-vista da existência universal, em pontos de apoio da Vida universal; torna-os na Matéria dentro das formas do ser atômico imbuído da vida que as forja e governado pela mente e vontade que colocam em ação a formação. Ao mesmo tempo, as existências atômicas que forma desse modo devem, pela lei mesma de seu ser, tender a associar-se, a agregar-se; e cada um destes agregados também, imbuído da vida oculta que forma e da mente e vontade ocultas que as colocam em ação, leva consigo uma ficção de individual existência separada. Cada objeto ou existência individual dessa índole é sustentado, segundo que sua mente seja implícita ou explicita, manifesta ou não-manifesta, por seu ego mecânico de força, no que o querer-ser é mudo e prisioneiro mas não o menos poderoso, ou por seu mental ego auto-conhecedor no que o querer-ser é liberado, consciente, separadamente ativo.

Dessa maneira, a causa da existência atômica não é nenhuma lei eterna e original da Matéria eterna e original, senão a natu­reza da ação da Mente cósmica. A Matéria é uma criação, e para sua criação foi necessária como ponto de partida ou base o infinitesimal, uma fragmentação extrema do Infinito. O éter pode existir e existe como um suporte intangível, quase espiritual da Matéria, mas como fenômeno não parece, ao menos para nosso atual conhecimento, que se possa materialmente detectar. Subdivida­mos o agregado visível ou átomo formal em átomos essenciais, diminuindo-o no mais infinitesimal pó do ser, e todavia, devido à natureza da Mente e da Vida que os formam, alcançaremos a alguma rasa existência atômica, talvez instável mas sempre reconstituindo-se no eterno fluxo da força, de modo fenomênico, e não em uma mera extensão não-atômica incapaz de conteúdo. A não-atômica extensão da substância, extensão que não é agre­gação, a coexistência distinta da que tem lugar por distribuição no espaço, são realidades da existência pura, da pura substância; são um conhecimento da supramente e um princípio de seu dina­mismo, não um conceito criador da Mente divisora, ainda que a Mente pode tomar consciência deles atrás de suas obras, São a realidade que subjaz na Matéria, mas não o fenômeno que chamamos Materia. A Mente, a Vida e a Matéria mesma podem ser uma só com essa pura existência e extensão conscientes em sua realidade estática, mas não operar mediante essa unidade em sua dinâmica ação, auto­-percepção e auto-formação.

Portanto, alcançamos a esta verdade da Matéria de que existe uma conceptiva auto-extensão do ser que se estrutura no universo como substancia ou objeto da consciência, e que a Mente e Vida cósmica representam em sua ação criadora através da divisão atõmica e a agregação como a coisa que chamamos Matéria. mas esta Matéria, como a Mente e a Vida, é ainda Ser ou Brahman em sua ação auto-criadora. É uma forma da força do Ser consciente, uma forma dada pela Mente e realizada pela Vida. Tem dentro de si, como sua própria realidade, a consciência oculta de si, envolvida e absorta no resultado de sua própria auto-formação e, portanto, auto-esquecida. E por mais bruta e vazia de sentido que nos pareça, é contudo, para a secreta experiência da consciência oculta dentro dessa Matéria, deleite do ser oferecendo-se a esta consciência secreta como objeto de sensação a fim de atrair a esse deus oculto fora de seu isolamento. o Ser se manifesta como substância, a força do Ser se plasma na forma, em uma figurada auto-representação da auto-consciência secreta, o deleite ofere­cendo-se a sua própria consciência como um objeto, —o que é estão senão Satchidananda? A Matéria é Satchitananda representado diante Sua própria experiência mental como base formal do conhecimento objetivo, da ação e do deleite da existência--.


[1] III, 2.

[2] A Mente, como a conhecemos, cria só em um sentido relativo e ins­trumental; tem um ilimitado poder de combinação, mas seus motivos e formas criadoras lhe chegam de cima: todas as formas criadas têm sua base no Infinito acima da Mente, a Vida e a Matéria, e aqui estão repre­sentadas, reconstruídas —muito comumente mal construídas— do infinitesimal. Seu fundamento está acima, suas ramificações abaixo, diz o Rig Veda. A Mente supraconsciente de que falamos poderia chamar-se melhor de Sobre­mente e habita na ordem hierárquica dos poderes do Espírito, uma zona que depende diretamente da consciência supramental.

[3] A Mente se usa aqui em seu sentido mais exato, incluindo a operação de um poder da Sobremente que está mais próximo à supramental Ver­dade-Consciência e que é a fonte primeira da criação da Ignorância.

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Capítulo XXV

O NÓ DA MATÉRIA

Não posso viajar à Verdade do luminoso Senhor pela força nem pela dualidade... Quem são os que protegem o fundamento da falsidade? Quem são os guardiões da palavra irreal?

Naquele então a existência não era tão pouco a não-existência, o mundo-médio não era nem o Éter nem o que está além. Que cobria tudo? Onde estava? Onde se refugiava? Que era esse oceano denso e profundo? A morte não era nem a imortalidade nem o conhecimento do dia e a noite. Aquele Um vivia sem alento pela lei de si mesmo, não havia nada mais, nada além. no princípio a Obscuridade estava escondida por obscuri­dade, tudo isto era um oceano de inconsciência. Quando o ser universal foi ocultado pela fragmentação, pela grandeza de sua energia Aquele Um nasceu. Isso se moveu ao princípio como desejo interior, que foi a primeira se­mente da mente. Os videntes da Verdade descobriram a construção do ser no não-ser pela vontade no coração e pelo pensamento; seu raio se estendeu horizontalmente; mas o que havia abaixo, o que havia acima? Ali estavam os Semeadores da semente, estavam as Grandezas, estava a lei de si mesmo debaixo, estava a Vontade acima.

Rig Veda[1]

Então, se a conclusão a la que temos alcançado é correcta, —e não é possível outra segundo os dados sobre os que trabalhamos—, a profunda divisão que a experiência prática e o prolongado hábito da mente criaram entre Espírito e Matéria já não têm realidade fundamental alguma. O mundo é uma unidade diferenciada, uma unidade múltipla, não uma constante tentativa de compromisso entre eternas dissonâncias, não uma eterna luta entre irreconciliáveis opostos. Seu fundamento e princípio é uma inalienável unidade geradora de variedade infinita; uma constante reconciliação aparece como seu real caráter, atrás da divisão e luta aparentes, combinando todas as possíveis diferenças para vastos fins em uma secreta Consciência e Vontade que sempre é uma só e dona de toda sua complexa ação; devemos, portanto, ter por certo que uma realização da emergente Vontade e Consciência e uma harmonia triunfante deve ser sua conclusão. A substância é a forma de si mesma na que trabalha, e dessa substância se a Matéria é um extremo, o Espírito é o outro. Ambos são um: o Espírito é a alma e a realidade do que sentimos como Matéria; a Matéria é uma forma e corpo do que percebemos como Espírito.

Certamente, há uma vasta diferença prática e sobre essa dife­rença estão fundados a indivisível série total e os sempre-ascendentes graus da existência-do-mundo. A substância, temos dito, é existência consciente que se apresenta ao sentido como objeto de modo que, sobre a base de qualquer sentido-relação que se estabeleça, pode proceder a obra da formação-do-mundo e da progressão cósmica. Mas ali não é necessário uma só base, só um prin­cípio fundamental de relação imutável criada entre sentido e substância; pelo contrário, há uma série ascendente e evolutiva. ­Sabemos de outra substância na que a mente pura trabalha como seu meio natural e que é muito mais sutil, mais flexível, mais plástica que qualquer coisa que nosso sentido físico possa conceber como matéria. Podemos falar de uma substância da mente por­que chegamos a ser conscientes de um meio mais sutil no que as formas surgem e a ação tem lugar; podemos falar também de uma substância de pura energia-vital dinâmica diferente das mais sutis formas da substância material e suas correntes-de-força físicamente sen­síveis. O Espírito mesmo é pura substância del ser apresentando-se como um objeto não já ao sentido físico, vital ou mental, senão à luz de um puro conhecimento espiritual e perceptivo no que o sujeito se converte em seu próprio objeto, quer dizer, no que o Intemporal e o Inespacial tem consciência de si em uma pura auto-extensão espiritualmente auto-conceptiva como base e matéria prima de toda exis­tência. Além deste fundamento está la desaparição de toda diferenciação consciente entre sujeito e objeto em uma absoluta identidade, e ali já não podemos falar de Substância.

Portanto, é uma diferença puramente conceitual, –uma espiritual, não uma conceitual diferença mental--, que culmina em uma distinção prática, que cria a série que descende desde o Espírito através da Mente à Materia e que ascende outra vez desde a Matéria através da Mente ao Espírito. Mas a real unidade não é nunca suprimida, e, quando regressamos à original e integral visão das coisas, vemos que nunca jamais se apequena ou desequilibra, nem nas mais brutas densi­dades da Matéria. O Brahman é não só a causa, o poder sustentador e o princípio morador do universo, é também sua matéria e sua única matéria. A Matéria também é Brahman, e não é nenhuma outra coisa que Brahman ou diferente dele. Se em verdade a Matéria se segregara do Espírito, isto não seria assim; mas é, como temos visto, só uma forma final e aspecto objetivo da Existência divina contudo Deus sempre está pre­sente nela e atrás dela. Assim como esta Matéria aparentemente tosca e inerte está por toda parte e sempre imbuída da poderosa força dinâmica da Vida, assim como esta Vida dinâmica mas aparentemente inconsciente guarda em segredo dentro dela uma inaparente Mente sempre-trabalhando, de cujas operações ocultas é a manifesta energia, assim como esta Mente ignorante, não-iluminada e saudosa é sustentada e guiada soberanamente no corpo viviente por seu próprio eu real, a Supramente, que está ali por igual na Matéria não-mentalizada, assim toda a Matéria igualmente que toda a Vida, Mente e Supramente são só modos do Brahman, o Eterno, o Espírito, Satchitananda, que não só mora em todas elas senão que é todas estas coisas ainda que nenhuma delas é Seu ser absoluto.

Mas ainda fica esta diferença conceitual e distinção prática, e nisso, inclusive se a Matéria não se separa realmente do Espírito, contudo aparece com tal definição prática de ser separada, é tão diferente, inclusive tão contrária em sua lei, a vida material parece em tão grande medida ser a negação de toda existência espiritual que sua rejeição bem poderia parecer o único atalho para acabar com a dificuldade, -como indevidavelmente ocorre; mas um atalho ou qualquer redução não é a solução—. Ainda ali, na Matéria radica indudavelmente a questão essencial; isso suscita o obstáculo: pois devido à Matéria a Vida é bruta, limitada e afligida pela morte e a dor, devido à Matéria a Mente é mais que semi-cega, com as asas cortadas, com sues pés atados a um estreito suporte e refreada da vastidão e liberdade acima da qual é consciente. Mas o tanto, o buscador espiritual exclusivo está justificado em seu ponto de vista se, des­gostado com o barro da Matéria, perturbado pela tosquedade animal da Vida ou impaciente pela auto-aprisionada estreiteza e baixa visão da Mente, se determina a separar-se dela por completo e retornar por inação e silêncio à imóvel liberdade do Espírito. Mas esse não é o único ponto de vista e, devido a que há sido sustentado ou glorificado sublimemente com brilhantes e dourados exemplos, não necessitamos considerá-lo como a integral e última sabedoria. Melhor, liberando-nos de toda paixão e rebeldia, vejamos o que significa esta ordem divina do universal, e, enquanto a este grande nó e emaranhado da Matéria que nega o Espírito, procuremos descobrir e separar suas farpas, para assim afrouxá-lo com a solução e não cortá-lo com a violência. Devemos expressar a dificuldade, pri­meiro a oposição, inteiramente, agudamente, exageradamente, se é necessário, melhor que de maneira menor, e buscar a solução.

Em primeiro lugar, então, a oposição fundamental que a Matéria oferece ao Espírito consiste em que é a culminação do princípio da Ignorância. Aqui a Consciência se perdeu e se esqueceu em uma forma de suas obras, como um homem pode esquecer em extrema absorção não só quem é ele senão inclusive que existe, con­vrtendo-se momentaneamente só no trabalho que se efetua e a força que está fazendo-o. O Espírito auto-luminoso, infinitamente conhecedor de si atrás de todas as obras da força e seu domínio, parece haver desaparecido aqui e não existir para nada; talvez está em algum lado, mas aqui Ele parece haver deixado só uma bruta e inconsciente Força material que cria e destrói eternamente sem conhecer-se ou sem saber o que cria ou por que o cria ou por que destrói o que uma vez criou; não sabe pois não tem mente; não se preocupa, pois não tem coração. E se essa não é a verdade real inclusive do universo material, se atrás de todo este falso fenômeno há uma Mente, uma Vontade e algo maior que a Mente ou a Vontade mental, com tudo esta é um obscuro semblante que o universo material mesmo apresenta como uma verdade à consciência que emerge nele à partir de sua noite; e se não fosse verdade senão mentira, contudo é a mentira mais efetiva, pois determina as condições de nossa existência fenomênica e acossa a toda nossa aspiração e esforço.

Pois isto é o monstruoso, o terrível e sem misericordioso milagre do universo material que emerge desta não-Mente, mente, ou várias mentes, que se encontram lutando debilmente pela luz, individualmente desamparadas, um tanto menos desamparadas quan­do, em defensa própria, associam sua debilidade individual em meio da gigantesca Ignorância que é a lei do universo. À partir desta sem afeto Inconsciência e dentro de sua rigorosa jurisdição há nascido os corações, ou aspiram, e são torturados e sangrados sob o peso da cega e insensível crueldade desta férrea existência, uma crueldade que assenta sua lei sobre eles e se torna sensível no sentimento deles, brutal, feroz, horrível. Mas, depois de todo, que é, atrás das aparências, este aparente mistério? Podemos ver que é a Consciência que se há perdido regressando outra vez a si mesma, emergindo de seu gigantesco auto-esquecimento, lentamente, penosamente, como uma Vida que poderia ser sensível, semi-sensível, obscuramente sensível, totalmente sen­sível e finalmente lutando por ser mais que sensível, a ser de novo divinamente auto-consciente, livre, infinita, imortal. Mas atua para isto sob uma lei que é o oposto destas coisas, sob as condições da Matéria, vale dizer, contra o aferrar-se da Ignorância. Os movimentos que há de seguir, os instrumentos que há de usar os apresenta e prepara esta tosca e dividida Matéria, impondo, a cada passo, ignorância e limitação.

