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PostHeaderIcon - CARTA A BARIN1

Pondicherry, Abril 1920

Meu querido Barin,

Recebi suas três cartas -e outra hoje- mas até o momento não consegui responder-lhe. É inclusive um milagre que te esteja escrevendo agora, porque, não escrevo cartas mais que todos os trinta e seis do mês! E menos ainda em bengali: isso não me ocorreu nem uma só vez em cinco ou seis anos. Se chegar a terminar esta carta e a levá-la ao correio, o milagre será completo.

Falemos agora de teu yoga. Tu quiseras que eu tomara sua responsabilidade e eu estou disposto a fazê-lo, mas isso significa encomendar-se Àquele que nos move um e o outro, de forma visível ou invisível, por Sua divina Shakti. E deves saber que então te fará seguir necessariamente a via do yoga que Ele Mesmo me indicou, e que eu chamo a via do “Yoga Integral”. Isto não é comparável ao que havíamos intentado na prisão de Alipore, nem ao que tu intentavas alcançar durante teus anos de deportação nas Andamans. Aquilo pelo que eu comecei, o que Lele2 me aportou, o que eu empreendi na prisão, tudo isso não era mais que uma busca do Caminho, uma exploração, não era mais que um contato com os antigos yogas parciais, uma avaliação, um exame minucioso de certos aspectos desses yogas, uma experiência mais ou menos completa de um yoga, que abandonei em seguida para passar a outro.

Mais tarde, depois de minha chegada a Pondicherry, esta instabilidade terminou. O Guru do mundo, que está em cada um de nós, me deu então todas as instruções necessárias para meu caminho; me fez conhecer a teoria completa, as dez partes do corpo deste yoga. Durante estes dez últimos anos, ele me fez viver as experiências que me permitiram desenvolvê-lo, mas este processo ainda não terminou. Pode durar ainda dois anos mais e, até então, não poderei sem dúvida voltar à Bengala. Pondicherry é o lugar que me foi assinalado para a Realização de meu yoga, com exceção de um de seus aspectos, o da ação. O centro de minha ação está na Bengala, mas eu espero que seu círculo possa se estender sobre toda a Índia, e logo à terra inteira.

Escrever-te-ei mais adiante para dizer-te em que consiste este yoga ou bem falaremos, se tu vieres aqui. Neste terreno o melhor é expressar-se de viva voz. Pelo momento só posso dizer-te que seu princípio fundamental consiste em harmonizar e unificar o conhecimento (jnana), as obras (karma) e o amor (bhakti) em sua totalidade, elevando-os por cima do mental até uma total perfeição no plano supramental.

Os antigos yogas tinham uma lacuna: não se preocupavam mais que do mental e do Espírito, e se contentavam com experiências espirituais ao nível mental. Agora bem, o mental não pode captar mais que fragmentos; não pode abarcar o Todo invisível, o Infinito. Para alcançá-lo, não dispõe de nenhum meio exceto o samadhi, o moksha, o nirvana, etc. É certo que alguns chegam a esta liberação sem forma nem atributos, mas qual é o fruto? O Brahman, o Eu, o Divino, estão presentes eternamente! Mas o que Deus quer para o homem, é que ele O encarne aqui em baixo, de uma vez, em si mesmo e na coletividade, que O realize na vida.

Os antigos sistemas de yoga não puderam harmonizar nem unificar a vida material e a vida espiritual; renunciaram o mundo considerando-o como uma ilusão (maya), ou como um jogo transitório, o que provocou, como consequência do ocaso dessa força de vida, a degeneração da Índia. “Estes povos pereceriam se eu não realizara as obras”, diz o Gita. E “estes povos” da Índia caíram realmente na decadência. Alguns sannyasis, alguns sadhus, renunciando ao mundo alcançaram a realização e a liberação; alguns bhaktas dançam em um êxtase de amor não podendo conter a onda de felicidade, mas durante este tempo toda uma raça, amorfa e embrutecida, está submergida em uma profunda inércia; se lhe pode chamar a isto realização espiritual?

