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PostHeaderIcon - JUSTA HOMENAGEM : “ROLF GELEWISKI - UMA ALMA EM AÇÃO”

Por: Marcello Fortuna Figueira


ROLF WERNER GELEWSKI

(1930 - 1988)


Amigos de “LA SEGUNDA FUNDACIÓN”, é a hora da verdade para muitos de nós, e nada mais justo, do que prestarmos uma homenagem póstuma a ROLF GELEWSKI ou como prefiro chamá-lo: “UMA ALMA EM AÇÃO”! Já vamos saber por que...., acompanhem-me linha após linha, não os deixaremos esquecer, mesmo que hoje no Google em português (www.google.com.br), site de pesquisas, existam apenas umas poucas referências sobre o indivíduo, não permitiremos que seu exemplo caia no esquecimento ou que sua voz e força não permaneçam para sempre VIVOS entre nós!!!

Era eu então um jovem de 20 anos ainda incompletos que buscava uma verdadeira sabedoria que pudesse orientar-me naqueles dias da mais tenra juventude. Comecei, em verdade, lendo Krishnamurti, Santo Agostinho, Balzac, Kafka, Leonardo da Vinci, Nietzche, passei a Gibran, li de tudo um pouco e estava cursando a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, após ter me diplomado em Construção Civil, pelo CEFET do Rio de Janeiro, antes egresso do Mosteiro de São Bento. Trabalhava já em uma empresa de renome na área de Contenção de Encostas e Estradas. Conheci a obra de Sri Aurobindo e da Mãe no Brasil, pela primeira vez, exatamente no ano de 1983, através de ROLF GELEWSKI, ou simplesmente Rolf, como todos nós o chamávamos. Creio que quase a totalidade das pessoas que conheço em meu país, e que realmente puderam penetrar luminosamente e se orientar verdadeiramente nos escritos e na mensagem de Sri Aurobindo e da Mãe, foram guiados de alguma maneira por este grande mensageiro fiel e guerreiro da luz e força supramentais.

Falar de sua biografia, contar que era um alemão que veio para o Brasil ensinar dança na Universidade Federal da Bahia (UFBA), convidado pelo governo brasileiro nos anos 60, dizer que foi aluno de “Mary Wigman, Marianne Vogelsang na Escola Federal de Dança, em Berlim, e que de 1953 a 1960 se tornou solista do Teatro Metropolitano e professor. Que desde o começo de seus estudos, criou suas próprias danças, sempre apresentando-se em recitais solísticos.” (maiores referências: www.casasriaurobindo.com.br). Todas estas coisas podemos descobrir hoje pela internet, mas se queremos muito mais que entrelinhas, devemos realizar intensa pesquisa para realmente saber o que alguém de sua estirpe e estatura realizou, e nos deixou - depois de sua morte prematura - numa manhã do dia 08 de janeiro de 1988, em Feira de Santana, (BA) – a exatos 24 anos.

Mas qual é hoje realmente o legado de ROLF GELEWSKI? Qual o maior ensinamento que a você revelou, com a inesquecível presença dele em sua existência?

Posso realmente, muito dizer e falar daqueles maravilhosos dias, e o faço, através de minha própria experiência pessoal, não citarei nenhuma outra pois neste momento a narrativa tem haver com o que vivi e experienciei, e isto ninguém me poderá calar, e esta ninguém pode cobrar direitos de posse de imagem, pois: “EU ESTAVA LÁ!”. Conheci a alma de Rolf Gelewski - como A PRESENCIARAM os muitos e os tantos que se acercavam a ele, talvez na ânsia de tocar as suas próprias alturas, as profundezas, o alto e baixo, o forte e o fraco, que todos nós experimentávamos em seus workshops e “Trabalhos de Corpo”, únicos, pois Rolf nascera para viver, e ser uma “Alma em Ação” e seu instrumento preferido: O CORPO QUE DANÇA!

SEU SER: Uma porta, em verdade, a porta que nos aponta o caminho de nossas próprias almas e existências, os caminhos do UNO, “apesar de todas as nossas falhas prévias”, como diz Aurobindo, inclusive as que ele mesmo, Rolf, vez enquando reconhecia, através da impressionante luta interna com sua própria natureza germânica, tão diferente da nossa.