Pois a segunda oposição fundamental que a Matéria oferece ao Espírito, é esta que é a culminação da escravidão à Lei mecânica e opõe a todo o que procura liberar-se uma colossal Inércia. Não é que a Matéria mesma seja inerte; é muito mais um movi­mento infinito, uma força inconcebível, uma ação ilimitada, cujos movimentos grandiosos são tema de nossa constante admiração. Mas enquanto o Espírito é livre, dono de si e de suas obras, não obrigado por elas, criador da lei e não sujeito a ela, esta Matéria gigantesca está rigorosamente encadeada por uma fixa e mecânica Lei que lhe é imposta, que não entende nem jamais concebeu e que se estrutura inconscientemente como uma máquina funcionando sem saber quem a criou, mediante que procedimento e com que fim. E quando a Vida desperta e busca impor-se sobre a forma física e a força material, e usar todas as coisas segundo sua própria vontade e para sua própria necessidade, quando a mente desperta e busca conhecer o quem, por que e como de si mesma e de todas as coisas e, sobretudo, usar seu conhecimento para a imposição de sua própria lei mai livre e de sua auto-guiadora ação sobre as coisas, a Natureza material parece ceder, inclusive aprovar e auxiliar, ainda que sob uma luta, com repulsa e só até certo ponto. Mas além desse ponto apresenta uma obstinada inércia, obstrução, negação e inclusive persuade à Vida e a Mente que não podem ir mais adiante, que não podem prosseguir até o fim sua vitória parcial. A Vida luta por alargar-se, prolongar-se e triunfar; mas quando busca amplitude e imortalidade totais, encontra a férrea obstrução da Matéria e se descobre ligada à estre­itza e a morte. A Mente busca ajudar a vida e cumprir seu próprio impulso de abarcar todo o conhecimento, de converter-se em luz plena, de possuir a verdade e ser a verdade, de respaldar o amor e e alegria, e ser amor e alegria; mas sempre está o desvio, o erro e a tosquedade dos materiais instintos-vitais e a negação e obstrução do sentido material e dos instrumentos físicos. O erro sempre vai em posse de seu conhecimento, a obscuridade é inseparável companheira e transfundo de sua luz; a verdade é buscada exitosamente e, contudo, quando se a agarra, cessa de ser verdade e a busca há de continuar; o amor está ali mas não pode satisfazer-se, a alegria está ali mas não pode justificar-se; cada qual arrasta como se fossem cadeias ou projeta como se fossem sombras, seus próprios opostos, ira e ódio e indiferença, saciedade e pesar e dor. A inércia com a que responde a Matéria às demandas da Mente e a Vida, impede a conquista da Ignorância e da Força bruta que é o poder da ignorância.

E quando buscamos saber por que isto é assim, vemos que o bom êxito desta inércia e obstrução se deve ao terceiro poder da Matéria; pois a terceira oposição fundamental que a Matéria oferece ao Espírito é esta que é a culminação do princípio da divisão e a luta. Certamente indivisível na realidade, a divi­sibilidade é a base total da ação desde a qual parece sempre pro­ibido partir; pois seus dois únicos métodos de união são a agregação de unidades ou uma assimilação que implica a destruição de uma unidade por parte de outra; e ambos métodos de união são uma confissão de eterna divisão, dado que o primeiro antes associa que unifica e por seu princípio mesmo admite a constante possibilidade e, portanto, a necessidade última de dissociação, de dissolução. Ambos métodos re­pousam sobre a morte, em um como um meio, no outro como uma condição de vida. E ambos pressupõem como a condição da existência-mun­dana uma constante luta das unidades divididas, uma com outra, cada qual lutando por manter-se, por necessidade sua associação, por compelir ou destruir o que lhe resiste, por reunir e devorar aos demais como sua comida, mas em si mesma compelida a alçar-se contra a compulsão e a fugir dela, da destruição e da assimilação por ser devorada. Quando o princípio vital manifesta suas atividades na Matéria, encontra ali só esta base para todas suas ativida­des e é compelido a inclinar-se diante o julgo; há de aceitar a lei da morte, do desejo e da limitação, e essa constante luta por devorar, possuir, dominar que temos visto constitui o primeiro aspecto da Vida. E quando o princípio mental se manifesta na Matéria, há de aceitar do molde e material em que trabalha o mesmo princípio de limitação, de busca sem encontro seguro, a mesma associação e dissociação constantes de suas conquistas e dos componentes de suas obras, de modo que o conhecimento obtido pelo homem, o ser mental, jamais parece ser final ou livre de dúvida e negação, e todo seu labor parece condenado a mover-se em um ritmo de ação e reação e de fazer e desfazer, em ciclos de criação e breve preservação e larga destruição sem progresso certo nem seguro.

Em especial e mais fatalmente, a ignorância, inércia e divisão da Matéria impõem sobre a existência vital e mental que emergem nela, a lei da dor e o sofrimento, e o desassossego da insatisfação com seu estado de divisão, inércia e ignorância. A ignorância certamente não traria a dor da insatisfação se a consciência mental fosse inteiramente ignorante, se ficasse satisfeita com sua caparazón de costumes sem ter consciência de sua própria ignorância ou do oceano infinito da consciência e o conhecimento pelo que vive rodeada; mas precisamente é a isto ao que desperta a Consciência que emerge na Matéria, primeiro a sua ignorância do mundo no que vive e que há de conhecer e dominar a fim de ser feliz; segundo, à esterilidade e limitação últimas deste conhecimento, à escassez e insegurança do poder e a felicidade que traz, e ao ter noção de uma consciência infinita, de um conhecimento, de um ser verdadeiro no que só há de encontrar-se uma felicidade vitoriosa e infinita. E a obstrução da inércia não traria consigo desassossego e insatisfação se a sensibi­lidade vital que emerge na Matéria fosse inerte por completo; se satisfizesse-se com sua limitada existência semiconsciente, desco­nhecedora do poder infinito e a existência imortal em que vive como parte e contudo separada dela; ou se nada tivesse dentro de si que a levara a esforçar-se para participar realmente nessa infini­tude e imortalidade. Mas isto é precisamente o que toda vida tende a buscar e sentir desde o princípio, sua insegurança e a necessidade, e a luta pela persistência, pela auto-preservação; finalmente desperta à limitação de sua existência e começa a sentir o impulso para a grandeza e a persistência, para o infinito e o eterno.

E quando no homem a vida se torna totalmente auto-cons­ciente, esta inevitável luta, esforço e aspiração alcançam seu ponto culminante e a dor e a discórdia do mundo se tornam finalmente demasiado notoriamente sensíveis como para tolerá-los com contentamento. O homem pode durante longo tempo aquietar-se procurando satis­fazer-se com suas limitações ou reduzindo sua luta a um domínio tal como o que pode alcançar sobre este mundo material em que vive, algum triunfo mental e físico de seu conhecimento progressivo sobre suas inconscientes estabilidades, de suas pequenas e concentradas vontade e poder conscientes sobre suas monstruosas forças manejadas-inertemente. Mas aqui também encontra a limitação, a pobre impossibilidade conclusiva dos máximos resultados que pode conquistar e está obrigado a olhar além. O finito não pode ficar permanentemente satisfeito enquanto não seja consciente, de uma finitude maior que a própria ou mais, de uma infinitude além de si, às que possa aspirar e se o finito pudesse assim satisfazer-se, contudo o ser aparentemente finito que sente em realidade ser infinito ou sente meramente a presença, ou o impulso e acicate de um infinito em seu interior, jamais pode satisfazer-se até que ambos se reconciliem, até que Isso esteja possuído por ele, e ele seja possuído por Isso, em qualquer grau ou maneira. O homem é essa infinitude de aparência finita e não pode falhar em alcançar a uma busca em posse do Infinito. O homem é o primeiro filho da terra que chega a ser vagamente consciente de Deus dentro dele, de sua imortalidade ou de sua necessidade de imortalidade, e esse conhecimento é um chicote que impele e uma cruz de crucificação até que é capaz de convertê-lo em fonte de luz, alegria e poder infinitos.

Este desenvolvimento progressivo, esta crescente manifestação da divina Consciência e Força, Conhecimento e Vontade que se perdeu na ignorância e inércia da Matéria, bem poderia ser uma feliz florescência prosseguindo desde a alegria para uma maior e, finalmente, infinita alegria se não fosse pelo princípio da rígida divisão da que partiu a Matéria. O encerrar-se do indivíduo em sua própria consciência pessoal de separada e limitada mente, vida e corpo impede o que, de outro modo, seria a natural lei de nosso desenvolvimento. Introduz no corpo a lei de atração e repulsão, de defesa e ataque, de discórdia e dor. Pois para o ser cada corpo é uma limitada força-consciente, se sente exposto ao ataque, impacto, forçado contato de outra limitada força-consciente ou de forças universais, e donde se sente interferido ou incapaz de harmonizar o contacto e a consciência receptora, sofre desassossego e dor, é atraído ou repelido, há de defender-se ou atacar; se lhe reclama constantemente suportar o que não quer ou não é capaz de sofrer. Dentro do emocional e do sentido-mente a lei de divisão traz as mesmas reações com os valores superiores de pesar e alegria, amor e ódio, opressão e depressão, todos projetados dentro dos termos do desejo, e mediante o desejo projetados em tensão e esforço, e mediante a tensão se projetam em excesso e defeito de força, incapacidade, o ritmo de conquista e contrariedade, possessão e dobra, uma luta constante e transtorno e incomodidade. Dentro da mente como um todo, em lugar de uma lei divina de mais estreita verdade que flui para uma verdade maior, em lugar de uma luz menor que se eleva para uma luz mais vasta, em lugar de uma vontade inferior submetida a uma superior vontade transformadora, em lugar de uma menor satisfação que pro­gride para uma satisfação mais nobre e mais completa, traz similares dualidades de verdade seguida por erro, de luz seguida por obscuri­dade, de poder seguido por incapacidade, de prazer de perseguir e alcançar seguido por dor de rejeição e de insatisfação até o que se alcança; a mente encara sua própria aflição junto com a aflição da vida e o corpo e toma consciência do triplo defeito e insuficiência de nosso ser natural. Tudo isto significa a negação de Ananda, a negação da trindade de Satchitananda e, portanto, se a negação é insuperável, a futilidade da existência; pois a existência, ao lançar-se no jogo da consciência e da força, deve buscar esse movimento não meramente para si, senão também pela satisfação no jogo, e se não é possível achar real satisfação no jogo, deve obviamente abandonar-se finalmente, como uma vã intenção, um erro colossal, um delírio do espírito auto-encarnando.

Esta é a base total da teoria pessimista do mundo, —pode considerar-se otimista enquanto aos mundos e estados além, mas pessimista enquanto à vida terrena e destino do ser mental em seus tratos com o universo material—. Pois afirma que, dado que a natureza mesma da existência material é a divisão e a semente mesma da mente corporizada é la auto-limitação, a ignorancia e o egoísmo, buscar a satisfação do espírito sobre a terra ou buscar um resultado ou propósito divino e culminação para o jogo-do-mundo é vaidade e engano; só em um céu do Espírito e não no mundo, ou só na verdadeira quietude do Espírito e não em suas atividades fenomênicas, podemos reunir a existência e a consciência com o divino auto-deleite. O Infinito só pode re­cuperar-se rejeitando como um erro e um passo em falso sua tentativa de encontrar-se no finito. Tão pouco o emergir da consciência mental no universo material pode trazer consigo promessa alguma de uma divina realização. Pois o princípio da divisão não é apropriado à Matéria senão à Mente; a Matéria é só uma ilusão da Mente na qual a Mente introduz sua própria regra de divisão e ignorância. Portanto, dentro desta ilusão a Mente só pode achar-se a si mesma; só pode viajar entre os três termos da existência dividida que criou: não pode achar ali a unidade do Espírito nem a verdade da existência espiritual.

Agora bem, é verdade que o princípio da divisão na Matéria só pode ser uma criação da Mente dividida que se precipitou na existência material; pois essa existência material não tem auto-ser, não é o fenômeno original senão só uma forma criada por uma força-Vital todo-divisora que estrutura as concepções de uma Mente todo-divisora. Estruturando o ser dentro destas aparências da ignorância, inércia e divisão da Matéria, a Mente divisora se perdeu e aprisionado em uma masmorra de seu próprio edifício, se sujeita com cadeias que ela mesma forjou. E se é verdade que a Mente divisora é o primeiro princípio da criação, então deve ser também a conquista última possível na criação, e o ser mental lutando de maneira vã com a Vida e a Matéria, vencendo-as só para ser vencido por elas, repetindo eternamente um infrutuoso ciclo, deve ser a última e suprema palavra da existência cósmica. Mas essa consequência não procede se, pelo contrário, é o Espírito imortal e infinito que se há velado no denso manto da substância material, quem trabalha ali mediante o supremo poder criador da Supramente, permitindo as divisões da Mente e o reino do princípio inferior ou material só como condições iniciais de certo jogo evolutivo do Um nos Muitos. Se, em outras palavras, não é meramente um ser mental que está escondido nas formas do universo, senão o infinito Ser, Conhecimento, Vontade, que emerge desde a Matéria primeiro como Vida, logo como Mente, com o resto de si ainda não revelado, então o emergir da consciência desde o aparente­mente Inconsciente deve ter outro termo mais completo; já não é impossível a aparição de um supramental ser espiritual que imponha em suas obras mentais, vitais e corporais, uma lei superior à da Mente divisora. Pelo contrário, é a natural e inevitável conclusão da natureza da existência cósmica.