Sem dúvida, é necessário conhecer primeiro, no plano mental, todas as experiências possíveis, ainda que sejam parciais, iluminar e inundar o mental da luz e do gozo do Espírito, mas em seguida é necessário ir mais acima, porque, se não se ascende à maior altura, quer dizer até o plano supramental, não se pode penetrar o último segredo do mundo nem resolver o enigma que o norteia. No Supramental, a Ignorância que conduz a opor Matéria e Espírito, a vida material e a vida espiritual, desaparece. Ali, o mundo não aparece mais como uma ilusão. É o Jogo eterno de Deus, a manifestação eterna do Eu. Assim é possível conhecer a Deus, possuí-lo totalmente, fazer o que diz o Gita: “Conhecer-me integralmente, intimamente”.

O físico, o vital, o mental, o Supramental e a Ananda são os cinco planos do Espírito e, escalando progressivamente estes planos, o homem, em sua evolução espiritual, se aproxima à Perfeição suprema. Quando se alcança o Supramental, torna-se mais fácil elevar-se até esta Ananda indivisível e infinita, estabelecê-la firmemente em si e realizá-la, não só fora do tempo no Parabrahman, se não no próprio corpo, na vida, no mundo. Assim, o ser integral, a consciência integral e o gozo integral se abrem e tomam forma na vida. Esta é a chave mesma de meu yoga, seu princípio fundamental.

Este processo não se efetua sem esforço. Ao cabo de quinze anos, não cheguei mais que ao mais baixo dos três níveis do Supramental e me esforço por fazer ascender até este nível todas as atividades inferiores do ser. Mas uma vez alcançado isto, estou convencido de que Deus outorgará a outros, através de mim, a possibilidade de realizar o Supramental sem dificuldades demasiado grandes. Será então quando minha ação verdadeira poderá começar. Não estou impaciente por ver minha obra cumprida: o que deva chegar , chegará quando Deus o queira. E já não me sinto levado a agitar-me como um louco nem a lançar-me na ação com a única força do pequeno ego. Ainda que o que empreendi não possa ser realizado, não me perturbarei: esta não é minha obra, se não a de Deus. Não responderei, assim pois, a nenhum outro chamado; mover-me-ei quando Deus me empurre a Ele.

Sei que a Bengala não está preparada. Esta onda de espiritualidade na qual o país se acha submergido não é mais, em seu conjunto, que a espiritualidade do passado sob uma forma nova; não é a verdadeira transformação. No entanto, todo ela é necessária também. Bengala, reanimando os antigos yogas, esgotou suas velhas tendências (samskara), mas extraiu delas a essência verdadeira, fertilizando assim o terreno. Em primeiro lugar, devolveu à vida ao Vedanta: o Advaita, o Sannyasa, a Maya de Shankara, etc... Agora, pelo que tu descreves, parece que é a hora do dharma vishnuita: o Jogo divino (lila), o Amor, a embriaguez de uma alegria estática. Tudo isso está superado, resulta inapto para a nova era e não pode durar. Há nele uma forma de excitação que não pode subsistir muito tempo. No entanto, o mérito do ideal vishnuita é que mantêm um vínculo entre o mundo e Deus e dá um sentido à vida; mas como este ideal está limitado, este sentido e este vínculo seguem sendo necessariamente incompletos. Enquanto a esta atitude sectária que observou, é inevitável.

É a atitude própria do mental de apoderar-se de uma parte e de considerá-la o todo excluindo o resto. O ser realizado (siddha) que aporta uma verdade, ainda que não expresse mais que um aspecto dela, conserva não obstante uma certa consciência desta verdade em sua integridade, ainda que não possa dar-lhe forma; mas seus discípulos não podem ter acesso a esta verdade integral pelo fato mesmo de que ela não há sido manifestada. “Enchem seus sacos”, melhor para eles! O dia no qual, neste país, Deus se manifeste plenamente, os sacos se esvaziarão por si mesmos! Estes são os signos de uma não-realização, de uma falta de maturidade, mas isso não me preocupa. Deixemos que o impulso espiritual se expresse livremente no país, sob a forma que queira e em tantas seitas como queira. Mais adiante, já veremos. Não estamos mais que na infância de uma Nova Era ou, melhor, no estado embrionário; isto não é senão uma primeira aproximação e não o começo.