Fui um daqueles jovens que, sacudidos pela sua presença indelével, viam que ROLF era uma entrega constante e dinâmica aos ideais de Sri Aurobindo e, principalmente pela guiança direta como instrumento preciso de Mira Alfassa, A Mãe.

VI, VIVI... Participei ativamente destes dias de intenso movimento de divulgação no Brasil, e expansão do ensinamento proposto por Aurobindo, como muitos outros antes de mim. Mas isto me marcou decisivamente...está aqui agora presente neste relato, na verdade luminosa daqueles dias de então. Eu o vi viajar por todo o país, sem descanso... sempre entregue até o último momento à missão confiada a ele pela Mãe. Todos nós que lá estávamos testemunhamos esse fato incomensurável.

Acompanhei de perto, naqueles tempos, seu trabalho de tradução, na impressão de livros e no inestimável serviço à Educação que é a revista Ananda que publicou e editou, realizada junto a seus colaboradores mais próximos. Viajei também para muitos locais do Brasil para assistir a suas palestras e leituras inesquecíveis e mais, tive a oportunidade de filmá-lo diversas vezes em treinos e especialmente em um “15 de Agosto de 1987” (se não me falha a memória), em São Paulo (meu local de nascimento) onde pude capturar, através das lentes de uma câmera de vídeo o vigor de sua dança(daquelas que tinham ainda o gravador separado da câmera, pertencia a minha mais próxima amiga daqueles tempos do Rio, de nome Elizabeth Caldas - também já falecida), pude captar toda aquela sensibilidade à flor da pele em sua busca constante de mais luz, de mais Conhecimento.. e o destino me colocou ali a registrar tais momentos, ao som de SUNIL BHATTACHARYA, conhecido compositor do Sri Aurobindo Ashram em Pondicherry - Índia e também falecido.


Dançamos todos com ele, o poema SAVITRI, de Sri Aurobindo, musicado também por Sunil (http://www.sriaurobindoashram.org/music/sunil/), como dançamos todos nós tantas outras vezes, naquele inesquecível aniversário de 40 anos de independência da Índia (15 de agosto). Dancei com a câmera em punho,como uma arma para a eternidade, que a tudo registrava em mais um aniversário de Sri Aurobindo (15 de agosto), em meio ao público atônito que a tudo assistia. O som daquela música e a visão de Rolf girando em volta do estroboscópio que reluzia como a imensidão de um céu estrelado, continuam em meus olhos, em meus ouvidos..., por mais de vinte anos, em verdade!

Algum tempo antes, em Fortaleza (Ceará), por ocasião da Semana Sri Aurobindo de 1985, por seu convite pessoal, me dirigia sempre que possível a Salvador, na Rua das Hortênsias, bairro da Pituba e podia “beber sempre um pouco mais” da atmosfera daquele que tanto deu de si e que hoje seus registros de palestras, treinos e dança estão na memória, felizmente dos muitos que com ele puderam crescer... dançando e agindo!

Fazia sempre chegar até mim, por uma ordem de pagamento um valor em espécie, para passagem de ida e volta do Rio a Salvador (1649 km de ônibus), e por minha colaboração (eu é que deveria dar-lhe tudo) ainda oferecia alimentação e um local digno para estar, onde havia outros de seus colaboradores, que recebiam dele o mesmo tratamento diga-se de passagem.

Deixem-me narrar precisamente a situação decisiva onde tudo começou para ele:

“Chegando aqui, o antigo grande mestre de música, Hans Joaquim Kölreuter, também alemão e diretor do Goethe Institute do Brasil, convida Rolf para um giro por Estados Unidos, Ásia e Oceania apresentando o expressionismo alemão, ROLF viaja ... até a ÍNDIA, Kölreuter organiza um festival de intercâmbio cultural para o encontro Oriente - Ocidente em Madras, sul da Índia e ROLF se apresentará.... onde? Então uma surpreendente mudança transforma a rota de seu programa e por problemas de natureza política... com a gente de Alemanha... ele não pode apresentar-se e tornasse um capítulo impressionante de sua própria existência. É convidado para apresentar sua dança no Sri Aurobindo Ashram de Pondicherry . Ele que não tem nada que ver com temas de espiritualidade indiana... que inclusive nunca se acercara a isto em sua vida... encontra-se no mar de uma multidão dos que se vestem de branco e fazem-lhe reverência de mãos unidas e com olhos de um brilho de farol solar que nunca conhecera...