Esse ser supramental, como temos visto, liberaria a mente do nó de sua dividida existência e usaria a individualização da mente como simplesmente uma útil ação subordinada da todo-abar­cadora Supramente; e ela liberaria a vida também do nó de sua dividida existência e usaria a individualização da vida como simplesmente uma útil ação subordinada da única Força-Consciente que realiza seu ser e alegria em uma diversificada unidade. Há alguma razão pela que não liberaria também a existência corporal da atual lei de morte, divisão e mútuo devorar-se, e usaria a individualização do corpo como meramente um útil subordinado da única divina Existência-Consciente, posta em serviço para a alegria do Infinito no finito? Ou por que este espírito não seria livre em uma soberana ocupação da forma, conscientemente imortal ainda na mudança de seu vestido de Matéria, possuído de seu auto-deleite em um mundo sujeito à lei da unidade, o amor e a beleza? E se o homem é o habitante da existência terrestre, através do qual pode finalmente produzir-se essa transformação do mental no supramental? Não é possível que possa ele desenvolver, igualmente que uma mente divina e uma vida divina, também um corpo divino? Ou, se a frase parece demasiado surpreendente para nossas atuais concepções limitadas da potencialidade humana, não pode ele em seu desenvolvimento de seu verdadeiro ser e de sua luz, alegria e poder, alcançar a um uso divino da mente, a vida e o corpo, pelo qual o descenso do Espírito na forma se justifique, a sua vez, tanto no humano como no divino?

O único que pode criar obstáculo no caminho dessa última possibilidade terrestre é se nossa atual visão da Matéria e suas leis representam a única relação possível entre sentido e substância, entre o Divino como sujeito conhecedor e o Divino como objeto de conhecimento, ou se, ao ser possíveis outras relações, contudo não são possíveis de nenhum modo aqui, senão que devem buscar-se em superiores planos da existência. Nesse caso, é além dos céus que devemos buscar nossa íntegra realização divina, como o afirmam as religiões, e sua outra afirmação do reino de Deus ou do reino do perfeito sobre a terra deve fazer-se a um lado como ilusão. Aqui só podemos perseguir ou alcançar uma interna preparação ou vitória e, havendo liberado a mente, a vida e a alma por dentro, devemos voltar-nos, desde o não-conquistado e inconquistável princípio material, desde uma não-rege­nerada e intratável terra, a buscar por toda parte nossa divina subs­tância. No entanto, não há razão para que aceitemos esta limi­tadora conclusão. Com toda segurança há ainda outros estados inclusive de Matéria mesma; há induvidavelmente uma série ascendente das divi­nas gradações da substância; existe a possibilidade do ser mate­rial, de transfigurar-se através da aceitação de uma lei superior à própria que, contudo, é a sua própria pois está ali sempre latente e potencial em seus próprios segredos.


[1] V, 12, 2, 4; X, 129, 1-5.

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Capítulo XXVI

A SÉRIE ASCENDENTE DA SUBSTÂNCIA

Há um eu que é de a essência da Matéria —há outro eu interior da Vida que completa o primeiro¾ há outro eu interior da Mente —há outro eu interior da Verdade­-Conhecimento— há outro eu interior de Bem-aventurança.

Taittiriya Upanishad[1]

Eles ascendem a Indra como uma escada. Na medida em que um sobe cume após cume, se torna claro o muito que ainda resta por fazer. Indra traz a consciência Disso como meta.

Como um falcão, como um milano Ele se pousa sobre a Nave e a eleva; em Seu jato de movimento Ele descobre os Raios, pois marcha portando suas armas: cliva o oceano agita as águas; um grande Rei. Ele declara o quarto estado. Como um mortal que purifica seu corpo, como um cabalo-de-guerra que galopa à conquista de riquezas, Ele flui chamando através de toda a envoltura[2] e entra nestes vasos.

Rig Veda[3]

Se consideramos o que mais representa a nós a materia­lidade da Matéria, veremos que é seu aspecto de solidez, de ser tangível, de resistência crescente, de firme resposta ao contato com a Sensação. A substância parece mais certamente material e real em proporção a como nos apresenta uma sólida resistência e em virtude dessa resistência, uma durabilidade da forma sensível na que nossa consciência poda morar; em proporção a como resulta mais sutil, menos densamente resistente e menos duradouramente percebido pelo sentido, nos parece menos material. Este atitude de nossa cons­ciência ordinária para com a Matéria é símbolo do objeto essencial para o qual há sido criada a Matéria. A substância mora dentro do estado material a fim de poder apresentar-se à consciência, à qual tem que entregar com ele imagens duradouras, firmemente apreensíveis sobre as que a mente possa apoiar e basear suas operações e às que a Vida possa manejar, com ao menos, uma relativa segurança de permanência na forma sobre a que opera. Portanto, na anti­ga fórmula Védica, a Terra, modelo dos estados mais sólidos de substância, foi aceitada como o nome simbólico do princípio material. Por isso também o tato ou contato é para nós a base essencial de Sensação; todos os outros sentidos físicos, gosto, olfato, ouvido, vista, se baseiam em uma série de contatos cada vez mais sutis e indiretos entre o perceptivo e o percebido. Igualmente, na classificação Sankhya dos cinco estados elementais da Substância desde o éter à terra, vemos que sua característica é uma constante progressão desde o mais sutil até o menos sutil de modo que na cúspide temos as vibrações sutis do etéreo e na base a densidade mais grossa da elemental condição terrena ou sólida. A Matéria, portanto, é a última etapa conheci­da por nós no progresso da pura substancia para uma base de relação cósmica, na que a primeira palavra não será espírito senão forma, e forma em seu máximo desenvolvimento possível de con­centração, resistência, imagem duradoramente densa, mútua impenetrabilidade, —o ponto culminante da distinção, separação e divisão—. Esta é a intenção e caráter do universo material; é a fórmula da consumada divisibilidade.

Se há, como deve existir na natureza das coisas, uma série ascendente na escala da substância desde a Matéria até o Espírito, ela deve estar marcada por uma progressiva diminuição destas capacidades mais características do principio físico e um progressivo incremento das características opostas que nos con­duzirão à fórmula da pura auto-extensão espiritual. Isto é como dizer que devem estar marcadas por cada vez menor escravidão à forma, por cada vez maior sutileza e flexibilidade de substância e força; por cada vez maior inter-fusão, interpenetração, poder de assimilação, poder de intercâmbio, poder de variação, transmu­tação e unificação. Afastando-nos da durabilidade da forma marchar-nos para a eternidade da essência; afastando-nos de nosso equilíbrio na persistente separação e resistência da Ma­téria física, nos acercamos ao supremo equilíbrio divino na infini­tude, unidade e indivisibilidade do Espírito. Entre a tosca substância densa e a pura substância do espírito esta deve ser a fundamental antinomia. Na Matéria, Chit ou a Força-Consciente se concentra cada vez mais para resistir e impor-se diante das outras massas da mesma Força-Consciente; na substância do Espírito, a pura consciência se imagina livremente em sua sensação de si mesma com uma indivi­sibilidade essencial e um constante intercâmbio unificador como fór­mula básica inclusive do mais diversificado jogo de sua própria Força. Entre estes dois pólos existe a possibilidade de uma gradação infinita.

Estas considerações resultam de grande importância quando consideramos a possível relação entre a vida divina e a mente divina da alma humana aperfeiçoada e o muito denso e aparentemente não-divino corpo ou forma do ser físico em que atualmente moramos. Essa forma é resultado de certa relação fixa existente ente sensação e substância, desde a qual começou o universo material. Mas assim como esta relação não é a única relação possível, de igual modo essa forma não é a única forma possível. A vida e a mente podem manifestar-se em outra relação com a substância e estruturar diferentes leis físicas, hábitos distintos e maiores, in­clusive uma distinta substância do corpo com uma mais livre ação da sensação, mais livre ação da vida, mais livre ação da mente. Morte, divisão, mútua resistência e exclusão entre as massas cor­porizadas da mesma força-vital consciente são a fórmula de nossa existência física; a estreita limitação do jogo dos sentidos, a determinação dentro de um pequeno círculo do campo, duração e poder das obras-vitais, o obscurecimento, o pouco convincente movimento, o interrompido e restringido funcionamento da mente são o julgo que essa fórmula expressada no corpo animal há imposto sobre os princípios superiores. Mas estas coisas não são o único ritmo possível da Natureza cósmica. Há estados superiores, há mundos superiores, e se por qualquer progresso do homem e por qualquer liberação de nossa substância desde suas atuais imperfeições, a lei daqueles pudesse impor-se nesta forma e instrumento sensíveis de nosso ser, então pode existir inclusive aqui uma atuação física da mente e do sentido divinos, uma tarefa física da vida divina na estrutura humana e também na evolução sobre a terra de algo que podemos chamar, um corpo divinamente humano. O corpo do homem também po­de algum dia obter sua transfiguração; a Mãe-Terra também pode revelar em nós sua deidade.

Inclusive dentro da fórmula do cosmos físico há uma série ascen­dente na escala da Matéria que nos conduz do mais denso ao menos denso, do menos sutil ao mais sutil. De onde alcan­çamos o termo supremo dessa série, a mais supra-etérea sutileza da substância material ou formulação da Força, que está mais além? Não é um Nihil, não é um vazio; pois não existe uma coisa tal como vazio absoluto ou nulidade real e o que chamamos por esse nome é simplesmente algo que está mais além da captação de nosso sentido, nossa mente ou nossa consciência mais sutil. Tão pouco é verdade que além não há nada, o que alguma substância etérea da Matéria é o princípio eterno; pois sabemos que a Matéria e a Força material são só um resultado último de uma Substância pura e uma Força pura nas que a consciência está luminosamente auto-consciente e auto-possuidora e não como na Ma­téria perdida em si mesma em um sonho inconsciente e em um movimento inerte. Que há então entre esta substância material e essa subs­tância pura? Pois não saltamos de uma à outra, não passamos a um tempo do inconsciente à consciência absoluta. Devem haver e há toda uma evolução de graus entre a substância inconsciente e a auto-extensão completamente auto­-consciente, igualmente que entre o princípio da Matéria e o princípio do Espírito.

Todos quantos sondaram estes abismos estão dispostos a testemunhar o fato de que há uma série de formulações (formas) cada vez mais sutis da substância, que escapam e vão mais além da fórmula do universo material. Sem aprofundar em assuntos que são demasiado ocultos e difíceis para nossa atual investigação, podemos dizer, aderindo-nos ao sistema sobre o que nos temos baseado, que estas gra­dações da substância, --em um importante aspecto de sua formulação em séries--, podem ver-se, como se correspondem, com a ascendente série de Matéria, Vida, Mente, Supramente e essa outra divina triplicidade su­perior de Satchitananda. Em outras palavras, descobrimos que a substância em sua ascensão, se baseia em cada um destes princípios e se torna sucessivamente um veículo característico para a dominante auto-expressão cósmica em cada uma de suas séries ascendentes.

Aqui, no mundo material, tudo se funda na fórmula da substância material. A Sensação, a Vida, o Pensamento se baseiam sobre o que os antigos chamaram Poder-Terra, partem dele, acatam suas leis, acomodam suas atuações a este princípio fundamental, se limitam por suas possibilidades e, se desenvolveram outras, inclusive nesse desenvolvimento hão de ter em conta a fórmula original, sua fina­lidade e sua exigência sobre a evolução divina. A sensação trabalha através dos instrumentos físicos, a vida através do siste­ma-nervoso físico e os órgãos vitais, a mente há de construir suas operações sobre uma base corporal, usando uma instrumentação material, ainda em suas atividades mentais puras há de tomar os dados assim derivados como campo e como o material sobre os quais trabalha. Não é preciso que na natureza essencial da mente, da sensação, da vida, tenham de limitar-se assim: pois os órgãos-sensoriais físicos não são os criadores das percepções-sensorias, senão que eles mesmos são a criação, os instrumentos e aqui uma conveniência necessária da sensação cósmica; o sistema nervoso e os órgãos vitais não são os criadores da ação e reação da vida, senão que eles mesmos são a criação, os instrumentos e aqui uma necessária conveniência da força-vital cósmica; o cérebro não é o criador do pensamento, senão que ele mesmo é a criação, o instrumento e aqui uma necessária conveniência da Mente cósmica. A necessidade então não é absoluta, senão teleológica; é o resultado de uma divina Vontade cósmica no universo material que propende a projetar aqui uma relação física entre a sensação e seu objeto, estabelece aqui uma fórmula material e lei da Força-Consciente e cria mediante ela as imagens físicas do Ser-Consciente para servir de fato inicial, dominante e determinante do mundo em que vivemos. Não é uma lei fundamental do ser senão um princípio construtivo requerido pela intenção do Espírito em ordem a evoluir no mundo da Matéria.

No grau seguinte da substância o fato inicial, domi­nante e determinante já não é a força e a forma da substância senão a vida e o desejo consciente. Portanto, o Mundo além deste plano material deve ser um mundo baseado em uma consciente Energia vital cósmica, uma força de busca vital e uma força de Desejo e sua auto-expressão, e não em uma vontade inconsciente ou subconsciente que toma a forma de uma energia e uma força material. Todas as formas, corpos, forças, movimentos-vitais, movimentos-sensórios, movimentos-do-pensamento, desenvolvimentos, culminações, auto-realiza­ções desse Mundo devem ser dominados e determinados por este fato inicial da Vida-Consciente ao que a Matéria e a Mente devem submeter-se, devem partir desde ele, basear-se ambas nele, limitar-se ou alargar-se segundo suas leis, poderes, capacidades, limitações; e se a Mente procura desenvolver todavia possibilidades superiores, ainda deve ter em conta a fórmula vital original da força-desejo, sua finalidade e sua exi­gência enquanto à manifestação divina.

O mesmo ocorre com as gradações superiores. A seguinte na série deve ser governada pelo dominante e determinante fator da Mente. A substância deve haver chegado a ser o bastante sutil e flexível como para assumir as formas que diretamente lhe impõe a Mente, para acatar suas operações, para subordinar-se a sua exigência de auto-expressão e auto-realização. As relações de sensação e subs­tância devem também ter uma sutileza e flexibilidade corresponden­tes, e devem ser determinadas, não pelas relações do órgão físico com o objeto físico, senão da Mente com a substância mais sutil sobre a qual trabalha. A vida desse Mundo seria servente da Mente em um sentido do qual nossas débeis operações mentais e nossas limitadas, toscas e rebeldes faculdades vitais não podem ter uma concepção adequada. Ali a Mente domina como a fórmula original, sua finalidade prevalece, sua exigência supera a todas as outras na lei da manifestação divina. Em uma distância ainda superior, a Supramente —ou, entre médias, os princípios controlados por ela— ou, mais acima todavia, uma pura Bem-aventurança, um puro Poder Consciente ou puro Ser substituem à Mente como princípio dominante, e ingressamos naqueles Âmbitos da exis­tência cósmica que para os antigos videntes Védicos eram os Mun­dos da divina existência iluminada e o fundamento do que denominaram Imortalidade e que mais tarde as religiões indianas imaginaram, em figuras como Brahmaloka ou Goloka, alguma suprema auto-expressão do Ser como Espírito na que a alma liberada em sua perfeição suprema possui a infinitude e beatitude da Deidade eterna.