Perguntas por que Motilal, também ele, “enche seu saco”. Há aqui a explicação: ao redor dele se agrupam gente a qual nós estamos ligados -um e outro-, e eles recebem através dele o que ele mesmo recebeu de mim. Agora bem, eu havia escrito no Prabartak4 um pequeno artigo intitulado Samaj Katha, Sobre a Sociedade, no que, falando da comunidade, dizia que nós não queremos uma sociedade baseada na divisão, se não uma comunidade baseada no Espírito, à imagem da Unidade universal. Inspirando-se nesta idéia, Motilal escolheu para seu grupo o nome de Deva Sangha (Comunidade Divina). Então, eu havia falado em inglês da vida divina, que Nolini havia traduzido literalmente em bengali por deva jibana. A Deva Sangha é assim pois a comunidade daqueles que aspiram a esta vida divina. Motilal, depois de haver fundado em Chandernagore um grupo, que é o germe desta dita comunidade, se esforça neste momento por criar outros similares por todo o país.

Mas se a sombra do ego vem a cair sobre uma empresa deste gênero, a comunidade corre o risco de transformar-se em seita. Naturalmente se pode cair na tentação de pensar que esta comunidade, tal como é hoje em dia, é já o que está chamada a ser um dia, e que tudo deve girar ao redor deste centro único; se não se pertence ao grupo, se está fora da rede e, se se toma parte mas se expressa uma opinião diferente das idéias correntes, se é acusado de desviar-se do caminho correto! Se Motilal comete este erro, em uma certa medida ao menos -coisa que eu não posso afirmar- não ocorre nada grave; se corrigir-se de seu erro. Ele e seu pequeno grupo têm feito bem as coisas e continuam fazendo-o. Até o momento ninguém está capacitado. A divina Shakti atua através dele, disso não há duvida.

Provavelmente te perguntarás: “Que necessidade temos de uma comunidade? Somos livres e vivemos em tudo e em todos. Que tudo esteja uno sem distinção e que ocorra o que tenha que ocorrer no seio desta vasta unidade!” Sim, mas isto não é mais que um aspecto da verdade. Não nos preocupamos só do Absoluto sem forma, queremos também conseguir o domínio da vida. Sem forma, não haveria verdadeiro movimento de vida; é o Sem-Forma que há tomado forma e se assumiu assim nomes e formas, não o fez pelo capricho de Maya: Ele tomou forma porque a forma é indispensável. Por isso não queremos renunciar nenhuma das atividades do mundo: política, comércio, vida social, poesia, arte, literatura, tudo terá seu lugar; mas a cada uma destas atividades devemos dar-lhe uma alma e uma forma novas.

Por que, então, abandonei eu a política? Porque nossa política não é autenticamente indiana: importada da Europa, não é mais que uma imitação dos sistemas europeus no que aqueles têm de mais exterior. No entanto, em um determinado momento, foi necessário adotar esta política -e também nós a praticamos- porque, se não, o país jamais se haveria despertado; não haveríamos podido adquirir a experiência que nos é indispensável nem esperar alcançar nosso pleno desenvolvimento. Esta política segue sendo, todavia agora, necessária; se não na Bengala, pelo menos no resto dos Estados da Índia. Mas chegou o momento de fortalecer o corpo da realidade em lugar de deixar crescer isso que não é mais que uma sombra. É necessário despertar a verdadeira alma da Índia e deixá-la moldar todas nossas atividades. Durante estes dez últimos anos, verti silenciosamente minha influência sobre esta política de empréstimo, coisa que não foi inútil; posso fazê-lo todavia, quando seja preciso. Mas se parto daqui para lançar-me de novo à ação em colaboração com nossos dirigentes políticos, não faria mais que sustentar uma vida política falsa e um ideal estrangeiro.