O segundo momento de sua transformação está entrando pela porta de sua habitação no Ashram quando um ashramita lhe entrega um cassete com a "Música da Mãe" feita por um senhor de nome Sunil Bhattacharya..., e lhe pedem que realize uma coreografia para esta música...

E isto tudo me disse, ROLF, pessoalmente, em 1986, entre as leituras de Sri Aurobindo...creio que era “O Segredo do Veda”, o que estava lendo e traduzindo diretamente do inglês ao português para nós... e hoje narro a vocês de maneira igual, sem retirar uma palavra... ".... escutei o cassete... apresentou-se uma musica de caráter distinto sem marcações exatas... mas como todos foram TÃO gentis com minha pessoa... tentarei algo e integrarei a minha apresentação!!!!!

Chegado o dia da apresentação pública no Ashram... todos reunidos... todos de branco!!! A música inicia... Rolf... que se apresenta com luzes, roupas, sapatilha, fama de bailarino, todo uma parafernália e um corpo tecido na casa da força... um instrumento poderoso... veremos... Reclina-se totalmente no piso para começar a VIAGEM....

Neste momento não consegue sair do piso... não consegue sequer mover-se... e a música segue em seus ouvidos... e sua consciência penetra no sentido inverso... em uma jornada para dentro... cada vez mais DENTRO... mais... mais... e a música... e o CHAMADO ... que volta-se... para DENTRO!!!!!!!

LUZ....LUZ..... LUZ.... e.........................................................A MÃE!

Em sua habitação, a Mãe tem um encontro com ROLF. E emerge ele no quarto da Mãe... E nas palavras de ROLF, e isso disse a mim...

Posso vê-lo agora, olhando profundamente em meus olhos... olhando meu próprio coração faminto de luz e do amor da Mãe...

"Quando olhei pela primeira vez para a Mãe, era uma luz que via... em um vulto de mulher anciã... o arco-íris.. de todas as cores... era o que via... e não parecia que eu merecia o que sentia e não existem palavras para descrever o que experienciei no primeiro encontro com a Mãe”!

E realmente, seu semblante era SILÊNCIO, o que melhor expressava este momento para ele. A partir deste instante segue-se a transformação de ROLF... e a Mãe coloca-o na mesma habitação de SUNIL nas dependências do Ashram... e agora música e dança se encontram... e a vida de ROLF gira 720 graus mais ao desconhecido, em verdade entra para sempre no desconhecido... mas agora existe A MÃE e SRI AUROBINDO, a levá-lo pelo Caminho... pelo Grande Sentido. Permanece, junto a Mãe por um certo tempo, entre idas (apresenta-se nos começos do projeto da cidade de Auroville – www.auroville.org ) e vindas, recebe instruções muito precisas dela..., PARA TRADUZIR, PUBLICAR, DIVULGAR em português sua mensagem , no Brasil... e começar aqui, ENTRE NÓS, a GRANDE REVOLUÇÃO EM MARCHA de SRI AUROBINDO!!!!

Embora tenha realizado meus registros não pude, apesar de meus esforços, colocá-los à disposição para que todos pudessem guardá-lo como gostaríamos sempre de lembrar dele: DANÇANDO!

Eu fui, como já disse, um destes milhares talvez de jovens de todas as partes do Brasil que foram tocados pelos olhos e pela alma de Rolf Gelewski. Lembro-me que dentre todos que o rodeavam, eu era o mais jovem naqueles dias, lembro que após aquela gravação que a ele também surpreendeu, como a mim também, me convidara para trabalhar em sua ilha de vídeos recém comprada com a herança deixada na Alemanha, por uma de suas professoras de outrora.

Foi a última vez que o vi. Foi a última vez que ele me olhou nos olhos, e sempre o fazia com todos que se acercavam a ele... e podíamos ver através deles a presença da Mãe, a presença de Sri Aurobindo, nesta “presença” que o acompanhava.