O princípio que subjaz nesta experiência continuamente ascendente e nesta visão que se eleva mais além da formulação material das coisas é que toda existência cósmica é uma harmonia complexa e não conclui com o alcance limitado da consciência nele que a ordinária mente humana e a vida estão condenados a estar em prisão. O ser, a consciência, a força, a substância, descendem e ascendem uma escada de múltiplos degraus, em cada um dos quais o ser tem uma mais vasta auto-extensão, a consciência uma mais ampla sensação de seu próprio alcance, grandeza e alegria, a força uma maior intensidade e uma mais rápida e bem-aventurada capacidade, a substância oferece uma mais sutil, plástica, flutuante e flexível versão de sua primeira reali­dade. Pois o mais sutil é também o mais poderoso, ¾um poderia dizer o mais verdadeiramente concreto--; é menos restringido que o denso, tem uma maior permanência em seu ser junto com maior poten­cialidade, plasticidade e alcance em seu devir. Cada plataforma da ascensão ao cume do ser, dá à nossa experiência em expansão um plano superior de nossa consciência e um mundo mais rico para nossa existência.

Mas como afeta esta série ascendente às possibilidades de nossa existência material? Não as afetaria para nada se cada plano da consciência, cada Mundo da existência, cada classe de substãncia, cada grau de força cósmica estivesse segregado por inteiro do que precede e do que lhe segue. Mas a verdade é o oposto; a manifestação do Espírito é uma complexa trama e no desenho e modelo de um Princípio entram todos os demais como elementos do todo espiritual. Nosso Mundo material é o resultado de todos os demais Mundos, pois todos os outros Princípios descenderam na Matéria para criar o universo físico, e cada partícula do que chamamos Matéria contêm a todos eles implícitos em si mesma; sua ação secreta, como já vimos está involvida em cada momento de sua existência e em todo movimento de sua atividade. E assim como a Matéria é a última palavra do Descenso Involutivo ao Inconsciente, de igual maneira é tam­bém a primeira palavra da Ascensão; assim como os poderes de todos estes planos, mundos, classes, graus estão envolvidos na existência material, de igual maneira todos são capazes de Evolução por e à partir dela. É por esta razão que o ser material não começa e termina com gases, compostos químicos, forças físicas e movimentos, com nebulosas, sóis e terras, senão que evolui até o desenvolvimento da vida, evolui até o desenvolvimento da mente, deve evoluir em seu momento para a supramente e os graus superiores da existência espiritual. A evolução advêm mediante a ince­sante pressão dos planos supra-materiais sobre o material, compelindo à matéria a liberar de si seus princípios e poderes que, de outro modo, concebivelmente haveriam dormido aprisionados na rigidez da fórmula material. Isto haveria sido ainda assim improvável, dado que sua presença ali implica um propósito de liberação; mas ainda esta necessidade debaixo é em realidade ajudada em grau sumo por uma semelhante pressão superior.

Esta evolução não pode terminar com a primeira formulação escassa da vida, mente, supramente, espírito, concedida a esses poderes superiores pelo relutante poder da Matéria. Pois na medida que evoluem, tal como despertam, tal como chegam a ser mais ativos e ávidos de suas próprias potencialidades, a pressão sobre eles dos planos superiores, --uma pressão envolvida na existência e íntima conexão e interdependência dos Mundos--, deve também crescer em insistência, poder e efetividade. Estes princípios não só devem manifestar-se desde baixo em um qualificado e restringido emergir, senão também desde acima deles devem descender com seu característico poder e plena flo­rescência possível dentro do ser material; a criatura material deve abrir-se a um jogo cada vez mais amplo de suas atividades na Matéria, e tudo quanto se necessita é um receptáculo, um meio e alguns ins­trumentos aptos. Isso o aporta o corpo, a vida e a consciência do homem.

Certamente, se esse corpo, vida e consciência estivessem limitados às possibilidades do corpo denso humano, que são todas as que aceitam nossos sentidos físicos e mentalidade física, haveria um estreitíssimo marco para esta evolução, e o ser humano não poderia esperar cumprir nada essencialmente maior que seu próprio alcance. Mas este corpo, como o descobriu a antiga ciência oculta, não é todavia o todo de nosso ser físico; esta bruta densidade não é toda nossa substância. O antiquíssimo conhecimento Vedântico nos fala de cinco graus de nosso ser: o material, o vital, o mental, o ideal e o espiritual ou beatífico, e a cada um destes graus de nossa alma lhe corresponde ali uma classe de nossa substância, uma envoltura como se a denominou no antiga linguagem figurativa. Uma psicologia posterior descobriu que estas cinco envol­turas de nossa substância eram o material dos três corpos, o físico denso, o sutil e o causal, em todos os quais a alma mora real e simultaneamente, ainda que aqui e agora só somos super­ficialmente conscientes do veículo material. Mas é possível também chegar a ser conscientes em nossos outros corpos e ele consti­tui de fato levantar o véu entre eles e consequentemente entre nossas personalidades física, psíquica e ideal que é a causa daqueles fenômenos “psíquicos” e “ocultos” que na atualidade começam a examinar-se, ainda que não na proporção desejada e bastante desdenhadamente, distando muito todavia de ser devidamente explorados. Os antigos Hatha-yogues e Tântricos da Índia faz muito tempo que reduziram a uma ciência este tema da vida e corpo humanos superiores. Descobriram seis centros nervosos da vida no corpo denso, correspondentes aos seis centros da vida e a faculdade mental no sutil, e também encontraram sutis exercícios físicos mediante os quais estes centros, agora cerrados, podiam abrir-se, ingressando o homem na vida psíquica superior apropriada a no­ssa existência sutil, podendo inclusive destruir-se as obstruções físicas vitais à experiência do ser ideal e espiritual. Resulta significativo que um relevante resultado proclamado pelos Hatha­-yogues para suas práticas e verificado em muitos aspectos, fosse um controle da física força-vital que os liberava de alguns dos hábitos ordinários ou das assim chamadas leis que segundo critério da ciência oficial são inseparáveis da vida no corpo.

Atrás de todos estes termos da antiga ciência psicofísica está o único grande fato e lei de nosso ser de que, qualquer que seja seu temporal equilíbrio de forma, consciência e poder nesta evolução material, detrás dele deve haver, e há, uma existência maior e verdadeira da qual esta é só o resultado externo e o aspecto fisicamente sensível. Nossa substância não termina com o corpo físico; este é só o pedestal terreno, a base terrestre, o ponto de partida material. Assim como atrás de nossa mentalidade em vigília há âmbitos mais amplos da consciência subconsciente e supraconsciente dos que às vezes tomamos conhecimento anormalmente, de igual modo atrás de nosso denso ser físico há outras e mais sutis classes de substância com uma mais refinada lei e maior poder que sustentam o corpo mais denso e os quais, mediante nosso in­greso dentro dos âmbitos da consciência pertencentes a eles podem fazer que se imponha essa lei e poder sobre nossa matéria densa, e substituir suas mais puras, mais elevadas e mais intensas con­dições do ser pela tosquedade e limitação de nossa vida física, impulsos e hábitos atuais. Se isso fosse assim, então nossa evolução para uma mais nobre existência física não limitada pelas condições ordinárias do animal nascimento, vida e morte, da difícil alimentação e facilidade de desordem e enfermidade e sujeição a pobres e insatisfeitos desejos vitais, deixa de ter a aparência de um sonho e uma quimera e chega a ser uma possibilidade fundada sobre uma verdade racional e filosófica que está de acordo com todo o resto que até agora conhecemos, experimentamos ou podemos pensar a cerca da verdade aberta e secreta de nossa existência.

Assim seria racionalmente; pois a não interrompida série dos Princípios de nosso ser e sua íntima conexão mútua é demasiado evidente como para que seja possível que um só deles esteja con­denado e segregado enquanto que os demais são capazes de uma liberação divina. A ascensão do homem desde o físico até o supramental deve admitir a possibilidade de uma correspondente ascensão nas classes de substância para esse corpo ideal ou causal que é apropriado para nosso ser supramental, e a conquista dos princípios infe­riores pela supramente e sua liberação deles em uma vida divina e em uma mentalidade divina devem fazer possível também uma conquista de nossas limitações físicas mediante o poder e princípio da substãncia supramental. E isto significa a evolução não só de uma irrestrita consciência, de uma mente e uma sensação não encerrada nos muros do ego físico ou limitadas à pobre base do conhecimento oferecido pelos órgãos físicos da sensação, senão um poder-vital liberado cada vez mais de suas limitações mortais, uma vida física apta para um habitante divino e, —no sentido nãoo de apego ou de restrição a nossa estrutura corpórea atual senão de superação da lei do corpo físico¾, a conquista da morte, uma imortalidade terrena. Pois desde a Bem-aventurança divina, do Deleite original da existência, o Senhor da Imortalidade chega escan­ciando o vinho dessa Bem-aventurança, o Soma místico, nestas vasilhas de mentalizada matéria vivente; eterno e belo, ele entra nestas envolturas da substância para a integral transformação do ser e da natureza.


[1] II, 1-5.

[2] O antiquíssimo conhecimento Vedântico nos fala de cinco graus ou planos de nosso ser: o material, o vital, o mental, o ideal e o espiritual ou beatífico, e a cada um destes graus de nossa alma lhe corresponde ali uma classe de substância, uma envoltura como se a denominou na antiga linguagem figurativa ou simbólica.

[3] I; 10, 1,2; IX, 96, 19,20.

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Capítulo XXVII

O SÉTUPLO ACORDE DO SER

Na ignorância de minha mente, perguntei por estes escalões dos Deuses que estão assentados interiormente. Os oniscientes Deuses recorreram ao Infante de um ano e teceram em seu entorno sete eixos para confeccionar esta trama.

Rig Veda[1]

Mediante nosso prolixo exame dos sete grandes termos da existência que os antigos videntes fixaram como o fundamento e sétuplo modo de toda a existência cósmica, temos discernido as gradações da evolução e da involução, alcançando a base do conhecimento pela que lutamos. Afirmamos que a origem, o continente, a realidade inicial e a realidade última de tudo o que está no cosmos é o princípio triplo da transcendente e infinita Existência, Consciência e Bem-aventurança que a natureza do Ser divino. A Consciência tem dois aspectos, iluminador e efetivo, estado e poder de auto-conhecimento, e estado e poder de auto-força, pelos que o Ser se possui, seja já em sua condição estática ou, seja já em seu movi­mento dinâmico; pois em sua ação criadora conhece por auto-con­ciência onipotente que tudo está latente nele e produz e governa o universo de suas potencialidades mediante uma onisciente auto-energia. Esta ação criadora do Todo-existente tem seu nó (ponto de inflexão) no quarto estado, o princípio intermediário da Supramente ou Real-Idéia, no que um Conhecimento divino único com auto-existência e auto-conhecimento e uma substancial Vontade que é perfeitamente uníssono com esse conhecimento, --pois é, em sua substância e natureza, essa auto-cons­ciente auto-existência dinâmica na iluminada ação--, desenvolveram infalivelmente o movimento, a forma e a lei das coisas em correto acordo com sua Verdade auto-existente e em harmonia com os signifi­cados de sua manifestação.

A criação depende de e se move entre o princípio duplo da unidade e a multiplicidade; é uma múltipla combinação de idéia, força e forma que é a expressão de uma unidade original, e é uma eterna unidade que é o fundamento e a realidade dos Mundos múltiplos, fazendo possível seu jogo. Portanto, a Supramente procede mediante uma dupla faculdade de conhecimento compreensivo e apreensivo; procedendo desde a unidade essencial até a multiplicidade resultante, compreendente de todas as coisas em si como a Unidade em seus múltiplos aspectos e apreendente separadamente de todas as cosas em si como objetos de sua vontade e conhecimento. E enquanto a seu original auto-conhecimento todas as coisas são um só ser, uma só consciência, uma só vontade, um só auto-deleite e o movimento total das coisas, um movimento único e indivisível, procede em sua ação desde a unidade à multiplicidade (involuída) e desde a multi­plicidade à unidade (evoluindo), criando uma ordenada relação entre elas e uma aparente, mas não obrigatória realidade de divisão, uma sutil divisão não separadora, ou mais uma demarcação e determinação dentro do indivisível. A Supramente é a divina Gnose que cria, governa e sustenta os Mundos: é a Sabedoria secreta que sustenta a ambos, nosso Conhecimento e nossa Ignorância.

Descobrimos também que a Mente, a Vida e a Matéria são um triplo aspecto destes princípios superiores que operam, no que a nosso universo diz respeito, em sujeição ao princípio da Ignorância, ao superficial e aparente auto-esquecimento do Uno em seu jogo de divisão e multiplicidade. Em realidade, estes três são só poderes subordinados do quaternário divino: a Mente é um poder subordinado da Supramente que toma seu lugar no ponto de apoio da divisão, certamente esquecido aqui da unidade que está atrás ainda que capaz de retornar a ela mediante a reiluminação pelo Supramental; a Vida é, de modo parecido, um poder subordinado do aspecto como energia de Satchitananda,é Força que estrutura criando formas e o jogo da energia consciente, desde o ponto de apoio da divisão criada pela Mente; a Matéria é a forma da substância do Ser que a existência de Satchitananda assume quando se submete a esta ação involutiva fenomênica de sua própria consciência e força.

Além disso, há um quarto princípio que ingressa na manifestação como o nó (nodo) de mente, vida e corpo, isso que chamamos a alma; mas esta tem dupla aparência, a frente é a alma-de-desejo que luta pela possessão e deleite das coisas, e, por atrás, e seja já maior ou esteja já inteiramente oculta pela alma-de-desejo, a verdadeira entidade psíquica que é o Real receptáculo das experiências do espírito. E concluímos que este quarto princípio humano é projeção e ação do terceiro princípio divino de infinita Bem-aventurança, mais uma ação nos termos de nossa consciência e sob as condi­ções da evolução-da-alma neste mundo. Assim como a exis­tência do Divino é em sua natureza uma consciência infinita e o auto-poder dessa consciência, de igual maneira a natureza de sua consciência infinita é pura e infinita Bem-aventurança; a auto-posse­ssão e o auto-conhecimento são a essência de seu auto-deleite. O cosmos é também um jogo deste divino auto-deleite e o deleite desse jogo está inteiramente possuído pelo Universal; mas no indivíduo, devido à ação dos poderes da ignorância e a divisão, é man­tido no ser subliminal e no ser supraconsciente; falta em nossa superfície e há de ser buscado, encontrado e possuído mediante o des­envolvimento de nossa consciência individual em posse da universalidade e da transcendência.