Neste momento se tenta espiritualizar a política -Gandhi, por exemplo- mas não se consegue encontrar a via adequada. Em efeito, que faz Gandhi? Em sua doutrina de não-violência (ahimsa parama dharma), mescla o jainismo, a resistência passiva, a fuga geral etc., e faz um amálgama que ele chama satyagraha. Na realidade, ele está espalhando pelo país uma espécie de tolstoísmo indianizado; mas, se alguma vez sai disto algo perdurável, não poderá ser mais que uma espécie de bolchevismo à indiana. Está bem, que ele atue segundo sua inspiração, mas isso não é o verdadeiro.

Se se espalha a força espiritual sobre todas essas formas impuras, se se vertem as águas do Oceano original em vasos de argila, ou bem se evaporará a força espiritual e só a forma impura perdurará ou bem os vasos se farão pequenos e a água se desperdiçará. É assim em todos os terrenos. Eu posso exercer uma influência espiritual: quem quer que a receba resultar-se-á fortalecido e poderá atuar com uma energia nova, mas esta energia não servirá mais que para esculpir a estátua de um macaco que será entronizada no templo de Shiva. O macaco, ao que esta consagração haverá se dotado de vida e de força, poderá representar o papel do fervoroso Hanuman -e inclusive cumprir bem seu devotado serviço a Rama- durante todo o tempo que esta vida e esta força o habitem. Mas no templo da Índia, o que nós queremos, não é Hanuman, é a divindade, é o Avatar, é o próprio Rama.

Nós podemos perfeitamente mesclar-nos com outros; mas que seja para atraí-los ao Caminho e mantendo intactos o espírito e a forma do ideal; se não, nos extraviaremos e o verdadeiro trabalho não será feito. Se cada um, onde quer que esteja, atue assim entanto que indivíduo separado, seguramente se poderá alcançar alguma coisa, mas se atua como membro de uma comunidade, o resultado será infinitamente superior. Não obstante, o momento ainda não chegou. Se se lhe dá forma a esta comunidade rapidamente, não poderá corresponder ao que nós queremos. Ao princípio, os membros se dispersarão. Aqueles que compartilham nosso ideal, unidos numa mesma aspiração, trabalharão em lugares diversos. Mais tarde, poderão criar uma espécie de agrupação espiritual na que, modelando suas ações segundo o Espírito e as necessidades da época, se reunirão, não para formar uma sociedade rígida e limitada, como a sociedade ariana de outros tempos ou uma estrutura fixa, senão para atuar com total liberdade, como um mar que se expande a vontade em suas inumeráveis variações, abraçando isto, inundando aquilo, absorvendo-o todo. Assim se estabelecerá pouco a pouco a verdadeira comunidade espiritual. Tal é pelo momento minha visão das coisas, mas é necessário dar-lhe tempo para madurar. Isto é o que me foi revelado em Alipore no transcurso de minhas meditações e agora toma forma em mim. Já veremos a que conduzirá. O resultado está nas mãos de Deus. Que se cumpra Sua vontade. O pequeno grupo de Motilal não é mais que um ensaio. Juntos, buscam os meios de fazer negócios e de lançar-se à indústria, à agricultura, etc. Eu lhes dou a Força e velo. Pode haver aí materiais para o futuro e poderão, provavelmente, retirar-se sugestões úteis. Não julgues segundo as limitações, defeitos ou qualidades que observes no presente: estão todos ainda no estado puramente inicial e experimental.

Vamos agora a certos pontos concretos de sua carta. Não quero estender-me aqui sobre o que me dizes de teu yoga. Será mais fácil quando nos voltemos a ver. Na tentativa, dizes que não queres nenhuma relação no plano físico; a teus olhos o corpo não é mais que uma carcaça. Não obstante teu coração segue atraído pela vida no mundo e a vida de família. Vês sempre as coisas desta forma? Considerar o corpo como uma carcaça é próprio daquele que renuncia ao mundo, que segue a via do Nirvana. Não se pode viver no mundo alimentando tais idéias. É necessário encontrar a Felicidade em todas as coisas, tanto no corpo como no Espírito. O corpo está feito de consciência, o corpo é uma forma do Divino. Quando se vê a Deus em tudo o que existe, quando se vê que “tudo é Brahman”, sarvamidam Brahma, e que “Vasudeva é tudo o que existe”, vasudeva sarvamiti, se saboreia então a felicidade universal e se sentem, concretamente, no próprio corpo, correr as ondas desta felicidade. Se se vive assim na plenitude da consciência espiritual, se pode levar uma vida conjugal e viver no mundo: em todas as atividades se descobre a plena felicidade do Divino. Faz já tempo que trabalho para transformar em pura felicidade, sobre o próprio plano mental, todas as percepções e experiências do mental e dos sentidos. Estas se transmutam atualmente em felicidade supramental e, neste estado, se revelam a visão e a percepção perfeitas de Satchidananda, a Existência, Consciência e Beatitude divinas.