Participei de suas aulas nas escolas públicas de Salvador, o vi carregar seus equipamentos, sempre os mais avançados para a época, e ele as fazia desfrutar para jovens das mais variadas idades e das mais diversas capacidades, e se interessava sempre pelos mais rebeldes, por aqueles que ficavam escondidos no fundo da sala, e os descobria, os motivava... ao som de Jean Michel Jarré, ao som de suas “ESTRUTURAS SONORAS”, de seus escritos e pesquisas em Educação Integral a partir dos escritos da Mãe e outros importantes educadores de todos os tempos.

Quantas vezes eu o vi, firmemente estabelecido nos dizendo:

“O Yoga de Sri Aurobindo é outra coisa...”, naquele sotaque alemão inconfundível que a cada dia se tornava mais docemente brasileiro. Sua capacidade para as artes era tremenda: a dança espontânea desenvolvida por ele é claro, desde dentro, poesia, pintura, música,oratória, fotografia, artes gráficas, empregava todos os seus talentos artísticos em organizar um material que posso lhes assegurar, até hoje é de vanguarda.

E tudo isso, colocava à disposição de todos, sem temer que os dias e as noites atravessassem o ritmo constante de sua necessidade de expressão...

Para mim, que pude ter tido a imensa oportunidade de viver tudo que foi vivido naqueles anos, se pudesse responder às próprias perguntas que coloquei neste ensaio sobre Rolf Gelewski, as responderia assim:

Qual é hoje realmente o legado de ROLF GELEWSKI? Cada um que com ele conviveu poderá responder de sua maneira, mas, para mim, o maior legado foi seu inquebrantável espírito de luta, essa NECESSIDADE de uma alma que atravessava a matéria, de lançar-se sempre ao NOVO, e de novo, de espalhar entre nós as sementes da transformação, da constante afirmação de que podemos mudar, podemos nos tornar aquilo que nossa alma é em essência e fazer deste trabalho uma entrega ao Supremo, ao Divino.

Qual o maior ensinamento que a você revelou, com a inesquecível presença dele em sua existência? Isso, simplesmente estará para sempre guardado em silêncio dentro de mim, naqueles momentos em que o via dançar e com ele tantas vezes dancei, e tudo que em mim despertou, no mais profundo momento em que seus olhos de raios de sol se debruçaram sobre os meus, e simplesmente a Luz se revelava presente no mundo.

Saibam todos, que não tiveram a oportunidade de vê-lo, de conviver com ele, de assistir suas aulas, seu espírito viverá para sempre através daqueles que inspirados em seu exemplo sentem-se participantes dos esforços e das batalhas que travou para que a obra de Sri Aurobindo e da Mãe esteja hoje entre nós. E porque não dizer, que todos, todos os que viveram, e através dele foram despertados, sabem o quanto a ele devemos nossos mais sinceros agradecimentos, ao EDUCADOR....

Deixamos a você um pouco de Rolf, que nos diga ele mesmo sobre a que se dedicou:

“É isto que cada um de nós tem que fazer: concentrar-se, prontificar-se. E construir a ponte para a ilha de maior força que não se encontra em nenhum outro lugar que não seja dentro de cada um, nele mesmo. E a ponte não deve ficar ponte, possibilidade apenas de um determinado modo e intensidade de intercâmbio entre o dentro e o fora, pois a ilha quer se tornar e deve se tornar continente: a ponte é o primeiro nascimento de subseqüentes crescimentos, gérmen de um novo corpo, a mão estendida para receber algo cujo toque invadirá todas nossas fibras e nervos e sangue e ser, penetrará vida e existência e mundo, inundando e derrubando e enchendo e dominando.

É esta abertura que é exigida de nós, o querer D-E-S-C-O-B-R-I-R, e a descoberta é primeiro o fazer a ponte e o viajar, e depois o receber e o se render.

Muita coisa contradiz isto, muita coisa contra-age. Mas, diz a Mãe: “Nenhuma força adversa pode prevalecer contra a constante ação da Graça.

Um dia, a Vitória é certa.”

ROLF