Portanto, se queremos, podemos apresentar oito[2] princípios em lugar de sete, e então percebemos que nossa existência é uma espécie de refração da existência divina, em ordem inversa de ascensão e descenso, assim disposto:

Existência

Consciência-Força

Bem-aventurança

Supramente

Mente

Psique

Vida

Matéria

O Divino descende da pura existência através do jogo da Consciência-Força e a Bem-aventurança e o meio criador da Supramente no ser cósmico, ascendemos da Matéria através de uma vida, alma e mente que evoluem, e pelo meio iluminador da supramente, até o ser divino. O nó de ambos, o hemisfério superior e inferior[3], tem lugar donde a mente e a supramente se encontram com um véu entre elas. Rasgar o véu é a condição da vida divina na humanidade; pois com essa rasgadura, mediante o iluminador descenso do superior dentro da natureza do ser inferior e a forçado ascensão do ser inferior dentro da natureza do superior, a mente pode recobrar sua divina luz na todo-compreensiva supramente, a alma realizar seu divino Ser (Eu) na todo-possuidora Anan­da toda-bem-aventurado, a vida possuir de novo seu divino poder no jogo da onipotente Força-Consciente e a Matéria abrir-se a sua divina liberdade como uma forma da divina Existência. E assim existe alguma meta para a evolução que ache aqui sua atual coroa e cabeça no ser humano, diferente de um circular sem objetivo e de uma fuga individual desse girar, se a infinita potencialidade desta criatura, --(que só aqui se situa entre o Espírito e a Matéria com o poder de mediar entre ambos)--, tem algum significado distinto do de um despertar último da ilusão da vida por desespero e desgosto do esforço cósmico e sua completa renúncia; então, essa luminosa e pujante transfiguração e emergir do Divino na criatura humana, deve de ser nossa elevada meta e nosso significado supremo.

Mas antes de que possamos passar às condições psicológicas e práticas sob as quais tal transfiguração pode modificar-se, desde uma possibilidade essencial a uma potencialidade dinâmica, temos muito que considerar; pois devemos discernir não só os princípios essenciais do descenso de Satchitananda na existência cósmica, o qual já o temos feito, senão também o grande plano de sua ordem aqui e a natureza e ação do poder manifestado da Força­-Consciente que reina sobre as condições sob as que atualmente existimos. Agora, o que primeiro temos que ver é que os sete ou oito princípios que examinamos são essenciais para toda a criação cósmica e estão ali, manifestados ou ainda não manifestados, em nós mesmos, neste “Infante de um ano” que todavia somos (pois estamos muito longe de ser os adultos da Natureza evolutiva). A Trindade superior é a fonte e base de toda existência e jogo da existência, e todo o cosmos deve ser uma expressão e ação de sua realidade essencial. Nenhum universo pode ser simplesmente uma forma do Ser que há surgido e se perfile em uma nulidade e vazio absolutos, contrastando frente a uma vacuidade não-existente. Deve ser, ou uma imagem da existência dentro da Existência infinita que está além de toda imagem, ou deve ser ela mesma a Todo-Existência. De fato, quando unificamos nosso ser (eu) com o ser cósmico, vemos que em realidade é ambas as coisas de uma vez; vale dizer, é o Todo-Existente figurando-se à partir Dele mesmo em uma infinita série de ritmos em Sua própria extensão conceptiva Dele Mesmo como Tempo e Espaço. É mais, vemos que esta ação cósmica ou qualquer ação cósmica é impossível sem o jogo de uma infinita Força da Existência que produza e regule todas estas formas e movimentos; e que a Força igualmente pressupõe ou é a ação de uma Consciência infinita, porque em sua natureza é uma Vontade cósmica que determina todas as relações e as apreende mediante sua própria modalidade de conhecimento, e não poderia determiná-las e apreendê-las se não existisse a Consciência compreensiva atrás dessa modalidade de conhecimento cósmico para originar o tempo que sustentar, fixar e refletir através dela as relações do Ser na formação evolutiva ou devir de si a que chamamos um universo.

Finalmente, ao ser a Consciência onisciente e onipotente, em inteira possessão luminosa de si, e ao ser, tal inteira possessão luminosa necessariamente e em sua natureza mesma, Bem-aventurança, pois não pode ser nada mais, um extenso auto-deleite universal deve ser a causa, essência e objeto da existência cósmica. “Si não existisse”, diz o antigo vidente “este todo-abarcante éter do Deleite da existência em que moramos, se esse deleite não fosse nosso éter, então ninguém poderia respirar, ninguém poderia viver”. Esta auto-bem-aventurança pode chegar a ser subconsciente, aparentemente perdida na superficie, mas não só deve estar ali em nossas raízes, toda a existência deve ser essencialmente uma busca e intenção de descobri-la e possuí-la, e na proporção com que l proporci e poseerlante péa criatura no cosmos se encontra a si mesma, --( seja já em vontade e poder, ou seja já, em luz e conhecimento, ou melhor, em ser e amplitude, ou finalmente, em amor e alegria)--, deve despertar a algo do secreto êxtase. A alegria de ser, o deleite da realização mediante o conhecimento, o arrebatamento da possessão por vontade e poder ou força criadora, o êxtase de união no amor e na alegria são os termos supremos da vida em expansão porque são a essência da existência mesma em suas ocultas raízes como em seus cumes ainda não vistos. Então, aonde quer se manifeste a existência cósmica, estas três devem estar atrás e dentro dela.

Mas a Existência, Consciência e Bem-aventurança infinitas não necessitam dentro do ser aparente ou, ao trabalhar assim, não seria o ser cósmico, senão simplesmente uma infinitude de figuras sem ordem nem relação fixos, se elas não têm ou desenvolveram e afloram de si mesmas este quarto termo da Supramente, da divina Gnose. Deve existir em todo cosmos um poder de Conhecimento e de Vontade que à partir da potencialidade infinita fixe determinadas relações, desenvolva o resultado à partir da semente, faça vibrar os poderosos ritmos da Lei cósmica e contemple e governe os mundos como seu imortal e infinito Observador e Regente[4]. Este poder certamente não é outra coisa que Satchitananda Mesmo; nada cria que no esteja em sua própria auto-existência, e por essa razão toda Lei cósmica e real é uma coisa não imposta desde fora, senão desde dentro, todo desenvolvimento é auto-desenvolvimento, toda semente e resultado são semente de uma Verdade das coisas e resultado dessa semente determinada à partir de suas potencialidades. Pela mesma razão nenhuma Lei é absoluta, porque só o infinito é absoluto, e cada coisa contém dentro de si intermináveis potenciali­dades muito mais além de sua forma e curso determinados, que só são determinados através de uma auto-limitação pela Idéia atuando desde uma infinita liberdade interior. Este poder de auto-limi­tação é necessariamente inerente ao ilimitado Todo-Existente. O Infinito não seria o Infinito se não pudesse assumir uma múltipla finitude; o Absoluto não seria o Absoluto se, se negasse no conhecimento, poder, vontade e manifestação do ser uma ilimitada capacidade de auto-­determinação. Então, esta Supramente é a Verdade ou Real-Idéia, inerente a toda força e existência cósmicas, que é necessária, ao seguir sendo infinita, para determinar, combinar e sustentar uma relação, uma ordem e os grandes alinhamentos da manifestação. Na linguagem dos Rishis Védicos, assim como a Existência, Consciência e Bem-aventurança infinitas são os três Nomes supremos e ocultos do Sem-Nome, de igual modo esta Supramente é o quarto Nom­e[5] ¾quarto Disso em seu descenso, quarto de nós em nossa ascensão--.

Mas a Mente, a Vida e a Matéria, a trilogia inferior, são assim mesmo indispensáveis para todo ser cósmico, não necessariamente na forma ou com a ação e condições que conhecemos na terra ou neste universo material, senão em alguma classe de ação, contudo luminosa, pujante, sutil. Pois a Mente é essencialmente essa faculdade da Supramente que mede e limita, que fixa um centro particular e desde ali contempla o movimento cósmico e suas interações. Admitido isso em um mundo, plano ou disposição cósmica particulares, a mente não necessita ser limitada, ou melhor, que o ser que usa a mente como faculdade subordinada não necessita ser incapaz de ver as coisas desde outros centros ou pontos de referência ou inclusive desde o Centro real de tudo ou na vastidão de uma auto-difusão uni­versal, contudo se não é capaz de fixar-se normalmente em seu próprio ponto firme de referência para certos fins da atividade divina, se existe só a auto-difusão universal ou só os centros infinitos sem alguma ação determinante ou livremente limitadora para cada um, então não há cosmos senão unicamente um Ser meditando dentro de Si Mesmo infinitamente como um criador ou poeta pode meditar livremente, não plasticamente, antes de proceder a deixar determinado um tra­balho de criação. Tal estado deve existir em algum lugar da escala infinita da existência, mas não é o que entendemos por um cosmos. Qualquer que seja a ordem que possa haver nele, deve ser uma espécie de ordem não fixada, não-obrigatória, tal como o que poderia desenvolver a Supramente antes de que ele tenha procedido aos trabalhos de fixada evolução, medição e interação das relações. Para essa medição e interação, a Mente é necessária, ainda que não é necessário que seja consciente de si como algo, senão uma ação subordinada da Supramente, nem que desenvolva a interação das relações sobre a base de um auto-aprisionado egoísmo tal como o que vemos ativo na Natureza terrestre.

Uma vez existente a Mente, seguem a Vida e a Forma da substância; pois a vida é simplesmente a determinação da força e da ação, da relação e interação da energia desde múltiplos centros fixos da consciência, —(fixos, não necessariamente em lugar ou tempo, senão em uma persistente coexistência de seres ou almas-forma do Eterno sustentando uma harmonia cósmica)--. Essa vida pode diferir muito da vida tal como a conhecemos ou concebemos, mas essencialmente seria o mesmo princípio em atividade que aqui vemos representado como vitalidade, ¾(o princípio ao que os antigos pensadores indianos deram o nome de Vayu ou Prana)--, o material-vital, a substancial vontade e energia no cosmos compondo dentro de determinada forma, ação e consciente dinamismo do ser. A substância também poderia diferir muito de nosso critério e sentido do corpo material, muito mais sutil, vinculando muito menos rigoro­samente em sua lei de auto-divisão e resistência mútua, e o corpo ou forma poderia ser um instrumento e não uma prisão, ainda que para a interação cósmica sempre seria necessária alguma determinação da forma e da substância, inclusive se, se trata tão só de um corpo mental ou algo mais luminoso todavia, mais sutil, e mais pujante e mais livremente sensitivo que o mais livre corpo material.

Se segue que onde quer que esteja o Cosmos, ali, --(inclusive se houvesse inicialmente um só princípio aparente, inclusive se ao começo isso pareceria ser o único princípio das coisas, e tudo o que pudesse manifestar-se depois no mundo parecesse ser nada mais que suas formas e resultados e não indispensáveis em si mesmos para a existência cósmica)--, essa visão frontal oferecida pelo ser seria somente uma máscara ou aparência ilusória de sua verdade real. Donde se manifeste um só princípio no cosmos, ali todo o resto deve estar não meramente presente e passivamente latente, senão secretamente em atividade. Em um Mundo dado, sua escala e harmonia do ser pode estar abertamente em possessão de todos os sete princípios em um grau superior ou inferior de atividade; em outro Mundo dado podem estar todos envolvidos em um só que vem a ser o prin­cípio inicial ou fundamental da evolução nesse mundo, mas a evolução dos envolvidos ali deve existir. A evolução do sétuplo poder do ser, a realização de seu sétuplo Nome, deve ser o destino de qualquer Mundo que aparentemente comece desde a involução de tudo em um só poder[6]. Portanto, o universo material esteve obrigado na natureza das coisas a evoluir desde sua oculta vida, uma aparente vida; desde sua oculta mente, uma mente aparente, e deve na mesma natureza das coisas evoluir desde sua escondida Supramente, uma Supramente aparente, e do oculto Espírito dentro dela, a tripla glória de Satchitananda. A única questão é se a terra há de ser cenário desse emergir, e se a criação humana, --(neste ou em algum outro cenário material, neste ou em algum outro ciclo das grandes rotações do Tempo)--, há de ser seu instrumento e seu ve­ículo. Os antigos videntes acreditavam nesta possibilidade do homem e sustentaram que esse era seu destino divino; o pensador moderno não o concebe, e si o fizesse, o negaria ou duvidaria. Se tem uma visão do Super-homem, ou é na figura de incrementados graus de mentalidade ou vitalidade; não admite outro emergir, ninguém quer ver além destes princípios, pois estes traçaram para nós, até agora, nosso limite e círculo de conhecimento. Neste mundo progressivo, com esta cria­tura humana na qual a chispa divina foi acesa, é possível que a sabedoria real habite com a aspiração superior melhor que com a negação da aspiração ou com a esperança que se limita e circunscreve dentro daqueles estreitos muros de aparente possibi­lidade que só são nossa casa intermediária de preparação. Na ordem espiritual das coisas, quanto mais alto projetamos nossa visão e nossa aspiração, maior é a Verdade que procura des­cender sobre nós, porque já está ali dentro de nós e clama por sua liberação da cobertura que a oculta na Natu­reza manifestada.


[1] I, 164, 5.

[2] Os videntes Védicos falam dos sete Raios, mas também de oito, nove, dez ou doze.

[3] Parardha y Aparardha.

[4] O Vidente, o Pensador, Quem vê por toda parte, o Auto-exis­tente. Isha Upanishad. 8.

[5] Turiyam svid, “certo Quarto”, também chamado turlyam dhama, a quarta localização ou equilíbrio da existência.

[6] Em qualquer mundo dado não é necessário uma involução senão só uma subordinação dos outros princípios a um só ou sua inclusão em um só; então a evolução não é uma necessidade dessa ordem-do-mundo.