Depois, a propósito da Deva Sangha, escreves: “Não sou um deus. Sou um bloco de ferro que foi fortemente golpeado e passado pela forja”. Já te disse qual é o verdadeiro sentido da Deva Sangha. Ninguém é um deus, mas em todo homem há um deus e manifestá-lo é o objetivo da vida divina. Este objetivo pode alcançá-lo todo o mundo. Admito que o receptáculo pode ser de um valor desigual, mas em minha opinião, a idéia que tu tens de ti mesmo, não é exata. Qualquer que seja o receptáculo, se um dia passa sobre ele a mão de Deus e se a alma se desperta, pouco importa então sua grandeza ou sua pequenez. Alguns encontrarão talvez mais dificuldades, acaso necessitarão mais tempo, haverá talvez uma diferença na manifestação, mas tudo isto nem sequer é seguro. A divindade interior não leva em conta todos estes obstáculos e todas estas lacunas: esta perfura tudo. Não estava eu cheio de imperfeições em todo meu ser: em meu corpo, meu coração e meu mental? Não encontrei obstáculos eu também? Não me faz falta tempo? Não me martelou Deus, dia atrás dia, minuto a minuto? Eu não sei no que me converti -se em um deus ou outra coisa- mas me converti ou estou em caminho de ser alguma coisa: isso que Deus há querido fazer de mim. E isto é o que importa. O mesmo lhes ocorre a todos. Não é nossa força, senão a Shakti, a Energia divina, quem realiza este yoga.

Você fez bem em aceitar a responsabilidade de Narayan. Este jornal havia começado bem, mas depois se converteu em um simples órgão de um grupo com perspectivas limitadas que alimentava um espírito sectário, coisa que arruinou tudo. Ao princípio, Nolini publicava artigos nele; depois, como não teve mais a possibilidade de expressar livremente suas opiniões, se viu forçado a dirigir-se a outros diários. Se se quer manter viva a força de vida, é necessário que o ar possa circular livremente, que portas e janelas estejam bem abertas: à livre luz do dia e o livre sopro do vento são os principais alimentos desta energia de vida.

Pelo momento, resulta-me impossível colaborar com Narayan. Mais adiante, talvez possa fazê-lo; mas estou também solicitado pelo Prabartak e responder a esta dupla demanda parece difícil em princípio. Veremos o que ocorre quando me ponha a escrever em bengali. Pelo momento, me falta tempo; aparte de Arya, não posso escrever nada mais. Cada mês devo produzir sessenta e quatro páginas, o que não é pouco! Por outra parte, escrevo poemas; necessito tempo para meu yoga e é necessário também que tenha algumas horas de descanso.

Pelo que respeita o artigo Samaj Katha, que há sido remetido a Saurin5, uma boa parte, creio, há sido publicada no Prabartak e o resto não está no ponto, não havendo sido o texto totalmente revisado. Há que ver primeiro como se apresenta, em seguida saberemos se é possível ou não publicar estas páginas no Narayan.

A propósito do Prabartak, me dizes que a gente não entende grande coisa, que encontram os artigos nebulosos e enigmáticos; este tipo de críticas as ouvi muitas vezes. No que escreve Moti Babou, o pensamento não está bem definido, estou de acordo, e seus artigos são bastante intensos, mas não estão vazios de inspiração nem de força. Também ao princípio, quando só Nolini e Moni6 redigiam os artigos do Prabartak, os leitores consideravam o conteúdo enigmático. No entanto, o pensamento de Nolini é muito claro, e os escritos de Moni são diretos e estão cheios de força. Arya é objeto também de reprovações similares. As pessoas não chegam a compreender o que eu escrevo. Quem tem intensa vontade de ler, se só lhe obriga a refletir?! Não obstante, a ação do Prabartak há sido considerável na Bengala, em um momento no que se ignorava totalmente que eu colaborava com o jornal. Se agora não exerce já a mesma influência, a razão estrita em que hoje em dia a gente está ávida de excitação e corre de uma atividade a outra: por uma parte, há este dilúvio de devoção e, pela outra, a obsessão do dinheiro! Mas enquanto a Bengala se encontrou paralisada e submergida no torpor durante dez anos consecutivos, só o Prabartak soube infundir-lhe algo de energia. Ele contribuiu poderosamente a mudar o estado de espírito do país e não creio que sua ação se detenha aí.

A este respeito, quisera comunicar-te -brevemente- algumas reflexões que são o fruto de uma larga observação. Em minha opinião, a causa essencial do debilitamento da Índia não é nem a sujeição, nem a pobreza, nem a falta de espiritualidade ou a ausência de ideal, senão o declive do poder de pensar e a ascensão da Ignorância na pátria do Conhecimento. Por todas as partes observo a incapacidade, a repulsa ou a fobia a pensar. Seja o que seja o que tenha podido ocorrer na Idade Média, no presente, este estado de espírito é o signo de uma profunda degeneração. A Idade Média foi a noite, a época na que se via triunfar o ignorante; o mundo moderno vê a vitória do pensador. É aquele que reflexiona, busca, o que trabalha mais, o que pode sondar as profundidades do universo e descobrir a verdade, e seu poder de ação se vê outro tanto acrescentado. Se se considera Europa, se percebem duas coisas: a presença de um oceano de pensamentos, vasto e ilimitado, e o jogo de uma força prodigiosa, impetuosa e, no entanto, disciplinada. Nisso reside todo o poder da Europa, um poder tal que poderia devorar o mundo como haviam podido fazê-lo nossos tapasvi de antigamente cujo poder inquietava, aterrava inclusive, aos deuses e lhes inspirava respeito. Diz-se que a Europa corre para sua perdição; minha impressão não é esta. Todas essas revoluções e comoções são as fases preliminares de uma nova criação.

Agora olhe a Índia. Aparte de alguns gigantes solitários, não se encontra por toda parte mais que gente de espírito simples, dito de outro modo, esses indianos médios, que não querem nem podem pensar, desprovidos de toda energia e sujeitos somente a crises de excitação passageira. Na Índia, se busca a facilidade em tudo, tanto no pensamento como na expressão. Na Europa, se busca o pensamento profundo, a expressão profunda. Inclusive o trabalhador ordinário reflete e quer saber tudo: não se contenta com conhecimentos superficiais, senão que quer ir ao fundo das coisas. Aqui está toda a diferença. No entanto, a energia e o poder de reflexão próprios da Europa adoecem de uma limitação fatal: quando se aplicam ao campo espiritual, perdem toda capacidade de percepcão. Neste terreno, para ela tudo são enigmas, metafísicas nebulosas e alucinações yóguicas, tudo é “como em uma nuvem de fumaça na que embaçam os olhos, sem distinguir nada”. Mas atualmente Europa está fazendo um esforço real para superar esta limitação. Enquanto a nós, temos o sentido espiritual -herdado de nossos ancestrais- e qualquer um que possua este dom dispõe de tal Conhecimento e de tal Força que um sopro poderia sacudir, como uma cabana de palha, todo este poder prodigioso da Europa. Mas para captar esta Força, esta Shakti, é preciso ter em si mesmo força. Agora bem, nós não somos adoradores da Shakti, senão adoradores da facilidade, e não é através da facilidade como se adquire a Força. Nossos ancestrais adquiram seu vasto conhecimento e edificaram uma grande civilização submergindo-se em um imenso oceano de pensamentos. Mas progressivamente o relaxamento e a fatiga se instalaram; a intensidade do pensamento diminuiu e, com ela, a corrente da Shakti. Nossa civilização se há convertido em uma estrutura fixa; nossa religião não é mais que beataria e práticas exteriores; nossa espiritualidade não é mais que um débil resplendor, uma onda de exaltação passageira. E enquanto seja assim, não pode esperar-se uma ressurreição duradora da Índia.