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Capitulo XXVIII

A SUPRAMENTE, A MENTE E A SOBREMENTE MAYA

Há uma Permanente Verdade oculta por uma Verdade onde o Sol desata seus cavalos. Os mil (raios seus) chegaram juntos ¾ Aquele Uno. Vi a mais gloriosa das Formas dos Deuses.

Rig Veda[1]

O rosto da Verdade está oculto por uma venda dourada; re­tira-o, oh Sol que Nutre, pela Lei da Verdade, para que o vejamos. Oh Sol, Oh único Observador, ordena teus raios, reúne-os juntos— deixa-me ver de ti tua mais feliz forma de todas; esse Ser Consciente por toda parte, O sou Eu.

Isha Upanishad[2]

A Verdade, o Reto, o Extenso.

Atharva Veda[3]

Chegou a ser ambos verdade e falsidade. Chegou a ser a Verdade, inclusive tudo isto que é.

Taittiriya Upanishad[4]

Fica todavia por aclarar um ponto que deixamos obscuro, o pro­cesso da queda na Ignorância; pois temos visto que na natu­reza original da Mente, da Vida ou da Matéria para nada necessita uma queda desde o Conhecimento. Demonstrou-se certamente que a divisão da consciência é a base da Ignorância, uma divisão da consciência individual desde o cósmico e o transcendente do qual é contudo uma parte íntima, inseparável em essência, uma divisão da Mente desde a Verdade supramental da que deveria ser uma ação subordinada, uma divisão da Vida desde a Força original da que é uma energia dinamizada, uma divisão da Matéria desde a Existência original da que é uma forma de substância. Mas ainda há que aclarar como se produziu esta división no Indi­visível, porque peculiar ação auto-diminuidora ou auto-eliminadora da Consciência-Força no Ser: pois dado que tudo é movi­mento dessa Força, só mediante uma ação tal que obscureça sua própria luz e poder plenos, pôde haver surgido o dinâmico e efetivo fenô­meno da Ignorância. Mas este problema pôde saltar-se para tratá-lo em um mais detido exame do fenômeno dual do Conhecimento-Ignorância que faz de nossa consciência uma mescla de luz e obscuridade, uma meia luz entre o pleno dia da Verdade supramental e a noite da Inconsciência material. Tudo o que é necessário anotar agora é que deve ser em seu caráter essencial uma concentração exclusiva em um só movimento e estado do Ser Consciente, que coloca todo o resto da consciência e do ser atrás e vela-o desse agora parcial conhecimento do movimento único.

Contudo há um aspecto deste problema que deve conside­rar-se de imediato; é o abismo criado entre a Mente como a conhecemos e a Verdade-Consciência supramental da que descobri­mos que a Mente em sua origem é um processo subordinado. Pois este abismo é considerável e, se não há gradações entre os dois níveis de consciência, --(seja já na involução descendente do Espírito na Matéria ou na correspondente evolução na Matéria dos ocultos graus que conduzem ao Espírito)--, uma transição de um ao outro parece ao máximo improvável, se não impossível. Pois a Mente, como a conocemos, é um poder da Ignorância que busca a Verdade, que aspira dificultosamente a descobri-la, al­cançando só construções e representações mentais dela em palavras ou em idéias, em formações da mente, em formações sensórias, —como se tudo o que pudesse conseguir fossem brilhantes ou obscuras fotografias ou filmes de uma distante Realidade--. A Su­pramente, pelo contrário, está em real e natural possessão da Verdade e suas formações são formas da Realidade, não construções, representações nem imagens indicativas. Sem dúvida, a Mente evolutiva em nés está obstruída por seu enclausuramento na obscuridade desta vida e corpo, e o princípio original da Mente em seu descenso involutivo é uma coisa de maior poder à que não chegamos plenamente, capaz de atuar com liberdade dentro de sua própria esfera ou âmbito, de levantar construções mais reveladoras, formações mais minuciosamente inspiradas, mais sutis e significa­tivas encarnações nas que a luz da Verdade esteja presente e palpável. Mas todavia isto não é demasiado provável que seja essencialmente diferente em sua ação característica, pois também é um movimento na Ignorância, não uma todavia não-separada porção da Verdade-Consciência. Deve existir em algum lugar da escala descendente e ascendente do Ser um Intermediário poder e plano de consciência, talvez algo mais que isso, algo com uma criadora força original, através do qual foi efetuada a transição involutiva da Mente no Conhecimento à Mente na Ignorância e através do qual novamente se torna inteligível e possível a evolutiva transição inversa. Para a transição involutiva esta intervenção é um imperativo lógico, para a transição evolu­tiva é uma necessidade prática. Pois na evolução há certamente transições radicais, desde Energia indeterminada a Matéria organizada, desde Matéria inanimada a Vida, desde uma Vida subconsciente ou submental a una Vida perceptiva, sensível e ativa, desde primitiva mentalidade animal a racional Mente conceitual que observa e governa a Vida e se observa a si mesma também, capaz de atuar como uma entidade independiente e inclusive de buscar conscientemente a auto-transcendência; mas estes saltos, ainda que consideráveis, se preparam até certo ponto com lentas gradações que os tor­nam concebíveis e factíveis. Não pode haver brecha tão imensa como a que parece existir entre a Verdade-Consciência Supramental e a Mente na Ignorância.

Mas se tais gradações intermediárias existem, resulta claro que devem ser supraconscientes para a mente humana que não parece ter em seu estado normal ingresso algum nestes graus superiores do ser. O homem é limitado em sua consciência pela mente e in­clusive por um alcance dado ou escala da mente: o que está debaixo de sua mente, submental ou mental mas inferior a sua escala, lhe parece em seguida subconsciente ou não discernível da inconsciência com­pleta; o que está acima para ele é supraconsciente e se inclina quase a considerá-lo como vazio de conhecimento, uma espécie de luminosa Inconsciência. Assim como está limitado a uma certa escala de sons ou de cores e o que está por cima ou por debaixo dessa escala lhe resulta inaudível e invisível ou, ao menos, indistinguível, de igual maneira ocorre com sua escala de consciência mental, confinada a cada extremo por uma incapacidade que marca seu limite superior e inferior. Não tem suficientes meios de comunicação nem sequer com o animal que é seu congênere mental, ainda que não seu igual, e é capaz de negar-lhe mente ou consciência real porque suas modalidades são distintas e mais limitadas que aquelas com as que ele e sua espécie estão familiarizados; pode observar o ser submental desde fora mas não pode comunicar-se com ele nem ingressar intimamente em sua natureza. Igualmente o supraconsciente é para ele um livro fechado que só pode estar cheio de pági­nas vazias. A primeira vista, então, pareceria como se não tivesse meios de contato com estas superiores gradações da consciên­cia: de ser assim, não podem atuar como vínculos ou puentes e sua evolução deve cessar com seu realizado âmbito mental, sem superá-lo; a Natureza, ao traçar estes limites, há escrito o final deste elevado esforço.

Mas quando olhamos mais perto, percebemos que esta normalidade é enganosa e que de fato há diversas direções nas que a mente humana se transcende, vai além de si mesma, tende para uma auto-superação; estas são precisamente as linhas necessárias de contato ou veladas ou semi-veladas passagens que a conectam com graus superiores de consciência do Espírito auto-manifestante. Primeiro, temos notado o lugar que ocupa a Intuição entre os meios humanos do conhecimento, e a Intuição é em sua mesma natureza uma projeção da ação característica destes graus superiores dentro da mente da Ignorância. É certo que na mente humana sua ação está em grande medida oculta pelas intervenções de nossa inteligência normal; uma intuição pura é um raro acontecer em nossa atividade mental: pois o que assim denominamos é geralmente um ponto de conhecimento direto imediatamente captado e recoberto com material mental, de modo que sirva só como um invisível ou muito diminuto núcleo de cristalização que, em seu conjunto, é intelectual ou, dito de outro modo, de caráter mental; ou também o flash da intuição é rapidamente substituído ou interceptado antes de que tenha a oportunidade de manifestar-se, por um rápido movimento mental imitativo, por um entendimento ou percepção imediata ou veloz ou por algum processo do pensamento de rápida reação que deve sua aparição ao estí­mulo da intuição que chega mas obstrui seu ingresso ou a cobre com uma substituta sugestão mental verdadeira ou errônea ainda que, em qualquer caso, não o autêntico movimento intuitivo. Não obstante, o fato desta intervenção desde cima, o fato de que atrás de todo nosso pensamento original ou percepção autêntica das coisas exista um velado, um semi-velado ou um rápido elemento intuitivo não-velado é suficiente como para estabelecer uma conexão entre a mente e o que está por cima dela; ela abre una passagem de comunicação e de entrada nos superiores âmbitos-espirituais. Também está a tendência da mente a superar a limitação do ego pessoal, a ver as coisas dentro de certa impessoalidade e universalidade. A impessoalidade é a primeira característica do ser-em-si cósmico; a universalidade, a não-limitação pelo singular ou limitador ponto de vista, é a característica da percepção e o conhecimento cósmicos: esta tendência é, portanto, uma ampliação, ainda que rudimentar, destas res­tringidas áreas mentais em posse do cósmico, em posse de uma qua­lidade que é a mesma característica dos planos mentais superiores, —(em posse dessa cósmica Mente supraconsciente que, como temos sugerido, deve ser na natureza das coisas a original ação-­mental da que a nossa é só um processo derivado e inferior)--. Além disso, não há uma total ausência de penetração desde cima dentro de nossos limites mentais. Os fenômenos de genialidade são em reali­dade o resultado de tal penetração, —sem dúvida velada¾, porque a luz da consciência superior não só atua dentro de estreitos limites, pelo geral em um campo especial, sem nenhuma regulada organização separada de suas energias características, frequentemente muito caprichosamente, muito erroneamente e com uma supranormal ou anormal governo irresponsável, senão também que ao entrar na mente se submete e se adapta à substância mental de modo que só é uma modificada ou diminuída dinâmica que nos alcança, não a plena e original luminosidade divina do que poderia chamar-se a elevada consciência além de nós. Contudo, os fenômenos de inspiração, de visão reveladora ou de percepção intuitiva e discernimento intui­tivo, que excedem nossa menos iluminada ou menos poderosa normal ação-mental, estão ali e sua origem resulta inconfundível. Final­mente, está o extenso e múltiplo campo da experiência mística e espiritual, e que as portas já estão abertas de par em par diante à possibilidade de estender nossa consciência além de seus limites atuales, —(a não ser que por um obscurantismo que recuse investigar ou um apego a nossos limites de normalidade mental as fechemos ou desviemos das vistas que abrem-se diante de nós)-. Mas em nossa atual investigação não podemos descuidar das possibilidades que estes domínios do esforço da humanidade nos aproximam, nem o adicionado conhecimento de si mesmo e da velada Realidade que é seu dom para a mente humana, a maior luz que os arma com o dere­ito de atuar sobre nós e é o poder inato de sua existência.

Há dois movimentos sucessivos da consciência, difíceis mas acessíveis a nossa capacidade, pelos que podemos ter acesso às gradações superiores de nossa existência consciente. Pri­meiro está um movimento interior pelo que, em lugar de viver em nossa mente superficial, rompemos o muro existente entre nosso eu externo e nosso eu agora subliminal; isto pode produzir-se mediante esforço e disciplina graduais ou mediante uma veemente transição, às vezes por uma vigorosa ruptura involuntária, (o último de nenhum modo sem risco para a limitada mente humana acostumada a viver seguramente só dentro de seus limites normais,) mas de qualquer modo, com risco ou sem ele, a coisa pode realizar-se. O que descobrimos dentro desta parte secreta de nós mesmos é um ser interior, uma alma, uma mente interior, uma vida interior, uma interior entidade sutil-física que é muito maior em suas potencialidades, mais plástica, mais pode­rosa, mais capaz de um múltiplo conhecimento e dinamismo que nossa mente, vida e corpo superficiais; em especial, é capaz de uma direta comunicação com as forças universais, movimentos, ob­jetos do cosmos, de uma direta sensação e abertura até eles, de uma direta ação sobre eles e inclusive de uma ampliação de si além dos limites da mente pessoal, da vida pessoal, do corpo, de modo que se sente, cada vez mais, um ser universal já não limitado pelos muros de nossa estreita existência mental, vital e física. Esta ampliação pode estender-se para um ingresso completo dentro da consciência da Mente cósmica, dentro de uma unidade com a Matéria universal. Essa, no entanto, é todavia uma identificação bem com uma diminuída verdade cósmica ou melhor, com a Igno­rância cósmica.

Mas uma vez cumprido este ingresso dentro do ser interior, se des­cobre que o Eu interior é capaz de uma abertura, de uma ascensão para dentro de coisas além de nosso atual nível mental; essa é a segunda possibilidade espiritual em nós. O primeiro e mais ordinário resultado é um descobrimento de um extenso Eu estático e silencioso que sentimos que é nossa existência real ou nossa básica existência, o fundamento de todo o demais que somos. Ali pode dar-se, inclusive uma extinção, um Nir­vana de nosso ser ativo e do sentido do eu, dentro de uma Realidade que é indefinível e inexprimível. Mas assim mesmo podemos advertir que este eu é não só nosso próprio ser espiritual senão também o eu verda­deiro de todos os demais; se apresenta então como a verdade sub­jacente da existência cósmica. É possível permanecer em um Nirvana de toda la individualidade, deter-se em uma realização es­tática ou, considerando o movimento cósmico como um jogo ou ilusão superficiais impostos sobre o Eu silencioso, ingressar em certo estado supremo, imóvel e imutável, além do universo. Mas se oferece também outro rasgo menos negativo da experiência supra­normal, também oferecido em si mesmo; pois ali tem lugar um grande descenso dinâmico de luz, conhecimento, poder,bem-aventurança ou outras energias supranorma­is dentro de nosso eu de silêncio, e podemos ascender também dentro de supe­riores regiões do Espírito donde seu estado imóvel é o funda­mento daqueles grandes e luminosas energias. Em qualquer caso resulta evidente que nos elevamos além da mente da Ignorância, dentro de um estado espiritual; mas, no movimento dinâ­mico, a maior ação resultante da Consciência-Força pode apresentar-se, ou bem, simplesmente como uma pura dinâmica espiritual não deter­minada em forma alguma em seu caráter, ou melhor, pode revelar um âmbito­-mental no que a mente não seja já ignorante da Realidade,—contudo, não um nível da supramente, senão derivando da supramental Verdade-Consciência e, todavia, luminoso com algo de seu conhecimento.

É na última alternativa que descobrimos o segredo que buscamos, o meio da transição, o passo necessário para uma transformação supramental; pois percebemos um objetivo gradual de ascensão, uma comunicação com uma luz e poder de cima cada vez mais profundos e imensos, uma escala de intensidades que podem considerar-se como tantos escalões na ascensão da Mente ou no descenso dentro da Mente Disso que está além dela. Fazemo-nos conscientes de um aguaceiro enorme como um mar, de massas de um conhecimento espontâneo que assume a natureza do Pensamento mas tem um caráter diferente do processo de pensamento ao que estamos acos­tumados; pois aqui não há nada de busca, nem rastro de cons­trução mental, nem trabalho de especulação ou difícil descobrimento; é um conhecimento automático e espontâneo derivado de uma Mente Superior que parece estar em possessão da Verdade e não em busca de realidades ocultas ou dificultadas. Alguém observa que este Pensamen­to é muito mais capaz que a mente de incluir simultaneamente uma massa de conhecimento de um relance; tem um caráter cósmico, não o selo de um pensamento individual. Além desta Verdade-Pensa­mento podemos distinguir um maior instinto de iluminação com um crescente poder e intensidade e força condutora, uma lumino­sidade da natureza da Verdade-Visão com formulação de pensamento como uma atividade menor e dependente. Se aceitamos a imagem Védica do Sol da Verdade, —uma imagem que nesta expe­riência se converte em uma realidade—, podemos comparar a acción da Mente Superior com um sereno e firme sol brilhando, a energia da Mente Iluminada além daquela a que podemos comparar com um aguaceiro de massivos flashes de ardente material-solar. Além todavia, pode encontrar-se um poder ainda maior da Verdade-Força, uma íntima e exata Verdade-visão, Verdade-pensamento, Verdade-sensação, Verdade-sentimento, Verdade-ação, às que podemos dar, em um sentido especial o nome de Intuição; pois ainda que aplicaquemos essa palavra, a falta de uma melhor, para referir-nos a qualquer modo supra-intelectual de conhecimento direto, contudo o que realmente conhecemos como intuição é só um movimento especial de conhecimento auto-existente. Este novo âmbito é sua origem; ensina a nossas intuições algo de sua própria característica distintiva e é muito claramente um intermediário de uma maior Verdade-Luz com a que nossa mente não pode comunicar-se diretamente. Na fonte desta Intuição descobrimos uma supra-consciente Mente cósmica em direto conta­to com a Supramental Verdade-Consciência, uma original intensidade determinante de todos os movimentos debaixo dela e de todas as energias mentais, —não a Mente como a conhecemos, senão uma Sobremente que cobre, como com as amplas asas de alguma Sobre­alma criadora, este completo hemisfério inferior do Conhecimento-Ig­norância, vincula-o com a mais grande Verdade-Consciência enquanto que, ao mesmo tempo, com sua brilhante Frente dourada vela o rosto da maior Verdade a nossa vista, intervindo com sua torrente de in­finitas possibilidades simultaneamente como obstáculo e como passagem em nossa bus­ca da lei espiritual de nossa existência, seu supremo objeti­vo, sua Realidade secreta. Este é então o vínculo oculto que buscávamos; este é o Poder que, ao mesmo tempo, conecta e divide o supremo Conhecimento e a cósmica Ignorância.

Em sua natureza e lei, a Sobremente é uma delegada da Cons­ciência-da-Supramente, sua delegada diante da Ignorância. Ou poderíamos falar dela como uma dupla protetora, uma tela, através da qual a Supramente pode atuar indiretamente sobre uma Ignorância cuja obscuridade não pode suportar nem receber o impacto directo da suprema Luz. Além disso, é mediante a projeção deste luminoso halo da Sobremente que se torna possível a difusão de uma diminuída luz na Ignorância e a projeção dessa sombra contrária que devora em si mesma toda a luz, isto é, a Inconsciência. Pois a Supramente transmite à Sobremente todas suas realidades, mas lhe deixa formulá-las em um movimento e de acordo com um conhecimento das coisas que é todavia uma visão da Verdade e, contudo, ao mesmo tempo, um primeiro gerador da Ignorância. À Supramente e à Sobremente as divide uma linha que permite uma livre transmissão, faz que o Poder inferior derive desde o Poder superior tudo o que contêm ou vê, mas automaticamente compele uma mudança transacional na passagem. A integridade da Supramente mantêm sempre a verdade essen­cial das coisas, a verdade total e a verdade de suas individuais auto­determinações claramente laçadas juntas; mantêm nelas uma inseparável unidade e entre elas uma íntima interpretação, e uma livre e plena consciência de uma com a outra: mais na Sobremente esta integridade já não esta ali. contudo a Sobremente é bem consciente da Verdade essencial das coisas; abarca a totalidade; usa a auto-de­terminação individual sem ser limitada por elas: mas ainda que conhe­ce sua unidade, pode compreendê-la em uma cognição espiritual, contudo seu movimento dinâmico, ainda que confiando nisso para sua segurança, não está diretamente determinado por ela. A Energia da Sobremente procede através de uma ilimitável capacidade de separação e combinação dos poderes e aspectos da todo-compre­ensiva Unidade integral e indivisível. Toma cada Aspecto ou Poder e lhe dá uma ação independente na que adquire uma plena importância separada e é capaz de estruturar, poderíamos dizer, seu próprio mundo de criação. Purusha e Prakriti, a Alma Consciente e a Força executiva da Natureza, são na harmonia supramen­tal uma singular verdade de duplo aspecto, igualmente, ser e dinâmica da Realidade; não pode haver desequilíbrio nem predomínio de um sobre o outro. Na Sobremente temos a origem da fissura, a aguda distinção feita pela filosofia dos Sankhyas na que aparecem como duas entidades independentes, Prakriti capaz de dominar a Purusha e de nublar sua obscuridade e poder, reduzindo-o a testemunha e receptor de suas formas e ações, Purusha capaz de retornar a sua separada existência de morar em uma livre auto-soberania por renúncia de seu original ultra-encoberto principio material. O mesmo ocorre com os demais aspectos ou poderes da Realidade Divina, o Um e os Muitos, a Personalidade Divina e a Impessoalidade Divina, e o resto; cada um é um aspecto e poder da Realidade única, mas cada um está facultado para atuar como uma entidade independente totalmente, para alcançar a plenitude das possibilidades de sua expressão separada e para desenvolver as consequências dinâmicas desta sepa­ração. Ao mesmo tempo, na Sobremente esta separação está todavia fundada sobre a base de uma subjacente unidade implícita; todas as possibilidades de combinação e relação entre os Poderes e Aspectos separados, todos os intercâmbios e mutualidades de suas energias estão livremente organizadas e sua realidade é sempre possível.

Se consideramos os Poderes da Realidade como outras tantas Dei­dades, podemos dizer que a Sobremente libera dentro da ação um milhão de Deidades, cada uma facultada para criar seu próprio mundo, cada mundo capaz de relação, comunicação e intercâmbio com os demais. No Veda há diferentes formulações da natureza dos Deuses: se diz que todos são uma só Existência a que os sábios dão distintos nomes; contudo, cada Deus é adorado como se por si mesmo fosse essa Existência, um que é todos os demais Deuses juntos ou que os contêm em seu ser; e cada um, por sua vez, é uma Deidade separada que atua às vezes ao uníssono com deidades companheiras, às vezes separadamente, às vezes inclusive em aparente oposição com as outras Deidades da mesma Existência. Na Supra­mente tudo isto se manteria unido junto como um harmonizado jogo da Existência única; na Sobremente cada uma destas três condi­ções poderia ser uma separada ação ou base de ação e ter seu próprio princípio de desenvolvimento e suas consequências, e com tudo, cada qual mantêm o poder de combinar-se com os demais em uma harmonia mais composta. Igualmente que com a Existência Única, o mesmo ocorre com sua Consciência e Força. A Consciência Única está separada em múltiplas formas independentes da consciência e do conhecimento; cada uma segue sua própria linha de verdade que há de realizar. A única Real-idéia total e multilateral está divida em seus múltiplos lados; cada um se converte em uma Idéia-Força independente com o poder de realizar-se. A única Consciência-Força é liberada dentro de seus milhões de forças, e cada uma destas forças tem direito a alcançar ou assumir, se é preciso, uma hegemonia, ocupando para sua utilidade as demais forças. Igualmante, o Deleite da Existência é soltado dentro de toda modalidade de deleites e cada qual leva em si mesmo sua plenitude independente ou extremo soberano. Dessa maneira, a Sobremente brinda à Única Existência-Consciência­-Bem-aventurança o caráter de uma abundância de possibilidades infinitas que podem desenvolver-se dentro de uma multidão de mundos ou reunir-se dentro de um só mundo no que o resultado interminavel­mente variável de seu jogo é o determinante da criação, de seu processo, de seu curso e de sua consequência.

Dado que a Consciência-Força da Existência eterna é a criadora universal, a natureza de um mundo dado dependerá de qualquer auto-formulação que essa Consciência expresse nesse mun­do. Igualmente, para cada ser individual, sua visão ou representação para si mesmo do mundo em que vive dependerá do equilíbrio ou estrutura que essa Consciência haja assumido nele. Nossa humana consciên­cia mental vê o mundo em seções cortadas pela razão e o sentido, e postas juntas em uma formação que também é seccional; a casa que constrói está planificada para acomodar uma ou outra gene­ralizada formulação da Verdade, mas exclui o resto ou admite alguma só como hóspedes ou dependentes da casa. A Consciência da Sobremente é global em sua cognição e pode conter juntas qualquer quantidade de diferenças aparentemente fundamentais em uma reconciliadora visão. Dessa maneira, a razão mental vê a Pessoa e o Impessoal como opostos: concebe uma Existência impessoal na que pessoa e personalidade são ficções da Ignorância ou construções temporárias; ou, pelo contrário, pode ver a Pessoa como a realidade primária e ao impessoal como uma abstração mental ou somente material ou meio de manifestação. Para a inteligência da Sobremente estes são Poderes separáveis da Existência única que podem perseguir sua auto-afirmação independente e também podem unir juntas suas diferentes modalidades de ação, criando em sua independência e em sua união dife­rentes estados de consciência, e o ser que podem ser todos eles, válido e totalmente capaz de coexistência. Uma existência e consciência pura­mente impessoais é certo e possível, mas também o é uma consciência e existência inteiramente pessoal; o Divino Impessoal, Nirguna Brahman, e o Divino Pessoal, Saguna Brahman, são aqui iguais e coexistentes aspectos do Eterno. A impessoalidade pode manifestar-se com uma pessoa subordinada a ela como uma modalidade de expressão mas, igualmente, a Pessoa pode ser a realidade com a impessoalidade como modalidade de sua natureza: ambos aspectos da manifestação se encaram um com outro na infinita variedade da Existência consciente. As que para a razón mental são dife­renças irreconciliáveis se apresentam diante a inteligência da Sobre­mente como correlativas coexistentes; as que para a razão mental são contrárias resultam complementares para a inteligência da Sobremente. Nossa mente vê que todas as cosas nascem da Matéria ou da Energia material, existem por ela, retornam a ela; nossa mente conclui que a Matéria é o fator eterno, a realidade primeira e última, Brahman. Ou vê tudo como nascido da Força-Vital ou da Mente, existindo pela Vida ou pela Mente, retornando à Vida ou à Mente universais, e conclui que este mundo é uma criação da Força Vital cósmica ou de uma cósmica Mente ou Logos. Ou vê o mundo e todas as coisas como nascidas de, existindo por e retornando à Real-Idéia ou ao Conhecimento-Vontade do Espírito ou ao Espírito mesmo, e conclui em um critério idealista ou espiritual do uni­verso. Pode aderir-se a qualquer destes modos de apreciação, mais para seu normal critério separativo cada um destes modos exclui aos demais. A consciência da Sobremente percebe que cada critério é verdade da ação do princípio que erige, pode apreciar que exista uma material fórmula-mundial, uma vital fórmula-mundial, uma mental fórmula-mundial, uma espiritual fórmula-mundial, e cada uma pode predominar em um mundo próprio e ao mesmo tempo todas podem combinar-se em um só mundo como seus poderes constitutivos. A auto-formulação da Força Consciente na que se baseia nosso mundo como uma aparente Inconsciência que oculta em si uma suprema Existência-Consciente e contêm juntos todos os poderes do Ser em seu inconsciente segredo, um mundo de Matéria universal que se realiza na Vida, na Mente, na Sobremente, na Supermente, no Espírito, cada um deles por sua vez empregando aos demais como meios de sua auto-expressão, a Matéria demostrando na visão espi­ritual haver sido sempre uma manifestação do Espírito, é para o critério da Sobremente uma criação normal e facilmente realizável. Em seu poder de originar e no processo de sua execução dinâmica, a Sobremente é uma organizadora de múltiplas potencialidades da Existência, cada qual afirmando sua realidade separada mas todas capazes de vincular-se juntas de muitos modos diferentes mas si­multâneos, um mago facultado para entreter a multi-colorida trama e contexto da manifestação de uma singular entidade em um complexo universo.

Neste simultâneo desenvolvimento de numerosos Poderes ou Potências independientes ou combinados não há caos, nem conflito nem queda da Verdade ou o Conhecimento. A Sobremente é uma criadora de verdades, não de ilusões nem falsidades: o que se estrutura em qualquer enérgico dinamismo ou movimento sobremental dado é a verdade do Aspecto, Poder, Idéia, Força, Deleite que se libera dentro da ação independente, a verdade das consequências de sua realidade nessa independência. Não há exclusividade afirmando a cada uma como verdade única do ser ou às demais como verdades inferiores: cada Deus conhece a todos os Deuses e sua lugar na existência; cada Idéia admite a todas as outras idéias e seu direito a ser; cada Força concede um lugar a todas as demais forças e sua verdade e consequências; nenhum deleite da separada existência cumprida ou da separada experiência nega ou condena o deleite de outra existência ou outra experiência. A Sobremente é um princípio de Verdade cósmica e seu espírito mesmo é uma vasta e interminável universa­lidade; sua energia é um todo-dinamismo igualmente que un principio de dinamismos separados: es uma espécie de Supramente inferior, ¾ainda que está concernida predominantemente não com absolutos senão com o que poderia chamar-se potências dinâmicas ou verdades pragmáticas da Realidade, ou com absolutos principalmente para seu poder de gerar valores pragmáticos ou criadores, ainda que, também, sua compreensão das coisas é mais global que integral, dado que sua totalidade está construída de todos globalmente ou constituída por independentes reali­dades separadas que se unem ou coligam, e ainda que capta a unidade essencial e sente que é base das coisas e que penetra em sua mani­festação, já não é como na Supramente seu íntimo e sempre­-presente segredo, seu dominante conteúdo, o aberto constructor constante do todo harmônico de sua atividade e natureza.