Na Bengala esta debilidade alcança seu paroxismo. Os Bengalis estão dotados de uma inteligência viva, de sensibilidade e intuição. Estas qualidades estão mais desenvolvidas em seu estado que nos outros estados da Índia, mas ainda que sejam necessárias não são suficientes. Se a isto se efetivasse a profundidade de pensamento, a força inquebrantável, a capacidade de esforço contínuo e alegre, e um valor heróico, então os Bengalis estariam à frente, não somente da Índia senão do mundo. No entanto, não fazem nada para ele. Querem obter tudo facilmente: o conhecimento sem reflexão, os frutos sem o trabalho, a realização espiritual sem disciplina nem esforço. Seu principal recurso é uma excitação emotiva, mas esta emotividade excessiva e irracional é por si mesma o sintoma de uma enfermidade. Com efeito, depois da época de Chaitanya7 e ainda muito tempo depois, que fazem os Bengalis? Satisfeitos com a vaga percepção de uma verdade espiritual, vão dançando daqui para ali transportados por uma onda de emoção, mas logo se cansam e se afundam na inércia. Assim o país cai pouco a pouco na decadência e a força de vida se esgota. Finalmente aonde os conduziu? Encontram-se na incapacidade de alimentar-se e vestirem-se por si mesmos; não há mais que lamentações em toda parte; sua riqueza, suas empresas, seu comércio e inclusive suas terras passam de mão em mão. Temos abandonado o culto da Shakti e a Shakti nos abandonou. Seguimos a Via do Amor, mas ali onde não há conhecimento nem força, o amor não pode persistir. A estreiteza e a mesquinhez aparecem e em um mental, um vital e um coração estreitos e mesquinhos, não há lugar para o amor. Existe o amor na Bengala? Vêem-se mais brigas, discussões, ciúmes, ódios e facções que em nenhuma outra parte desta Índia que já há sido muito provada pela divisão. Na época heróica e nobre dos Arianos, não havia tanto ruído nem gesticulação. O que esse povo empreendia, sabia mantê-lo durante séculos; os Bengalis não sustentam seus esforços mais além de um da ou dois.

Dizes que se se quer estimular o país, é preciso inflamar o entusiasmo. Isso é o que fizemos nós no terreno político em tempos de svadeshi, mas tudo o que conseguimos então há sido feito. Será melhor o resultado no campo espiritual? Eu não digo que nossos esforços tenham sido completamente em vão, deram seus frutos -todo movimento dá seus frutos- mas se trata sobre tudo de um crescimento de potencialidades. De todos os modos, o método que tu sugeres não é adequado, se se quer realizar algo estável. Por isso não quero basear mais minha ação na excitação emotiva ou em qualquer exaltação do espírito. Quero basear meu yoga em uma equanimidade vasta e poderosa. Quero que a plenitude de uma Força sólida, inquebrantável, reja todos os movimentos do ser firmemente estabelecido nesta equanimidade. Quero fazer brilhar o sol do Conhecimento sobre o oceano desta Força e encontrar nesta imensidade de Luz o tranquilo êxtase da Unidade, do Amor e da Felicidade infinitos. Não é preciso que tenha milhares de discípulos. Se puder encontrar uma centena de homens desenvolvidos em todos os planos de seu ser, desprovidos de egoísmo mesquinho e que sejam os instrumentos de Deus, me resultará suficiente. Não tenho nenhuma fé na forma habitual do guru tal como se pratica e não quero ser considerado como tal. Enquanto alcancem despertar e manifestar a divindade que dorme neles e consigam viver uma vida divina, seja ao meu lado ou ao de outro, estarei satisfeito. Porque são esses os homens que levantarão o país.

Não imagines depois desta exposição que me desespero pelo porvir da Bengala. Também eu tenho a esperança de que uma grande luz se manifeste nesse país, tal como há sido previsto. Mas tratei de mostrar-te o reverso da medalha, de fazer-te compreender onde reside o erro e quais são as lacunas. Se este estado de coisas persiste, a luz que virá não será uma grande luz e não brilhará muito tempo.