Se compreendêssemos a diferença desta global Consciência da Sobremente desde nossa separativa e só imperfeita­mente sintética consciência mental, poderíamos aproximar-nos a ela se com­paramos o critério estritamente mental com o que seria um critério sobremental das atividades em nosso universo material. Para a Sobremente, por exemplo, todas as religiões seriam verdadeiras como desenvolvimentos da eterna religião única, todas as filosofias serão válidas, cada qual em seu próprio campo como afirmação de seu próprio critério universal desde seu próprio ângulo de visão, todas as teorias políticas com sua prática seriam a estruturação legitima de uma Idéia-Força com seu direito de aplicação e desenvolvimento prático no jogo das energias da Natureza. Em nossa consciência sepa­rativa, imperfeitamente visitada por vislumbres de integridade e universalidade, estas coisas existem como opostos; cada qual reclama ser a verdade e acusa os demais de erro e falsidade, cada qual se sente impelido a refutar ou destruir aos demais a fim de ser a única Verdade e vida: no melhor dos casos, cada um reclama ser superior, admite aos demais só como inferiores expressões-da-verdade. Uma Inteligência sobremental recusaria manter esta concepção ou este impulso de exclusividade nem por um momento; permi­tiria a todos viver como necessários para o todo ou por cada um em seu lugar no todo ou atribuir a cada um seu campo de realização ou de esforço. Isto ocorre porque em nós a consciência descendeu por completo às divisões da Ignorância; a Verdade já não é um Infinito ou um todo cósmico com múltiplas formulações possíveis, senão uma rígida afirmação que sustenta qualquer outra afirmação é falsa porque difere dela e está assentada em outros limites. Em verdade, nossa consciência mental pode alcançar em sua cognição a uma considerável aproximação em posse de uma total compreensividade e universalidade, mas organizar isso na ação e na vida parece estar além de seu poder. A Mente evolutiva, manifesta em indivíduos ou coletividades, projeta uma multiplici­dade de pontos de vista divergentes, divergentes linhas de ação e lhes permite que se estruturem um junto ao outro, ou em coalisão, ou em certa intercalação; pode efetuar harmonias seletivas, mas não pode alcançar a um controle harmônico da verdadeira totalidade. A Mente cósmica deve ter inclusive na evolutiva Ignorância, como todas as totalidades, uma tal harmonia ainda que só seja de ordenados acordes e discordâncias; também há nela um subjacente dinamismo de unidade: mas leva a integridade destas coisas em suas profundidades, talvez em um substratum de supramente-sobremente, mas não a ensina à Mente individual na evolução, e não a traz nem a trouxe todavia desde as profundidades à superfície. Um mundo da Sobre­mente seria un mundo de harmonia; o mundo da Ignorância no que vivemos é um mundo de desarmonia e luta.

Contudo podemos reconhecer de imediato na Sobremente a original Maya cósmica, não Maya de Ignorância senão Maya de Conhecimento, mas contudo um Poder que há sido possível a Ignorância, inclusive inevitável. Pois se cada princípio despejado dentro da ação deve seguir sua linha independente e apresentar suas completas consequências, o princípio de separação deve conceder-se também seu curso completo e alcançar sua consequência absoluta; este é o descenso inevitável, facilis descensus, que a Consciência, uma vez que admite o princípio separativo, segue até entrar por ocultadora fragmentação infinitesimal, tucchyena[5] , dentro da Inconciencia mate­rial, —O Oceano Inconsciente do Rig-Veda—, e se o Uno nasce disso por sua própria grandeza, está todavia oculto ao princípio por uma fragmentar existência e consciência separativa que é nossa e na que temos de reunir coisas juntas para alcançar a um todo. Nesse lento e difícil emergir se dá certa semelhança de verdade ao dito de Heráclito de que a Guerra é progenitora de todas as coisas; pois cada idéia, força, consciência separada, ser vivente, pela necessidade mesma de sua ignorância entra em colisão com os demais e procura viver, crescer e realizar-se mediante afirmação de si mesmo independiente, não mediante harmonia com o resto da existência. Contudo ainda está ali a desconhecida Unidade subjacente que nos compele a lutar len­tamente em posse de alguma forma de harmonia, de interdependência, de concordância de discordâncias, de uma difícil unidade. Mas é só mediante a evolução em nós dos ocultos poderes supraconscientes da Verdade cósmica e da Realidade na que eles são um, que a harmonia e unidade pelas que lutamos podem realizar-se dinamicamente na fibra mesma de nosso ser e em toda sua auto-expre­ssão e não meramente em tentativas imperfeitas, construções incompletas, aproximações sempre-em-mudança.Os âmbitos superiores da Mente espiritual hão de abrir-se sobre nosso ser e consciência e assim mesmo o que está mais além inclusive da Mente espiritual deve aparecer em nós se temos de realizar a possibilidade divina de nosso nascimento na existência cósmica.

A Sobremente, em seu descenso, alcança uma linha que divide a Verdade cósmica da Ignorância cósmica; é a linha na que se torna possível para a Consciência-Força, enfatizando a separação de cada movimento independiente criado pela Sobre­mente e escondendo ou obscurecendo sua unidade, dividir a Mente mediante uma exclusiva concentração desde a fonte sobremental. Já houve uma separação similar da Sobremente desde sua fonte supramental, mas com uma transparência no véu que permite uma transmissão consciente e mantêm uma certa luminosa relação; mas aqui o véu é opaco e a transmissão dos motivos da Sobre­mente à Mente é oculta e obscura. A Mente separada atua como se fosse um princípio independente, e cada ser mental, cada idéia mental básica, poder e força, permanece de modo similar em seu eu separado; se comunica ou combina ou toma contato com os demais, não o é com a integra universalidade do movimento da Sobremente, sobre uma base de subjacente unidade, senão como unidades independentes que se unem para formar um construído todo sepa­rado. É por este movimento que ingressamos desde a Verdade cósmica na Ignorância cósmica. A Mente cósmica, neste nível, sem dúvida, compreende sua propia unidade, mas não tem consciência de sua própria fonte e fundamento no Espírito ou só pode com­preendê-la pela inteligência, não em qualquer experiência duradoura; atua em si como se fosse por dereito próprio, e estrutura o que recebe como material sem comunicação direta com a fonte da qual o recebe. Suas unidades também atuam em ignorância uma da outra e do todo cósmico, salvo enquanto ao conhecimento que possam obter por contato e comunicação, --o sentido básico da identidade e a mútua penetração e compreensão que deriva dela já não estão ali--. Todas as ações desta Energia da Mente procedem sobre a base oposta da Ignorância e suas divi­sões e, ainda que são os resultados de um certo conhecimento consciente, é um conhecimento parcial, não um verdadeiro e integral auto-conocimento, nem um verdadeiro e integral conocimento-do-mundo. Esta característica persiste na Vida e na Matéria sutil e reaparece no denso universo material que surge da queda final dentro da In­cosnciência.

Contudo, assim como em nossa Mente subliminal ou interior, de igual maneira nesta Mente também fica ainda um maior poder de comunicação e mutualidade, um jogo mais livre da mentalidade e a sensação de que ele que possui a mente humana, e a Ignorância não é completa; resulta mais possível uma harmonia consciente, uma organi­zação interdependente das relações corretas: a Mente não está ainda perturbada por cegas forças da Vida nem obscurecida pela insensível Matéria. É um plano da Ignorância, mas não da falsidade ou o erro —ou ao menos a queda na falsidade e o erro não é todavia inevitável; esta Ignorância é limitativa, mas não necessariamente falsificadora—. Há limitação de conhecimento, uma or­ganização de verdades parciais, mas não uma negação ou um oposto da verdade ou o conhecimento. Esta característica de uma organização de verdades parciais sobre uma base de conhecimento separativo persiste na Vida e na Matéria sutil, pois a concentração exclusiva da Consciência-Força que as põe dentro da ação separativa não corta por inteiro nem cega à Mente desde a Vida nem a Mente e a Vida desde a Matéria. A completa separação pode ter lugar quando o estado de Inconsciência haja sido alcançado e nosso mundo de múltipla Ignorância surja dessa tenebrosa matrix. Estas outras etapas todavia conscientes da involução são certamente organizações da Força Consciente na que cada qual vive desde seu próprio centro, continua suas própias possibilidades, e o princípio predominante mesmo, seja Mente, Vida ou Matéria, estru­tura as coisas sobre sua própria base independente; mas o que se estrutura são verdades de si, não ilususões, nem um enredo de verdade e falsidade, conhecimento e ignorância. Mas quando por uma exclusiva concentração sobre a Força e a Forma, a Consciência-Força parece separar fenomenicamente a Consciência da Força, ou quando absorve a Consciência em um cego sonho perdido na Forma e na Força, então a Consciência há de lutar para regressar a si mesma, mediante uma evolução fragmentar que necessita do erro etorna inevitável a falsidade. Não obstante, estas coisas tão pouco são ilusões surgidas de uma original Não-Existência; são, diríamos, as inevitáveis verdades de un mundo nascido à partir da Inconsciência. Pois a Ignorância é ainda em realidade, um conhecimento em busca de si atrás da original máscara de la Inconsciência; falha e descobre, seus resultados, naturais e inclusive inevitáveis em sua própria linha, são a verdadeira consequência da queda —em um sentido, inclusive, o correto trabalho da recuperação desde a queda—. A Existência que se afunda dentro de uma aparente Não-Existência, a Consciência dentro de uma aparente Inconsciência, o Deleite da existência que se afunda dentro de uma extensa insensibilidade cósmica, são o primeiro resultado da queda e, no retorno desde ela mediante uma belicosa experiência fragmentária, a interpretação da Consciência dentro dos duais termos de verdade e falsidade, conhecimento e erro, da Existência dentro dos duais termos de vida e morte, do Deleite da existência dentro dos duais termos de dor e prazer, são o processo necessário do trabalho de auto-descobrimento. Uma pura experiência de Verdade, Conhecimento, De­leite, imperecível existência, seria aqui uma contradição da verdade das coisas. Só poderia ser de outro modo se todos os seres fossem na evolução sossegadamente sensíveis aos elementos psíquicos dentro deles e à Supramente que subjaz nas ope­rações da Natureza: mas aqui chega a 1ei da Sobremente de cada Força que estrutura suas próprias possibilidades. As possibili­dades naturais de um mundo no que uma Inconsciência original e uma divisão da consciência são os princípios sobrepostos, seria o emergir das Forças da Obscuridade impelidas a man­ter a Ignorância pela que vivem, uma ignorante luta por conhe­cer a origem da falsidade e do erro, uma ignorante luta por viver engendrando o erro e o mal, uma luta egoísta por desfru­tar, progenitora de fragmentárias tais, dores e sofrimentos; estas são, portanto, as inevitábles características primeiramente implantadas, ainda que não se trate das únicas possibilidades de nossa existência evolu­tiva. contudo, devido a que a Não-Existência é uma Existência oculta, a Inconsciência uma oculta Consciência, a insensibilidade uma mascarada e adormecida Ananda, estas realidades secretas devem emergir; as escondidas Sobremente e Supramente devem também, finalmente, realizar-se nesta organização aparentemente oposta, desde um obscuro Infinito.

Duas coisas fazem que essa culminação seja mais fácil do que poderia ser de outro modo. A Sobremente no descenso à criação material originou modificações de si ¾especialmente a Intuição com seus penetrantes e luminosos flashes de verdade iluminando pontos locais e extensos setores de nossa consciência— que podem apro­ximar mais nossa compreensão à verdade oculta das coisas e, --abrindo-nos, primeiro mais amplamente no ser interior e logo como um resultado também no externo eu superficial--, às mensagens destes âmbitos superiores da consciência; crescendo neles, podemos assim mesmo chegar a ser seres intuitivos e sobrementais, não limitados pelo intelecto e a sensação, senão capazes de uma compreensão mais universal e de um contato direto da verdade em seu mesmo eu e corpo. De fato, já chegam a nós fleshes iluminadores desde estes âmbitos superiores, mais esta intervenção é em sua maioria fragmentar, casual ou parcial; todavia temos que começar a alargar-nos a sua semelhança e organizar em nós o maior acionar da Verdade de que potencialmente sejamos capazes. Mas, em segundo lugar, a Sobremente, a Intuição, inclusive a Supramente não só devem ser, como temos visto, princípios inerentes e involvidos na Inconciencia desde que surgimos na evolução e inevitavelmente destinados a evoluir, senão que estão secretamente presentes, ocultos ativamente com flashes do emergir intuitivo na atividade cósmica da Mente, da Vida e da Matéria. É certo que sua ação está oculta e, inclusive quando emergem, está modificada pelo meio material, vital e mental em que trabalham, e não são facilmente reconhecíveis. A Supramente não pode manifestar-se co­mo Poder Criador no universo desde o princípio, pois se assim o fizesse, a Ignorância e a Inconsciência seriam impossíveis ou a lenta evolução necessária mudaria dentro de um cenário de rápida transformação. A cada passo da energia material podemos ver o selo do inevitável posto por um criador supramental, em tudo o desenvolvimento da vida e da mente, o jogo das linhas da possibilidade e sua combinação que é o selo da intervenção da Sobremente. Assim como a Vida e a Mente foram realizadas na Matéria, de igual modo também, por sua vez, estes poderes maiores da escondida Deidade devem emergir desde a involução e sua Luz suprema descender em nós desde o alto.

Uma Vida divina na manifestação é então não só possível como o alto resultado e resgate de nossa atual vida na Igno­rância, senão também, se estas coisas são como as temos visto, é a con­sequência e consumação inevitáveis do evolutivo esforço da natureza.

FIM DO LIVRO UM


[1] V, 62, i.

[2] Vers. 15, 16.

[3] XII, 1, 1.

[4] II, 6.

[5] Rig Veda, X. 129, 3.