Enquanto aos saddhus e aos personagens dos que me falas, a impressão que me produzem é, o confesso, um tanto estranha -digamos que não encontro neles o que busco. Dayananda8 possui poderes assombrosos e seus discípulos, que são analfabetos, se dedicam à escritura automática, o qual é um prodígio. Bem!, mas não se trata mais que de faculdades psíquicas. A mim, gostaria de conhecer primeiro a qualidade de seu ser interior e saber que grau de desenvolvimento . Há outro que, por meio de um simples toque, pode submergir as pessoas em uma embriaguez estática. Bem, mas a que conduz tudo isso? Aquele que deguste esta embriaguez, poderá erigir-se no pilar da Nova Era, da Era da Unidade divina? Essa é a questão! Vejo que tens dúvidas a respeito, eu também.

Lendo as profecias destes santos personagens, não pude evitar sorrir - mas não por ironia ou incredulidade; de minha parte, não tenho nenhum conhecimento de um porvir distante. A luz que Deus me envia de quando em quando ilumina justo o passo que tenho que dar e eu me guio, então, por ela. Mas me pergunto que esperam estes sadhus de mim. Posso encontrar um lugar em tal nobre assembléia? Temo que ao ver-me se sentiriam decepcionados e, eu mesmo, corro o risco de sentir-me como um peixe fora da água. Eu não sou nem um sannyasin nem um saddhu nem um santo, nem sequer um homem religioso. Não tenho nem religião nem regra de conduta nem virtudes particulares. Estou submergido na vida do mundo e gozo dos prazeres que ele me oferece: como carne e bebo vinho, tenho maus costumes e me movo a meus óculos -em suma, sou um tântrico da vama marga! Posso relacionar-me com esses grandes personagens e avatares? Se me vissem, me tomariam provavelmente por um avatar de Kali ou de qualquer aspecto demoníaco da deusa Kali, desses que os cristãos chamam o Anti-cristo. Parece que falsas idéias circulam sobre de mim; as pessoas se decepcionam, não posso fazer nada.

A razão desta carta extraordinariamente longa é que eu, eu também, “encho meu saco”, mas creio que este saco meu está tão cheio como a rede de São Pedro, repleto de tesouros arrancados do Infinito. Não vou abri-lo neste momento. Se o fizesse prematuramente, todo minha garrafa se perderia. Não tenho a intenção pelo momento de voltar a Bengala, não porque Bengala não esteja preparada, senão porque eu não o estou. Um homem que não está maduro no meio de homens que tão pouco estão que obra pode realizar.

Tu Sedja (Seu irmão)

1 Sri Aurobindo escreveu esta carta a seu irmão Barin quando fazia já dez anos que seguia uma intensa sadhana em Pondicherry. Esta constitui um interessantísimo documento para conhecer o estado do yoga de Sri Aurobindo antes da chegada definitiva da Mãe e da formação do Ashram assim como a importante mudança que se estava produzindo em seus pontos de vista espirituais e políticos. Nela expõe Sri Aurobindo, entre outros temas fundamentais, seu conceito de Deva Shanga, da comunidade divina, conceito que algum dia haverá de encarnar-se em Auroville. Esta carta forma parte do volume Lettres Bengalies, Pondicherry 1987.

2 Vishnu Bashkar Lele, o yogue que conduziu Sri Aurobindo a sua realização do Nirvana, em Baroda no ano 1908.

3 Motilal Roy escondeu Sri Aurobindo em Chandernagore quando este fugiu de Calcutá. Logo ele tornou-se seu discípulo.

4 Um jornal editado por Motilal Roy.

5 Primo de Mrinilani, a mulher de Sri Aurobindo.

6 Suresh Chakravarti, um dos mais antigos discípulos de Sri Aurobindo.

7 Chaitanya (1486-1534), reanimador do culto vishnuita na Bengala e grande pregador de bhakti.

8 Um yogue da Bengala Oriental fundador do Arya Samaj e um dos pioneiros do renascimento indiano.